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Abrigo Central, Praça do Ferreira e João Batista de Paula

O Abrigo Central é a maior lembrança que tenho do meu avô paterno João Batista de Paula, O Batista da Light.

Em 1962 ele me levou para tomar o meu primeiro café, no centro da cidade. Fomos a pé, da Av. D. Manoel 1086 até a Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza. Uma boa caminhada. Eu tinha 6 anos de idade, ainda usava bermudas e dava os meus primeiros passos de independência.

Meu avô, já aposentado, vestia-se com elegância e seus ternos de linho branco eram marca registrada. Carregava no braço esquerdo o seu inseparável guarda-chuvas preto.

Vovô Batista era um contador de "causos". Suas histórias eram engraçadas, cheias de humor. Adorava uma boa piada.  

Naquele dia de sol o Abrigo Central estava lotado. O calor era sufocante e um cafezinho propunha refrescar o corpo. Meu avô pediu dois cafés. Eu que até então só tomava leite morno, me vi encrencado. Ele bebeu quente, de um só gole. Eu esfriei, assoprando. 

Naquele dia meu avô encontrou muitos amigos, contou piadas e "mexeu" com as moças bonitas que passavam pela praça. Adorava cumprimentá-las com tapinhas no bumbum. Elas sorriam. Hoje, se fizesse isso, seria "linchado" em praça pública. Tudo brincadeira inocente, jurava.

A cada minuto sagrado do nosso tempo juntos, a roda ganhava e perdia amigos. Lá ficamos durante horas, até a fome de almoço nos chamar de volta pra casa.

Aquele foi um dia inesquecível. Foi vovô Batista que me ensinou a tabuada dos nove.

No caminho de volta pra casa paramos ainda duas vezes. Compramos pão e logo adiante uma peça de queijo. " - Zé, vê se não pesa queijo com muito buraco" exigia.  

Minha inocência durou anos, até entender a brincadeira do peso. Pobre do coitado do Zé. No meu julgamento de criança ele era um malandro, vendia queijo com furos e roubava no peso.

Fomos mais duas ou três vezes tomar café no Abrigo Central.

Logo depois meu avô adoeceu e - esquecido - despedimo-nos do Abrigo Central.

Vovô João Batista de Paula gostava de contar dinheiro - já doente - contava dinheiro de papel jornal - e de se balançar o dia inteiro, numa cadeira de vime, que ficava no terraço de sua casa.

Adorava "azarar" as mulheres bonitas! Fez isso até o último dia de vida. Adorava um "rabo" de saia.

Dizia, sempre: "As mulheres hoje são foguetes. Não são mais princesas e nem moram em nuvens de algodão. São foguetes e pegam fogo". 

Ele tinha razão. 

Vovô João Batista, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968 - véspera de carnaval - um ano depois do Abrigo Central ter sido demolido, no coração da Praça do Ferreira.

Éramos bons amigos e companheiros. Saudade de neto.

João Scortecci


PORTAL DA HISTÓRIA DO CEARÁ

"Existia na Praça do Ferreira um quarteirão entre as ruas Floriano Peixoto, Guilherme Rocha, Major Facundo e Travessa Pará, com várias casas comerciais entre elas as mais famosas como a "Casa Mundlos", a "Crysanthemo", a "Livraria Edésio", o "Café Emygdio", o "Auto-Volante", além do antigo sobrado que abrigava a Intendência Municipal. Em 26 de agosto de 1941 após ocorrer um incêndio em algumas casas comerciais do quarteirão, o mesmo foi demolido, sob a alegativa de que seria ali construída a sede da Prefeitura Municipal de Fortaleza - PMF que nunca foi construída. Foi então feita uma praça provisória, separada da Praça do Ferreira apenas pela Rua Guilherme Rocha. Em 1949, na administração do prefeito Acrísio Moreira da Rocha, foi aberta uma licitação para construção ali de um abrigo para pessoas que esperavam ônibus, sendo vencida pelo comerciante Edson Queiroz. Foram iniciadas as obras da construção do Abrigo Central, que vemos na foto antiga, que data do final daquele ano. Ele ainda não estava pronto, sua inauguração deu-se no dia 15 de novembro do mesmo ano. Tinha o nome oficial de Abrigo três de Setembro. No Abrigo Central existiam as paradas de ônibus, as reuniões profissionais, discussão de classes, comentários em torno de esportes, política, música, enfim, todos os assuntos. Nos boxes funcionavam cafés como o "Café Hawaí", "Café Presidente" e o "Café Wal-Can", casas de merendas como a do famoso "Pedão" da bananada, um Box com a "Livraria Alaor", vendas de selos de consumo, armarinhos, casas de vender discos como a "Discolândia", além dos boxes portáteis como a banca do Bondinho, do Holien, do Raimundo - este vendia diversas coisas, entre elas discos de segunda mão e onde parte do acervo discográfico do Arquivo Nirez e do pesquisador Christiano Câmara. Em 1967, na administração José Walter Cavalcante, sob a alegativa de que estava para ruir, foi demolido o Abrigo Central, que para afrouxar suas fundações necessitou até de dinamite."

Fonte: Portal da História do Ceará