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A BIBLIA MALDITA E OS SUSSURROS DO DEMÔNIO TITIVILLUS / JOÃO SCORTECCI
Os “amanuenses” também cometem erros! “Amanuenses” ou “copistas” são aqueles que copiam textos ou documentos à mão. A palavra provém do latim “amanuensis” uma derivação da expressão latina "ab manu" (à mão). Ontem pesquisando e escrevendo sobre “O Legado de Gutenberg” dei de cara com a história da “Bíblia Maldita”, edição publicada em 1631, por ordens de Carlos I, Rei da Inglaterra. Uma edição pequena, de mil exemplares, que causou aos editores responsáveis pela publicação uma multa de 300 libras - equivalente a algo próximo de 45 000 libras nos dias atuais - além da revogação do direito de imprimir a Bíblia.
A obra foi impressa com um terrível e maldito erro tipográfico cometido pelos “amanuenses” quando a transcreveram do original. Passou batido! Ao transcreverem os “dez mandamentos” omitiram a palavra "não", desta forma dando ao texto a redação "cometerás adultério". Os exemplares desta edição maldita continham também um segundo erro: "cometerás atos impuros". Os exemplares - recolhidos e amaldiçoados - foram queimados em praça pública. Poucas cópias escaparam da fúria dos fieis.
Hoje - cópias salvas - da “Bíblica Maldita” são consideradas raridades e altamente valiosas por colecionadores. Uma única cópia da “Maldita” encontra-se na New York Public Library (Biblioteca Pública de Nova Iorque). Erros em livros são atribuídos ao demônio “Titivillus”, que supostamente sussurram “pecados” nos ouvidos de escritores, revisores e editores. 
A BIBLIOCLASTIA PELA BIBLIOFOBIA DA INTELECTUALIDADE / JOÃO SCORTECCI
“Biblioclastia” é a destruição propositada de livros. Os motivos são muitos: ódio ao seu conteúdo, aversão à cultura, medo do desconhecido, do novo, intolerância religiosa, perseguição política, inveja, radicalismo e ideologia. É erro - frequente e comum - atribuir as destruições de livros a homens ignorantes e estúpidos. A história nos mostra – também - um outro universo, desconhecido e ignorado por muitos.
Sobram exemplos de filósofos, eruditos e escritores que praticaram em suas vidas a “biblioclastia”. O filósofo, físico e matemático francês René Descartes (1596-1650) seguro de seu método (fusão da álgebra com a geometria fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas) pediu aos leitores que queimassem - todos - os livros antigos sobre o assunto. O filósofo e historiador escocês David Hume (1711-1776), que se tornou célebre pelo seu empirismo radical e o seu ceticismo filosófico, não hesitou em exigir a supressão de todos os livros sobre metafísica - filosofia que examina a natureza fundamental da realidade.
O movimento futurista - que tinha como principal característica a valorização da tecnologia -, em 1910, publicou um manifesto em que preconizava o fim das bibliotecas. Esqueçam o passado! Os poetas dadaístas colombianos - movimento artístico pertencente às vanguardas europeias do século XX, cujo lema era: "a destruição também é criação", queimaram, em 1967, exemplares do romance “Maria” do escritor colombiano Jorge Isaacs (1837-1895) convencidos de que era necessário destruir o passado literário do país.
O poeta e romancista russo Vladimir Nabokov (1899-1977), professor das Universidades de Stanford e Harvard, queimou “Dom Quixote” de Cervantes, no Memorial Hall, diante de mais de seiscentos alunos. O filósofo, escritor e professor universitário Martin Heidegger (1889-1976) tirou de sua biblioteca livros do matemático e filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938) para que seus estudantes de filosofia os queimassem, em 1933.
O escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) em "O congresso", conto incluído no livro “O Livro de Areia” (1975) fez um de seus personagens dizer: "A cada tantos séculos há que se queimar a biblioteca de Alexandria... queimar o passado é renovar o presente”. Até tu, Borges!

A ESCRITA DEMÓTICA E ROSETA - A PEDRA MAIS FAMOSA DO MUNDO / JOÃO SCORTECCI
O legado deixado pelos egípcios na escrita: hieróglifos (sistema de escrita formal usado no Antigo Egito: combinavam elementos logográficos, silábicos e alfabéticos), o hierático (escrita sacerdotal: relativa às coisas sacerdotais, sagradas ou religiosas) e o demótico. A escrita demótica (escrita para o dia a dia) surgiu - provavelmente na região do delta do Nilo - no início da 26º dinastia do Egito (667 a.C. - 525 a.C.). Acredita-se que o Estado egípcio, na época de Psamético I (faraó egípcio da XXVI dinastia egípcia, 690 a.C.- 610 a.C) , tendo em vista a centralização da administração do país (em Saís - parte ocidental do Delta do Nilo, ao invés de Tebas), empenhou-se para que se tornasse padrão no Egito.
Antecessora da demótica, a escrita hierática já representava uma grande evolução em relação aos hieróglifos egípcios. Em pouco tempo a escrita do dia a dia passou a ser utilizada na maioria dos registros das atividades dos egípcios. A escrita demótica foi uma das três escritas encontradas na Pedra de Roseta (fragmento de uma estela de granodiorito erigida no Egito Ptolemaico, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios).
Sua descoberta - no ano de 1799, expedição francesa ao Egito liderada por Napoleão Bonaparte - deu início a um novo ramo do conhecimento, a egiptologia. Sua inscrição guarda um decreto de um conselho de sacerdotes estabelecendo o culto ao faraó Ptolemeu V, no primeiro aniversário de sua coroação (cidade de Mênfis, em 196 a.C). Sua deliberação é registrada em três versões de escrita: a superior foi registrada na forma hieroglífica do egípcio antigo; a do meio, em demótico (variante escrita do egípcio tardio); e a inferior, em grego antigo (língua indo-europeia extinta, falada na Grécia durante a Antiguidade e que evoluiu para o grego moderno).
A “Pedra de Roseta” é a primeira peça a ser recuperada na Idade Contemporânea com inscrição “plurilíngue” e desde então é considerada a pedra mais famosa do mundo. Com a Capitulação de Alexandria (tropas britânicas e otomanas derrotaram os franceses no Egito, em 1801), a Pedra de Roseta acabou na posse do Reino Unido e desde 1802 está em exibição no Museu Britânico, em Londres.
A FILÓSOFA HIPATIA E OS MÉTODOS CIENTÍFICOS DA RAZÃO / JOÃO SCORTECCI
A filósofa neoplatônica grega Hipatia (351/370 d.C - 415 d.C) foi a primeira mulher da história assassinada por ser uma pesquisadora da ciência. Era filha de Teón, professor de matemática e astronomia, bibliotecário em Alexandria e responsável pela produção, em 390 d.C, de uma versão mais elaborada da obra “Os Elementos”, do matemático platônico Euclides, considerado o Pai da Geometria.
Hipatia - seguidora da escola intelectual do pensador Plotino - estudou Lógica e Matemática. Plotino - em sua filosofia - exposta nas “Enéadas” (coleção de escritos editada e compilada por seu discípulo Porfírio, por volta de 270 d.C.), descreve a filosofia neoplatônica em três princípios: o Uno (entidade suprema, totalmente transcendente, além de todas as categorias do Ser e Não-ser), o Intelecto (atividade do intelecto ou da razão, em oposição à atividade dos sentidos) e a Alma do Mundo (força regente do universo pela qual o pensamento divino pode se manifestar em leis que afetam a matéria, ou ainda, a hipótese de uma força imaterial, inseparável da matéria, mas que a provê de forma e movimento). Consta que Hipatia foi autora de um Comentário sobre a Aritmética de Diofanto e um Comentário sobre as Crônicas de Apolônio e uma edição do terceiro livro de um escrito em que seu pai divulgou o Almagesto de Ptolomeu.
Infelizmente nada restou dos seus escritos. Todos foram destruídos. No ano de 415 d.C. foi sequestrada e assassinada por uma multidão de monges enfurecidos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes em Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria. Foi feita prisioneira numa igreja e ali, à vista de todos, golpearam-na brutalmente com telhas. Arrancaram-lhe os olhos e a língua. Quando já estava morta, seu corpo foi despedaçado, seus órgãos e ossos arrancados e depois queimados.
A intenção do bispo Cirilo - mandante do crime - não era outra que a total aniquilação de tudo quanto Hipatia significava como mulher da ciência.
APOCATÁSTASE E OS MITOS APOCALÍPTICOS / JOÃO SCORTECCI
Dos mitos abundantes! Na obra “História Universal da Destruição dos Livros” do poeta e escritor venezuelano Fernando Baez: “Em busca de uma teoria sobre a destruição de livros, descobri, por acaso, que são abundantes os mitos que relatam cataclismos cósmicos para explicar a origem ou anunciar o fim do mundo. Observei que todas as civilizações entendem sua origem e seu fim como um mito de destruição, contraposto ao da criação, num modelo cujo eixo é o eterno retorno.
A apocatástase (volta a um estado ou condição anterior ou inicial) tem sido um recurso para defender o fim da história e o início da eternidade.” Destruição e criação - parecem ser - além da existência e da própria sobrevivência as duas únicas alternativas do universo humano.
Aqui cabe a máxima: “os deuses desconhecem os segredos da imortalidade.” 
Voltando ao “Prólogo” do livro do Fernando Baez sobre sistêmica “roleta” de destruição dos livros: “Alguns porque acreditavam que, eliminando os vestígios do pensamento de uma determinada época, estariam promovendo a superação do conhecimento humano. Outros, mais modestos, lançavam ao fogo suas obras simplesmente por vergonha do que haviam escrito. No entanto, os principais destruidores de livros sempre tiveram como maior motivação o desejo de aniquilar o pensamento livre. Os conquistadores atribuíam à queima da biblioteca do inimigo a consagração de sua vitória.” 
BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA E A DESTRUIÇÃO DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O filósofo e gramático grego Zenódoto (323 a.C. ou 333 a.C. - 260 a.C.) nasceu em Éfeso, província de Esmirna, na Turquia. Durante o período romano foi a segunda maior cidade do Império Romano, apenas atrás de Roma, a capital do império. A cidade foi destruída em 263 pelos godos. Foi reconstruída e novamente destruída no ano de 614, por um terremoto. As ruínas de Éfeso são uma atração turística e hoje Patrimônio da Humanidade.
Zenódoto foi estudante de Filetas de Cós (acadêmico e poeta do período helenista) e professor do rei Ptolomeu II (Filadelfo). No ano de 284 a.C. foi nomeado por Ptolomeu I (Sóter) como diretor da Biblioteca de Alexandria e responsável pela organização da maior coleção de textos - trágicos e cômicos - da antiguidade. Entre eles os poemas épicos “Ilíada e Odisseia”, de Homero.
A Biblioteca de Alexandria foi uma das mais célebres bibliotecas e um dos maiores centros de produção do conhecimento na Antiguidade. O acervo da Biblioteca cresceu de tal maneira que, durante o reinado de Ptolemeu III (Evérgeta), uma filial sua foi criada no Serapeu (templo dedicado a Serápis), protetor de Alexandria. Apesar da crença de que a Biblioteca teria sido incendiada e destruída em seu auge, na realidade ela decaiu ao longo dos séculos, começando com a repressão de intelectuais durante o reinado de Ptolemeu VIII (Fiscão).
A Biblioteca, ou parte de sua coleção, foi queimada em 48 a.C. por Júlio César. Sob controle romano, a Biblioteca a partir de 260 d.C. perdeu vitalidade e apoio financeiro. Entre 270 e 275 d.C. a cidade de Alexandria viu tumultos que provavelmente destruíram o que restava dela. Há registro que a biblioteca do “Serapeu” (filial) tenha escapado da destruição e sobrevivido até 391 d.C., quando o papa da Igreja Ortodoxa Teófilo I instigou sua “vandalização” e a demolição do templo Serapeu.
CASA PRATT, MÁQUINAS DE ESCREVER REMINGTON E A GRIPE ESPANHOLA / JOÃO SCORTECCI
A Casa Pratt, uma sociedade anônima, tinha sua matriz na cidade do Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, número 125, e filiais na capital paulista, em Campinas, Santos, Ribeirão Preto, Curitiba, Pelotas e Porto Alegre. Foi nos anos 1910, 1920 e 1930 a representante no Brasil das “incríveis” máquinas de escrever Remington, modelo 16. Comercializavam também máquinas registradoras National, aparelhos Dalton, Mercedes e Triumphator, para somar e subtrair, duplicadores Red Seal, Cofres Standard, arquivos de aço e móveis para escritório.
Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a epidemia de Gripe Espanhola (vírus influenza, 1918-1920) as “insubstituíveis” máquinas de escrever Remington 16 não tinham como chegar ao Brasil e, em pouco tempo, desapareceram do mercado. A Casa Pratt - na tentativa de amenizar o problema - montou oficinas de conserto e manutenção, mas de nada adiantou, já que o problema maior era a falta de peças de reposição.
A primeira fábrica de máquinas de escrever instalada no Brasil foi a norte-americana Remington, em 1948, seguida da sueca Facit, em Minas Gerais, em 1955, e da italiana Olivetti, em São Paulo, em 1959.
Em 1872, o comerciante e empresário americano James Densmore (1820 - 1889) - de posse da patente de Sholes (Christopher Latham Sholes, 1819-1890) - viajou até Ilion, no Estado de Nova York e vendeu a ideia de produção em larga escala à fábrica de armas Remington, do empresário Philo Remington (1816-1889), que, desde o fim da Guerra de Secessão, teve a venda de rifles diminuída sensivelmente. Em poucos anos a Remington tornou-se uma gigante do mercado, exportando máquinas de escrever para todos os países do mundo.
As mulheres são responsáveis pelo sucesso das máquinas de escrever e - no início - sofreram forte resistência dos homens, temerosos de perder o emprego. Diziam que a “engenhoca” não prestava. As mulheres - que já dominavam na indústria as máquinas de costurar - não encontraram dificuldade e rapidamente dominaram a arte das 50 teclas do método Qwerty, ainda hoje em uso. A situação só voltou ao normal em 1920, com a volta das atividades normais da marinha mercante.
CEMITÉRIOS COM LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O militar, político, etnólogo, escritor e folclorista brasileiro Couto de Magalhães (José Vieira Couto de Magalhães, 1837 - 1898) nasceu no Estado de Minas Gerais na fazenda Gavião, na cidade de Diamantina. Durante o Segundo Reinado foi governador das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso e São Paulo. Morreu aos 61 anos de idade, de sífilis, quando já era governador de São Paulo. Couto de Magalhães falava francês, inglês, alemão, italiano, tupi e numerosos dialetos indígenas. Foi quem iniciou os estudos folclóricos no Brasil, publicando “O selvagem” (1876) e “Ensaios de antropologia” (1894), entre outros.
O corpo de Couto de Magalhães está enterrado no Cemitério da Consolação, em São Paulo, no Mausoléu General Couto de Magalhães. Concluído em 1905, o mausoléu teve toda sua arte inspirada em sua obra “O Selvagem”. Na extremidade superior do mausoléu (autoria da artista plástica e escultora Nicolina Vaz) repousa o busto em bronze do general. Logo em seguida, no mármore, está esculpida a inscrição do nome do falecido bem como sua patente militar, data de falecimento e seus cargos políticos. Logo abaixo do busto, também em mármore, uma índia e os dizeres “O Selvagem”.
Não há registro do número de túmulos com desenhos e esculturas com livros. Devem existir milhares mundo afora. Quem souber algo sobre o assunto minha curiosidade reina em saber.
CIDADÃO INHACA E OS BIBLIÓFAGOS DO APOCALIPSE / JOÃO SCORTECCI
Lendo sobre profetas “Bibliófagos”, lembrei-me do bode “Cidadão Inhaca” da cidade de Baturité, do Ceará, dos anos 60. “Inhaca” - benemérito baturiteense - era comedor de livros e jornais e, durante o expediente, montava guarda na porta do Jornal “A Verdade” do padrinho do meu pai Luiz, o saudoso Comendador Ananias Arruda. “Bibliófago” significa o que ou aquele que rói, come ou destrói livros.
Os raros casos de bibliofagia estão descritos no Antigo e no Novo Testamento. O sacerdote Ezequiel ("A força de Deus" ou "Deus fortalece") disse que Deus lhe apresentou um papiro e ordenou: "Abre bem tua boca e come o que te vou dar.” Era um livro em forma de rolo. “Homem, come este rolo e depois vai falar aos filhos de Israel." Ezequiel o comeu, obedecendo à ordem Divina. Depois, disse: “Comi-o e eis que na minha boca parecia doce como o mel.”
No Apocalipse, do profeta João de Patmos (João, o Visionário), se retoma a ideia de engolir livros: “Vai  e toma o pequeno livro aberto - da mão do anjo - que está em pé sobre o mar e a terra. Toma-o e o devora. Ele será amargo nas entranhas, mas te será, na boca, doce como o mel.” João de Patmos o tomou da mão do anjo e o comeu. “Era, na minha boca, doce como o mel; mas depois de tê-lo comido, amargou-me nas entranhas.” Engolir o livro garantiu-lhe transferência e transmissão do conhecimento divino. Capacitou-o - segundo as Escrituras - a falar várias línguas e se expressar de forma segura e absoluta.
Por volta de 130 d.C., o adivinho e interpretador de sonhos, Artemidoro de Daldis, escreveu sobre aqueles que sonham que estão comendo livros: "Sonhar que come um livro é bom para pessoas instruídas, para sofistas e para todos aqueles que ganham a vida dissertando sobre livros.” De tudo do post, lendo “História universal da destruição dos livros”, do venezuelano Fernando Báez, fico com o bode “Cidadão Inhaca”, de Baturité, que comia, literalmente e de fato, livros, com fome de bibliófago.
CLAUDE LÉVI-STRAUSS E A OBRA “TRISTE TRÓPICOS” / JOÃO SCORTECCI
A etnografia é o método utilizado pela antropologia na coleta de dados. Baseia-se no contato intersubjetivo entre o antropólogo e o seu objeto, seja ele uma aldeia indígena ou qualquer outro grupo social sob o qual o recorte analítico será feito. A base de uma pesquisa etnográfica é o trabalho de campo. O antropólogo, professor e filósofo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) é considerado o fundador da antropologia estruturalista e um dos grandes intelectuais do século XX.
Lévi-Strauss esteve no Brasil (1935 a 1939) onde escreveu “Tristes Trópicos” (Plon Editora, 1955) uma narrativa etnográfica romanceada, com excertos curiosos sobre sociedades indígenas brasileiras.  Lévi-Strauss dedicou parte da sua vida de antropólogo à tetralogia, “As Mitológicas - estudo dos mitos”: "O cru e o cozido" (1964), "Do mel às cinzas" (1967), "A origem dos modos à mesa" (1968) e "O homem nu" (1973).
Claude Lévi-Strauss morreu em 30 de outubro de 2009, poucas semanas antes da data que completaria 101 anos. Encontra-se sepultado no Cimetière de Lignerolles, Lignerolles, na França.
DAS AGLUTINAÇÕES IMEXÍVEIS / JOÃO SCORTECCI
Coleciono “aglutinações” num caderninho azul. Tenho “pérolas” de que não abro mão - mesmo depois de 30 anos.  Uma raridade em destaque: “O plano é imexível” declaração do ex-ministro do Trabalho e da Previdência Magri (Antônio Rogério Magri) tentando justificar o “inexplicável” Plano Collor. 
Hoje lendo a coluna da jornalista Carla Araújo encontrei uma amálgama (junção consciente e criativa de duas ou mais palavras) perfeita e imexível: “Sincericídio” e a manchete: “Governo teme - sincericídio - de Guedes na CPI e quer barrar convocação.” "Sincericídio" é uma expressão que pontua uma situação de exposição de uma verdade relativa com opiniões e julgamentos sem considerar o sentimento do receptor ou a conveniência social. Em outras palavras: falar a “verdade” nem sempre é prudente. Uma bomba-relógio! 
No Caso de Paulo Gudes, ministro da Economia do Brasil, o imbróglio não é ele falar ou não a verdade ou mentir ou não. Sabemos do que Guedes é capaz. Temem-se os “imexíveis” exemplos de que o ministro gosta e costuma usar para explicar e justificar suas aglutinações do pensamento. Quem milita na política sabe do segredo: evitar, ao falar, citações, comparações e exemplos! Mentir pode. Faz parte!
DESTRUIDORES DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O poeta alemão Heinrich Heine (Christian Johann Heinrich Heine, 1797-1856) é conhecido na literatura como “o último dos românticos”. Nasceu numa família judia, em Düsseldorf, cidade da Alemanha conhecida pela indústria da moda, das telecomunicações e pelo cenário artístico e cultural da região. Heine estudou Direito - chegou a frequentar três universidades - mas descobriu muito cedo que gostava mesmo de literatura.
Em 1825 converteu-se do judaísmo para o cristianismo luterano, nomeando-se a si próprio pelo nome de Heinrich Heine. Fez a sua estreia literária em 1821, publicando o livro de poemas "Gedichte". A paixão não correspondida por suas primas - Amalie e Therese - inspiraram-no a escrever, em 1827, o "Livro das canções", sua primeira grande coletânea de versos.
Em 1831 trocou a Alemanha por Paris onde sofreu influência dos socialistas utópicos (corrente de “visões e contornos” para as sociedades ideais imaginárias ou futuristas). Seus escritos geraram desconforto nas autoridades alemãs e Heine foi tido como um “subversivo” e sofreu duramente com a censura. Suas obras foram banidas da Alemanha e ele proibido de voltar a viver em sua terra natal.
A opção por Paris, a principio foi voluntária, pois acreditava que encontraria na capital francesa maior liberdade de expressão e maior compreensão de suas ideias, o que de fato aconteceu. Foi um crítico mordaz da religião: "Ópio do povo!" Em relação à censura sofrida, Heine proferiu uma de suas mais conhecidas citações: “Aqueles que queimam livros acabam cedo ou tarde por queimar homens.”

DO TEMPO EM QUE EU ERA CRIANÇA / JOÃO SCORTECCI
“Eu sou da metade do século passado!” - copiando a brincadeira que meu avô paterno Batista da Light (João Batista de Paula) fazia sempre, resfolegando a máxima: “Nasci no século retrasado e joguei gamão com o Matusalém”. Ríamos muito! Até há pouco tempo não sabia que “Matusalém” significa: "Sua morte trará juízo!" Isso depois de viver 969 anos, segundo a Bíblia.
Hoje recebi uma foto-provocação (abaixo, no post) do meu cunhado Fábio Serra, casado com minha irmã caçula, Ana Cândida. “Você já tomou banho em bacia de alumínio?” "Sim" respondi. Foi a “deixa” para voltar no tempo, na infância dos anos 1960, no Ceará, da metade do século XX. “Sim. Eu tomei banho em bacia de alumínio”.
No Ceará, água sempre foi de “escassez”. Dizem que “o nordestino é antes de tudo um forte” e, a máxima - adaptada de "Os Sertões" de Euclides da Cunha - vem do sofrimento da seca e do juízo da morte. No banho de bacia de alumínio a água era de muitos. Lavava pés, orelhas, bundas, pinto e pererecas. Lembro-me da festa que era - pelados e velozes - o banho em bacia. Melhor que isso: apenas banho de toró, de molhar até a alma.
Depois do banho em bacia de alumínio - do serenar das águas torvas - o ralo de ferro bebia tudo. Lembro-me do barulho das águas no caminho do cano e do silêncio do fim. “Eu sou da metade do século passado” e do tempo em que eu era criança.

12.06.2021

GUTENBERG E A BÍBLIA DE LETRAS GÓTICAS / JOÃO SCORTECCI
O escritor, sacerdote, missionário e tradutor Úlfilas (310-383) foi um godo (povo da Germânia - Alemanha - que invadiu os impérios romanos do Ocidente e do Oriente, do século III ao V) e meio-grego da Capadócia (região da Anatólia Central, na Turquia). Viveu no Império Romano no auge da “controvérsia ariana” que dividiu a Igreja cristã desde um pouco antes do “Concílio de Niceia” até depois do “Primeiro Concílio de Constantinopla”, em 381. A mais importante dessas “controvérsias” tem a ver com a relação entre “Deus Pai e Deus Filho”.
Úlfilas, considerado o “apóstolo dos godos”, traduziu a Bíblia do grego (fragmentos dessa tradução sobreviveram no Códice Argênteo, que está desde 1648 na Biblioteca da Universidade de Uppsala, na Suécia) para a língua gótica e, para isso, criou o alfabeto gótico. “Minúscula Carolíngia” ou “Minúscula Carolina” é uma caligrafia desenvolvida durante a Idade Média com o objetivo de se tornar o padrão caligráfico europeu. A sua criação fez parte de um conjunto de reformas na educação impulsionadas por Carlos Magno, entre finais do século VIII e início do século IX, e usada no Sacro Império Romano-Germânico. A reforma pretendia aumentar a uniformidade, clareza e legibilidade da caligrafia, de forma tal que o alfabeto latino pudesse ser facilmente lido entre as várias regiões.
A escrita ou letra gótica é o tipo de letra angulosa e com linhas quebradas, originada entre os séculos XII e XIII, a partir do “fraturamento” paulatino das formas manuscritas da escrita carolíngia. Foi usada na Europa Ocidental desde 1150 até 1500.
O alfabeto gótico (ou godo) criado pelo bispo e tradutor Úlfilas é o alfabeto manuscrito que surgiu na Idade Média a partir do alfabeto grego. O termo "gótico" vem do latim medieval “gotticu” e é um adjetivo que designa o que é proveniente, relativo, criado ou usado pelos “godos”, assim denominado o povo da respectiva tribo germânica. Cada letra do alfabeto tem um valor numérico. Para sobressaírem os sons que o grego não tinha, Úlfilas recorreu aos “signos rúnicos”. O alfabeto gótico é dividido em dois grupos para as letras minúsculas. Grupo 1: a, c, e, i, m, n, o, r, u, v, w, x, t , l, f e p. Grupo 2: b, d, g, h, k, q, s, y e z.
O alfabeto gótico teve existência efêmera (um termo grego que significa: apenas por um dia). Efemeridade universalizada por meio da Bíblia de Gutenberg.
JAMES JOYCE, LITTLE REVIEW E O NOJO POR “ULISSES” / JOÃO SCORTECCI
O poeta, contista e romancista irlandês James Joyce (James Augustine Aloysius Joyce, 1882-1941) viveu boa parte de sua vida expatriado. Morou em Paris e Zurique. É considerado um dos mais eminentes poetas do imagismo (movimento literário da poesia anglo-americana que favorecia a precisão das imagens e uma linguagem clara e objetiva) e um dos maiores escritores do século XX, tendo utilizado recursos narrativos inovadores para a época, como o fluxo de consciência. Suas obras mais conhecidas: “Gente de Dublin” ("Dublinenses”) (1914), “Retrato do Artista Quando Jovem” (1916) e “Ulisses” (1922).
James Joyce faz parte da lista de escritores censurados e perseguidos da história. Quando publicou o livro de contos “Dublinenses”, numa edição de mil exemplares, o impressor, John Falconer, radicado em Dublin, queimou 999 cópias, porque lhe pareceu que a obra não tinha uma “linguagem apropriada”. Um dos romances mais polêmicos e influentes do século XX é exatamente “Ulisses”, de Joyce. Quando da publicação de um trecho de “Ulisses” na revista literária “Little Review”, Nora Barnacle (1884-1951), sua esposa, repeliu o texto com nojo.
Carteiros do Correio americano queimaram exemplares da revista “Little Review” para manifestar sua repulsa. Em 1921, a “Sociedade para o Combate ao Vício”, de Nova York, processou os diretores da revista que foram condenados a pagar cinquenta dólares de multa e impedidos de publicar outros capítulos do livro. Joyce encontrou dificuldades para publicar “Ulisses” nos Estados Unidos da América do Norte. A “Shakespeare and Company”, uma famosa livraria da Margem Esquerda parisiense, de propriedade de Sylvia Beach, publicou-o em 1922. Uma edição inglesa publicada no mesmo ano pela mecenas Joyce Harriet Shaw Weaver encontrou censura das autoridades estadunidenses, e as 500 cópias enviadas àquele país foram confiscadas e destruídas.
Em 1923, o editor John Rodker imprimiu uma tiragem extra de 500 exemplares - destinada a substituir as cópias destruídas - mas estes livros foram queimados pela alfândega inglesa. “Ulisses” permaneceu proibido nos Estados Unidos até 1933.
Embora Joyce tenha vivido fora de sua terra natal durante a maior parte da vida adulta, sua identidade irlandesa foi essencial para sua obra. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin. Escreveu: "Sempre escrevo sobre Dublin, porque se eu puder chegar ao coração de Dublin, posso chegar ao coração de todas as cidades do mundo.”
Em 1940, doente, quase cego e com a chegada da Segunda Guerra Mundial, teve de deixar Paris e, por fim, voltou à Zurique. Morreu no ano seguinte, em 1941, de úlcera duodenal perfurada e peritonite generalizada. Está enterrado em Zurique, no Cemitério Fluntern, junto com sua esposa Nora Barnacle.
JORGE AMADO, GETÚLIO VARGAS, BEXIGA E O FOGARÉU DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
Nos anos 1970 e 1980 li e reli quase toda a obra - composta de 49 títulos - do escritor baiano Jorge Amado (Jorge Leal Amado de Faria, 1912-2001) um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. Considero o romance “Capitães da Areia” (1937), a mais marcante de todos. Destaco ainda os romances “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Tenda dos Milagres”, “Tieta do Agreste”, “Gabriela, Cravo e Canela” e “Tereza Batista Cansada de Guerra”.
Jorge Amado foi traduzido em 80 países e obteve sucesso também na TV, no teatro e no cinema. Integrou os quadros da intelectualidade comunista brasileira e também não escapou da queima universal de livros. Em 1937, durante o Estado Novo (1937-1946), por ordem direta do ditador Getúlio Vargas, teve queimados mil e oitocentos exemplares do livro “Capitães da Areia”, na Cidade Baixa de Salvador, a poucos passos do Elevador Lacerda e do atual Mercado Modelo.
Getúlio Vargas “inaugurou” a sua “Comissão de Buscas e Apreensões de Livros do Estado de Guerra do Governo”, queimando em praça pública um dos maiores clássicos da literatura brasileira. O fogaréu era um símbolo do combate à "propaganda do credo vermelho", como definiram as autoridades do Estado Novo. Os exemplares queimados - na sua maioria - foram recolhidos das livrarias de Salvador - e iluminaram, aos olhos da fome, da miséria, da bexiga (varíola) e da turma do trapiche, uma das maiores tragédias da literatura brasileira.
Dizem - não sei se é verdade - que no meio da multidão que assistiu ao extermínio estavam os espíritos de Pedro Bala, Dora, João Grande, Professor João José, Pirulito, Gato, Boa-Vida e outros.
LIVROS CENSURADOS E QUEIMADOS MAIS INFLUENTES DA HISTÓRIA / JOÃO SCORTECCI
O naturalista, geólogo e biólogo britânico Darwin (Charles Robert Darwin, 1809-1882) célebre por seus avanços sobre evolução nas ciências biológicas estabeleceu a ideia que todos os seres vivos descendem de um ancestral em comum. Em 1859 publicou “A origem das espécies” e propõe a teoria de que os ramos evolutivos são resultados de seleção natural e sexual, e a luta pela sobrevivência resulta em consequências similares às da seleção artificial.
A obra foi publicada em Londres, impressa por John Murray, com tiragem de 1.250 exemplares. A edição esgotou-se em um dia, e a Igreja reagiu violentamente. O assunto polêmico gerou artigos de jornais, sátiras e caricaturas que debochavam do britânico. Em 1860 saiu uma segunda edição, que também se esgotou em poucos dias.
O livro “A origem das espécies” provocou um escândalo na sociedade e foi rejeitado em colégios, bibliotecas do mundo e na comunidade científica. Há registro de que edições inteiras foram destruídas e queimadas. A teoria de Darwin - de que todos os seres vivos descendem de um ancestral em comum - precisou de décadas para ganhar aceitação e reconhecimento da sociedade e da comunidade científica. Hoje a teoria de Darwin é considerada o mecanismo unificador para explicar a vida e a diversidade na Terra.
Pesquisa feita no Reino Unido durante a Academic Book Week (2019) elegeu “A origem das espécies” de Charles Robert Darwin a obra censurado mais influente da história. Na lista dos 20 títulos censurados mais influentes da história - a título de curiosidade - aparecem: 1984 (George Orwell), Uma vista da ponte (Arthur Miller), Amado (Toni Morrison), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), Country Girls (Edna O'Brien), Seus Materiais Escuros (Philip Pullman), Eu sei porque o pássaro engaiolado canta (Maya Angelou), Amante (Lady Chatterley de DH Lawrence), Of Mice and Men (John Steinbeck), Direitos do Homem (Thomas Paine), Versos Satânicos (Salman Rushdie), O apanhador no campo de centeio (JD Salinger), A Cor Púrpura (Alice Walker), As Vinhas da Ira (John Steinbeck), A Metamorfose (Franz Kafka), Para matar um Mockingbird (Harper Lee) e Ulysses (James Joyce).
Darwin, em seus últimos anos, publicou outros livros polêmicos: A variação dos animais e plantas sob a ação da domesticação (1868), A descendência humana e a seleção sexual (1871) e Expressão das emoções no homem e nos animais (1872).

20.05.2021
NIETZSCHE, O BODE E AS DIONISÍACAS DA VIDA / JOÃO SCORTECCI
Das tragédias: “Tragos” - que se refere a um bode e - “oidé” - que compreende um canto. Durante as representações teatrais dedicadas ao deus Dionísio (conhecido como o deus da libido e da fertilidade), um bode era sacrificado ao canto de uma “oda” (poema lírico que expressa um forte sentimento) por aqueles que formavam o coro. Dionísio é um dos mais importantes deuses da religião e mitologia grega e o mais humano de todos. Foi o último deus a ser aceito no Olimpo e também o único filho de um simples mortal.
Os gregos antigos eram apaixonados por teatro. Foram eles que criaram os gêneros clássicos da dramaturgia: comédia, drama e tragédia. Esta última em sua origem era uma representação marcada por dor e sofrimento. Os atores nas apresentações usavam máscaras enfeitadas com chifres de bodes. O poeta e filósofo prussiano Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), no ano de 1871, publicou a obra "O nascimento da tragédia no espírito da música". Para Nietzsche, a arte - e somente ela - propiciava enfrentar a dor da existência. Sua filosofia central é a ideia de "afirmação da vida", que envolve questionamento de qualquer doutrina que drene uma expansiva de energias.
Para Nietzsche, o homem ocidental tem seguido na direção do deus Apolo, mas tem se esquecido da paixão e da energia representada pelo deus Dionísio. As reflexões de Nietzsche - mais recentemente - foram recebidas em novas abordagens filosóficas e se movem ao encontro do "transumanismo" (movimento filosófico que visa transformar a condição humana - com o uso das novas tecnologias - às máximas potencialidades em termos de evolução humana, deixando em segundo plano a evolução biológica, alcançando o patamar de pós-humano).
O “bode” e as “odes” estão novamente no teatro das tragédias. Na verdade sempre estiveram. Nunca se ausentaram da dramaturgia da vida. O bode de Dionísio até então dormia o sono do Olimpo, e os poetas em suas odes - apenas eles - resfolegavam libidos poéticos ao léu do espírito da dor e do sofrimento.
NO TRAVESSEIRO DAS VAIDADES DO MUNDO / JOÃO SCORTECCI
O "Livro do Travesseiro" ("Makura no Sōshi") da escritora japonesa Sei Shônagon (c. 966-1017), um inventário da cultura do Japão feudal, escrito no século X, é a principal obra da literatura clássica japonesa. Sei Shônagon foi dama de companhia da Imperatriz Teishi, durante o Período Heian. A obra é um composto de 300 textos curtos, que podem ser lidos em sequência ou ao acaso.
Com uma capacidade de produzir “insights” (compreensão de uma causa e efeito específicos dentro de um contexto particular), o livro ilumina tanto os pequenos fatos do cotidiano no Palácio Imperial, como os fenômenos da natureza, as sutis interações da vida social e a refinada trama de valores estéticos, que enlaçam e organizam praticamente todas as esferas da cultura. O “Livro do Travesseiro” foi traduzido para o português por uma equipe de professoras de origem oriental do Centro de Estudos Japoneses da USP e publicado em 2013, pela Editora 34.
Pouco se sabe sobre a vida da escritora - nem mesmo o seu nome verdadeiro. Sei Shōnagon é um apelido que recebeu quando entrou para a corte da Princesa Sadako (Imperatriz Teishi). Na época as damas de companhia recebiam um novo nome, composto pelo ideograma do nome de família. O título da obra em japonês - "Makura no sōshi" - vem de um episódio que é contado no Livro, segundo o qual a Princesa Sadako (Imperatriz Teishi) havia recebido de presente um maço de folhas de papel de boa qualidade - artigo de luxo, na época - e não sabia o que fazer com ele.
Sei Shōnagon, então, aconselhou a princesa a fazer um travesseiro com o maço de folhas de papel. O "Livro do Travesseiro" foi escrito por volta dos anos 1001 e 1010, quando Sei Shōnagon já vivia retirada da corte, possivelmente como monja em um templo budista, onde terminaria seus dias em preces, orações e abdicação das vaidades do mundo.

O LEGADO DE GUTENBERG / JOÃO SCORTECCI
O inventor Johannes Gutenberg (Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg) nasceu no dia 24 de junho (data simbólica escolhida na época do 500º. aniversário do “Festival de Gutenberg” no ano de 1900), entre os anos de 1394 e 1404, na cidade alemã de Mainz ou Mogúncia, às margens do Rio Reno, no coração da Alemanha. Era filho de um rico comerciante de nome Friele Gensfleisch zur Laden, que trabalhava como ourives na Casa da Moeda Eclesiástica Católica, e de Else Wyrich, sua segunda esposa, filha de um lojista da região. 
Interessado pelas ciências e pelas artes, Gutenberg gostava de ler e estudar e cultivava a “sina” de fabricar livros com o objetivo de barateá-los, possibilitando assim acesso e oportunidade para muitos. 
Gutenberg desenvolveu um sistema mecânico de tipos móveis, e sua invenção, que deu início à Revolução da Imprensa, contribuiu de forma decisiva para o sucesso da Reforma Protestante de Martinho Lutero e para a popularização do livro impresso no mundo. Foi eleito por jornalistas americanos e europeus “O homem do milênio”.
Com 20 anos de idade, Gutenberg mudou-se para Estrasburgo, cidade na fronteira franco-alemã. Entre as atividades de que se ocupou estão a ourivesaria e a produção de lembranças para romeiros que visitavam a cidade. 
Em 1437, foi chamado à Justiça por Ana Eisernen Thur, pela promessa de casamento não cumprida. Não fugiu ao compromisso e - mesmo a contragosto - casou-se com ela. Não há registros do nascimento de filhos ou mesmo registro de terem compartilhado vida conjugal. Empobrecido e impedido de ler e estudar, dedicou-se - durante 30 anos - ao invento da imprensa com um único propósito: fabricar livros! 
Entre suas muitas contribuições para a imprensa, estão: a invenção de um processo de “moldes” de produção de tipo móvel, a utilização de tinta à base de óleo e a utilização de uma prensa de madeira similar à prensa de parafuso agrícola. Sua invenção - simples, mas funcional e eficiente - e a combinação dessas três “engenhocas” possibilitaram o surgimento da "Das Werk der Buchei” ou “Fábrica de Livros”.
Gutenberg foi o segundo a usar a impressão por tipos móveis, por volta de 1439. O primeiro foi o artesão chinês Bi Sheng (990-1051 d.C.), no ano de 1040, e é considerado o inventor global da prensa móvel. O sistema de impressão de Bi Sheng - feito de tipos de porcelana - é uma das quatro grandes invenções da China Antiga, juntamente com a bússola, a fabricação do papel e a pólvora. Essas quatro descobertas tiveram um enorme impacto no desenvolvimento da civilização chinesa e global.
A história da impressão sobre papel começou, portanto, na China, no final do século II da Era Cristã. Os chineses sabiam fabricar papel, tinta e usar placas de mármore com o texto entalhado como matriz. No século VIII, começaram a comercializar o papel como mercadoria no mundo árabe. A técnica de fabricação do papel foi revelada aos árabes por prisioneiros chineses. No século XIII, as fábricas de papel proliferaram na Ásia Menor (Iraque e Região) e na Espanha, então sob o domínio mouro.
A “imprensa” propriamente dita já existia. Ao que consta, as primeiras ideias sobre imprensa ocorreram a Gutenberg quando observava um anel com o qual os nobres selavam documentos, neles imprimindo o brasão da família. Esse anel tinha o brasão escavado em metal ou pedra preciosa e deixava uma impressão em alto-relevo sobre o lacre quente. 
Por volta de 1450, Gutenberg juntou tipos, papel, prensa e tinta numa só “engenhoca”. Para isso, só teve de usar a cabeça para juntar várias técnicas: moldes que possibilitaram a fabricação dos tipos (pequenos blocos metálicos esculpidos em relevo: letras reutilizáveis, agrupadas para formar textos), tinta (óleo de linhaça e negro-de-fumo, que marcava o papel sem borrar) e uma prensa movimentada por uma barra, que movia a rosca e o prelo - para cima e para baixo - aplicando pressão sobre o papel, numa superfície com tinta.
Foi assim que Gutenberg imprimiu várias imagens de São Cristóvão e as levou ao bispo de Estrasburgo, que ficou impressionado com a simetria e a perfeição das imagens do Santo. Gutenberg, fazendo segredo de seu invento, saiu da “conversa” carregado de encomendas e com um livro emprestado, nunca devolvido. Cunhou as letras individualmente (primeiro em madeira, depois em chumbo fundido) e amarrou a “composição” numa caixa vazada de madeira. A primeira prensa utilizada foi uma adaptação mecânica de uma prensa que servia para produzir vinhos pressionando o papel com tinta contra o caixote de tipos. 
Estava inventada a impressão tipográfica, uma tecnologia que sobreviveria com poucas modificações até o século XIX. A “engenhoca” de Gutenberg revolucionou a cultura e o conhecimento humano e deu por encerrado - magistralmente - o período das trevas da Idade Média, que se iniciou com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e terminou com a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453.
Pouco se sabe sobre a vida de Gutenberg - além de alguns documentos comerciais e judiciários, sua oficina gráfica e a impressão de sua magnífica “Bíblia”. Esses documentos possibilitam deduzir que gastou todo o dinheiro de que dispunha, antes que chegasse a produzir qualquer coisa que lhe proporcionasse renda e lucro. 
Por volta de 1438, formou uma sociedade com três burgueses da cidade, Andreas Dritzehn, Hans Riffe e Andreas Heilmann. Começou publicando folhetos e livretos religiosos, mas a morte de Dritzehn naquele mesmo ano lhe trouxe problemas com a Justiça. Os irmãos de Dritzehn processaram Gutenberg, porque queriam herdar o direito de entrar na sociedade. Perderam a causa, mas o longo e demorado processo na Justiça esgotou todas as suas economias.
Em 1448 - já com 50 anos de idade - conseguiu o patrocínio de um financiador chamado Johann Fust - a quem confiou o segredo da invenção - para imprimir seu primeiro livro. Fust investiu 800 florins no negócio, uma soma considerável na época. Dois anos depois, mais 800 florins. Fust - não vendo futuro no negócio - executou, em 1455, a impagável dívida. Gutenberg foi à falência. A oficina gráfica caiu nas mãos de Johann Fust (investidor e banqueiro) e de Peter Schöffer (genro de Fust e também artesão de tipos).
Em 1456 publicaram - finalmente - o primeiro livro impresso: a chamada “Bíblia”, da tradução latina conhecida como “Vulgata”, feita por São Jerônimo no século IV. A “Bíblia” foi impressa em 42 linhas (em colunas duplas), caligrafia gótica, com 1282 páginas e tiragem de 180 exemplares (45 em pergaminho e 135 em papel). As letras maiúsculas e os títulos foram ornamentados à mão e coloridos. A obra foi publicada sem data, nem local ou nome dos impressores. É, oficialmente, a “Bíblia de Fust e Peter”. Mas, fazendo justiça ao seu verdadeiro autor, foi apelidada de “Bíblia de Gutenberg”.
Gutenberg só escapou da ruína total, graças à proteção de um funcionário municipal de Mainz, Konrad Humery, que lhe ofereceu os meios de montar outra oficina de impressão. Em 1462, voltou a Estrasburgo e, três anos depois, para sua terra natal, sob a proteção do arcebispo Adolfo II, que lhe proporcionou uma pensão, roupas, comida e vinho.
Johannes Gutenberg faleceu no dia 3 de fevereiro de 1468, com aproximadamente 70 anos de idade. Seu legado faz parte da lista das dez maiores invenções da humanidade.
OS ESCRITOS PROIBIDOS DE TOT, FILHO DE RÁ, PROTETOR DOS POETAS / JOÃO SCORTECCI
TOT - filho do deus Sol, Rá, - é o deus do conhecimento, da sabedoria, da matemática, do tempo e da música. É aquele que mantém a ordem - a magia - no universo. Foi o encarregado de inventar a “escrita” entre os egípcios e de iluminar e proteger os poetas. É representado por um babuíno, animal que o acompanha sempre. TOT é homem com cabeça de íbis, uma ave. Compreende - com sabedoria - todos os mistérios da mente humana. Em muitas representações aparece ao lado de uma balança: o “equilíbrio” espiritual no momento do julgamento. TOT pesava a alma do morto antes de ele ir a julgamento. Cabia-lhe examinar e determinar a dignidade do morto: julgar seus sentimentos e propósitos. Era responsável por anotar - nos versos - o resultado de cada julgamento. Com base no peso da “balança” julgava se o morto tinha se conduzido bem ou não e se ele havia tido uma vida digna e honrada. TOT - é o que dizem - exerceu, também, o cargo de secretário das mais obscuras divindades: maiores e menores.
Um papiro escrito há 33 séculos conta a história de como o demônio Nefer Ka Ptah encontrou o "Livro do conhecimento e da sabedoria" do deus TOT", submerso num rio, protegido por serpentes e escorpiões. Copiou-o com um sopro, encharcou-o na cerveja e depois o bebeu adquirindo, instantaneamente, todo o saber do mundo, tudo quanto é dado saber a um deus. TOT, ao se inteirar do roubo do livro, regressou dos umbrais do tempo - matou o demônio Nefer Ka Ptah - e recuperou o livro. O papiro com a "saga" pode ter sido destruído ou queimado por volta de 360 a.C. Dizem ainda que TOT - na cidade de Alexandria e na matemática do tempo - se converteu no corpo de Hermes Trismegisto (o três vezes grande, legislador egípcio e filósofo, que viveu na região de Ninus, por volta de 1.330 a.C.) e ajudou a iluminar 36 livros sobre teologia e filosofia, além de seis sobre medicina, todos destruídos após sucessivas invasões ao Egito. Para cada livro “queimado” ou "destruído" pelo demônio Nefer Ka Ptah, o deus TOT coloca na “balança do tempo” um novo poeta - que, desavisado de tudo - segue iluminando o mundo da humanidade.
OS LIVROS ENCADERNADOS COM PELE HUMANA / JOÃO SCORTECCI
Não conheço o “Museu de Surgeons” e muito menos Edimburgo, capital da Escócia. Curiosidades de viagem: conhecer a Pedra do Destino (usada na coroação dos governantes escoceses) e agora visitar o “Museu de Surgeons” e ver de perto - o próximo possível - o livro encadernado com pele humana do assassino irlandês William Burke (1792-1829).
Estava lendo na web sobre a lei Anatomy Act, de 1832 (Lei do Parlamento do Reino Unido que concedeu licença gratuita a médicos, professores de anatomia e estudantes de medicina - de boa fé - para dissecar corpos doados) quando soube da história do irlandês William Burke (condenado por realizar trâmites ilegais de corpos recém-enterrados às faculdades de medicina inglesas) que sua pele virou capa e encadernação de livro. O ato de usar pele humana para encadernar livros chama-se “Bibliopegia antropodérmica”.
Até maio de 2019, o “The Anthropodermic Book Project” examinou 31 dos 50 livros em instituições públicas supostamente com encadernações antropodérmicas, dos quais dezoito foram confirmados como humanos e dezoito foram demonstrados como couro animal. A referência mais antiga no “Oxford English Dictionary” data de 1876.
Aos condenados à morte, a doação involuntária de seus corpos fazia parte da própria sentença: uma espécie de humilhação “post mortem”. A prática da “Bibliopegia antropodérmica” oscilavam entre a homenagem póstuma, o erotismo e a eterna lembrança de um julgamento criminal importante. Lendo e aprendendo!
PANTHÉON DE PARIS, VICTOR HUGO E A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS / JOÃO SCORTECCI
Visitei o “Panthéon de Paris” no ano de 2010. Monumento estilo neoclássico situado no monte de Santa Genoveva, no 5.º arrondissement de Paris (os arrondissements de Paris correspondem a uma divisão administrativa que decompõe a comuna de Paris em vinte arrondissements municipais), em pleno Quartier Latin.
Não tive a oportunidade de visitar o túmulo do poeta, romancista e dramaturgo Victor Hugo (Victor-Marie Hugo, 1802-1885), autor de “Les Misérables” ("Os miseráveis") e de “Notre-Dame de Paris”, entre diversas outras obras de fama e renome mundial. Lembro-me que - na época, já tarde do dia - optei pela “Sorbonne Université”. Perdi também a oportunidade de conhecer a Biblioteca de Santa Genoveva. Acontece! Victor Hugo passou a infância entre Paris, Nápoles e Madrid. Considerado um menino precoce, tendo sido, em 1817, aos 15 anos de idade, premiado pela Academia Francesa, por um de seus poemas. Em 1821 publicou seu primeiro livro de poesias, “Odes et poésies diverses” (Odes e Poesias Diversas), com o qual ganhou uma pensão, concedida por Luís XVIII e em 1822 o seu primeiro romance, "Han d'Islande" ("Hans da Islândia").
Em 1825, aos 23 anos, recebeu o título de “Cavaleiro da Legião de Honra” e, com outros escritores, ajudou a criar um “Cenáculo” literário. “Cenáculo” - que significa jantar - é o termo usado para o local onde ocorreu, de acordo com os cristãos, a “Última Ceia” e onde hoje se encontra um grande templo, no Monte Sião, em Jerusalém. Um “cenáculo” de escritores!  O acontecido me levou de “corpo e alma” até o filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, do gênero drama, dirigido por Peter Weir, escrito por Tom Schulman e estrelado pelo saudoso Robin Williams.
Victor Hugo morreu há exatos 136 anos, em 22 de maio de 1885. De acordo com seu último desejo, seu corpo foi  enterrado no “Panthéon de Paris”, cenáculo de muitos imortais da humanidade.
PEDIDOS DE MORTE / JOÃO SCORTECCI
O escritor Franz Kafka (1883-1924) autor dos livros “A Metamorfose”, “O Processo” e “O Castelo” pediu - antes de morrer - ao jornalista e escritor Max Brod (1884-1968) que queimasse seus cadernos. Deixou-lhe, uma mensagem: "Querido Max. Meu último desejo: tudo o que escrevi é para ser queimado, sem ler." Max Brod - teimoso e curioso - desobedeceu e não queimou nada.
Para Dora Diamant (1898-1952), sua amante, Kafka pediu a mesma coisa: “Queime tudo!” Dora não o fez. Guardou alguns escritos e 36 de suas cartas para ela. Em 1933, o material acabou confiscado pela Gestapo, de Hitler. Moral da história: Antes de morrer - se for mesmo um pedido de morte - queime-se você mesmo! 
TALMUDE - UM DOS LIVROS MAIS CENSURADOS DA HISTÓRIA / JOÃO SCORTECCI
Talmude é um dos livros básicos da religião judaica, contém: a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus. Trata-se de coletânea de livros sagrados com registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, à ética, aos costumes e à história do judaísmo. O Talmude tem dois componentes: a Mishná - compêndio escrito da Lei Oral judaica - e o Guemará - discussão da Mishná e dos escritos tanaíticos. O Talmude - editado em aramaico - originou-se da necessidade de complementar a Torá (livro sagrado do judaísmo - composto pelos primeiros cinco livros da Bíblia hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio).
O Talmude foi um dos livros mais perseguidos da história. Em 1239, Gregório IX (Papa de 1227 a 1241) nomeou censores e mandou-os procurar exemplares do Talmude. Quando soube que foram armazenados, fez queimá-los. Em Paris, no ano de 1244, dezenas de sacerdotes eliminaram centenas de exemplares do Talmude. Luís IX, Filipe III e Filipe IV, na França, entre 1290 e 1299, fizeram o mesmo: converteram a obra em cinzas. Em 1319, em Perpignan e Toulouse, a Igreja queimou dezenas de exemplares. Em 1322, o papa João XXII ordenou fazer o mesmo.
Em 1490, em Salamanca, um auto de fé incluiu o Talmude e outras dezenas de livros hebraicos no fogaréu.  Em abril de 1559, em Cremona, foram queimados 12 mil livros judaicos, dentro de uma oficina tipográfica de livros. Em 1553, um grupo de sacerdotes em Roma, Itália, recolheu exemplares do Talmude e os queimou no Campo di Fiore (Campo de Flores). É bem conhecida também uma das queimas do Talmude, na Polônia, em 1757. Os “kamenets-podolski” pegaram mil exemplares dessa obra e as destruíram publicamente. E, no século passado, os nazistas não perderam a oportunidade de aniquilar qualquer exemplar do Talmude existente na Alemanha. O Talmude é considerado um dos livros mais censurados da história.
WAYNE NA GUARDA DA CASA DAS ARMAS / JOÃO SCORTECCI
“Duke” dos trejeitos. Quando criança “praticava” todos! Um em especial: ajustar e afivelar na cintura o cinto de couro do revólver. Fazia isso - sempre - antes de “pistolar” os inimigos do velho oeste. Era um aviso involuntário - um tique nervoso - de que iam voar balas!
“Filho, o que você quer de presente de Natal?” Dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne (Marion Robert Morrison, 1907-1979). E muita espoleta estrela! “De novo?” Sim! “Pede outro presente”. Não! “Quer ganhar meias?” Não! Já disse. Meias é castigo! “E lenço Presidente?” Pior. “E uma boa sova?” Também não.
“O seu quarto parece um paiol de pólvora de tanta espoleta, chilena, rojão e bomba rasga lata. Arsenal de guerra? Quer explodir tudo?” Talvez. “O que você disse, menino?” Nada. Mãe, e se o quarto explodir e tudo pegar fogo? “Você morre!” Posso então pedir o meu último desejo? “Pode” Quero dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne. Juro que no ano que vem peço outra coisa. “Você jura?” Juro.
“Duke” (John Wayne) faleceu em 11 de junho de 1979. Foi na minha infância de “balas e espoletas” o meu maior cowboy e é até hoje o responsável pela guarda da casa das armas.

WEFFORT, MÁRCIO SOUZA, JOSÉ ÁLVARO MOISÉS, OTTAVIANO DE FIORI, PAULO RENATO SOUZA E UM OLHAR SOBRE A CULTURA BRASILEIRA / JOÃO SCORTECCI
Em 1998, Francisco Weffort e Márcio Souza, organizadores, publicaram a obra “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, pela FUNARTE, Ministério da Cultura. O Presidente do Brasil era Fernando Henrique Cardoso; José Álvaro Moisés, o Secretário de Apoio à Cultura; e Ottaviano De Fiori (in memoriam), o Secretário de Política Cultural do Ministério da Cultura. Um time de primeira! Eu estava no meu segundo mandato na CNIC - Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), responsável pelas Áreas de Humanidades e Integradas.
Durante o 1º Salão Internacional do Livro de São Paulo, em 1999, no Centro de Exposições Expo Center Norte, em São Paulo, o Ministro da Cultura Francisco Correia Weffort, com o jornalista, dramaturgo, editor e romancista amazonense Márcio Souza autografaram a obra “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, numa concorrida tarde de autógrafos, no estande do MinC. Estavam presentes escritores, editores, profissionais do livro, jornalistas e o Ministro da Educação Paulo Renato (Paulo Renato Costa Souza, 1945-2011), que recebeu das mãos do Ministro Weffort o exemplar autografado de número 1. Paulo Renato recebeu o livro, agradeceu e me passou para segurá-lo. Um belíssimo livro, capa dura, com 472 páginas, impresso em couché, formato 21 x 28 cm. Eu acompanhava a comitiva do Ministro Weffort, juntamente com amigos da Câmara Brasileira do Livro, do MinC e da CNIC. Não vi quando o Ministro Paulo Renato se desgarrou do grupo.
Encontramo-nos, depois, em Brasília, mas o livro autografado acabou ficando “esquecido” em São Paulo. O Governo FHC - segundo mandato - terminou em 2003, e nunca vingou a promessa de nos encontrarmos em São Paulo. O Ministro Paulo Renato faleceu em 2011. Guardo o exemplar autografado com o maior carinho e zelo, na certeza de que um dia fará parte do “Memorial Ministro Paulo Renato Costa Souza”, um dos mais importantes e lúcidos ministros da educação do Brasil.
ZÉ DO ISQUEIRO – UM PIROBOLOGISTA DE PEDRO II / JOÃO SCORTECCI
Conheci - nos anos 60 - um pirobologista. Magro e alto. Piscava muito e carregava entre os dedos um isqueiro de prata. “Filho isso não é profissão. É suicídio!” Desisti da sorte depois que o Zé do Isqueiro, profissional de artefatos explosivos, “detonou-se” deste mundo, num piscar de olhos. Uma tragédia! Zé do Isqueiro morreu “chamuscado” e seu corpo virou uma tocha de luzes, gases, fumaça e calor.
Foi nessa época que tentei então a sorte de goleiro - de Castilho Voador - e na pior - uma sombra de goleiro Manga. Até passei numa “peneira” para goleiro no time juvenil do Ceará. Desisti do jogo depois que “descobriram” que eu só “voava” para o lado esquerdo do gol. A pirotecnia de criança, então, limitou-se - apenas - em soltar balões com buchas de parafina, bombas rasga-latas e rojões de três tiros.
Em 1969 - num sábado de julho - foi a minha vez de “explodir”, tocar fogo no quarto e abrir uma cratera na barriga. “O que aconteceu?” Deu azar! Respondi. Hoje lendo sobre a coroação de Pedro II - em 18 de Julho de 1841 - dei de cara com a alma penada do Zé do Isqueiro. Os festejos da coroação de Pedro II duraram nove dias. Uma farra imperial! O fogaréu ficou aos cuidados do pirobologista Francisco de Assis Peregrino. Um mestre estudado na Europa! Um palacete (erguido para a coroação de D. João VI em 1818) explodiu e pegou fogo. Os edifícios que estavam ao redor tiveram as suas vidraças estilhaçadas. Quatro pessoas morreram na tragédia. Entre os mortos o próprio Peregrino. Na hora do fogaréu o representante do Império Austríaco - Barão Daiser - profetizou: “O golpe de vista no momento em que o imperador se apresentou ao povo da balaustrada da varanda era magnífico e, possivelmente, incomparável.” Até então o Barão Daiser não sabia que o palacete de D. João VI havia ido ao suicídio num piscar de olhos.