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“SELEÇÕES” E COMPANHIA LITHOGRAPHICA YPIRANGA / JOÃO SCORTECCI
Meu pai, Luiz Gonzaga - isso nos anos 1960 - era assinante da revista “Seleções”. Lia e relia a brochura de cabo a rabo! Era vidrado na seção “Piadas de caserna”, que ilustrava as duas últimas páginas da revista, impressa no formato pato, 13,4 cm x 18,4 cm, carinhosamente, no Brasil, apelidado de “formatinho”. “Seleções” é a denominação da versão brasileira da “Reader’s Digest”, criada em Pleasantville, Nova York, no ano de 1918, quando DeWitt Wallace (1889-1981) e sua esposa, Lila Bell Wallace (1889-1984), tiveram a ideia de lançar uma revista que reunisse os melhores e mais úteis artigos já publicados, usando uma linguagem condensada, mas sem interferir no conteúdo e no “sabor” do texto. O primeiro número da “Reader’s Digest” chegou às bancas dos Estados Unidos em 1922 e, por muitos anos, foi a revista mais vendida naquele país. “Seleções” chegou ao Brasil 20 anos depois, em 1942, trazida por Robert Lund, fundador do Grupo Lund Editoras Associadas. Os números refletem a trajetória de sucesso da revista no País. A primeira edição brasileira, com 100 mil exemplares, esgotou-se rapidamente, e, no início dos anos 1970, a tiragem atingiu a casa dos 500 mil exemplares. A Companhia Lithographica Ypiranga (1901-2014) foi a primeira gráfica da América Latina a imprimir em cores. Em 1950, após a aquisição de um moderníssimo equipamento gráfico, iniciou no Brasil a impressão da revista “Seleções”. O setor gráfico chegou - oficialmente - ao Brasil, por decreto régio, no ano de 1808, data da implantação da tipografia no País. Coube à gráfica carioca “Companhia Lithographica Ferreira Pinto”, no ano de 1922, a compra da primeira máquina de offset do Brasil. Em 1924, o offset chegou a São Paulo pela “Graphica Editora Monteiro Lobato” (1918 a 1925), que, mais tarde, passou o equipamento à “São Paulo Editora”. No mesmo período, chegaram também máquinas offset na Companhia Lithographica Ypiranga e na Litografia Artística. Em 1942, foi fundado o Sindicato das Indústrias Gráficas de São Paulo, que, em 1944, foi reconhecido oficialmente, por lei, como representante paulista dos empresários gráficos. A Companhia Lithographica Ypiranga - que durante 113 anos contribuiu para a história de sucesso da indústria gráfica brasileira - está registrada, no SINDIGRAF, São Paulo, como sócio fundador de número 3.
“ULISSES”, DE JAMES JOYCE, E O SOPRO DE BERNARDINA / JOÃO SCORTECCI
O romancista, contista e poeta irlandês, James Joyce (James Augustine Aloysius Joyce, 1882-1941) é um dos maiores escritores do século XX. Suas obras mais conhecidas são: “Dublinenses” (1914), “Retrato do Artista Quando Jovem” (1916), “Ulisses” (1922) e “Finnegans Wake” (1939). Participou do modernismo poético em língua inglesa, considerado um dos mais eminentes poetas do imagismo, movimento literário do começo do século XX que favorecia a “precisão das imagens” e uma linguagem clara e objetiva e inovou na prosa, principalmente com a técnica narrativa do fluxo de consciência. Sua obra-prima, “Ulysses”, é considerada desafiadora para os tradutores de língua portuguesa, por causa da variedade de estilos e técnicas narrativas. No Brasil, existem três traduções desse romance: a do filólogo, tradutor e enciclopedista, Antônio Houaiss (1915-1999), Abril Cultural, 1980; a da professora e tradutora, Bernardina da Silveira Pinheiro (1922-2021), Objetiva, 2005; e a do escritor, tradutor e professor de história, Caetano Galindo (1975- ), Companhia das Letras, 2012. Bernardina da Silveira Pinheiro - professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e referência nos estudos sobre a obra de James Joyce no Brasil - faleceu no último dia 07 de outubro, aos 99 anos de idade. Não a conhecia pessoalmente. Perdi. Desde muito cedo, aprendi a admirar e respeitar o trabalho - habilidades que me faltam - de profissionais do livro:  tradutores, revisores, diagramadores, capistas, ilustradores e bibliotecários. São eles espíritos de luz, seres iluminados, deuses que “assopram” arte, inteligência e alma aos livros. Como James Joyce, em “Finnegans Wake”: "Cada sílaba - do que quero dizer - pode ser justificada"..

1964 E OS MEUS 8 PRIMEIROS ANOS DE VIDA / JOÃO SCORTECCI
Em março de 1964 eu tinha 8 anos de idade. Morava na cidade de Fortaleza-Ceará. O dia 31 daquele mês caiu numa terça-feira. Quando mamãe Nilce entrou no quarto – na manhã do dia 1º. de abril – eu já estava acordado, espiando, pela janela veneziana, o tanque de guerra do Exército brasileiro descansando em frente de casa, à sombra de um pé de ficus, provavelmente infestado de “lacerdinha”, uma sátira ao político da época Carlos Lacerda. “Hoje não tem escola e ninguém sai de casa!” Foi o que ela nos disse. No quarto, eu e meus dois irmãos Luiz (14) e José (13). Tomamos café da manhã em silêncio, no balcão de fórmica da cozinha – café com leite quente e pão sovado –, atentos às notícias na Rádio Dragão do Mar, num Philco Transglobe. Papai, na sala de jantar, conversava demoradamente ao telefone com o Marechal Juarez Távora (1898-1975), tio, na época, do então governador do Ceará, Virgílio Távora (1919-1988). Segredos nunca revelados. “Vou sair. Fiquem em casa. Não saiam por nada!” Foi o que papai Luiz nos disse. No dia 3 de abril de 1964, o jornal “O Povo” – da tia Lúcia Dummar –, no seu editorial, publicou a seguinte nota: “A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País à perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil.” Na minha cabeça de menino desavisado de tudo, o “golpe militar” foi “revolução” até o ano de 1968, quando os movimentos contra a repressão e a ditadura militar ganharam as ruas do País e nos impuseram, em 13 de dezembro daquele ano, ao Ato Institucional n. 5 (AI-5). Em 1968, eu tinha 12 anos de idade, e foi o escritor e médico psiquiatra cearense Mourão (Antônio Mourão Cavalcante), amigo da família e meu chefe-escoteiro no Colégio Cearense, quem primeiro alertou-me sobre as “tragédias” da ditadura. Em certa época da sua vida de estudante, Chefe Mourão foi perseguido e teve de se esconder, sei lá onde. Já morando em São Paulo, desde 1972, pude, felizmente, conhecer a verdade verdadeira e o que foram aqueles “anos de chumbo”. “Por isso, a nossa ‘geração de 68’ foi a que mais caro pagou por sua rebeldia, através de prisões, tortura, exílio e até morte”, escreve Zuenir Ventura, em seu clássico “1968 - O Ano Que Não Terminou”. É tudo que lembro daquele 1º de abril de 1964. Pouco, eu sei. E, a título de curiosidade, até hoje não sei o que aquele tanque de guerra do Exército brasileiro estava fazendo parado em frente de casa, na Av. D. Manoel, 1086, na Fortaleza do ano de 1964.
23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL DO LIVRO E DO DIREITO DO AUTOR / JOÃO SCORTECCI
Eu sou um livro. Um exemplar raro do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839-1908), considerado o maior escritor da literatura brasileira. Fui impresso no ano de 1881, nas Oficinas da Tipografia Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal. Tenho pouco mais de 141 anos de vida, capa em bom estado, páginas amareladas e corpo revestido com belíssima encadernação de luxo. Uma raridade – em primeira edição – com autógrafo e dedicatória do autor, para um tal de João Scortecci. Estou catalogado e em lugar de destaque, no acervo da biblioteca de um importante bibliófilo paulistano, apaixonado por livros. Tive sorte! Não sei se vocês sabem: nós, os livros, é que escolhemos nossos protetores e leitores. Um livro impresso em papel – novo ou antigo – precisa de amor, carinho, atenção e zelo! Antes de ganhar notoriedade de obra rara, passei um longo tempo em um sebo ruim, jogado literalmente às traças. Já sobrevivi a um incêndio, escapei de um vazamento de água na cabeça da lombada, sofri ameaça de descarte e de ser, literalmente, reciclado. Minha morte seria uma tragédia. Um crime! Felizmente escapei do pior. Nós, os livros, sofremos ataques e destruição por fanatismo religioso e político, depredação, maus tratos, contaminação por fungos e bactérias. Minhas páginas estão amareladas e ásperas. O tempo é cruel. É o desgaste natural causado pelos excessos de exposição a luz, umidade, temperatura inadequada e inimigos predadores, como homens, cupins, traças e roedores. Nós, os livros, gostamos de ficar em prateleiras especiais, em local afastado das paredes, ordenados verticalmente. Ventilação e limpeza são indispensáveis para a nossa sobrevivência. Não gostamos de calor e aperto. 22°C está perfeito! Temperatura excessiva faz com que as fibras de celulose percam as suas propriedades de elasticidade, flexibilidade e resistência. A umidade relativa do ar não deve ultrapassar 60%. Iluminação ambiental de 50 watts é a correta. A luz artificial mais utilizada é a fluorescente. Nunca se deve utilizar luz ultravioleta. Ela nos mata! Dia 23 de abril é o meu “Dia Mundial”, data escolhida pela Unesco para celebrar o livro, incentivar a leitura, homenagear autores e refletir sobre seus direitos legais. Essa data foi escolhida em tributo aos escritores Miguel de Cervantes, Inca Garcilaso de la Vega e William Shakespeare, que morreram em 23 de abril de 1616. Dia 29 de outubro é o meu “Dia Nacional”. Foi escolhido por ser o dia do aniversário da Biblioteca Nacional do Brasil (Fundação Biblioteca Nacional), fundada em 29 de outubro de 1810. São dias a serem celebrados todos os dias e por todos nós. Não se ama um livro vez por outra e muito menos com lapsos de memória. Nossas almas são eternas e, quando tocadas, contam histórias, fazem versos, ensinam conhecimento e propagam sabedoria através dos tempos. Eu sou um livro. E você?

400 ANOS DE NASCIMENTO DO "LEÃO E O RATO" / JOÃO SCORTECCI
Hoje é aniversário do fabulista francês La Fontaine. 400 anos! Não me lembro de ter visto nada “comemorativo” sobre a data na imprensa. Estava lendo sua biografia quando fiquei sabendo que o seu corpo está sepultado ao lado do corpo do dramaturgo e ator francês Molière (Jean-Baptiste Poquelin, 1622-1673), no cemitério Père-Lachaise, maior de Paris e um dos mais famosos do mundo. A sua origem remonta ao século XII, quando o terreno estava repleto de vinhas pertencentes à Igreja. Em 1803, o terreno passou para as mãos da cidade de Paris, graças à Napoleão Bonaparte, e nele, então, foi construído o belíssimo Père-Lachaise, inspirado no estilo dos jardins ingleses. Molière é considerado um dos mestres da comédia satírica (técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema, geralmente como forma de intervenção política ou social) e La Fontaine (Jean de La Fontaine, 1621-1695), o pai da fábula moderna. Suas fábulas - escritas em linguagem simples e atraente - contam histórias de animais “falantes” geralmente com fundo moral. Aqui com os meus ossos: um fabulista e um satírico: juntos? Sepultados lado a lado? Coincidências não existem! No post de hoje - 400 anos de nascimento do fabulista La Fontaine - jaz - no melhor de sua natureza - a máxima: “fábula é uma pintura em que podemos encontrar nosso próprio retrato”. Que - satiricamente pensando - nada significa. Curiosidade mata! 

50 ANOS DE SÃO PAULO, DELFIM NETTO E “ESPADA AO ALTO” / JOÃO SCORTECCI
No dia 2 de março de 2022, completo 50 anos de São Paulo. O tempo é veloz! Desci - vindo do Ceará, com 16 anos de idade - no Terminal Rodoviário da Luz, na Barra Funda, na capital paulista. Viemos eu e meu irmão José Henrique, que já morava em São Paulo, desde 1970. No coração, um desafio: vencer na cidade grande! Na cabeça - menino de tudo - os conselhos do professor Delfim Netto: “O milagre econômico brasileiro começa em São Paulo”. Nos anos 1970, eu estava no Ideal Clube, na cidade de Fortaleza, “voando solto”, depois de uma aula de tênis com o professor Gadelha, quando um anjo torto me apontou, com o dedo, outra direção, a de um salão nobre, apinhado de gente. Entrei no salão e fiquei. Era uma palestra com o professor Delfim Netto. Confesso: depois daquele dia - desavisado de tudo - nunca mais fui o mesmo. Reencontrei-o em Brasília, 35 anos depois, numa reunião da CNIC -Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, no Ministério da Cultura, e, mais recentemente, em 2017, num evento do Grupo de Líderes, na sede da Abigraf, na cidade de São Paulo. O Professor Delfim Netto fascinava e fascina até hoje, mesmo depois do “pecado capital” da maxidesvalorização cambial, no ano de 1980, quando era Ministro da Fazenda. Antes do evento da Abigraf - na sala da diretoria-executiva da entidade - contei-lhe sobre o nosso primeiro encontro, em Fortaleza, em 1970. Lúcido e ágil, como sempre, olhou-me e disse: “Eu lembro!”. Papo de raposa velha, pensei. Lendo as minhas desconfianças, ele citou detalhes e passagens daquele - memorável - dia. Incrível! Em 1972, já morando em São Paulo, depois de almoçar talharim com dois ovos fritos, no balcão do restaurante Giovani, da Rua Timbiras, 607 - entre a Praça da República e a Avenida São João -, notei, do outro lado da rua, um outdoor, com informações de um prêmio literário de “melhor frase” sobre os eventos comemorativos do Sesquicentenário da Independência do Brasil. Anotei tudo num pedaço de papel e o guardei no bolso. Foi o que fiz. Naquele mesmo dia, escrevi: “De uma espada ao alto nasceu o sonho da liberdade. Brasil!”. Fui ao correio, comprei um selo e postei. No início do mês de setembro, já se aproximando a Semana da Pátria, recebi um telegrama, com a boa-nova da premiação. Eu? Sim! Quase morri! Notícia boa costuma matar mais que notícia ruim. O prêmio selou o meu destino de vida. Foi o que fiz, sem pestanejar. Em 2022, tenho dois desafios para validar: comemorar “desbragadamente” os 50 anos de São Paulo e, também, os 50 anos do prêmio “Sesquicentenário da Independência do Brasil, Melhor Frase”. Aqui cabem versos do poeta francês Paul Géraldy (1885-1983), no poema “Eu e você”: “Depois, a gente começa a repartir dor por dor/ (...) E, sem pensar, vai falando de novo as que já falou (...)."
A BIBLIA MALDITA E OS SUSSURROS DO DEMÔNIO TITIVILLUS / JOÃO SCORTECCI
Os “amanuenses” também cometem erros! “Amanuenses” ou “copistas” são aqueles que copiam textos ou documentos à mão. A palavra provém do latim “amanuensis” uma derivação da expressão latina "ab manu" (à mão). Ontem pesquisando e escrevendo sobre “O Legado de Gutenberg” dei de cara com a história da “Bíblia Maldita”, edição publicada em 1631, por ordens de Carlos I, Rei da Inglaterra. Uma edição pequena, de mil exemplares, que causou aos editores responsáveis pela publicação uma multa de 300 libras - equivalente a algo próximo de 45 000 libras nos dias atuais - além da revogação do direito de imprimir a Bíblia. A obra foi impressa com um terrível e maldito erro tipográfico cometido pelos “amanuenses” quando a transcreveram do original. Passou batido! Ao transcreverem os “dez mandamentos” omitiram a palavra "não", desta forma dando ao texto a redação "cometerás adultério". Os exemplares desta edição maldita continham também um segundo erro: "cometerás atos impuros". Os exemplares - recolhidos e amaldiçoados - foram queimados em praça pública. Poucas cópias escaparam da fúria dos fieis. Hoje - cópias salvas - da “Bíblica Maldita” são consideradas raridades e altamente valiosas por colecionadores. Uma única cópia da “Maldita” encontra-se na New York Public Library (Biblioteca Pública de Nova Iorque). Erros em livros são atribuídos ao demônio “Titivillus”, que supostamente sussurram “pecados” nos ouvidos de escritores, revisores e editores. 
A BIBLIOCLASTIA PELA BIBLIOFOBIA DA INTELECTUALIDADE / JOÃO SCORTECCI
“Biblioclastia” é a destruição propositada de livros. Os motivos são muitos: ódio ao seu conteúdo, aversão à cultura, medo do desconhecido, do novo, intolerância religiosa, perseguição política, inveja, radicalismo e ideologia. É erro - frequente e comum - atribuir as destruições de livros a homens ignorantes e estúpidos. A história nos mostra – também - um outro universo, desconhecido e ignorado por muitos. Sobram exemplos de filósofos, eruditos e escritores que praticaram em suas vidas a “biblioclastia”. O filósofo, físico e matemático francês René Descartes (1596-1650) seguro de seu método (fusão da álgebra com a geometria fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas) pediu aos leitores que queimassem - todos - os livros antigos sobre o assunto. O filósofo e historiador escocês David Hume (1711-1776), que se tornou célebre pelo seu empirismo radical e o seu ceticismo filosófico, não hesitou em exigir a supressão de todos os livros sobre metafísica - filosofia que examina a natureza fundamental da realidade. O movimento futurista - que tinha como principal característica a valorização da tecnologia -, em 1910, publicou um manifesto em que preconizava o fim das bibliotecas. Esqueçam o passado! Os poetas dadaístas colombianos - movimento artístico pertencente às vanguardas europeias do século XX, cujo lema era: "a destruição também é criação", queimaram, em 1967, exemplares do romance “Maria” do escritor colombiano Jorge Isaacs (1837-1895) convencidos de que era necessário destruir o passado literário do país. O poeta e romancista russo Vladimir Nabokov (1899-1977), professor das Universidades de Stanford e Harvard, queimou “Dom Quixote” de Cervantes, no Memorial Hall, diante de mais de seiscentos alunos. O filósofo, escritor e professor universitário Martin Heidegger (1889-1976) tirou de sua biblioteca livros do matemático e filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938) para que seus estudantes de filosofia os queimassem, em 1933. O escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) em "O congresso", conto incluído no livro “O Livro de Areia” (1975) fez um de seus personagens dizer: "A cada tantos séculos há que se queimar a biblioteca de Alexandria... queimar o passado é renovar o presente”. Até tu, Borges!

A ESCRITA AUTOMÁTICA: ANDRÉ BRETON, OCTAVIO PAZ E O CABARET VOLTAIRE / JOÃO SCORTECCI
A “Escrita automática” é um método criado pelos dadaístas (fundadores do Dadaísmo, nome derivado da palavra “dadá, que foi um movimento da chamada vanguarda artística moderna, marcado pela contestação aos valores culturais), em Zurique-Suíça, em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial. Defendido pelo poeta normandiense André Breton (1896-1966) e pelo poeta romeno Tristan Tzara (1896-1963), esse método objetiva evitar os pensamentos conscientes do autor e possibilitar a liberação do fluxo do inconsciente. Por meio da “escrita automática”, o eu do poeta se manifesta livre de qualquer repressão da consciência e deixaria crescer o poder criador do homem fora de qualquer influxo castrante. Seu propósito é vencer a censura que se exerce sobre o inconsciente, libertando-o por meio de atos criativos não programados e sem sentido imediato para a consciência, os quais escapam à vontade do autor. Ao Brasil, a “escrita automática” chegou nos anos 1920, por intermédio do poeta, crítico literário, jurista e cronista, Prudente de Morais Neto (1904-1977), e do crítico literário e jornalista, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). O poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, Octavio Paz (Octavio Paz Lozano, 1914-1998), Nobel de Literatura de 1990, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a “escrita automática”, tendo praticado posteriormente uma poesia ainda vanguardista, porém concisa e objetiva, voltada a um uso mais preciso da função poética da linguagem, como no poema “Dois Corpos”: “Dois corpos frente a frente são às vezes raízes na noite enlaçadas. Dois corpos frente a frente/ são às vezes navalhas/ e a noite um relâmpago./ Dois corpos frente a frente/ são dois astros que caem num céu vazio.”. O Dadaísmo foi criado no “Cabaret Voltaire”, um clube noturno em Zurique, na Suíça, fundado por Hugo Ball, com a sua companheira Emmy Hennings, em 5 de fevereiro de 1916, com propósitos políticos e artísticos. Outros membros fundadores foram Marcel Janco, Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara, Sophie Tauber-Arp e Jean Arp. Os eventos no Cabaret apresentavam palavra falada, dança e música e foram fundamentais para o surgimento do Dadaísmo, mas não vingou e fechou no mesmo ano de em 1916. Os artistas do movimento acabaram mudando para outros lugares, como Galerie Dada, também em Zurique, e, depois, para Paris e Berlin. Com o método da “escrita automática”, o Dadaísmo propiciou o aparecimento do Surrealismo, e esses movimentos artísticos revolucionaram a concepção de arte e cultura nas primeiras décadas do século XX.

A ESCRITA DEMÓTICA E ROSETA - A PEDRA MAIS FAMOSA DO MUNDO / JOÃO SCORTECCI
O legado deixado pelos egípcios na escrita: hieróglifos (sistema de escrita formal usado no Antigo Egito: combinavam elementos logográficos, silábicos e alfabéticos), o hierático (escrita sacerdotal: relativa às coisas sacerdotais, sagradas ou religiosas) e o demótico. A escrita demótica (escrita para o dia a dia) surgiu - provavelmente na região do delta do Nilo - no início da 26º dinastia do Egito (667 a.C. - 525 a.C.). Acredita-se que o Estado egípcio, na época de Psamético I (faraó egípcio da XXVI dinastia egípcia, 690 a.C.- 610 a.C) , tendo em vista a centralização da administração do país (em Saís - parte ocidental do Delta do Nilo, ao invés de Tebas), empenhou-se para que se tornasse padrão no Egito.
Antecessora da demótica, a escrita hierática já representava uma grande evolução em relação aos hieróglifos egípcios. Em pouco tempo a escrita do dia a dia passou a ser utilizada na maioria dos registros das atividades dos egípcios. A escrita demótica foi uma das três escritas encontradas na Pedra de Roseta (fragmento de uma estela de granodiorito erigida no Egito Ptolemaico, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios).
Sua descoberta - no ano de 1799, expedição francesa ao Egito liderada por Napoleão Bonaparte - deu início a um novo ramo do conhecimento, a egiptologia. Sua inscrição guarda um decreto de um conselho de sacerdotes estabelecendo o culto ao faraó Ptolemeu V, no primeiro aniversário de sua coroação (cidade de Mênfis, em 196 a.C). Sua deliberação é registrada em três versões de escrita: a superior foi registrada na forma hieroglífica do egípcio antigo; a do meio, em demótico (variante escrita do egípcio tardio); e a inferior, em grego antigo (língua indo-europeia extinta, falada na Grécia durante a Antiguidade e que evoluiu para o grego moderno).
A “Pedra de Roseta” é a primeira peça a ser recuperada na Idade Contemporânea com inscrição “plurilíngue” e desde então é considerada a pedra mais famosa do mundo. Com a Capitulação de Alexandria (tropas britânicas e otomanas derrotaram os franceses no Egito, em 1801), a Pedra de Roseta acabou na posse do Reino Unido e desde 1802 está em exibição no Museu Britânico, em Londres.
A FILÓSOFA HIPATIA E OS MÉTODOS CIENTÍFICOS DA RAZÃO / JOÃO SCORTECCI
A filósofa neoplatônica grega Hipatia (351/370 d.C - 415 d.C) foi a primeira mulher da história assassinada por ser uma pesquisadora da ciência. Era filha de Teón, professor de matemática e astronomia, bibliotecário em Alexandria e responsável pela produção, em 390 d.C, de uma versão mais elaborada da obra “Os Elementos”, do matemático platônico Euclides, considerado o Pai da Geometria.
Hipatia - seguidora da escola intelectual do pensador Plotino - estudou Lógica e Matemática. Plotino - em sua filosofia - exposta nas “Enéadas” (coleção de escritos editada e compilada por seu discípulo Porfírio, por volta de 270 d.C.), descreve a filosofia neoplatônica em três princípios: o Uno (entidade suprema, totalmente transcendente, além de todas as categorias do Ser e Não-ser), o Intelecto (atividade do intelecto ou da razão, em oposição à atividade dos sentidos) e a Alma do Mundo (força regente do universo pela qual o pensamento divino pode se manifestar em leis que afetam a matéria, ou ainda, a hipótese de uma força imaterial, inseparável da matéria, mas que a provê de forma e movimento). Consta que Hipatia foi autora de um Comentário sobre a Aritmética de Diofanto e um Comentário sobre as Crônicas de Apolônio e uma edição do terceiro livro de um escrito em que seu pai divulgou o Almagesto de Ptolomeu.
Infelizmente nada restou dos seus escritos. Todos foram destruídos. No ano de 415 d.C. foi sequestrada e assassinada por uma multidão de monges enfurecidos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes em Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria. Foi feita prisioneira numa igreja e ali, à vista de todos, golpearam-na brutalmente com telhas. Arrancaram-lhe os olhos e a língua. Quando já estava morta, seu corpo foi despedaçado, seus órgãos e ossos arrancados e depois queimados.
A intenção do bispo Cirilo - mandante do crime - não era outra que a total aniquilação de tudo quanto Hipatia significava como mulher da ciência.
A LIÇÃO DE DOR DO CACO DE VIDRO ESPETADO NO PÉ / JOÃO SCORTECCI
O Eu menino era danado que só ele. Tinha na época pouco mais de 9 anos de idade e andava espiando, pelo buraco do muro, o corpo nu da vizinha, que, todo final de tarde, banhava-se com cabaça e água fria, trepada na boca do poço artesiano. Puxava água na bomba de mão, alimentava a cabaça de água fresca e fartava-se, com gosto de pele jovem no cio. Margarida era o seu nome. Tinha 20 e poucos anos e olhos negros, iguais a jabuticabas. Magrela, cabelos curtos, à la Rita Pavone. Quando andava na rua, empinava a bunda além da conta. Sabia e não sabia que estava sendo brechada pelo buraco do muro e parecia gostar do modal da sedução. Sonhava em um dia ser atriz, morar em Copacabana e ser mais famosa que a estrela Florinda Bolkan, que nasceu em Uruburetama, interior do Ceará, morou em Fortaleza e no Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Itália, em 1968, e fazer carreira de sucesso no cinema. O buraco no muro era miúdo, e nele cabia um olho por vez. Justo! Com o tempo, a “performance” da estrela do poço ganhou música, dança, rebolado e pecados provocativos. Amor festivo! Numa tarde de calor dos infernos, com o dedo apontando para o buraco quente, convocou-me, finalmente. E eu fui. O coração disparado e o sangue da danação, fervendo feito brasa. Subi no muro de pronto, com a ajuda de um tambor velho de querosene. Pulei, velozmente, para o outro lado do muro, e, de sorte, caí de todo no minado alçapão de zinco. Gritei de dor. Um caco de vidro, dos grandes, enfiou-se no meu pé direito. Sangue. Muito. Margarida gritava junto, de deboche e satisfação. “Te peguei!”, gritou. Pulei o muro de volta e corri, em fuga, até a minha mãe Nilce, que pedalava velozmente, no terraço da casa, a sua barulhenta máquina de costura Singer. “Santo Deus! O que aconteceu?” “Furei o pé com um caco de vidro!” Papai Luiz, que havia acabado de chegar do trabalho, perguntou-me: “Onde foi a danação desta vez?” Silêncio. Papai Luiz sabia e não sabia que eu andava espiando o banho da vizinha dos fundos, pelo buraco do muro. Mamãe Nilce tentou tirar o caco de vidro do meu pé, mas papai Luiz interveio: “Não. Agora não! Espera um pouco. Ele precisa saber o que é a dor.” Mamãe Nilce esperou uma eternidade. Doeu e muito, quando, do nada, puxou de jeito o imenso caco de vidro do meu pé e, com ele, no algodão ensanguentado carregou os segredos da moça do poço artesiano, que lembrava Rita Pavone e sonhava em ser Florinda Bolkan. Nunca mais soube de Margarida, a estrela do buraco quente. Escafedeu-se! O buraco foi fechado. Quem teria feito isso? A lição da dor ficou cunhada – para sempre – na minha poesia de reminiscências, nos versos do poço artesiano, nas palavras da bomba de mão de puxar água fresca, na dor do caco de vidro espetado no pé e nas águas de cabaça, da Fortaleza hilária, dos anos 1960.
A MELHOR “CARETA” É A QUE FICA / JOÃO SCORTECCI
“Careta” foi uma revista humorística que circulou semanalmente, aos sábados, de 1908 a 1960. Foi fundada na cidade do Rio de Janeiro (Capital Federal) pelo tipógrafo-editor Jorge Schmidt, que também publicou as revistas “Kosmos” (1904-1909) e “Fon-Fon” (1907-1958) e se destacou pela utilização de inovações gráficas e editoriais, em voga nas principais cidades europeias e norte-americanas da época. “Careta” teve como colaboradores alguns dos melhores chargistas do País, entre eles, como diretor e ilustrador, J. Carlos (José Carlos de Brito e Cunha, 1884-1950), designer gráfico, escultor, autor de teatro de revista, letrista de samba e considerado um dos maiores representantes do estilo “art déco” do design gráfico brasileiro. J. Carlos deixou a revista em 1921, para se dedicar à direção das publicações da empresa “O Malho”, mas, em 1935, retornou à “Careta”, onde trabalhou até sua morte, em 1950. Em 1934, com o falecimento do editor-proprietário, Jorge Schmidt, seu filho, Roberto Schmidt, assumiu a direção da revista, até falecer, em setembro de 1960. “Careta” ainda sobreviveu por mais dois meses, sob a direção interina de M. Carolina Schimdt, e foi extinta em novembro de 1960. O primeiro número, publicado em 6 de junho de 1908, trazia na capa uma caricatura do presidente Afonso Pena (1847-1909). No “artigo de fundo” (editorial de lançamento), a revista anunciava seu caráter satírico e evidenciava o desejo de atingir um público com “Público com P grande!”, alusão ao variado e enorme público-alvo da revista, que teve ampla circulação nacional. “Careta” era impressa no formato 20 x 30 cm, com design ousado para a época e excelente padrão gráfico, capa colorida, com 32 até 48 páginas por edição, e fazia amplo uso de ilustrações e fotografias. Foi impressa em papel couché, até 1941. Em meio à Segunda Guerra Mundial, o preço do papel importado aumentou, e a revista passou a ser impressa em papel jornal, usando o couché somente na capa. Seu repertório era eclético, incluindo crônica, poesia, opinião, notícia, piada, concurso, crítica, sátira política e de costumes e colunismo social. Durante o período de circulação ininterrupta, a revista teve como colaboradores outros artistas gráficos de prestígio, tais como: Belmonte, Malagute, Raul Pederneiras, Calixto e Theo. No início, contou com a colaboração de alguns dos mais afamados escritores da época, como: Olavo Bilac, Martins Fontes, Olegário Mariano, Aníbal Teófilo, Alberto de Oliveira, Emílio de Meneses, Bastos Tigre, Leal de Souza, Mario Bhering e Luís Edmundo. Posteriormente, contou também com a colaboração de Lima Barreto, Orestes Barbosa, Domingos Ribeiro Filho, Viriato Correia, Umberto Peregrino e J. Frazão, entre outros. Ao compartilhar de forma ágil texto e imagem, “Careta” foi uma das mais importantes expressões da modernidade artística e intelectual do Rio de Janeiro, nas primeiras décadas do século XX. Mantinha uma postura independente e assumiu posições políticas em meio às grandes polêmicas de sua época, como quando apoiou Ruy Barbosa (1849-1923), na Campanha Civilista, em 1910. Durante a vigência do estado de sítio de 1914, no governo do Presidente Hermes da Fonseca (1855-1923), a revista foi proibida de circular por três semanas, e seus diretores foram presos por alguns dias. Durante o Estado Novo (1937-1945), a publicação de charges funcionou como estratégia de oposição à propaganda oficial do governo de Getúlio Vargas, reforçando o padrão crítico do periódico. Sua publicação foi retomada em 1964, com três edições pela Empresa Jornalística Arte Rio. Posteriormente, de 1981 até 1983, foi publicada pela Editora Três (SP), com roupagem nova, no formato 18 x 26 cm, e contou com nomes ilustres da “imprensa alternativa” e com escritores, como Mário Prata (editor da revista), Tarso de Castro, Luís Fernando Veríssimo, Angeli, Plínio Marcos, Paulo Caruso, Alex Solnik, entre outros. “Careta” circulou, ininterruptamente, durante 52 anos, e o legado de seus editores-proprietários, Jorge Schmidt (pai) e Roberto Schmidt (filho), faz parte da história de sucesso da indústria editorial e gráfica brasileira, como exemplos de inovação, superação, determinação e amor às artes gráficas.
A PROFECIA DE MUSSOLINI: “PELO SANGUE DA PIAZZALE LORETO, PAGAREMOS CARO!” / JOÃO SCORTECCI
A Piazzale Loreto – situada na região central de Milão-Itália, distante, aproximadamente, 4 km da Catedral de Milão – em 10 de agosto de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, foi palco da execução pública, pelas autoridades de ocupação alemãs, de 15 civis milaneses escolhidos a dedo pelo chefe da Gestapo em Milão, Theo Saevecke (1911-2000) – responsável pelos holocaustos na Polônia e na Itália – como represália por um ataque a um comboio militar alemão. Os executados – por enforcamento – foram deixados em exposição em praça pública por vários dias. O evento ficou conhecido como o "massacre da Piazzale Loreto”. No rescaldo desse evento, diz-se que o ditador Benito Mussolini (Benito Amilcare Andrea Mussolini, 1883-1945) comentou, profeticamente: "Pelo sangue da Piazzale Loreto, pagaremos caro". Em 29 de abril de 1945, a Piazzale Loreto foi palco de um dos eventos mais conhecidos da história moderna da Itália, a exibição pública dos cadáveres de Benito Mussolini, de Clara Petacci (sua amante) e dos fascistas Alessandro Pavolini e Achille Starace. Na véspera do acontecido, eles foram capturados e fuzilados por guerrilheiros, perto do Lago de Como, na Lombardia, quando tentavam fugir para a Suíça. Seus corpos foram levados para Milão e lá, na Piazzale Loreto, foram fotografados, chutados, cuspidos, apedrejados e, por fim, como um ato de vingança pelo enforcamento dos 15 civis milaneses, foram pendurados de cabeça para baixo, no teto de um posto de gasolina, entre o Corso Buenos Aires e a Viale Andrea Doria. Mussolini foi enterrado em uma cova anônima no cemitério de Musocco, distrito de Milão, localizado na periferia noroeste da cidade. No domingo de Páscoa de 1946, seu corpo foi desenterrado e mantido em sigilo por 11 anos. Desde 1957, seu corpo está sepultado na comuna italiana de Predappio, sua cidade natal, na região da Emilia-Romagna, província de Forlì-Cesena, no norte da Itália. Sempre que visito pela primeira vez uma praça – gosto delas – lembro-me da máxima: “Toda praça tem uma história”.
A REVOLTA DA VACINA E OS "SONHOS TROPICAIS" DE MOACYR SCLIAR / JOÃO SCORTECCI
A Revolta da Vacina foi um motim popular ocorrido entre 10 e 16 de novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Seu pretexto imediato foi uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola e as campanhas de saneamento lideradas pelo médico Oswaldo Cruz. O estopim da revolta foi a publicação da notícia no jornal "A Notícia", de 9 de janeiro de 1904. O projeto exigia comprovantes de vacinação para a realização de matrículas nas escolas, para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e até casamentos. Quando a proposta vazou, o povo indignado e contrariado iniciou uma série de conflitos e manifestações que se estenderam por cerca de uma semana. No dia 16 de novembro, foi decretado o Estado de Sítio e a suspensão da vacinação obrigatória. O saldo foi trágico: 30 mortos, 945 pessoas detidas, 461 deportados para o Acre e uma tentativa de golpe militar, sem sucesso. O médico e escritor Moacyr Scliar (Moacyr Jaime Scliar, 1937-2011), no seu romance “Sonhos Tropicais” (Companhia das Letras, 1992), conta a história de uma jovem judia polonesa, que imigra para o Brasil em busca de uma vida melhor, mas acaba por se prostituir. A narrativa acontece no cenário trágico de combate à febre amarela e a resistência da população à vacinação obrigatória, que resultou na chamada Revolta da Vacina. Estive com Scliar em feiras e bienais do livro. Disse-me, uma vez: “Para viver de literatura dependo da minha presença em eventos literários!” O recado ficou na cabeça. Nunca esqueci. Em 2010, nosso último encontro, no Flipoços - Festival Literário de Poços de Caldas, a convite de Gisele Corrêa Ferreira, empresária coordenadora do importante encontro literário mineiro. Moacyr Scliar faleceu um ano depois, no dia 27 de fevereiro de 2011, em Porto Alegre, aos 73 anos de idade.

A VIDA É UM SOPRO ATÉ PARA O IMORTAL DRUMMOND / JOÃO SCORTECCI
O Palácio Capanema - Edifício Gustavo Capanema - é um prédio público localizado na Rua da Imprensa, número 16, no centro da cidade do Rio de Janeiro. É considerado um marco da arquitetura moderna brasileira, tendo sido projetado por uma equipe composta por Lucio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Jorge Machado Moreira e Roberto Burle Marx, com consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. A construção ocorreu entre 1936 e 1945, e a obra foi entregue em 1947. O edifício tem 16 andares sobre piso térreo com um pé-direito monumental, de mais de nove metros de altura. Belíssimo! Seu revestimento externo é decorado por azulejos de Cândido Portinari, além de pinturas de Alberto Guignard, Pancetti e esculturas de Bruno Giorgi, Adriana Janacópulos, Jacques Lipchitz e Celso Antônio Silveira de Menezes. Em 1997 - quando membro da CNIC, Área de Humanidades, Lei Rouanet, do Ministério da Cultura - conheci o Palácio Capanema e lá “revisitei” a mesa do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), onde o moço de Itabira - desavisado de tudo - escrevia seus versos, sob a guarda do amigo Gustavo Capanema. Lendo o jornal “Valor Econômico”, dei fé que o governo federal colocou à venda o Palácio Capanema, hoje sede da FUNARTE, juntamente a outros 2262 imóveis públicos, na capital fluminense. Na reportagem, lê-se que o prédio está listado com uma das “estrelas” do feirão de vendas de imóveis públicos administrados pelo governo federal. Mais uma tragédia no céu! Relendo “Claro Enigma”, veio-me a dor de perda ou algo assim: “A máquina do mundo me convidou a aceitar o que eu não quis.” E agora, José?
ÁGRAFO, O FILÓSOFO POETA DO BAIRRO DE PINHEIROS / JOÃO SCORTECCI
Ágrafo era um “grafo”. Mutável e finito. Um poeta da oralidade: do estado oral. Seus versos nunca – em tempo algum – foram escritos e – muito menos – impressos. Tudo invenção da cabeça de doido ou quase isso. Era filho de um polímata, de nome Arquimedes, e de Vértices, uma récita. Ágrafo gostava de declamar poesia e contar histórias. Durante muitos anos, ele e sua mãe foram da trupe das palavras soltas, do Largo da Batata, no bairro Pinheiros, na capital paulista. Eu o chamava, carinhosamente, de “filósofo”. Depois que Vértices morreu – de nó nas tripas –, Ágrafo calou-se de tristeza e foi embora de tudo. Perdeu-se! Bebia e usava drogas. Vivia me pregando sustos. Abria o meu carro – um Monza Hatch, que ficava estacionado na Rua Mateus Grou – e dormia no banco de trás. Ágrafo – aquele que nunca teve representação escrita – morava num cortiço da Rua Cardeal Arco Verde, cheio de escadas e portas, próximo à Praça Benedito Calixto. O local não existe mais. Foi demolido. Ágrafo esteve preso, pois, durante alguns anos, vendeu filmes piratas numa barraca de camelô, na Rua Teodoro Sampaio. Adorava histórias da Grécia Antiga. “Paideia!”, dizia sempre em seus versos de rua. O termo "paideia" deriva da palavra grega "paidós" (“criança”) e significa algo como a "educação das crianças" e a formação de um cidadão perfeito e completo, capaz de liderar e ser liderado e desempenhar um papel positivo na sociedade. Certa vez, insisti para que publicasse um livro com seus melhores poemas. Disse: “Não!” E justificava: “Gosto da oralidade da vida.” Num sábado de julho, bêbado, caiu e rolou do alto da escada, bateu a cabeça no portão de ferro do cortiço e sangrou, até à morte. Ligaram-me da delegacia de polícia. Não tinha consigo documento algum de identidade, apenas um cartão da editora. Ágrafo – o filósofo poeta – foi enterrado como indigente. Fiz – na época – o que foi possível fazer. Tinha trinta e poucos anos e, no sangue, o domínio da oralidade poética. Mutável e finito. Hoje relendo um post sobre a Grécia Antiga reencontrei no texto o conceito de “Paideia” e, adiante, no melhor das lembranças, Ágrafo, o filho de Arquimedes e Vértices. Bons tempos! Pinheiros – depois de 40 anos – anda triste, diferente e vertical. Os sobrados – os poucos que ainda restam – estão sendo demolidos. Os amigos de 40 anos – poetas da oralidade e contadores de causos – morreram nesta vida. Eu – teimoso que sou – continuo acreditando na “paideia” do impossível, de fazer da vida um poema sem-fim.
AKASHA E O PENTAGRAMA DA ESTRELA / JOÃO SCORTECCI
No espaço do cosmo - akasha, amuleto do universo - e de proteção contra os demônios. Uma estrela, guardiã da noite, deusa do portal da boca do buraco de minhoca. Nós os navegantes! Um colar - de traços de luz - de linhas de cinco pontas. Akasha, éter e fluido cósmico do pentagrama da vida! Amuleto antimaldade. O éter do hausto divino. Casulo onde estão armazenados todos os conhecimentos e feitos humanos, desde os primórdios do nada absoluto e da criação. Quem somos nós? De onde viemos e para onde vamos? Pentagrama dos cinco elementos da natureza: Ar, Fogo, Água, Terra e Akasha: espírito, sopro e alma. Akasha - princípio original dos sentidos: audição, visão, tato, cheiro e paladar. Akasha e os ciclos da vida: nascimento, infância, maturidade, velhice e morte. No espaço do cosmo - o amuleto - de proteção contra os demônios. Na figura do pássaro ferido - que devora minhocas - o éter do hausto divino e fundo - perdendo-se livre - no abismo do sopro e da alma. Akasha - amuleto - no corpo do espírito. “Quem - de onde - para onde vamos?” 
ALENCAR, GRANJA CASTELO, MESSEJANA E ASAS DA GRAÚNA / JOÃO SCORTECCI
A biografia do padre, jornalista e político cearense José Martiniano Pereira de Alencar (1794-1860) é de tirar o fôlego. Tomou parte na Revolução Pernambucana, que levou a Capitania de Pernambuco a declarar sua separação da Colônia e a proclamar uma República, em março de 1817, e na Confederação do Equador, movimento revolucionário de caráter republicano e separatista, que eclodiu em julho de 1824. Foi senador pela província do Ceará, de 1832 até sua morte, e, durante o mandato, foi também presidente da província do Ceará por duas vezes: de 1834 a 1837 e de 1840 a 1841. Em 1834, fundou, na cidade de Fortaleza, a loja maçônica "União e Beneficência". Mesmo sendo padre, teve, com sua prima Ana Josefina de Alencar, 13 filhos, dentre eles, o escritor José Martiniano de Alencar e o diplomata Leonel Martiniano de Alencar.
O escritor e político José de Alencar (1829-1877) foi o primogênito do casal. Teve sua paternidade reconhecida em 1859, por meio de uma "Escritura de Reconhecimento e Perfilhação de Filhos Espúrios”. Em 1840, com 11 anos de idade, transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. Em 1844, matriculou-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo, iniciando o curso em 1846. Fundou, na época, a revista “Ensaios Literários”, onde publicou o artigo “Questões de estilo”. Em 1850, formou-se em Direito, e, em 1854, estreou como folhetinista no jornal “Correio Mercantil”. É considerado o fundador do romance de temática nacional. Foi notória a sua tenaz defesa da escravidão no Brasil, quando era ministro da Justiça do “Gabinete Itaboraí”, no reinado de Pedro II, ministério formado pelo Partido Conservador em 16 de julho de 1868 e dissolvido em 29 de setembro de 1870.
A obra literária de Alencar é grandiosa. Destacam-se os romances: “O Guarani”, “Cinco Minutos”, “A viuvinha”, “Iracema”, “A pata da gazela” e “Senhora”. Em 1967, quando visitava a Granja Castelo, da tia Lucinha Dummar, na Lagoa de Messejana, em Fortaleza, também visitei, pela primeira vez, a casa de José de Alencar, onde o escritor morou desde a infância até 1840. A sede da Granja Castelo beira a lagoa, aos olhos de Iracema, a “virgem dos lábios de mel” e de "cabelos tão escuros como a asa da graúna". Hoje, 12 de dezembro, aniversário de morte de Alencar, patrono da cadeira número 23, por escolha de Machado de Assis, fundador dessa cadeira e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
ALMOÇO COM ARTUR DE AZEVEDO / JOÃO SCORTECCI
Na mesma época que me tornei editor de livros, no ano de 1982, abri um dos primeiros restaurantes “self-service” da cidade de São Paulo. Chamava-se “Almoço em Casa”. Ficava na Rua Artur de Azevedo, nº 1129, no bairro de Pinheiros, e funcionou durante dois anos. A casa foi importante no início da vida de empresário. Pagava as contas! Lembro-me de que, na época, o nome da rua – em homenagem ao dramaturgo, poeta, contista, prosador, comediógrafo e jornalista Artur de Azevedo (1855-1908) – foi um sinal “cultural” na hora da escolha do local. “Almoço em Casa” ficava a três quarteirões da editora, na loja 13 da Galeria Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, nº 1704. Artur, com seu irmão, o escritor Aluísio Azevedo (1857-1913), foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Era um apaixonado pelo teatro – um comediógrafo –, tendo encenado mais de cem peças no Brasil e em Portugal. Artur foi um dos apoiadores da criação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (na Cinelândia, centro da cidade do Rio de Janeiro), inaugurado em 1909, poucos meses depois de sua morte. No dia do seu aniversário de 166 anos, em 7 de julho de 2021, sussurrou-me, o verso: “Ai, quem me dera, em verso aprimorado,/ saber reproduzir tão lindas cenas!” Voltei no tempo. No melhor das minhas lembranças do ano de 1982, pude – liberto – reviver cenas de mim mesmo. Eu tinha, então, 26 anos e havia largado o emprego, para viver – literalmente – de poesia. Eu escolhendo feijão, lavando arroz, cortando cebolas, descascando batatas e pepinos, moendo carne e olhando, pelos olhos do comediógrafo, o tempo veloz, no relógio das horas. “Ai, quem me dera” a releitura do sonho! Quem me dera “reproduzir tão lindas cenas” do eu de mim e comemorar os 40 anos do “Almoço em Casa”, com o poeta Artur de Azevedo!
ANJO TORTO E O ALERTA DE ROBERT DARNTON / JOÃO SCORTECCI

Censores em ação” é um dos livros de Robert Darnton (Nova Iorque, 1939), publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, em 2016. Professor, bibliotecário e doutor em História, Darnton é um respeitado historiador cultural e ex-diretor da Biblioteca de Harvard, que teve parte de seu acervo digitalizado pelo Google.
Em “Censores em ação”, Darnton recria três momentos em que a censura restringiu a expressão literária. Na França, no século XVIII, censores, autores e livreiros colaboravam no fazer literário ao navegar na intricada cultura do privilégio em torno da realeza. Em 1857, na Índia, o Rajá britânico empreendeu uma investigação minuciosa dos aspectos da vida no país, transformando julgamentos literários em sentenças de prisão. Na Alemanha Oriental, a censura era tão onipresente que se instaurou na mente dos escritores como autocensura, com sequelas visíveis para a literatura nacional.
Hoje recebi um link do globo.com de uma entrevista com Darnton, conduzida pelo jornalista Bolívar Torres, com a manchete “Biblioteca Nacional precisa ser cautelosa com o Google”. Relembrando o caso da digitalização de parte do acervo da Biblioteca de Harvard, Darnton alerta: “O diabo está nos detalhes”.
É o alerta também para a Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que estuda uma parceria com o Google para digitalizar seu acervo. O crucial, diz ele, é evitar qualquer acordo que limite o uso de suas obras raras. O slogan do Google, “Don’t be evil” (não seja mau), lembra badalos de sinos ou sirenes giroflex, que costumam anunciar a chegada de um anjo torto e talvez de mais uma tragédia humana.


ANTIPAS, HERODIAS, SALOMÉ E A CABEÇA DE JOÃO BATISTA NUMA BANDEJA DE PRATA / JOÃO SCORTECCI
Salomé – sobrinha de Herodes Antipas (20 a.C. – 39 d.C.), tetrarca da Galileia e da Pereia; neta de Herodes, o Grande; filha de Herodes Filipe (meio-irmão de Antipas) e Herodias (ou Herodíade) – é apontada como responsável pela execução de João Batista, o “Misericordioso Abençoador”. João tinha muitos seguidores e pregava dizendo que deveriam exercer a virtude e a retidão. Usava o batismo – batizou Jesus no Rio Jordão – como símbolo de purificação da alma. A pedido de Salomé, por intervenção de Herodias, sua mãe, João foi aprisionado na Pereia, região localizada a leste do Mar Morto, na Jordânia, e foi levado para a fortaleza de Machaerus, onde foi mantido por dez meses, até o dia de sua morte. Salomé recebeu de Antipas a cabeça de João, que lhe foi entregue numa bandeja de prata. O historiador e apologista judaico-romano Flávio Josefo (37 ou 38 – ca. 100) registrou “in loco” a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., pelas tropas do imperador romano Vespasiano (Tito Flávio Vespasiano, 9 d.C – 79 d.C). As obras desse historiador – “A Guerra dos Judeus” e “Antiguidades Judaicas” – fornecem um importante panorama sobre o judaísmo no século I, bem como sobre o período em que ocorreu a separação definitiva entre cristianismo e judaísmo. Flávio Josefo relaciona a derrota do exército de Antipas, frente a Aretas IV, rei da Nabateia (tribo árabe do Sinai, que existiu durante a Antiguidade Clássica e foi anexada pelo Império Romano no ano 106 d.C.), com a prisão e morte de João Batista. Salomé, bailarina que era, depois de dançar aos olhos do rei, ganhou o direito de fazer um pedido inusitado. Foi quando interveio Herodias, sua mãe, que odiava João Batista, pois ele a acusava de adultério, por ter deixado seu esposo, Herodes Filipe, para juntar-se ao irmão dele, Herodes Antipas. Herodias, então, instruiu Salomé para que pedisse ao rei a cabeça de João Batista, e ela assim o fez. Para poder casar com Herodias, Antipas teve de se divorciar da sua primeira esposa, Fasélia, filha do rei Aretas IV, que, humilhado e inconformado, derrotou-o na guerra. Em 1549, o teólogo e dramaturgo suíço Johannes Aal (Johannes Anguilla, 1500-1551) encenou, pela primeira vez, em Berna, capital da Suíça, uma tragédia sobre a vida de João Batista. A tragédia – em quatro atos – ridiculariza a nobreza e a corte, bem como a curiosidade, a paixão pela elegância, a loquacidade e a arte de sedução das mulheres, referindo-se, provavelmente, a Herodias, que, na trama da história, provocou guerras, instigou separações e, de quebra, colocou a cabeça de João Batista, o “Misericordioso Abençoador”, numa bandeja de prata.
AO POVO DO MEU CEARÁ: CEGO ADERALDO, PEDRO II E O FAROL DO MUCURIPE - OS OLHOS DO MAR / JOÃO SCORTECCI
Todo cearense - de nascimento, coração ou de passagem repentina - tem paixão “arretada” pelo Farol do Mucuripe. Amor não se explica. Vive-se: desbragadamente! Erguido com alvenaria, madeira e ferro na década de 1840, funcionou por quase 100 anos. Em 1846, foi atingido por um incêndio e ficou adormecido por 45 anos, até o ano de 1871.
Dizem - rimas e repentes de poeta - que, durante o seu silêncio e no melhor da peleja, foi “Cego Aderaldo” (Aderaldo Ferreira de Araújo, 1878-1967) quem conduziu a direção segura das velas. É o que dizem!
Cego Aderaldo nasceu em Quixadá, terra do meu avô paterno João Batista (O “Batista da Light”) e morada literária da doce e inesquecível Rachel de Queiroz (1910-2003). O Farol do Mucuripe - são os olhos do mar (pessoal do Ceará) - piscava a todo minuto, e sua luz “amarelada” era visível a 24 quilômetros de distância. Consolidou-se como um importante marco da cidade, e sua estampa de “cidade do sol” figura - desde o século XIX - no brasão do estado do Ceará.
Em 1958, obsoleto, o farol foi desativado. Mais de 20 anos depois, ganhou uma revitalização e foi - novamente – esquecido. Hoje, está abandonado. Em 2017, a cidade de Fortaleza ganhou um novo farol, no bairro Vicente Pinzón (Vicente Yáñez Pinzón, navegador e explorador espanhol), com 72 metros de altura e três vezes mais alto que o do Mucuripe. Segundo a Marinha, o novo farol conserva o aparelho lenticular do farol anterior, de alto valor histórico e simbólico, por ter pertencido a Dom Pedro II.
"Ele é o castelo tomado pelos meninos da praia, que, na falta de opções de lazer, fingem ser piratas e escorregam pelas muretas pedregosas", escreveu a jornalista cearense Beatriz Jucá, no "El País - Brasil".
O texto de Beatriz - de passagem repentina - fez-me lembrar da abertura da obra “Capitães da Areia” do escritor baiano Jorge Amado. Aqui com os meus ossos: aporrinhação é pouco! Aqui - até cabe - vassoura de bruxa. Até tu, Pinzón?

31.10.2021
APOCATÁSTASE E OS MITOS APOCALÍPTICOS / JOÃO SCORTECCI
Dos mitos abundantes! Na obra “História Universal da Destruição dos Livros” do poeta e escritor venezuelano Fernando Baez: “Em busca de uma teoria sobre a destruição de livros, descobri, por acaso, que são abundantes os mitos que relatam cataclismos cósmicos para explicar a origem ou anunciar o fim do mundo. Observei que todas as civilizações entendem sua origem e seu fim como um mito de destruição, contraposto ao da criação, num modelo cujo eixo é o eterno retorno.
A apocatástase (volta a um estado ou condição anterior ou inicial) tem sido um recurso para defender o fim da história e o início da eternidade.” Destruição e criação - parecem ser - além da existência e da própria sobrevivência as duas únicas alternativas do universo humano.
Aqui cabe a máxima: “os deuses desconhecem os segredos da imortalidade.” 
Voltando ao “Prólogo” do livro do Fernando Baez sobre sistêmica “roleta” de destruição dos livros: “Alguns porque acreditavam que, eliminando os vestígios do pensamento de uma determinada época, estariam promovendo a superação do conhecimento humano. Outros, mais modestos, lançavam ao fogo suas obras simplesmente por vergonha do que haviam escrito. No entanto, os principais destruidores de livros sempre tiveram como maior motivação o desejo de aniquilar o pensamento livre. Os conquistadores atribuíam à queima da biblioteca do inimigo a consagração de sua vitória.” 
APOLO, HOMERO E PLATÃO: REPÚBLICA DO MITO DA CAVERNA / JOÃO SCORTECCI
O deus grego Apolo era filho de Zeus e Leto e irmão gêmeo de Ártemis. Foi Homero (928 – 898 a.C.) – um aedo e personificação coletiva da memória da Grécia Antiga – quem o imortalizou na “Ilíada”, como sendo o deus da divina distância e o protetor dos céus. Foi representado vestido de nu e também com animais simbólicos: a serpente, o corvo e o grifo, criatura alada com cabeça e asas de águia e corpo de leão. Apolo é do bem e do mal – lados que se completam – e, até hoje, voa na cabeça e no destino do tempo. Na condição de protetor dos céus, Apollon pisou na Lua no ano da graça de 1969, na epopeia alada do grifo 11. Eu, menino de tudo, 13 anos de idade, colado na TV preto e branco da casa do meu tio Zanzão, sonhava, em um dia qualquer de futuro, fazer algo igual à epopeia de Neil Armstrong (1930-2012) e compor – por fim – meus últimos versos para a “Ilíada”, de Homero. Algo assim, às avessas: "Um gigantesco passo para um homem, um pequeno salto para a humanidade". A “Ilíada” é constituída por 15.693 versos em hexâmetro datílico, forma métrica tradicional da poesia épica grega. Com origem na tradição oral, os versos foram compilados posteriormente numa versão escrita, no século VI a.C., em Atenas. O poema foi então dividido em 24 cantos – divisão atribuída aos estudiosos da Biblioteca de Alexandria –, cada canto correspondendo a uma letra do alfabeto grego. Tudo isso para então virar a página, ou melhor, voltar ao início da leitura do dia e “desvendar” o que o filósofo e matemático grego Platão (428-347 a.C.) quer dizer com a alegoria do “Mito da Caverna”. É uma tentativa de explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos, aprisionados pelos sentidos e pelos preconceitos que impedem o conhecimento da verdade. A alegoria faz parte do “Livro VII”, de sua obra “A República”. “Mito” e “logos” são termos que evoluíram ao longo da história desde a Grécia Antiga. Nos tempos de Homero e Hesíodo (séc. VIII a.C.), esses termos eram sinônimos, com significado de “conto” ou “história”. O livro “A República” foi escrito sob a forma de diálogo sobre o conhecimento, a linguagem e a educação, para a construção de um Estado ideal. O “Mito da Caverna” (conhecido também como “Parábola da Caverna”) é um dos textos filosóficos mais debatidos e conhecidos pela humanidade. Nele, estão as bases do pensamento platônico, o conceito de senso comum em oposição ao senso crítico e à busca pelo conhecimento verdadeiro. A vida dentro da caverna – dentro da caixinha, na percepção da web de hoje – representa o mundo sensível, aquele experimentado a partir dos sentidos, onde reside a falsa percepção da realidade, enquanto a saída da caverna representa a busca pela verdade, o chamado "mundo inteligível", alcançado apenas pelo uso da razão. Na alegoria, as pessoas estão acorrentadas, sem poderem se mover, forçadas a olhar somente a parede do fundo da caverna, sem poder ver umas às outras ou a si mesmas. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam "homens e outras coisas viventes". O texto é longo e interessante. Oportuno. Para pensar – além da serpente, do corvo e do grifo – como o ser humano pode se libertar da condição mental da escuridão, que o aprisiona na caverna, sufoca-o nas alegorias da ignorância e o impede de ver os céus.

30.04.2022
ARACATACA, GABO E O LIVRO DA SOLIDÃO / JOÃO SCORTECCI
O escritor “Gabo” (Gabriel García Márquez, 1927-2014) nasceu em Aracataca, na Colômbia, no ano da graça de 1927. Lendo sua biografia, travei de paixão e curiosidade pelo nome de sua cidade natal. Acontece! Nome forte, sonoro e marcante. Amor inesquecível! Aracataca, com população atual de pouco mais de 40 mil habitantes, fica no norte da Colômbia e é conhecida como “república de bananas”, porque, no final do século XIX, a United Fruit Company colonizou a terra e cultivou bananas na região. Em 2006, houve um referendo para mudar o nome da cidade para “Aracataca-Macondo”, incluindo o nome da cidade fictícia, onde se passa a história da família Buendía, protagonista da obra “Cien Años de Soledad” (“Cem anos de solidão”), de García Márquez. A população, porém, não compareceu às urnas – felizmente –, e o assunto foi esquecido. García Márquez é considerado um dos escritores mais importantes do século XX, traduzido em 36 idiomas. Pelo conjunto da obra, foi laureado com o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura, em 1972, e o Nobel de Literatura, em 1982. Toda a sua obra – conforme depoimento do autor – foi um esforço em escrever um único livro: “O livro da solidão”. Morou em Barranquilla, Cartagena das Índias, Nova York – onde foi jornalista correspondente – e Cidade do México, onde morreu, vítima de uma pneumonia, aos 87 anos de idade. Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em 2007, “Cien Años de Soledad” foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes (1547-1616). A primeira edição desse livro foi publicada em Buenos Aires, Argentina, em maio de 1967, pela Editorial Sudamericana (fundada em 1939), com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares. Desde 1998, a Sudamericana é um selo da Penguin Random House, pertencente à multinacional Bertelsmann (uma das maiores empresas de mídia do mundo), com sede em Gütersloh, na Alemanha. Um ano depois do lançamento na Argentina, “Cem anos de solidão” foi publicado no Brasil, pela Editora Sabiá, de Fernando Sabino e Rubem Braga, com tradução de Eliane Zagury. Um marco na história editorial brasileira.
ARIANO SUASSUNA E A POESIA: TUDO PODE ACONTECER / JOÃO SCORTECCI
O poeta, romancista, dramaturgo e acadêmico Ariano Suassuna (Ariano Vilar Suassuna, 16.06.1927- 23.07.2014), natural da cidade de Parahyba do Norte, hoje João Pessoa, capital do estado da Paraíba, nasceu nas dependências do Palácio da Redenção, sede do Executivo paraibano, pois, na época, seu pai, João Suassuna, era governador daquele estado. Durante o movimento armado que culminou com a Revolução de 1930, quando Ariano Suassuna tinha três anos de idade, seu pai foi assassinado, por motivos políticos, na cidade do Rio de Janeiro, e a família mudou-se para Taperoá, na região paraibana de Campina Grande, onde morou de 1933 a 1937. O assassinato de João Suassuna ocorreu como desdobramento da comoção posterior ao assassinato de João Pessoa (1878-1930), que foi governador da Paraíba e candidato a Vice-Presidente do Brasil, na chapa de Getúlio Vargas. Ariano Suassuna atribuía à família Pessoa a encomenda do assassinato de seu pai, por meio da contratação do pistoleiro Miguel Laves de Souza, que atirou na vítima pelas costas. Por esse motivo, não concordava com a alteração do nome da cidade natal, em homenagem ao governador assassinado. Em 1942, mudou-se para Recife, capital pernambucana, onde concluiu os estudos secundários e o de Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito. Ariano Suassuna fez sua estreia literária em 1945, aos 18 anos de idade, com o poema "Noturno", publicado no “Jornal do Commercio”, de Recife. Dez anos depois, em 1955, publicou “Auto da Compadecida”, sua obra mais conhecida, que o projetou para o cenário nacional. Em 1962, o crítico teatral Sábato Magaldi afirmou que a peça é "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro". Suassuna foi um dos idealizadores do Movimento Armorial, iniciativa artística cujo objetivo era criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro. Nas palavras de seu idealizador, “A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos 'folhetos' do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus 'cantares', e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo romanceiro relacionados.” Ariano Suassuna foi Secretário de Cultura de Pernambuco (1994-1998) e Secretário de Assessoria do Governador Eduardo Campos. Publicou mais de 30 livros, entre peças de teatro, romances, poemas e obras acadêmicas. Em seu livro “Iniciação à Estética” (1975), assim definiu poesia: “... é uma linguagem com predominância da imagem e da metáfora sobre a precisão e a clareza”. A literatura, incluindo a poesia lírica ou épica, é uma das sete artes, conforme classificação até o início do século XX. Por meio da linguagem humana utilizada com fins estéticos ou críticos, a literatura representa um mundo em que tudo pode acontecer, dependendo – sempre – da imaginação e criatividade de quem escreve ou lê.
AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS DA LUSITÂNIA / JOÃO SCORTECCI
Meu pai Luiz, menino de tudo, aluno do curso ginasial do Colégio Cearense, na Fortaleza dos anos 1930, recebeu o castigo – nunca nos contou o que havia aprontado – de decorar os 100 primeiros versos do poema épico “Os Lusíadas”, do poeta português Luís Vaz de Camões. “O caolho?” “Sim. Ele mesmo. Bem que ele podia ter morrido – afogado – no naufrágio em Goa!”, brincava sempre. Camões salvou-se do naufrágio, a nado, carregando numa das mãos o manuscrito de “Os Lusíadas”. É o que dizem! Antes mesmo de conhecer a obra, em si, eu conhecia a história do poeta cego do olho direito, que meu pai contava, recontava, repetia por mais de mil vezes. “Pai, você decorou mesmo os 100 primeiros versos do caolho?” “Sim.” “Ainda lembra?” “Só dos três primeiros: “As armas e os barões assinalados / Que, da ocidental praia lusitana, / Por mares nunca de antes navegados...’” Papai gostava de contar a história e de declamar – em seguida – os três primeiros versos da epopeia. Contava, também, que um dia “recitou” versos do poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), para o então Presidente da República, Getúlio Vargas. Provavelmente uma brincadeira mentirosa. O lisboeta Luís Vaz de Camões (1524-1580) é considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Frequentou a corte de D. João III, iniciou sua carreira literária como poeta lírico e se envolveu, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar a vida na boemia. Por causa de um amor frustrado, autoexilou-se na África, alistou-se como militar e perdeu um olho em batalha naval no Estreito de Gibraltar. Voltou para Portugal, feriu um servo do Paço, foi preso, depois perdoado. Partiu para o Oriente, foi preso várias vezes e lá escreveu “Os Lusíadas”, publicado, em 1572, quando o poeta retornou a Portugal. Esse poema épico é composto por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia, pelo navegador e explorador português Vasco da Gama (1469-1524), em torno da qual se vão evocando outros episódios da história de Portugal, glorificando o povo lusitano. Camões viveu seus anos finais num quarto de uma casa próxima da Igreja de Sant’Anna, em Lisboa, "sem um trapo para se cobrir", segundo a tradição. Morreu no dia 10 de junho de 1580, aos 56 anos de idade, e foi enterrado numa campa rasa naquela igreja. Depois do grande terremoto de 1755, que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas – todas frustradas – de se reencontrarem os despojos de Camões. O sumiço de sua ossada até hoje é um mistério. A ossada que foi depositada em 1880, numa tumba no Mosteiro dos Jerônimos, segundo historiadores, não pertence a Camões. Sua obra, porém, continua sendo lida, estudada e celebrada, como um marco fundador da língua portuguesa e como patrimônio do povo português e da literatura ocidental.
AS FLORES DO JARDIM DO PUBLICITÁRIO CARLITO MAIA / JOÃO SCORTECCI
O publicitário Carlito Maia (Carlos Maia de Souza, 1924-2002) nasceu na cidade de Lavras, região do Campo das Vertentes, estado de Minas Gerais e “veio ao mundo a passeio, não em viagem de negócios”. Mudou-se para a cidade de São Paulo no início dos anos 1930 e se tornou um dos mais conhecidos publicitários do país. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, em 1980, e autor dos slogans "Lula-lá", "OPTei" e “Sem medo de ser feliz”. Segundo seu depoimento, foi "moleque, lavador de xícaras de café, rebelde, office-boy, contestador, reservista de 2ª categoria do Exército, antifascista, sargento da FAB, boêmio, despachante policial, picareta, corretor de seguros, “clochard”, ajudante de despachante aduaneiro, “bon vivant”, tradutor público juramentado..." Em 1954, ingressou na Escola de Propaganda do Museu de Arte Moderna. Trabalhou nas agências McCann-Erickson, Atlas, Norton, Alcântara Machado, Magaldi, Maia & Prosperi, P. A. Nascimento, Estúdio 13, Esquire e, finalmente, na Rede Globo, onde permaneceu por mais de 20 anos. Em 1978, foi eleito o "Publicitário do Ano". Entre suas máximas, figuram: “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito”, “Brasil? Fraude explica” e “Nós não precisamos de muitas coisas, só uns dos outros”. São dele também as expressões “Tremendão”, “Ternurinha”, “Jovem Guarda” e “É uma brasa, mora!”, esta usada pela primeira vez como título de um show do cantor e compositor, Roberto Carlos. Carlito Maia notabilizou-se por enviar flores para uma infinidade de estreias de espetáculos teatrais, lançamentos de livros e vernissages. Recebi o meu primeiro “buquê” de flores, belíssimo e inesquecível, no ano de 1987, quando do lançamento do livro de poesias “A Morte e o Corpo”, e o segundo e último, em 1989, quando do lançamento do volume I da “Antologia Poética de Pinheiros”, que circulou durante dez anos e foi destaque na história da Scortecci Editora. Na minha máxima de que a vida é um poema sem fim, até hoje figura uma de suas "deixas": “Evite acidentes, faça tudo de propósito.”
Assim seja!

29.08.2021
AS VOLUNTÁRIAS SOCORRISTAS E SUN TZU / JOÃO SCORTECCI
Florence Nightingale (Florença, Itália, 1820-1910) é considerada a fundadora da enfermagem moderna, tendo obtido projeção mundial depois de sua participação como voluntária na Guerra da Criméia, em 1854. Nightingale - de família cristã e rica - rompeu o preconceito que existia em torno da participação da mulher no Exército. Florence falava francês, latim, italiano e alemão. Com o “Sistema Nigthingale”, estabeleceu as diretrizes e caminho para a enfermagem moderna. Seu nome figura na lista das 100 mulheres que marcaram a história mundial.
Hoje, Dia dos Veteranos de Guerra, estava lendo sobre a participação de 67 enfermeiras brasileiras, na Segunda Guerra Mundial. Para atuarem no cenário da guerra - ambiente essencialmente masculino - foi criado o Decreto-Lei nº 6097, de 13 de dezembro de 1943, com o Quadro de Enfermeiras de Emergência da Reserva do Exército (QEERE), cujas candidatas deveriam ser brasileiras natas, solteiras ou viúvas, com idade entre 22 e 45 anos.
As “voluntárias socorristas” receberam curso de três meses ministrado pela Cruz Vermelha Brasileira. Destaque para a Tenente Carlota Mello (1914-2020), heroína da Força Expedicionária Brasileira, em solo italiano. Carlota Mello trabalhou no Hospital do 5º Exército Americano, em Nápoles, socorrendo soldados feridos. Muitas enfermeiras compartilhavam o passado militar no sangue: eram filhas, netas ou sobrinhas de militares. Algumas descendiam de heróis da Guerra do Paraguai, como Aracy Sampaio, Lúcia Osório e Virgínia Portocarrero.
Sou leitor “voraz” da literatura militar sobre o papel e a importância das “intendências” na arte das guerras. Desde muito cedo - ainda criança, brincando com o meu exército de tampinhas - aprendi que “lutas” não se ganham sem retaguarda eficiente, logística e intendência. Mestre Sun Tzu em “A arte da guerra”, no capítulo das movimentações, nos alerta: “Aquele que por primeiro avaliar a distância do perto e do longe vencerá”.

18.07.2021

AUGUSTO MEYER E FÁBIO LUCAS - 90 ANOS / JOÃO SCORTECCI
Hoje é aniversário de morte do poeta, jornalista, memorialista e acadêmico Augusto Meyer (1902-1970). Estreou na literatura em 1920, com o livro de poesias “A ilusão querida”, mas foi com os livros ”Coração verde”, “Giraluz” e “Poemas de Bilu” que conquistou renome nacional. Em 1937, convidado por Getúlio Vargas - por iniciativa do ministro Gustavo Capanema - criou o INL - Instituto Nacional do Livro e foi seu diretor durante trinta anos. Em 1947, Augusto Meyer, recebeu o “Prêmio Filipe de Oliveira” na categoria Memórias e, em 1950, o “Prêmio Machado de Assis” da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra literária. Em 1960, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e Academia Brasileira de Filologia. O “INL - Instituto Nacional do Livro” (Decreto-Lei nº 93, de 21/09/1937) objetivava elaborar uma enciclopédia e dicionário da língua brasileira que retratasse a identidade e a memória nacional e apoiar a implantação de bibliotecas públicas em todo o Brasil. Sua finalidade era propiciar meios para a produção, o aprimoramento do livro, melhoria dos serviços bibliotecários e a criação de bibliotecas como centros de formação da personalidade, de compreensão do mundo, de autoeducação e de centros de cultura.
Conheci o escritor, crítico literário e acadêmico mineiro Fábio Lucas, no ano de 1985, quando assumiu a direção do INL. Fábio Lucas ficou no cargo por dois anos. Sua passagem pelo INL foi frustrante. Brasília, para quem não conhece, não é fácil, principalmente nas áreas da cultura e da educação. Nossa amizade começou - coincidência ou não - quando me confessou: “O INL não dá.” Depois estivemos juntos em diretorias da UBE, no Prêmio Juca Pato e em várias publicações. Em 1994, selo Scortecci/UBE, publicamos o livro-homenagem ao escritor Décio de Almeida Prado (1917-2000). Prefaciou os meus livros: “Água e Sal - Fragmentos de Tempo Algum” e “Na Linha do Cerol - Reminiscências Poéticas”. Fabio Lucas, torcedor do Galo Mineiro, no próximo dia 27 de julho de 2021, completa 90 anos de idade. Parabéns!
AZEVEDO MARQUES, "CORREIO PAULISTANO" E OS "FUTURISTAS ENDIABRADOS" DE 22 / JOÃO SCORTECCI
“Correio Paulistano” foi o primeiro jornal diário paulista e o terceiro do Brasil. Teve como fundador o proprietário da Typographia Imparcial (sucessora da Typographia Liberal, de 1854 até 1888), de Azevedo Marques (Joaquim Roberto de Azevedo Marques, 1824-1892), e, como primeiro redator, Pedro Taques de Almeida Alvim. O jornal nasceu liberal e teve posições avançadas, em sua época. Posteriormente, aderiu ao Partido Conservador e, após a criação do Partido Republicano Paulista (PRP), passou a ser seu órgão oficial, em junho de 1890.
Durante o período imperial, foi um forte formador de opinião pública. Notabilizou-se pela defesa da abolição da escravatura e da causa republicana. Mais tarde, apesar de ser dirigido e sustentado por oligarquias tradicionalistas, foi o único, entre os grandes jornais de São Paulo, a apoiar a Semana de Arte Moderna de 1922, reconhecendo o vanguardismo do movimento modernista - enquanto os demais jornais da época se referiam aos modernistas como "subversores da arte", "espíritos cretinos e débeis" ou "futuristas endiabrados".
Vale relembrar as primeiras palavras do jornal a respeito de seu objetivo: “... fundar uma tribuna livre, aberta a todas as aspirações e a todas as queixas, sem restrições na esfera do pensamento religioso ou partidário”. O jornal circulou de 1854 até 1963, encerrando suas atividades com 33.882 edições veiculadas na cidade. O prédio do “Correio Paulistano”, editorial e gráfico, ficava na esquina da Rua Líbero Badaró com o Largo de São Bento, no centro histórico da capital paulista.
Além do pioneirismo liberal e de posições avançadas para a época de sua fundação, foi: o primeiro jornal a ser impresso em máquinas de aço, abandonando a mão de obra escrava; o primeiro com oficinas a vapor; o primeiro publicado às segundas-feiras; o primeiro a ser impresso em uma máquina rotativa; o primeiro no formato Standard, 600 x 750 mm; e o primeiro a contratar fotógrafos profissionais para ilustrar suas matérias.

AZUL É A COR DA POESIA E DA FLOR DOS POETAS / JOÃO SCORTECCI
O poeta, místico e filósofo alemão Novalis (Georg Philipp Friedrich von Hardenberg, 1772-1801) é um dos mais importantes representantes do primeiro romantismo alemão do final do século XVIII. Por meio de sua inacabada história de amadurecimento, intitulada “Heinrich von Ofterdingen” (1802), Novalis criou um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico, o motivo da "flor azul" (“Blaue Blume”). “Blaue Blume” significa desejo, amor e a luta metafísica pelo Infinito, simbolizando o anseio pela busca de um ideal inalcançável e de uma unidade perdida, e, ainda, a esperança pela reunião num paraíso celeste e a revelação misteriosa da beleza das coisas, que desafia o racionalismo e é comunicada na arte. Além de ser um símbolo da nostalgia romântica, a flor azul é associada ao místico, ao ato de conquistar algo impossível, ao que é inatingível. E pode também ser associada aos momentos de luto e morte. Percebi Lobélia, ainda menina-moça. Uma herbácea pálida e triste. Nativa da África do Sul, da família Campanulaceae, que imigrou para o Brasil no início do ano de 1972. Lobélia gostava de escrever poesia e carregava nos olhos o azul roxo de pétalas. Parecia – no cenário urbano – procurar desconfianças e versos inacabados. Coisas de poeta! Carregava – inadvertidamente – papel, caneta e perfume da noite. Escrevia e vigiava o silêncio do largo da igreja de Santa Cecília. Escolhia suas próprias sombras e despertava – quando desejava – paixões alheias. Era o seu melhor amor. Sobrevivia cunhada na terra seca do canteiro do paredão da igreja. Única! Quando chegou o início do outono, secou e desapareceu na morte. Foi um luto urbano, trágico e dolorido. Outro dia – reescrevendo Novalis – lembrei-me de Lobélia, a flor azul. Não estava lá – esquecida – em lugar algum. Nem mesmo um sinal de aviso do passado. Encontrei – foi o que me deram – um piso de concreto, que cobria todo o canteiro. No ar, um forte cheiro de urina humana. Nada do poeta Novalis e muito menos de Lobélia, a flor azul do ideal inalcançável.
BALÃO BOMBA NIPÔNICO E A CHUVA DE PEIXES, NO CEARÁ DE 1945 / JOÃO SCORTECCI
Quando menino - isso no Ceará dos anos 1960 -, ganhei de presente uma coleção de livros - capa dura, três volumes - sobre a Segunda Guerra Mundial. Nem preciso dizer: li e reli sobre a epopeia, uma dúzia de vezes. Sobre a Operação Overlord e a invasão da Normandia, uma centena de vezes, talvez. Sou mesmo exagerado! Para quem não sabe - eu conto - tenho um fascínio especial pelo Império do Japão, seu povo e sua história. Acho que já vivi por lá - em outra “encadernação”. Um capítulo especial - que mereceu estudo minucioso - foi sobre os balões bomba ("Fusen Bakudan") de hidrogênio, levados pelo vento e lançados pelos japoneses durante a segunda grande guerra. Estima-se que cerca de 9.000 desses balões tenham sido lançados pelo Japão, em retaliação ao bombardeamento de Tóquio e Nagoya, pelos Estados Unidos da América do Norte. Carregavam bombas de 12,80 m de diâmetro e 548m³ de volume, detonador de 19,50 m, com tempo de queima de 1hora e 22 minutos. Quando completamente cheios, continham aproximadamente 540 m3 de hidrogênio. Verdadeiras bombas voadoras! A ideia fracassou - em parte: poucos balões conseguiram chegar à costa dos Estados Unidos e explodir. O resultado final foi ínfimo e inexpressivo, para o todo de uma guerra. A maioria dos balões perdeu-se na imensidão do oceano Pacífico. Os norte-americanos - estrategicamente - não noticiaram nos jornais os ataques com balões bomba, e os japoneses desistiram do projeto. Contei a história dos balões bomba para o meu pai Luiz, que, durante a Segunda Guerra Mundial, pertenceu ao “Regimento Sampaio” e por pouco - chegou até a embarcar num navio da marinha - não foi combatente na Itália. Foi surpresa, a minha, claro - ele saber da história dos balões bomba e contar, com sangue nos olhos, que um desses balões japoneses acabou caindo na cidade de Fortaleza. Quase perdi o fôlego! “Pai, é verdade?”. Meu papai Luiz adorava contar “causos” e o fazia como ninguém. A mesma história - a cada contação - aumentava ou diminuía de extensão ou mudava de rumo ao gosto do freguês e, principalmente, ao sabor da curiosidade alheia. “E tem mais. Você sabia que, naquele mesmo ano, alguns dias depois, choveu peixe na Praça do Ferreira, no centro da cidade?”. “Mentira! Isso é impossível”, insisti. “Verdade, eu juro.”. Deu-me, então, a explicação científica para o fenômeno, que envolve “trombas marinhas” e “fortes ventos”, graças a uma combinação de depressão na tromba e da força exercida pelos ventos, numa única direção. Contou-me, também, registros na história de chuva de rosas, sapos e pequenos animais. “E os peixes? O que foi feito deles?”, insisti. “O prefeito - é o que disseram, na época - mandou recolher tudo e incinerar.”. “Jura?”. “Juro. Não saiu nada nos jornais, e o incidente foi abafado. Falavam de uma operação secreta do “Eixo” - Alemanha Nazista, Reino da Itália e o Império do Japão - com o objetivo de então “envenenar” o povo do Ceará, como vingança ou algo assim. O Ceará foi o estado brasileiro que mais enviou soldados para lutarem na guerra. Tudo cabra macho!”. “E o balão bomba: onde está?”. “Não sei.”. “Não?”. “Tiraram fotos da chuva de peixes na Praça do Ferreira?”. “Não sei.”. “Que merda, pai!”. Minha mãe Nilce, que até então - de olho curto - escutava o embate, resmungou: “João Ricardo, não diga palavrões. É feio. Vai lavar a boca com sabão!”. “Não.”. “Então não diga mais palavrões.”, recomendou ela. “Pai, e o balão bomba de hidrogênio?”. “Já disse, não sei.”. “Porra, pai. Que merda! Santa Maria de Deus, que merda!”.
BAUDELAIRE - AS FLORES DO MAL DO MALDITO CATIVEIRO / JOÃO SCORTECCI
Charles Baudelaire: "Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão!" Hoje - 31 de agosto - aniversário de morte do poeta francês Baudelaire (Charles-Pierre Baudelaire, 1821-1867). É considerado um dos precursores do simbolismo, movimento literário da poesia e das outras artes que surgiu na França, no final do século XIX, como oposição ao realismo, ao naturalismo e ao positivismo da época.
O seu livro "Les Fleurs du mal" ("As Flores do Mal", 1857) é considerado um marco da poesia moderna. A obra, considerada na época imoral, foi atacada violentamente pela imprensa, censurada pela justiça, multada - o escritor, 300 francos, e a editora, 100 francos - e recolhida sob acusação de insulto aos bons costumes. E mais, seis poemas da obra tiveram de ser suprimidos da publicação, condição sem a qual a obra não poderia voltar a circular. Uma nova edição, acrescida de 35 poemas, foi publicada em 1861. E somente em 1924 ganhou edição completa, com os 6 poemas censurados e, em 31 de maio de 1949 - sob o impulso da “Sociedade dos Homens de Letras” - 92 anos depois - um processo diante da Corte de Cassação reabilitou Charles Baudelaire e seus editores. Baudelaire morreu de sífilis, em Paris, aos 46 anos de idade, sem a realização do projeto de uma edição final de "As flores do mal", como era o seu desejo.

“Ah! pobre! o veneno e o punhal disseram-me de ar zombeteiro: Ninguém te livrará afinal de teu maldito cativeiro." 

31.08.2021

BEIJOS ROUBADOS DE CORA CORALINA E RACHEL DE QUEIROZ / JOÃO SCORTECCI
O dia em que tudo aconteceu. O beijo roubado de Anna Lins! Não foi lá nos Becos de Goiás e nem nas águas do Rio Vermelho. Foi no dia em que Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985) perdeu o medo e virou “Cora Coralina”. Moça linda - cheia dos versos - que no dia 20 de agosto de 2021 completou 132 anos de idade. Era o ano de 1983, na sede da União Brasileira dos Escritores, quando da entrega do Prêmio Juca Pato - Intelectual do Ano. Eu, pequenino; e ela, gigante! Curvei-me quase meio metro para que ela pudesse me roubar um beijo. Poucas mulheres já ganharam o valioso troféu do Juca Pato, promovido pela UBE. Foi Cora Coralina quem puxou a fila. Depois, vieram Lygia, Rachel, Pallottini e Belinky.
Foi a escritora luso-brasileira, Dalila Teles Veras, que - contra tudo e todos - lançou a candidatura de Cora Coralina e, a duras penas, conseguiu listar as 30 assinaturas necessárias para o pleito. Uma mulher ganhando o Juca Pato - e uma poeta? Era muito! Foi um momento de ruptura importante na entidade e que marcou época.
Repeti o mesmo beijo roubado em 1992, dessa vez de Rachel de Queiroz (1910-2003), conterrânea e amiga da família. Meu avô paterno, João Batista de Paula (o Batista da Light), era da cidade de Quixadá, no Ceará, e na infância e adolescência haviam sido amigos pelo resto da vida. Rachel perguntou: “Você é neto do Batista da Light?” “Sou, sim”, respondi. “Saudade dele. O Batista era muito querido e estava sempre alegre e sorrindo", sentenciou. Rachel de Queiroz estava sentada confortavelmente em uma poltrona na sala da diretoria da UBE, da Rua 24 de maio, 250, aguardando o início da cerimônia. Curvei-me e a beijei também com todo o amor do mundo. Foi o nosso último encontro. Logo depois, Rachel adoeceu e morreu em 2003, na cidade do Rio de Janeiro. Beijos roubados são assim: perigosos, eternos e inesquecíveis.
BENEDITO, O LOUVADO, E O SINO DA IGREJA DO FIM / JOÃO SCORTECCI
História antiga. Tinha até esquecido dela. Acontece. Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do fim da União Soviética, em 1991, as histórias de uma guerra atômica saíram de moda e da boca da noite. No início do ano de 1978, conheci uma turma – cinco ou seis, na maioria, estudantes – que frequentavam uma casa de esfirras, na Av. Lins de Vasconcelos, no Cambuci. No grupo, um seminarista, de nome Benedito. No dia a dia, era carinhosamente chamado de “Padre Benê”. Quando aparecia de batina – uma raridade –, era chamado de “Padre Bendito”. Pagava a conta! Eu – mais amigo e próximo – chamava-o de “Irmão Sino, o Louvado”. Ele não gostava muito, mas aceitava a brincadeira. “Scortecci, você é uma pereba!”, dizia sempre. Praticava a paciência! Era magro, alto e comilão. Devorava – facilmente – uma dúzia e meia de esfirras de queijo. Não gostava de esfirras de carne. Morava e estudava no bairro de Santa Cecília e, vez por outra, voltava comigo, de carona. Nunca o vi “azarar” uma garota ou ficar de olho grande para alguma menina da “turma da esfirra”. A Sandrinha – uma tanajura de olhos verdes – até que tentou seduzi-lo, esfarelar o sineiro, mas não rolou. Desistiu. Irmão Sino, o Louvado, era da cidade de Penápolis, interior de São Paulo. Filho de mãe religiosa – paroquiana fervorosa – e de pai desconhecido. Na infância, havia sido coroinha e sineiro da igreja matriz. Um badalador! Certo dia – de noite virada e lua cheia – o papo, assim, do nada, versou sobre alienígenas, vampiros do espaço, guerra nuclear, destruição em massa, profecias, apocalipse e fim de mundo. “Vocês viram a história do disco-voador que apareceu em São Carlos?” “E o disco-voador de Jaú?” “Enorme!” “Dizem que sequestrou uma mulher e o seu filho.” “Devolveu?” "Não." “Isso, com certeza, deve ser coisa dos russos.” "Não confio neles.". Irmão Sino, o Louvado, só escutava, de olhos grandes e arregalados. Não piscava. Cutuquei-o, e ele deu um pulo da cadeira. “O que foi?”, perguntou, assustado. “Nada. Deve ter sido um ET!”, brinquei. E continuei lançando medo e provocando-o: “Irmão Sino, me diga, não pode mentir!”. Reagiu imediatamente: "Eu não minto". “E se – agora – estourasse uma guerra atômica, o que você faria?” Silêncio. Padre Benê me olhou, sorriu para o grupo, mastigou uma esfirra fria, a última que morria no prato, e disse: “Eu tocaria o sino da igreja.” Silêncio. Hora de ir embora, pensei. Irmão Sino, o Louvado, se levantou – parecia satisfeito e em paz – e tomou a direção do estacionamento de carros. A maioria do grupo o seguiu. Todos pensativos e mudos. Meses depois, o grupo se desfez, a casa da Lins de Vasconcelos fechou, e a moda de comer esfirras, na madrugada, passou. Hoje acordei escutando – no radinho de pilhas – as notícias sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia e o barulho do sino da igrejinha em frente de casa, anunciando – obcônico – o fim do mundo. Será? Nunca mais soube do Irmão Sino, o Louvado. Gostava dele. Deve ter voltado para a sua cidade ou, então, foi abduzido por uma nave de alienígenas. Acontece. Contei as badaladas do sino. Mais de vinte. Estranho. Muito estranho. Mais do que o habitual, o de sempre. Alguém importante morreu! Acho que o Irmão Sino, o Louvado, – travestido de anjo – veio nos dizer algo. O quê? Na dúvida: penso em almoçar esfirras de queijo e depois tirar um soninho doce. Quero acordar já “morto da silva”.

02.03.2022
BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA E A DESTRUIÇÃO DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O filósofo e gramático grego Zenódoto (323 a.C. ou 333 a.C. - 260 a.C.) nasceu em Éfeso, província de Esmirna, na Turquia. Durante o período romano foi a segunda maior cidade do Império Romano, apenas atrás de Roma, a capital do império. A cidade foi destruída em 263 pelos godos. Foi reconstruída e novamente destruída no ano de 614, por um terremoto. As ruínas de Éfeso são uma atração turística e hoje Patrimônio da Humanidade.
Zenódoto foi estudante de Filetas de Cós (acadêmico e poeta do período helenista) e professor do rei Ptolomeu II (Filadelfo). No ano de 284 a.C. foi nomeado por Ptolomeu I (Sóter) como diretor da Biblioteca de Alexandria e responsável pela organização da maior coleção de textos - trágicos e cômicos - da antiguidade. Entre eles os poemas épicos “Ilíada e Odisseia”, de Homero.
A Biblioteca de Alexandria foi uma das mais célebres bibliotecas e um dos maiores centros de produção do conhecimento na Antiguidade. O acervo da Biblioteca cresceu de tal maneira que, durante o reinado de Ptolemeu III (Evérgeta), uma filial sua foi criada no Serapeu (templo dedicado a Serápis), protetor de Alexandria. Apesar da crença de que a Biblioteca teria sido incendiada e destruída em seu auge, na realidade ela decaiu ao longo dos séculos, começando com a repressão de intelectuais durante o reinado de Ptolemeu VIII (Fiscão).
A Biblioteca, ou parte de sua coleção, foi queimada em 48 a.C. por Júlio César. Sob controle romano, a Biblioteca a partir de 260 d.C. perdeu vitalidade e apoio financeiro. Entre 270 e 275 d.C. a cidade de Alexandria viu tumultos que provavelmente destruíram o que restava dela. Há registro que a biblioteca do “Serapeu” (filial) tenha escapado da destruição e sobrevivido até 391 d.C., quando o papa da Igreja Ortodoxa Teófilo I instigou sua “vandalização” e a demolição do templo Serapeu.
BIBLIOTECA DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE SÃO PAULO
A Biblioteca do Mosteiro de São Bento - no coração da cidade de São Paulo e a poucos metros do marco de sua fundação - teve seu início com a fundação do Mosteiro, em 1598. Hoje, o acervo - um dos mais antigos do Brasil - é constituído por obras impressas que revelam aspectos da cultura beneditina. Contém exemplares de livros antigos, desde incunábulos, do século XV, obras do século XVI ao XVIII, além de um grande acervo dos séculos XIX e XX, que, com as coleções de periódicos, totalizam mais de 115.000 volumes, dos mais diversos assuntos sobre Teologia, Patrística, Escritos Monásticos, História Geral, História da Igreja, História do Brasil, Filosofia, Literatura, além de outras áreas das ciências humanas.
Um exemplar da “Bíblia de Gutenberg”, o pai da imprensa, datada de 1496, é o livro mais raro do acervo. Entre outros livros raros da biblioteca, destacam-se: um comentário da Bíblia, em latim, de 1500; uma Bíblia em alemão, de Martinho Lutero, de 1656; a enciclopédia “História Natural do Brasil”, do médico e naturalista holandês, Guilherme Piso, com ilustrações do holandês Albert Eckhout, datada de 1658 e um dos primeiros registros de fauna e flora brasileira; os tratados do filósofo grego Aristóteles, nos idiomas grego e latim, de 1607; edições de “O Príncipe”, de Maquiavel - todas do século XIX; “Steganographia” - de 1676, obra do monge Johannes Trithemius, que trata da ocultação de mensagens e remete a escritos esotéricos e códigos; um exemplar do “Alcorão”; alguns volumes da “Encyclopédie”, de Diderot, do século XIX; “Sermões”, do Mestre Eckhart, dominicano alemão do século XIV; e um antifonal, de 1715, com  resumos de salmos da Bíblia, base para o canto gregoriano.
Os primeiros registros da história dessa biblioteca são de 1750, quando as aquisições começam a aparecer em atas dos capítulos - nome dado às reuniões internas dos monges. Eram obras vindas da Europa, principalmente do antigo Mosteiro de São Martinho de Tibães, em Braga, Portugal. Na época, entre os beneditinos estava o escritor e historiador, Frei Gaspar da Madre de Deus (Gaspar Teixeira de Azevedo, 1715-1800), considerado um dos primeiros historiadores de São Paulo. “[…] pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domáveis por uma mente humana, tesouro de segredos emanados de muitas mentes, e sobrevividos à morte daqueles que os produziram, ou os tinham utilizado.” Umberto Eco, em “O nome da Rosa”.
BIBLIOTECA DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE SÃO PAULO E OS 90 ANOS DE UMBERTO ECO / JOÃO SCORTECCI
A Biblioteca do Mosteiro de São Bento - no coração da cidade de São Paulo e a poucos metros do marco de sua fundação - teve seu início com a fundação do Mosteiro, em 1598. Hoje, o acervo - um dos mais antigos do Brasil - é constituído por obras impressas que revelam aspectos da cultura beneditina. Contém exemplares de livros antigos, desde incunábulos, do século XV, obras do século XVI ao XVIII, além de um grande acervo dos séculos XIX e XX, que, com as coleções de periódicos, totalizam mais de 115.000 volumes, dos mais diversos assuntos sobre Teologia, Patrística, Escritos Monásticos, História Geral, História da Igreja, História do Brasil, Filosofia, Literatura, além de outras áreas das ciências humanas. Um exemplar da “Bíblia de Gutenberg”, o pai da imprensa, datada de 1496, é o livro mais raro do acervo. Entre outros livros raros da biblioteca, destacam-se: um comentário da Bíblia, em latim, de 1500; uma Bíblia em alemão, de Martinho Lutero, de 1656; a enciclopédia “História Natural do Brasil”, do médico e naturalista holandês, Guilherme Piso, com ilustrações do holandês Albert Eckhout, datada de 1658 e um dos primeiros registros de fauna e flora brasileira; os tratados do filósofo grego Aristóteles, nos idiomas grego e latim, de 1607; edições de “O Príncipe”, de Maquiavel - todas do século XIX; “Steganographia” - de 1676, obra do monge Johannes Trithemius, que trata da ocultação de mensagens e remete a escritos esotéricos e códigos; um exemplar do “Alcorão”; alguns volumes da “Encyclopédie”, de Diderot, do século XIX; “Sermões”, do Mestre Eckhart, dominicano alemão do século XIV; e um antifonal, de 1715, com resumos de salmos da Bíblia, base para o canto gregoriano. Os primeiros registros da história dessa biblioteca são de 1750, quando as aquisições começam a aparecer em atas dos capítulos - nome dado às reuniões internas dos monges. Eram obras vindas da Europa, principalmente do antigo Mosteiro de São Martinho de Tibães, em Braga, Portugal. Na época, entre os beneditinos estava o escritor e historiador, Frei Gaspar da Madre de Deus (Gaspar Teixeira de Azevedo, 1715-1800), considerado um dos primeiros historiadores de São Paulo. “[…] pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domáveis por uma mente humana, tesouro de segredos emanados de muitas mentes, e sobrevividos à morte daqueles que os produziram, ou os tinham utilizado.” Umberto Eco, em “O nome da Rosa”.

Dia 5 de janeiro, aniversário de nascimento do escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo Umberto Eco (1932-2016). 
BISCOITO DA SORTE E OUTROS MOVIMENTOS / JOÃO SCORTECCI
Abri o biscoito da sorte e li: “processo mental: atitude de quem acredita!” Comi o biscoito (feito de pessoas e coisas) até o ato de engolir vento. Eu e minhas crenças emocionais. Eu e a esperança de resultados positivos. É assim sempre. Dizem que sonhar tem um quê de perseverança. Tem um dedo que toca circunstâncias da vida. Não há indicações do contrário nem sentido letal nos pulmões. Aprendi a respirar meus próprios sentimentos. O ar entra pelos músculos e cria ossos. É na calma que construo esqueletos. Construo pirâmides. Abro outro biscoito. Meu terceiro em um único dia. Penso na carne das pirâmides, justifico pele, cabelos e unhas. Metamorfose de quem dar-se a sorte do instante: esperança ou crença? Fico com os farelos do chão e com o vento das velas. Sopro que sopra: vai-te biscoito feito de coisas e pessoas.
BODONI E AS ARTES GRÁFICAS / JOÃO SCORTECCI
O tipógrafo e impressor italiano Giambattista Bodoni (1740-1813), era filho de pai impressor, que lhe transmitiu o gosto e a paixão pelas artes gráficas. Foi grande admirador de John Baskerville (impressor e designer de fontes, 1707-1775). Foi Tipógrafo de Filipe, Duque de Parma e, apontado por ele, como diretor da "Stamperia Reale", de sua cidade.
O prédio onde a Stamperia se localizava é hoje sede do Museu Bodoni. Em 1798, criou a tipologia "Bodoni Book", que provocou uma revolução na comunidade tipográfica da época e é usada até hoje.
O seu desenho caracterizava-se por um contraste muito acentuado em toda a silhueta entre as hastes, filetes e braços e com uns remates - serifas - muito finos.
Em 1788, escreveu, desenhou e publicou uma das obras tipográficas mais fascinantes de toda a história da tipografia: "Manuale tipográfico", contendo 291 alfabetos em várias línguas. Para Bodoni, a beleza dos textos residia na letra e assentava em quatro virtudes fundamentais: regularidade, nitidez, bom gosto e graça.
BORIS SPIVACOW E A QUEIMA DE LIVROS DURANTE A DITADURA MILITAR ARGENTINA / JOÃO SCORTECCI
O editor de livros argentino Boris Spivacow (José Boris Spivacow 17.7.1915-16.7.1994) fundou, no ano de 1966, o CEAL - Centro Editor de América Latina, uma das mais importantes editoras de Buenos Aires e do mundo. Sua destacada atividade no mundo editorial lhe rendeu muitos reconhecimentos e homenagens, incluindo o Prêmio Sul-Americano de Ciências Sociais (1989) e o título de Professor Honorário da Universidade de Buenos Aires (1994). O CEAL nasceu durante a ditadura militar do General Juan Carlos Onganía Carballo, presidente da Argentina, entre 29 de junho de 1966 e 8 de junho de 1970, quando foi deposto por um novo golpe de estado, comandado pelo general Alejandro Agustín Lanusse. A casa editorial funcionou até 1995, ano em que teve de fechar as portas. O CEAL se caracterizou no mercado pela qualidade de seus escritores e pela prática de preços sociais para seus livros.
Em 26 de junho de 1980, num terreno vazio de Sarandi - província de Buenos Aires - vários caminhões descarregaram 1,5 milhão de livros - todos publicados pelo Centro Editor de América Latina - que foram queimados numa operação selvagem da ditadura militar argentina. Em “A história universal da destruição dos livros”, Fernando Báez relata como a escritora argentina Graciela Cabal (Graciela Beatriz Cabal, 1939-2004) resumiu o clima que imperava durante a ditadura: “No início tivemos muito medo; eu, cada vez que ia para o CEAL, dizia à minha vizinha de cima que, se até certa hora não retornasse, levasse meus três filhos à casa de minha mãe. Ao mesmo tempo nos acostumávamos a trabalhar nesse contexto de terror. O escritório onde eu me sentava - por exemplo - tinha um buraco, deixado pelo impacto de uma das bombas atiradas contra a editora, e eu colocava os papéis ao lado. De repente, nos chamavam do depósito, avisavam que havia uma batida policial e que vinham para a redação. Nós nos preparávamos, removíamos pastas, escondíamos agendas no jardim, queimávamos documentos. Dizíamos aos vizinhos que íamos fazer um churrasco e queimávamos papéis na banheira, que ficava escura de fumaça. Também as banheiras de nossas casas estavam escuras. Rasguei e queimei muitos livros, e foi uma das coisas das quais nunca pude me recuperar. Destruía e chorava porque não queria que meus filhos me vissem, porque não queria que contassem na escola, porque não queria que soubessem que sua mãe era capaz de destruir livros. Porque sentia muita vergonha.”

Em homenagem ao editor Boris Spivacow, no dia 17 de junho comemora-se, na Argentina, o Dia Nacional do Editor.
CAQUEXIA PECUNIÁRIA NA FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO
“Fortaleza” é qualidade ou caráter de pessoas fortes. Em sentido figurado, significa: força moral e firmeza. A minha - engenharia de corpo e alma - chama-se Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, e fica na cidade de Fortaleza, capital do Ceará. Outro dia andei por lá, beijando suas raízes e abraçando sua história. Os canhões de ferro ainda estão por lá. Lanças de fogo apontadas para o mar e o tempo, no alto do monte Marajaitiba. O riacho Pajeú - aquele da minha infância dos anos 1960 - escondeu-se da cena e não mais banha a margem esquerda da fortificação. Secou ou foi canalizado. No meu teatro de lembranças, o Pajeú ainda guarda escondido na toca, o mussum preto e o peixe cará. A Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção hoje abriga a sede da 10ª Região Militar do Exército Brasileiro. Sua construção data de 1649, pelos holandeses, que lhe deram o nome de Forte Schoonemborch - em homenagem ao governador neerlandês da província de Pernambuco - e, depois, em 1654, foi retomado pelos portugueses, comandados pelo Capitão-Mor Álvaro de Azevedo Barreto.
Embora a cidade de Fortaleza tenha se expandido a partir da fortificação, o seu marco zero fica na Barra do Ceará, na boca do Rio Ceará, ocupada pelos holandeses em 1603. Quando olho a cidade, vejo na lembrança o Farol do Mucuripe, os olhos do mar, o Theatro José de Alencar - belíssimo - e a Praça do Ferreira, referência ao Boticário Ferreira, que, em 1871, quando era presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, urbanizou o espaço localizado no coração da cidade.
Foi na Praça do Ferreira - em 30 de maio de 1892 - que nasceu a Padaria Espiritual, agremiação cultural que reuniu escritores, pintores e músicos. O objetivo de seus idealizadores - capitaneados pelo poeta e romancista Antônio Sales (1868-1940) - era despertar, na sociedade, o gosto pela arte. Foi Antônio Sales quem redigiu seu "Programa de instalação" - em que protestavam contra a burguesia, o clero, a polícia e tudo que fosse tradicional - e foi também um dos principais responsáveis pela publicação do jornal da agremiação, “O Pão”, tabloide de oito páginas. Na Praça do Ferreira existiam quatro quiosques, abrigando cafés e restaurantes. O Café Elegante, na esquina sudeste; o Restaurante Iracema, na esquina sudoeste; o Café do Comércio, na esquina noroeste; e o Café Java, de propriedade de Mané Coco, padaria e ponto de encontro das reuniões da agremiação. Além de Antônio Sales, nomes importantes da cultura cearense participaram do movimento, como: Lopes Filho, Lívio Barreto, Álvaro Martins, Ulisses Bezerra, Adolfo Caminha, Temístocles Machado, Tibúrcio de Freitas, Rodolfo Teófilo, José Carlos Júnior e Antônio de Castro. De 1892 a 1896, a Padaria Espiritual publicou 36 números de “O Pão”. O Jornal faliu de “caquexia pecuniária”, segundo seu próprio fundador, Antônio Sales. O "Programa de Instalação" não permitia que se usassem, em quaisquer publicações, palavras estrangeiras numa postura radicalmente nacionalista. A importância do movimento se deu pelo fato de ele haver proporcionado a consolidação do Realismo, o nascimento do Simbolismo, no Ceará, e prenunciado - conforme alguns historiadores - as marcas do movimento modernista iniciado em São Paulo, em 1922.
CARNIÇA DE CORVO NO DIA 19 DE JANEIRO ANIVERSÁRIO DO POETA POE / JOÃO SCORTECCI
Tragédia de Uru. Ziquizira do azar. Inhaca. Urucubaca. Y-re-bur! O que aconteceu? Nada, ainda. Hoje a aula foi sobre: u-ru-bus — aves que se alimentam da carcaça de animais mortos. Abutres? Sim. Dos grandes! Urubu-de-cabeça-preta. Black-tie! Existe isso? Talvez. Depois da aula fiquei afiado por uma carniça de corvo na brasa. Topa? Costela no bafo, com farinha e mel de jati. Estou desassossegado de fome! Depressão de Uru? Não. Inhaca de lombriga – ascaris lumbricoides — no cio. Y-re-bur por uma costelaria. Sim ou não? Talvez. Azarar o umbigo! Azarar? Isso. Azarar, esfregar palha na boca do fogo. Formicar. Você bebeu? Vamos gular a gula! Fazer a corte por urucubaca. Doideira! E o corvo? Já encomendado. Espera que vai chegar. Não demora. Festa? Sim. Aniversário do poeta Edgar Allan Poe. Hoje? Sim. Que ziquizira! Carniça de corvo? Crocante! Trouxe o carvão? Sim. Farinha? Sim. E o mel de jati? Também. Tudo irado. Você já comeu urubu-poeta? Talvez. Isso vai dar ziquizira de Uru. E se o vate não aparecer? Ele vem. Fique em paz. E se ele pisar nas penas? Juro que nunca mais! Escuridão. E nada mais.
CARTAS DE RILKE AOS JOVENS POETAS SOBRE A ARTE DE ESCREVER / JOÃO SCORTECCI
Conheci o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926), nos anos 1980, lendo “Cartas a um Jovem Poeta”, de 1929, obra publicada após a sua morte e traduzida no Brasil, por Paulo Rónai, com prefácio de Cecília Meireles. Não foi livro comprado e nem recebido de presente. Foi emprestado - não lembro por quem - e devolvido dois ou três dias depois de lido. O livro chegou pelo correio, a mim, jovem poeta, e voltou - envelopado e selado - também pelo correio. E está na minha lista de indicações de leitura para jovens poetas.
Em 1903, morando em Paris, Rilke recebeu uma carta de um jovem chamado Franz Kappus, que aspirava a se tornar poeta e pedia conselhos ao já famoso poeta. Tal missiva dá início a uma troca de correspondência, na qual Rilke responde aos questionamentos do rapaz e expõe suas opiniões sobre o que considerava os aspectos verdadeiros da vida: a criação artística, a necessidade de escrever, o valor nulo da crítica e a solidão do ser humano. Franz Kappus (Franz Xaver Kappus, 1883-1966) tornou-se oficial militar, jornalista, escritor e também editor de livros. Ficou conhecido como o cadete da academia militar austríaca que escreveu ao poeta Rainer Maria Rilke, em busca de conselhos sobre a arte de escrever.
As dez cartas, escritas entre 1902 a 1908, foram publicadas por Kappus, em 1929. Na primeira delas, o mais célebre conselho de Rilke: “Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever?”
Rilke faleceu em Valmont, na Suíça, 29 de dezembro de 1926, aos 51 anos de idade.
CASA DA ENY”, O PROSTÍBULO DE ENY CEZARINO / JOÃO SCORTECCI
No início dos anos 1980, conheci a cafetina Eny Cezarino (1917-1987), dona da famosa “Casa da Eny”, na cidade de Bauru, interior de São Paulo. O prostíbulo já estava “fechado” e sobrevivia, ainda, para poucos. Lá aportavam - vez por outra - velhos amigos, convidados especiais e curiosos.
Fui como editor, a convite de um amigo da cidade, memorialista, interessado em escrever e publicar um livro contando a história da Eny Cezarino e o seu “Eny’s Bar”. Fomos recebidos pela cafetina, na varanda próxima à entrada do salão principal, que dava acesso a um bar, com centenas de garrafas, formando um imenso painel de parede. Era um casarão decadente, mas belo e imponente. Conversamos, contamos “causos” engraçados, trocamos piadas – hoje proibitivas - sobre “putas”, “bichas”, “cornos” e “políticos”. Contei algumas do vasto repertório sobre o assunto preferido do meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light. Foi hilário: tarde longa, alegre, deliciosa...
Conversamos também sobre a edição do livro com sua biografia - estava precisando de dinheiro, foi o que ela me disse - e detalhes sobre o mercado editorial. “Vai falar tudo?”, perguntei. “Vou, eu juro”, respondeu. Recusei bebidas, mas aceitei tomar um suco de tomate.
Eny Cezarino, na casa dos 60 anos de idade, levou-me para conhecer o casarão, com 40 quartos, saunas, restaurante, bares e salões de festas, já cansados de guerra e moucos de gemidos, tapas e beijos. No final da tarde, quase ao pôr do sol, para espantar o calor e seguir viagem de volta a São Paulo, mergulhei nu na piscina - com desenho de um violão - que ficava defronte da varanda, na entrada da casa. O livro, infelizmente, não saiu. Ficou inteiro dentro de mim. Eny Cezarino fugiu de casa, ainda adolescente, e passou a trabalhar como prostituta em cidades como São Paulo, Porto Alegre e Paranaguá.
Na década de 1940, passou a trabalhar na “Pensão Imperial”, em Bauru, prostíbulo que mais tarde comprou e gerenciou. Na década de 1950, abriu o “Eny’s Bar”, transformando-o num dos prostíbulos mais famosos do Brasil, atraindo celebridades, milionários, políticos e presidentes.
Em 1983 perdeu o “Eny’s Bar". Morreu pobre, em São Paulo, no dia 24 de agosto de 1987, aos 69 anos de idade.
CASA DO SABER E O “X” DA QUESTÃO / JOÃO SCORTECCI
Hoje no “divã de todos nós” – rádio CBN – com o escritor e psicólogo Rossandro Klinjey, conheci mais um trava-língua: “desidealizado” – o que deixou de ser idealizado ou perdeu o caráter de ideal. O programa de hoje foi um repeteco, rico e interessante. Rossandro comentou sobre expectativas frustradas e algoritmos e recomendou o livro “Algoritmos da Opressão”, da doutora em inteligência artificial e escritora californiana Safiya Umoja Noble. No post de hoje pretendia “poetar” sobre “desidealização” e também falar sobre essa obra – que ainda não li – e que acabou entrando na minha lista de necessidades. Acontece! Pretendia, foi o que disse. Pesquisando sobre algoritmos, encontrei a biografia do matemático, astrônomo, astrólogo, geógrafo e escritor persa Alcuarismi (Abu Abdalá Maomé ibne Muça ibne Alcuarismi, Corásmia (atual Quiva, Usbequistão), c. 780, Bagdá - Iraque, c. 850), erudito na Casa da Sabedoria (ou Casa do Saber), biblioteca e centro de traduções estabelecido à época do Califado Abássida, em Bagdá, no Iraque. No seu livro “Da Restauração e do Balanceamento”, Alcuarismi apresentou a primeira solução sistemática das equações lineares e quadráticas. É considerado o fundador da Álgebra – junto ao matemático grego Diofante, de Alexandria. No século XII, traduções para o latim de sua obra sobre numerais indianos apresentaram a notação posicional decimal para o mundo Ocidental. O radical das palavras “algarismo” e “algoritmo” vem de “algoritmi”, a forma latina do nome do erudito persa. Além do vocábulo português “algarismo”, seu nome deu origem ao espanhol “guarismo”, que, ao passar para o francês, tornou-se “logarithme” e deu origem ao termo moderno “algoritmo”. Alcuarismi trabalhou na Casa da Sabedoria, biblioteca formada pelo califa Harune Arraxide, na qual foram reunidas todas as obras científicas da Matemática. O conceito de "catálogo de biblioteca" foi introduzido nessa e em outras bibliotecas islâmicas medievais, nas quais os livros se organizavam por gêneros e categorias específicas. A incógnita nas equações algébricas era denominada pelos matemáticos muçulmanos como “xay” (“coisa”), notadamente na álgebra de Ômar Khayyam, que, ao ser transcrita “xay” pelos espanhóis, deu origem ao “X” da álgebra moderna. A Casa do Saber foi destruída durante o cerco de Bagdá, em 1258, pelos mongóis. Antes do cerco, no entanto, perto de 400 mil manuscritos foram resgatados pelo polímata persa Tuci (Naceradim de Tus) e levados para Maragha, no Irã.

22.05.2022

CASA PRATT, MÁQUINAS DE ESCREVER REMINGTON E A GRIPE ESPANHOLA / JOÃO SCORTECCI
A Casa Pratt, uma sociedade anônima, tinha sua matriz na cidade do Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, número 125, e filiais na capital paulista, em Campinas, Santos, Ribeirão Preto, Curitiba, Pelotas e Porto Alegre. Foi nos anos 1910, 1920 e 1930 a representante no Brasil das “incríveis” máquinas de escrever Remington, modelo 16. Comercializavam também máquinas registradoras National, aparelhos Dalton, Mercedes e Triumphator, para somar e subtrair, duplicadores Red Seal, Cofres Standard, arquivos de aço e móveis para escritório.
Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a epidemia de Gripe Espanhola (vírus influenza, 1918-1920) as “insubstituíveis” máquinas de escrever Remington 16 não tinham como chegar ao Brasil e, em pouco tempo, desapareceram do mercado. A Casa Pratt - na tentativa de amenizar o problema - montou oficinas de conserto e manutenção, mas de nada adiantou, já que o problema maior era a falta de peças de reposição.
A primeira fábrica de máquinas de escrever instalada no Brasil foi a norte-americana Remington, em 1948, seguida da sueca Facit, em Minas Gerais, em 1955, e da italiana Olivetti, em São Paulo, em 1959.
Em 1872, o comerciante e empresário americano James Densmore (1820 - 1889) - de posse da patente de Sholes (Christopher Latham Sholes, 1819-1890) - viajou até Ilion, no Estado de Nova York e vendeu a ideia de produção em larga escala à fábrica de armas Remington, do empresário Philo Remington (1816-1889), que, desde o fim da Guerra de Secessão, teve a venda de rifles diminuída sensivelmente. Em poucos anos a Remington tornou-se uma gigante do mercado, exportando máquinas de escrever para todos os países do mundo.
As mulheres são responsáveis pelo sucesso das máquinas de escrever e - no início - sofreram forte resistência dos homens, temerosos de perder o emprego. Diziam que a “engenhoca” não prestava. As mulheres - que já dominavam na indústria as máquinas de costurar - não encontraram dificuldade e rapidamente dominaram a arte das 50 teclas do método Qwerty, ainda hoje em uso. A situação só voltou ao normal em 1920, com a volta das atividades normais da marinha mercante.
CASSINI, HUYGENS E A LUZ ZODIACAL DO COMETA / JOÃO SCORTECCI
“Cassini-Huygens” foi uma missão espacial não tripulada enviada ao planeta Saturno e seu sistema de luas, em 1º. de julho de 2004, e continuou em operação, até 15 de setembro de 2017. Foi um projeto conjunto da NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço - USA), ESA (Agência Espacial Europeia) e ASI (Agência Espacial Italiana). Entre as muitas descobertas da missão, estão ambientes potencialmente habitáveis nas luas de Saturno, incluindo um oceano de subsuperfície de água na lua “Enceladus”.
A espaçonave de duas partes, “Cassini” e “Huygens”, foi assim batizada em homenagem aos astrônomos Giovanni Domenico Cassini (1625-1712) e Christiaan Huygens (1629-1695). Cassini nasceu em Gênova, Itália. Era astrônomo e matemático. Desde cedo, demonstrou interesse em estudar os cometas, corpos menores (segundo a resolução B5, de 24 de agosto de 2006, da União Astronômica Internacional) do Sistema Solar, que, quando se aproximam do Sol, passam a exibir uma atmosfera difusa, denominada “coma”, e, em alguns casos, apresentam também uma cauda, ambas causadas pelos efeitos da radiação solar e dos ventos solares sobre o núcleo cometário.
Na imaginação dos “poetas do céu”, é a mulher-deusa, no cio do amor. Um cometa tem uma estrutura física dividida em três partes: núcleo - coração e vida -; cabeleira - alma e espírito de luz -; e cauda - corpo e presença divina. Em 1683, Giovanni Cassini apresentou a explicação correta do fenômeno da luz zodiacal: feixe de luz fraca, quase triangular, visto no céu noturno e que se estende ao longo do plano da eclíptica, onde estão as constelações do Zodíaco. É causada pela dispersão da luz solar nas partículas de poeira que são encontradas em todo o Sistema Solar. Para poetas imortais - guardiões do amor zodiacal –, um acasalamento de cometas e estrelas do sol.
CEMITÉRIOS COM LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O militar, político, etnólogo, escritor e folclorista brasileiro Couto de Magalhães (José Vieira Couto de Magalhães, 1837 - 1898) nasceu no Estado de Minas Gerais na fazenda Gavião, na cidade de Diamantina. Durante o Segundo Reinado foi governador das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso e São Paulo. Morreu aos 61 anos de idade, de sífilis, quando já era governador de São Paulo. Couto de Magalhães falava francês, inglês, alemão, italiano, tupi e numerosos dialetos indígenas. Foi quem iniciou os estudos folclóricos no Brasil, publicando “O selvagem” (1876) e “Ensaios de antropologia” (1894), entre outros.
O corpo de Couto de Magalhães está enterrado no Cemitério da Consolação, em São Paulo, no Mausoléu General Couto de Magalhães. Concluído em 1905, o mausoléu teve toda sua arte inspirada em sua obra “O Selvagem”. Na extremidade superior do mausoléu (autoria da artista plástica e escultora Nicolina Vaz) repousa o busto em bronze do general. Logo em seguida, no mármore, está esculpida a inscrição do nome do falecido bem como sua patente militar, data de falecimento e seus cargos políticos. Logo abaixo do busto, também em mármore, uma índia e os dizeres “O Selvagem”.
Não há registro do número de túmulos com desenhos e esculturas com livros. Devem existir milhares mundo afora. Quem souber algo sobre o assunto minha curiosidade reina em saber.
CENSO DEMOGRÁFICO, FUNDO ELEITORAL 2022 E MALBA TAHAN / JOÃO SCORTECCI
Censo demográfico (conjunto dos dados estatísticos dos habitantes de uma cidade, província, estado, nação) é uma “operação censitária”. No Brasil, os censos são realizados desde 1872, planejados para execução com periodicidade decenal, nos anos de finais zero. Hoje, o censo responde a questões fundamentais de uma população que servem de base para a definição de políticas públicas em nível nacional, estadual e municipal.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é o órgão responsável por realizar o censo demográfico brasileiro desde 1940. O censo mais recente foi realizado no ano de 2010. Não houve censo em 2020, em decorrência da pandemia de COVID-19 e do corte de verbas previstas para a operação. Os recursos necessários para o censo (números para 2022) são da ordem de R$ 2 bilhões. É a única pesquisa em que se visitam todos os domicílios brasileiros, cerca de 58 milhões, nos 5.565 municípios do país. Trata-se de um trabalho gigantesco, que envolve cerca de 230 mil pessoas.
No início desta semana, o Congresso brasileiro, aprovou verba de R$ 5,7 bilhões para o fundo eleitoral de 2022, destinado às campanhas políticas. O montante aprovado é três vezes maior que o de 2018 - R$ 2 bilhões - que - no jogo das coincidências malignas - atenderia, com o pé nas costas, à realização do importantíssimo censo demográfico brasileiro. Na conta das diferenças ainda sobraria R$ 1,7 bilhões ou o suficiente para comprar 64 milhões de doses da vacina contra a Covid-19.
Sempre que faço “conta de desperdício”, lembro-me de Malba Tahan (Julio César de Mello e Souza) e seu livro “O Homem que Calculava” (1938, 90 edições) e suas aventuras de um singular calculista censitário.

17.07.2021

CHARLES PERRAULT E AS HISTÓRIAS DA “MAMÃE GANSA” / JOÃO SCORTECCI
O escritor e advogado francês Charles Perrault (1628-1703) é considerado o "Pai da Literatura Infantil”. Estabeleceu as bases para um novo gênero literário, o conto de fadas, além de ter sido o primeiro a recolher, dar forma escrita e acabamento literário a esse tipo de histórias, que, até então, eram contadas e transmitidas apenas oralmente. Contos de fadas (termo do Latim “fatum”, que significa “destino”, “fatalidade”) são um tipo de história que apresenta personagens fantásticos e encantamentos. Distinguem-se de outras narrativas populares, como as lendas (que, em geral, misturam fatos reais e imaginários) e as histórias claramente morais, incluindo as fábulas. Charles Perrault foi contemporâneo do fabulista Jean de La Fontaine (1621-1695). Em 1665, Perrault se tornou superintendente do Rei Luís XIV, da França, e, dois anos mais tarde, ordenou a construção do Observatório Real (o mais importante observatório astronômico da cidade de Paris), de acordo com as plantas do seu irmão Claude Perrault, arquiteto de grande prestígio na época. Em 1671, Charles Perrault foi eleito para a Academia Francesa de Letras e, um ano depois, nomeado chanceler da Academia. Em 1695, aos 67 anos de idade, resolveu registrar as histórias que ouvia da sua mãe e nos salões parisienses. Dois anos depois, publicou-as no livro “Histórias ou contos do tempo passado com moralidades”, também chamado de  "Contos da velha" ou, ainda, "Contos da cegonha", ficando, afinal, conhecido pelo subtítulo "Contos da mamãe gansa", referência à figura ficcional que se popularizou a partir do século XVII, na imagem de uma mulher idosa, contadora de histórias. A publicação rompeu os limites literários da época e alcançou público em todo o mundo, além de marcar o novo gênero literário, o conto de fadas. A maioria dos contos de fadas de Charles Perrault ainda hoje é publicada, traduzida e adaptada para várias formas de expressão artística, como o teatro, o cinema e a televisão. Entre os contos mais conhecidos estão “Chapeuzinho vermelho”, “A Bela adormecida”, “O gato de botas”, “Barba azul” e “O pequeno polegar”. “A Bela adormecida” é a história “do tempo passado” mais famosa da humanidade e – misteriosamente – continua arrepiando criancinhas de todas as idades. A figura da maléfica feiticeira ou fada maligna – como queiram – perpetua-se no sono de ogros e gnomos, na ilíada frenética e mística do beijo roubado e do verdadeiro amor, eterno enquanto dure. 

16.05.2022

CHIQUINHA GONZAGA, NAIR DE TEFFÉ, RUY BARBOSA E O ESCÂNDALO DO “ENFIAR O PÉ NO JACÁ” / JOÃO SCORTECCI
“Jaqueira” é uma árvore tropical de grande porte, pertencente à família das Moraceae, nativa da Índia e cultivada principalmente na Ásia e no Brasil. Produz o maior de todos os frutos comestíveis: a jaca. A expressão popular “enfiar o pé na jaca” nada tem a ver com a fruta e com as jaqueiras, mas com uma espécie de cesto – de nome “jacá” – feito de bambu ou cipó, usado preso ao lombo de animais para o transporte de mercadorias. Não se sabe – não encontrei na minha pesquisa, perdão – quando o acento agudo desapareceu da expressão. Escafedeu-se! Existem outros casos de adágios bastante conhecidos: “Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão”, “Quem não tem cão, caça como gato” e outros. “Enfiar o pé na jaca” significa cometer excessos, beber muito, exagerar na dose! Os condutores desses animais – conhecidos como “tropeiros” – ao longo de suas viagens, paravam para beber. Quando bêbados – vez por outra ou quase sempre, tanto faz –, ao tentarem subir nas montarias, acabavam enfiando o pé no jacá. É também sem acento agudo que ficou conhecido o escândalo político do “Corta-jaca”, que aconteceu no dia 26 de outubro de 1914, no palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede do governo federal. Na presença de diplomatas e da elite carioca, o tango “Gaúcho” – popularmente conhecido como “Corta-jaca” –, da compositora, instrumentista e maestrina Chiquinha Gonzaga (Francisca Edwiges Neves Gonzaga, 1847-1935), foi executado pela pintora, cantora, pianista e primeira-dama Nair de Teffé (1886-1981), esposa do então Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. O poeta, teatrólogo, músico e compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), amigo do marechal, havia observado que, nas festas palacianas, nunca se executava música nacional. Era, portanto, a primeira vez que esse tipo de música penetrava nos salões elegantes da elite, fazendo com que o fato seja considerado a alforria da música popular brasileira. E foi por sugestão de seu professor de violão, Emilio Pereira, que Nair de Teffé executou o tango “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga. No dia seguinte, em sessão do Senado Federal, o senador Ruy Barbosa (1849-1923), adversário político do Presidente da República, comentou o acontecido: “Por que, Sr. Presidente, quem é o culpado, se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao Corta-Jaca? (...) A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba (...)”. Até tu, Ruy! Aqui cabe o adágio – às avessas, claro: “Vale mais uma hora de tolo que a vida inteira de sábio.”

24.04.2022
CIDADÃO INHACA E OS BIBLIÓFAGOS DO APOCALIPSE / JOÃO SCORTECCI
Lendo sobre profetas “Bibliófagos”, lembrei-me do bode “Cidadão Inhaca” da cidade de Baturité, do Ceará, dos anos 60. “Inhaca” - benemérito baturiteense - era comedor de livros e jornais e, durante o expediente, montava guarda na porta do Jornal “A Verdade” do padrinho do meu pai Luiz, o saudoso Comendador Ananias Arruda. “Bibliófago” significa o que ou aquele que rói, come ou destrói livros.
Os raros casos de bibliofagia estão descritos no Antigo e no Novo Testamento. O sacerdote Ezequiel ("A força de Deus" ou "Deus fortalece") disse que Deus lhe apresentou um papiro e ordenou: "Abre bem tua boca e come o que te vou dar.” Era um livro em forma de rolo. “Homem, come este rolo e depois vai falar aos filhos de Israel." Ezequiel o comeu, obedecendo à ordem Divina. Depois, disse: “Comi-o e eis que na minha boca parecia doce como o mel.”
No Apocalipse, do profeta João de Patmos (João, o Visionário), se retoma a ideia de engolir livros: “Vai  e toma o pequeno livro aberto - da mão do anjo - que está em pé sobre o mar e a terra. Toma-o e o devora. Ele será amargo nas entranhas, mas te será, na boca, doce como o mel.” João de Patmos o tomou da mão do anjo e o comeu. “Era, na minha boca, doce como o mel; mas depois de tê-lo comido, amargou-me nas entranhas.” Engolir o livro garantiu-lhe transferência e transmissão do conhecimento divino. Capacitou-o - segundo as Escrituras - a falar várias línguas e se expressar de forma segura e absoluta.
Por volta de 130 d.C., o adivinho e interpretador de sonhos, Artemidoro de Daldis, escreveu sobre aqueles que sonham que estão comendo livros: "Sonhar que come um livro é bom para pessoas instruídas, para sofistas e para todos aqueles que ganham a vida dissertando sobre livros.” De tudo do post, lendo “História universal da destruição dos livros”, do venezuelano Fernando Báez, fico com o bode “Cidadão Inhaca”, de Baturité, que comia, literalmente e de fato, livros, com fome de bibliófago.
CLARO ENIGMA: DIAULAS RIEDEL, RICARDO RAMOS, JOSÉ PAULO PAES / JOÃO SCORTECCI
Conheci o poeta, tradutor, crítico literário e químico José Paulo Paes (1926-1998), no final dos anos 1970, na sede da União Brasileira de Escritores, na cidade de São Paulo, quando ele ainda era editor do selo Cultrix, do Grupo Editorial Pensamento, fundado pelo português Antônio Olívio Rodrigues, no ano de 1907, e, na época, gerido pelo seu genro, o escritor, editor e gráfico Diaulas Riedel, pai do amigo e também editor Ricardo Riedel. Diaulas foi presidente (1957-1959) e um dos fundadores da Câmara Brasileira do Livro, com Ênio Silveira e Octales Marcondes Ferreira, e publicou o “Almanaque do Pensamento”, febre editorial dos anos 1970. Diaulas Riedel faleceu em 1997, aos 76 anos de idade, e seu filho, Ricardo Riedel, assumiu o Grupo Editorial Pensamento. José Paulo Paes passou a dirigir a Editora Cultrix no ano de 1961 e marcou época. Na companhia do professor Massaud Moisés (1928-2018), foi organizador do “Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira”, publicado em 1967. Em 1982, José Paulo Paes aposentou-se como editor, dando início ao trabalho de tradução. Verteu para o português obras de Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Lawrence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J.K. Huysmans, Paul Éluard, Friedrich Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rainer M. Rilke, Giórgos Seféris, Lewis Carroll, Ovídio, Níkos Kazantzákis, entre outros tantos. Aproximamo-nos de vez, depois de 1989, quando José Paulo Paes lançou, pela coleção “Claro Enigma” (organizada por Augusto Massi), selo da Livraria e Editora Duas Cidades, o livro "A poesia está morta, mas eu juro que não fui eu", título extraído de versos de seu poema "Acima de qualquer suspeita". Em 1990, ele adoeceu. Tinha aterosclerose e graves problemas circulatórios. Teve a perna esquerda amputada. Em dezembro de 1991, ainda quando a Scortecci Editora funcionava na Galeria Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, 1704, loja 13, visitou-me, amparado pelo escritor e publicitário Ricardo Ramos, que, desde então, o acompanhava, sempre. Ricardo Ramos, ao pé do meu ouvido, sussurrou: “Temos de ajudá-lo.” Ricardo Ramos faleceu de câncer no fígado três meses depois, no dia 21 de março de 1992. José Paulo Paes faleceu oito anos depois, em 9 de outubro de 1998, em tempo para publicar, no livro "Prosas seguidas de odes mínimas" – no qual reflete sobre o momento difícil de sua vida – o poema "Ode à minha perna esquerda": “(1) Pernas / para que vos quero? / Se já não tenho / por que dançar, / Se já não pretendo ir a parte alguma. / Pernas?” (...) (7) Longe / do corpo / terás / doravante / de caminhar sozinha / até o dia do Juízo. / Não há / pressa / nem o que temer: / haveremos / de oportunamente / te alcançar.”

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E A OBRA “TRISTE TRÓPICOS” / JOÃO SCORTECCI
A etnografia é o método utilizado pela antropologia na coleta de dados. Baseia-se no contato intersubjetivo entre o antropólogo e o seu objeto, seja ele uma aldeia indígena ou qualquer outro grupo social sob o qual o recorte analítico será feito. A base de uma pesquisa etnográfica é o trabalho de campo. O antropólogo, professor e filósofo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) é considerado o fundador da antropologia estruturalista e um dos grandes intelectuais do século XX.
Lévi-Strauss esteve no Brasil (1935 a 1939) onde escreveu “Tristes Trópicos” (Plon Editora, 1955) uma narrativa etnográfica romanceada, com excertos curiosos sobre sociedades indígenas brasileiras.  Lévi-Strauss dedicou parte da sua vida de antropólogo à tetralogia, “As Mitológicas - estudo dos mitos”: "O cru e o cozido" (1964), "Do mel às cinzas" (1967), "A origem dos modos à mesa" (1968) e "O homem nu" (1973).
Claude Lévi-Strauss morreu em 30 de outubro de 2009, poucas semanas antes da data que completaria 101 anos. Encontra-se sepultado no Cimetière de Lignerolles, Lignerolles, na França.
COLÉGIO CEARENSE, O PRÉDIO NOVO, O TOMBAMENTO E OS VERSOS DO POETA SARUBBI / JOÃO SCORTECCI
O Colégio Cearense do Sagrado Coração foi fundado na cidade de Fortaleza, no dia 4 de janeiro de 1913, pelos padres Missael Gomes, José Quinderé e Climério Chaves. O colégio funcionou na Rua da Amélia (atual Senador Pompeu), na Rua 24 de Maio, na Praça José de Alencar, na Rua Barão do Rio Branco e, por fim, no ano de 1917, em prédio próprio, na Avenida Duque de Caxias, nº 101, região central da cidade. Em 1916, a administração do colégio foi entregue aos Irmãos Maristas, movimento religioso fundado na França, em 1817, pelo então Padre Marcelino Champagnat, e trazido ao Brasil, em 1897. Em 1972, o colégio, originalmente de ensino masculino, passou a ser misto e, em pouco tempo, dobrou o seu número de alunos. Na década de 1980, viveu seus melhores dias. Chegou a receber, num único ano, 4,5 mil matrículas de alunos, em três turnos. A partir do ano 2000, o colégio entrou em decadência, perdeu referência, qualidade e espaço e, sofreu forte concorrência de grandes grupos educacionais. Em 31 de dezembro de 2007, fechou suas portas. Em fevereiro de 2017, o Conselho Estadual do Ceará de Preservação do Patrimônio aprovou — depois de uma mobilização de ex-alunos — o tombamento do prédio do Colégio Cearense. O conjunto originalmente edificado — dois pavimentos, mais uma capela, construída em 1926 — sofreu vários acréscimos e intervenções, em mais de cem anos de existência, sendo, porém, em sua maioria, reversíveis ou de fácil identificação. Em 1967, iniciou-se a construção do chamado “prédio novo”, de sete pavimentos, concebido em arquitetura moderna, pelo engenheiro Luiz Gonzaga do Carmo Paula (meu pai), ex-aluno do colégio e filho de João Batista de Paula, o Batista da Light. O prédio novo foi inaugurado no ano de 1970, na administração do Irmão Luiz Marques de Oliveira. O serviço de edificação e engenharia, a pedido pessoal do Irmão Urbano, não foi cobrado. Em troca, a família Paula ganhou quatro bolsas de estudo, válidas até o 3º ano do curso Científico. Meus irmãos Luiz Gonzaga e José Henrique beneficiaram-se integralmente da contrapartida. Eu, até a 8ª série do ensino médio, quando me mudei para a cidade de São Paulo, no ano de 1972. A quarta bolsa - reservada para a minha irmã caçula, Ana Cândida, não foi usada. A bolsa, então, foi transferida para um primo próximo e os quatro anos restantes da minha bolsa de estudo foram destinados para o filho de um amigo do meu pai, Luiz. Na época, esse amigo de meu pai administrava um negócio de carrinhos de pipoca. A vida - cheia de surpresas e mistérios - fez com que, no ano de 1983, já editor de livros e morando na capital paulista, eu publicasse o livro “No Limiar da Loucura”, do psicólogo Antônio Sarubbi, o garoto, filho do amigo do meu pai, que, em 1972, ganhou de presente os quatro anos restantes de estudo, até o 3º ano do Científico, no Colégio Cearense do Sagrado Coração.
COLÉGIO CEARENSE, PROFESSORA LYGIA E O FLUXO DAS ÁGUAS DO TEMPO / JOÃO SCORTECCI
D. Lygia, professora do 5º ano primário no Colégio Cearense, era exigente, dedicada, com fama de brava, mas não perdia o zelo pelos seus alunos. Professores assim - como D. Lygia - marcam nossas vidas. Lembro-me das suas aulas de Geografia e da “decoreba” que era estudar e resfolegar, em voz alta, os rios brasileiros e seus afluentes. Não satisfeita, exigia, ainda, que disséssemos, de “pronto” e na “lata”: nascente, foz, extensão, perenidade ou não, margem direita, margem esquerda. E, se não bastasse, também os estados que o “danado” das águas banhava. Eu era “bamba” nos rios da Amazônia e, em especial, nos rios do Ceará: Jaguaribe, Mundaú, Pacoti, Acaraú, Pajeú, Ceará, Cocó, Poti e outros. D. Lygia dava aula segurando, em uma das mãos, uma vareta de professor. Ágil e pontual, a vareta tinha lá os seus encantos, talvez mágicos, pensando hoje nas feitiçarias de Harry Potter. Jurava que a “ferramenta” estivesse hoje proibida em sala de aula, comparada, por alguns educadores, com uma arma branca. Foi surpresa encontrar, na Web, oferta de venda de uma infinidade delas. A pesquisa me fez lembrar de um professor de Física, quando, já morando na cidade de São Paulo e aluno do Mackenzie. Ele usava uma antena de fusca, como vareta de professor. Nossa relação ficou “tensa”, depois que lhe perguntei — durante uma aula de termodinâmica — se a tal antena havia sido fruto de um roubo juvenil, em busca de um anel de “brucutu”. Ele não gostou. Acontece! O que eu sei de Geografia — não é muito — devo à professora Lygia. Visitando, no Facebook, o endereço “Memórias do Colégio Cearense”, encontrei sua foto, junto às de outros professores, entre eles: Onélio Porto, indianista e professor de Educação Física, e Yeda, professora de Português. Prestei o “Exame de Admissão” no ano de 1967, e, chegar ao curso ginasial foi um desafio prudente. Hoje, lendo sobre as sutis diferenças entre “curso de água” — caminho, direção — e “fluxo de água” — volume, capacidade hídrica —, lembrei-me da professora Lygia, do Colégio Cearense, dos irmãos Maristas Urbano, Luiz Marques, Armando, Valentim, Abdon, Armindo, Ovídio, Mardônio e outros, dos amigos “vividos” durante os anos de 1963 a 1971. No “curso” natural das lembranças de infância, das reminiscências de menino “brucutu”, pescando cará e mussum preto, no vale do rio Pajeú. No fluxo mágico das águas, de rios, lágrimas e memórias do tempo.
DAS AGLUTINAÇÕES IMEXÍVEIS / JOÃO SCORTECCI
Coleciono “aglutinações” num caderninho azul. Tenho “pérolas” de que não abro mão - mesmo depois de 30 anos.  Uma raridade em destaque: “O plano é imexível” declaração do ex-ministro do Trabalho e da Previdência Magri (Antônio Rogério Magri) tentando justificar o “inexplicável” Plano Collor. 
Hoje lendo a coluna da jornalista Carla Araújo encontrei uma amálgama (junção consciente e criativa de duas ou mais palavras) perfeita e imexível: “Sincericídio” e a manchete: “Governo teme - sincericídio - de Guedes na CPI e quer barrar convocação.” "Sincericídio" é uma expressão que pontua uma situação de exposição de uma verdade relativa com opiniões e julgamentos sem considerar o sentimento do receptor ou a conveniência social. Em outras palavras: falar a “verdade” nem sempre é prudente. Uma bomba-relógio! 
No Caso de Paulo Gudes, ministro da Economia do Brasil, o imbróglio não é ele falar ou não a verdade ou mentir ou não. Sabemos do que Guedes é capaz. Temem-se os “imexíveis” exemplos de que o ministro gosta e costuma usar para explicar e justificar suas aglutinações do pensamento. Quem milita na política sabe do segredo: evitar, ao falar, citações, comparações e exemplos! Mentir pode. Faz parte!
DAS ALAVANCAS DE BADEN-POWELL E SÃO JORGE / JOÃO SCORTECCI
Lembro-me – ainda menino de tudo – do fascínio que foi improvisar, com um bastão de escoteiro, uma alavanca para mover do solo uma grande pedra. Aventura inútil. Hoje, ainda escoteiro, apenas tentaria subir ao alto da pedra e nada mais do que isso. Pela trilha mais fácil, içaria o meu dorso pesado até o melhor da noite de estrelas. Buscaria, se possível, infinitas estrelas no céu, como naquela noite de luz, acampado no leito perene do Rio Jaguaribe, no sertão do Ceará. Dormiria ali, ao léu, no abraço das alavancas e no braço das roldanas, o melhor da minha infância dos anos 1960. Fui lobinho e escoteiro. Meus irmãos Luiz e José, escoteiros, monitores e chefes. Meu pai Luiz Gonzaga, Comissário Regional do Ceará. Lembro-me do Jornalzinho KIM, informativo do Movimento Escoteiro, impresso num mimeógrafo a álcool. Meu trabalho era grampeá-lo! Folhas soltas, aparentemente perdidas, desde aquela época já me incomodavam e muito. Possivelmente um “toque” de encadernação ou outra mania qualquer. O Escotismo – movimento juvenil mundial, educacional, voluntariado, apartidário e sem fins lucrativos – foi fundado em 1907, pelo tenente-general do Exército Britânico, Baden-Powell (Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, 1857-1941). Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Escoteiro. Foi escolhido em 1910, por Baden-Powell, por ser também o Dia de São Jorge, Patrono do Escotismo. Fui lobinho da Matilha Amarela – das aquelás Ana Maria e Gláucia de Alencar – e escoteiro da Patrulha Leão, do fraterno amigo, Antonio Mourão Cavalcante, meu primeiro chefe escoteiro. Meus irmãos Luiz e José estiveram no 1º Jamboree Pan-Americano, em 1965, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Quanto à pedra grande, ainda deve estar por lá –  com certeza. Equilibrada, única e em paz com a natureza, inerte, na trilha do Rio Jaguaribe – e dos bastões de Deus –, onde o caminho nos leva, sempre, aos céus.

DAS APROPRIAÇÕES DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O “Santuário do Livro” - inaugurado em 1965 - é uma ala do Museu de Israel, em Jerusalém, que guarda os “Manuscritos do Mar Morto”. Os manuscritos formam uma coleção de textos e fragmentos de texto encontrados em cavernas nas ruínas da antiga comunidade de Qumran, no Mar Morto, no ano de 1947, por jovens beduínos (grupo árabe habitante dos desertos, tradicionalmente divididos em tribos ou clãs) que perseguiam uma cabra fujona. Os jovens pastores encontraram numa caverna jarros cilíndricos que continham manuscritos sagrados.
Divulgado o achado, arqueólogos e teólogos iniciaram a exploração de 11 grutas da região e conseguiram recuperar uma biblioteca inteira, com rolos intactos e alguns outros destruídos, perto de 15 mil fragmentos.
Os “Manuscritos do Mar Morto” são de longe a versão mais antiga do texto bíblico, datado de mil anos antes do texto original da Bíblia Hebraica. Os manuscritos incluem livros apócrifos (escritos por comunidades cristãs e pré-cristãs não incluídos no cânon bíblico) e livros de regras da seita dos Essênios (viviam afastados da sociedade, no deserto, concentrados em estudar o Torá) que viveram em Qumran, entre os séculos 2 a.C. e 1 d.C.
A autenticidade dos documentos do Mar Morto foi atestada em 1948. Em 1954, o governo israelense, comprou parte do acervo e, em 1967, na “Guerra dos Seis Dias” (Guerra árabe-israelense), apropriou-se do acervo do Museu Arqueológico da Palestina, até então em posse do governo da Jordânia.

DAVI LOPES LUTHIER E A ESPERANÇA QUE SE CONSTRÓI / JOÃO SCORTECCI
“Luthier” - palavra francesa e deriva de luth (alaúde) - é um profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de cordas, com caixa de ressonância. Isto inclui o violão, violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, violas da gamba e todo tipo de guitarras, alaúdes, archilaúdes, tiorbas, e bandolins.
Hoje na CBN, a rádio que toca notícias, conheci o trabalho de “luthier” do bombeiro e músico carioca Davi Lopes. Davi, fascinado por história e arqueologia, converte a madeira queimada de incêndios, em “belíssimos” instrumentos musicais. Sua última e memorável façanha foi a madeira queimada no incêndio do Museu Nacional do Brasil, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, na noite de 2 de setembro de 2018.
Uma tragédia! Lembro-me - impossível não associá-la – a Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca de 12.500 a 13.000 anos.
Em “Fênix: o voo de Davi”, documentário de João Rocha, Roberta Salomone e Vinícius Dônola; e no elenco Gilberto Gil, Paulinho Moska e Paulinho da Viola; Davi Lopes, o Luthier, mostra como transcender a arte e criar esperança em meio às cinzas. É o que digo sempre: Esperança também se constrói. 

03.10.2021

DESTRUIDORES DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O poeta alemão Heinrich Heine (Christian Johann Heinrich Heine, 1797-1856) é conhecido na literatura como “o último dos românticos”. Nasceu numa família judia, em Düsseldorf, cidade da Alemanha conhecida pela indústria da moda, das telecomunicações e pelo cenário artístico e cultural da região. Heine estudou Direito - chegou a frequentar três universidades - mas descobriu muito cedo que gostava mesmo de literatura.
Em 1825 converteu-se do judaísmo para o cristianismo luterano, nomeando-se a si próprio pelo nome de Heinrich Heine. Fez a sua estreia literária em 1821, publicando o livro de poemas "Gedichte". A paixão não correspondida por suas primas - Amalie e Therese - inspiraram-no a escrever, em 1827, o "Livro das canções", sua primeira grande coletânea de versos.
Em 1831 trocou a Alemanha por Paris onde sofreu influência dos socialistas utópicos (corrente de “visões e contornos” para as sociedades ideais imaginárias ou futuristas). Seus escritos geraram desconforto nas autoridades alemãs e Heine foi tido como um “subversivo” e sofreu duramente com a censura. Suas obras foram banidas da Alemanha e ele proibido de voltar a viver em sua terra natal.
A opção por Paris, a principio foi voluntária, pois acreditava que encontraria na capital francesa maior liberdade de expressão e maior compreensão de suas ideias, o que de fato aconteceu. Foi um crítico mordaz da religião: "Ópio do povo!" Em relação à censura sofrida, Heine proferiu uma de suas mais conhecidas citações: “Aqueles que queimam livros acabam cedo ou tarde por queimar homens.”

DEZEMBRO: FLOR DO LÁCIO DE OLAVO BILAC / JOÃO SCORTECCI
Soneto - pequena canção ou, literalmente, pequeno som - é um poema de forma fixa, composto por quatro estrofes, sendo que as duas primeiras são constituídas por quatro versos, cada uma, os quartetos, e as duas últimas de três versos, cada uma, os tercetos. O mês de “dezembro” é o mês do poeta e sonetista Olavo Bilac (Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac). Bilac nasceu no dia 16, do ano de 1865 e morreu no dia 28, do ano de 1918, aos 53 anos de idade. É considerado o principal representante do parnasianismo no país. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras e responsável pela criação da letra do Hino à Bandeira. Bilac é autor do soneto “Língua Portuguesa”: “Última flor do lácio, inculta e bela / És, a um tempo, esplendor e sepultura / Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela / Amo-te assim, desconhecida e obscura / Tuba de alto clangor, lira singela Que tens o trom e o silvo da procela / E o arrolo da saudade e da ternura / Amo o teu viço agreste e o teu aroma / De virgens selvas e de oceano largo / Amo-te, ó rude e doloroso idioma / Em que da voz materna ouvi: "meu filho / E em que camões chorou, no exílio amargo / O gênio sem ventura e o amor sem brilho.”
DIDEROT E O CONHECIMENTO PARA GERAÇÕES ATUAIS E FUTURAS / JOÃO SCORTECCI
“Encyclopédie” ou “Dicionário Racional das Ciências, Artes e Profissões”, publicada na França, no século XVIII, foi uma das primeiras enciclopédias publicadas no mundo. Essa grande obra, compreendendo 35 volumes, 71.818 artigos e 2.885 ilustrações, foi editada pelo filósofo, matemático e físico francês, Jean le Rond d'Alembert (1717-1783), e pelo filósofo, tradutor e escritor francês, Denis Diderot (1713-1784).
D'Alembert deixou o projeto antes do seu término, e os últimos volumes da obra foram publicados por Diderot. Muitas das mais notáveis figuras do Iluminismo francês contribuíram para a obra, incluindo Voltaire, Rousseau e Montesquieu. De acordo com Denis Diderot, o objetivo da “Encyclopédie” era "mudar a maneira como as pessoas pensam" e incorporar conhecimento universal para gerações daquela época e futuras.
Diderot foi um dos primeiros autores que fizeram da literatura um ofício. Iniciou sua carreira como tradutor. Em 1743, traduziu “História Grega”, de Temple Stanyan (1675–1752). Foi, porém, com a tradução de “An inquiry concerning virtue or merit”, do político, escritor e filósofo, Ashley-Cooper (Anthony Ashley-Cooper, 1671-1713), sob o título “Essai sur le mérite et la vertu”, publicado em 1745, que Diderot se tornou conhecido. A primeira peça relevante da sua carreira literária foi “Lettres sur les aveugles à l'usage de ceux qui voient” (“Cartas sobre os cegos para uso por aqueles que veem”), em que sintetiza a evolução do seu pensamento desde o deísmo até ao cepticismo e ao materialismo ateu. Sua obra-prima, “Encyclopédie”, demorou 21 anos para ser editada. Destacou-se também escrevendo romances: “Sterne: A Religiosa”, “O Sobrinho de Rameau”, “Jacques, o fatalista e seu mestre”. Morreu em 31 de julho de 1784, aos 71 anos de idade e está sepultado no Panteão de Paris, na França.

06.10.2021
DO TEMPO EM QUE EU ERA CRIANÇA / JOÃO SCORTECCI
“Eu sou da metade do século passado!” - copiando a brincadeira que meu avô paterno Batista da Light (João Batista de Paula) fazia sempre, resfolegando a máxima: “Nasci no século retrasado e joguei gamão com o Matusalém”. Ríamos muito! Até há pouco tempo não sabia que “Matusalém” significa: "Sua morte trará juízo!" Isso depois de viver 969 anos, segundo a Bíblia.
Hoje recebi uma foto-provocação (abaixo, no post) do meu cunhado Fábio Serra, casado com minha irmã caçula, Ana Cândida. “Você já tomou banho em bacia de alumínio?” "Sim" respondi. Foi a “deixa” para voltar no tempo, na infância dos anos 1960, no Ceará, da metade do século XX. “Sim. Eu tomei banho em bacia de alumínio”.
No Ceará, água sempre foi de “escassez”. Dizem que “o nordestino é antes de tudo um forte” e, a máxima - adaptada de "Os Sertões" de Euclides da Cunha - vem do sofrimento da seca e do juízo da morte. No banho de bacia de alumínio a água era de muitos. Lavava pés, orelhas, bundas, pinto e pererecas. Lembro-me da festa que era - pelados e velozes - o banho em bacia. Melhor que isso: apenas banho de toró, de molhar até a alma.
Depois do banho em bacia de alumínio - do serenar das águas torvas - o ralo de ferro bebia tudo. Lembro-me do barulho das águas no caminho do cano e do silêncio do fim. “Eu sou da metade do século passado” e do tempo em que eu era criança.

12.06.2021

DOIS RELÓGIOS DE PULSO E O SINEIRO DO COLÉGIO CEARENSE / JOÃO SCORTECCI
Eu e as minhas manias! Todas da vez! Quando menino - isso na Fortaleza dos anos de 1970 e 1971 - aluno do Colégio Cearense, dos Irmãos Maristas, fui “convocado” para ser o novo sineiro do colégio. “Eu?”. “Sim. Você mesmo!”. Já cuidava do hasteamento da bandeira nacional, em dias da Pátria e em dias de eventos festivos. Uma honra! Dobrava e desdobrava a bandeira, com a “propriedade” de um escoteiro: sempre alerta! Aceitei. Missão: substituir o “pinguelão” do Torres, campeão de Speed Ball do colégio. “Você é alto, forte, mora perto do colégio e ninguém - de cabeça ajuizada - vai mexer com você.”. Palavras proféticas do Irmão Luiz Marques, diretor do colégio. "Quantas badaladas de sino por dia?". Quis saber, por nada. “Dez badaladas, no máximo.”. Cheguei em casa - babando ovo - e anunciei a boa-nova: “Vou ser o novo sineiro do Colégio Cearense!”. Mamãe Nilce engoliu seco e arregalou os olhos: “O que você aprontou desta vez? Isso está me parecendo um castigo!”. “Nada. Juro. E vou precisar de um relógio novo. Marca boa, de precisão suíça.”. “Isso não é comigo. É com o seu pai. Cadê o relógio Seiko que você ganhou de aniversário?”. “Quebrou”. Menti. No meu primeiro dia de sineiro, usei dois relógios. O Seiko - de vidro trincado - e o Cássio, novíssimo em folha. Um em cada pulso. Irmão Luiz Marques viu aquilo e perguntou: “Dois relógios?”. “Sim. Pontualidade é tudo.”. Desconfiado, alertou-me: “Não vai aprontar! E os sapatos?”. “O que têm eles?”. “Que marmota é esta: um sapato preto e o outro marrom?”. “É que eu sou daltônico. Quando fico nervoso troco as cores.”. “Você está nervoso agora?”. “Depende.”. “Depende de quê. Posso saber?”. “Da mania da vez.”. “E não estão zoando com você?”. “Não mais. Já resolvi o assunto.”. “Posso saber o que você fez?”. “Nada. Dei um susto nele com uma faca. Nem sangue saiu.” Durante os anos de 1970 e 1971, fui o sineiro oficial do Colégio Cearense, usando dois relógios - um em cada pulso - e sapatos Vulcabrás, um preto e outro marrom. Fui descobrir que era daltônico - de verdade - em 1976, no serviço militar obrigatório, já morando na cidade de São Paulo. De volta à cidade de Fortaleza, nas férias de julho de 1972, visitei o Colégio Cearense e reencontrei, no pátio, o Irmão Luiz Marques. “Você, aqui?” “Sim. Estou de férias.”. “Vejo que você está mudado: não usa mais dois relógios e nem sapatos trocados! Parabéns!”. “É que eu mudei de mania!”. Irmão Luiz Marques estudou-me - demoradamente – e, então, mordeu o anzol: “E qual é a mania da vez?”. “Depende”. “Depende do quê?”. “Melhor eu não dizer. O senhor não vai gostar - nadinha - da história.”. “Mania carnal ou venial?”, insistiu. “Depende.”. “Depende de quê?”. “Da mania da vez. Quando fico nervoso troco coisas!”. Fiquei 10 anos sem retornar ao Ceará. Exílio voluntário. É dessa época o livro "Na linha do cerol: reminiscências poéticas". Durante esse tempo, fiquei sabendo que o Irmão Luiz Marques largou a batina e se casou. E o Colégio Cearense - até então masculino - passou a ser misto. Hoje não existe mais. Infelizmente, fechou. Vive da lembrança de ex-alunos e... da mania da vez.
DUDU - O DINOSSAURO FOX E O PÃO COM OVO / JOÃO SCORTECCI
Dudu é um dinossauro Fox. Companheiro das manhãs do “pão com ovo”, do café expresso e do leite quente. O pão que saí da torradeira não pode estar “pelando” e nem “queimado”, e, quase sempre, preciso “assoprar” os cinco pedaços — da parte que lhe cabe no latifúndio — todo santo dia. Dudu, educadíssimo, aguarda o encantamento de amor. Gostamos do cerimonial e estamos satisfeitos com a divisão fraterna da relação. Alinho os pedaços de pão com ovo e assopro. Repito — ato contínuo — de pai para filho, três vezes. São 15 exercícios diários de sopro. Ele saliva, sofre e aguarda a sorte. Já tentei enganá-lo, simulando quatro pedaços — escondendo um — e ele protestou. Mostrou-me os dentes. Garras de dentes tortos. Olhou-me com desprezo. “Não sabe mais contar?” Teria dito algo assim e eu, envergonhado, teria assimilado o golpe. Ingrato! Toda malvadeza será castigada! Dudu tem três anos e seis meses de idade. Seu nome é uma homenagem ao jogador de futebol Dudu, do Palmeiras. Já tivemos outros cachorros futebolistas: o goleiro Veloso (Cocker Spaniel) e Edmundo (Bigle), o animal que destruiu a casa. A arte imita a vida! E o Sansão, um Poodle, gente boa, de codinome “Herói do sertão”. Viveu na família por quase 15 longos anos. Dudu — faz isso sempre — cheira, encara, abre meia boca, cata o pão com ovo pelas beiradas e come com gula. Engole! Vez por outra — de safadeza, creio — deixa o pão cair no chão. Come o ovo e depois, a contragosto, o pão. Às 5h30, deixo-o bêbado de sono. Tempo de chamar o elevador, pegar o jornal e vê-lo tombar “mortinho da silva” no sofá da sala. Tenho me especializado no trato e na psicologia canina e feito — sistematicamente — os ovos mais “amolecidos”. Tenho também diminuído o sal, o creme de leite e o requeijão de bisnaga. Café reforçado, o suficiente para me levar vivo até às 11h45, meu sagrado horário do almoço. Dele não abro mão! Quem me conhece sabe: com fome, torno-me agressivo, rude, cruel e impaciente. Puxo a faca e furo os olhos da presa. Deve ser coisa de cearense, leão velho ou algo assim. Aqui cabe uma máxima reversa: o dono é a cara do cachorro! Dudu tem dado sorte ao Palmeiras: Em três anos, tornou-se bicampeão da Copa Libertadores e campeão da Copa do Brasil. Assim seja.
ELVIS NÃO MORREU / JOÃO SCORTECCI
Quando Elvis Presley “abduziu-se”, tinha 42 anos de idade. Eu, leonino, de agosto de 1956, tinha 21 anos e 14 dias. A metade de sua idade! Sua última foto publicada na imprensa assustou-me: o “Rei do rock and roll” estava gordo e visivelmente drogado. Fiquei triste. Deprimido. Já morava na cidade de São Paulo - desde 1972 -; havia dado baixa - em dezembro de 1976 - do serviço militar obrigatório; trabalhava - desde março de 1977 - com venda de móveis e equipamentos para escritório; e já poetava e sonhava em, um dia, tornar-me editor de livros, gráfico e livreiro. Até hoje, Elvis (Elvis Aron Presley, 1935-1977) é assunto de destaque em matérias de jornais, revistas, TVs, rádios, no mundo e no universo. Com o meu salário do mês de agosto de 1977, comprei um gravador de pilhas da CCE e fitas K-7, com suas canções. Foi na virada do ano de 1977 que “soube” rumores de que Elvis, o “Rei do rock”, não havia morrido e sim “abduzido” por seres guardiões de outros planetas. A história ganhou força - e várias versões – com a publicação de livros, reportagens e depoimentos de pessoas que o “viram”, após a sua partida. Há quem diga que Elvis teria forjado sua própria morte para fugir da fama e dos “paparazzi”. Tudo é possível. Como fã, cultivei - e o faço até hoje - a imagem cinematográfica de Elvis sendo “abduzido” por extraterrestres. Coincidência ou não, selei minha crença depois que li o livro “Eram os deuses astronautas?”, do escritor suíço Erich von Däniken. “Elvis não morreu” tornou-se um eco, uma voz, um metaverso, que canta e embala gerações. Hoje - 8 de janeiro de 2022 – é aniversário de 87 anos de Elvis. Vale esperá-lo, sempre.
EMÍLIO MOURA: “VIVER NÃO DÓI. O QUE DÓI É A VIDA QUE NÃO SE VIVE.” / JOÃO SCORTECCI
O poeta modernista Emílio Moura (Emílio Guimarães Moura, 1902-1971) nasceu em Dores do Indaiá, pequena cidade do Centro-Oeste mineiro. São também dessa cidade: o professor, jurista e político, Francisco Campos (1891-1968), responsável pela reforma do ensino secundário de 1931, pela redação da Constituição brasileira de 1937 e do Ato Institucional n.1 resultante do golpe militar de 1964; e o escritor, sociólogo e cientista político, Bolívar Lamounier, primeiro diretor-presidente do IDESP - Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo.
Emílio Moura e outros intelectuais mineiros - entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Martins de Almeida, João Alphonsus, Cyro dos Anjos, Aníbal Machado, Abgar Renault, Milton Campos e Gustavo Capanema - participaram ativamente do chamado “modernismo mineiro”, na década de 1920. Moura foi redator de “Cadernos literários” dos periódicos “Diário de Minas”, “Estado de Minas” e “A Tribuna de Minas Gerais”, professor universitário e um dos fundadores da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1945, onde lecionou e da qual foi o primeiro diretor.
Em 1924, com Carlos Drummond de Andrade, Gregoriano Canedo e Martins de Almeida, fundou o grupo que editava “A Revista”, publicação literária modernista, que teve apenas três edições: em julho e agosto de 1925 e janeiro de 1926. Foram colaboradores da publicação: Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Mário de Andrade, João Alphonsus, Abgar Renault e Pedro Nava. Nas palavras deste escritor mineiro: “Emílio tinha o sentido raro do nada do mundo, do tudo do amor, da angústia do incógnito da vida e da morte." Quando Drummond soube de sua morte, em 28 de setembro de 1971, assim escreveu como despedida ao amigo: “Corredor ou caverna ou túnel ou presídio, não importa. Uma luz violeta vai seguir-me: a saudade de Emílio Moura".
Em 1970, Emílio Moura obteve o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro, com “Itinerário Poético”, coletânea de todos os seus livros, considerada por ele sua obra definitiva. Lá está um de seus célebres poemas, “Renúncia”: “Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse. Aqui estou, tímido e humilde. Parece que aqui estou há séculos. Meus olhos já não compreendem outra realidade. A realidade que amei dorme na sombra.”
ESMOLAS PARA BELARMINO! / JOÃO SCORTECCI
Pedir esmolas no Brasil já foi crime. Isso eu não sabia. Fazia parte das contravenções penais, com punição de 15 dias a três meses de detenção. Deixou de ser crime em 2009. “Esmola” significa “dádiva caridosa feita aos pobres”. Cada religião, tem lá sua justificativa para a prática de atos de óbolo (moeda usada na antiguidade grega de valor insignificante que correspondia a um sexto de dracma; donativo de pouco valor, dado aos pobres; esmola). Por ser voluntário – dá quem quer e pode –, vale o que manda o coração. O tal dízimo (décima parte de algo, paga voluntariamente) enquadra-se no óbolo em questão. Até aí nada contra. Pago lanches, café com pão, pastéis e até almoço para quem me pede. Hoje, lendo sobre Galileu Galilei (Galileo di Vincenzo Bonaulti de Galilei, 1564-1642), dei de cara com um tal de São Belarmino (Roberto Francesco Romolo Bellarmino, 1542-1621), jesuíta italiano e cardeal católico, beatificado em 1923 e canonizado em 1930. Belarmino era fã das esmolas e pregava cinco vantagens para quem praticasse óbolos: satisfação por pecados cometidos, méritos para a vida eterna, perdão dos pecados, confiança em Deus e inspiração dos pobres a rezarem por seus benfeitores. Inquisidor cara de pau. Foi Belarmino quem, no ano de 1616, por ordem do Papa Paulo V, notificou Galileu Galilei sobre um vindouro decreto condenando a doutrina do astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (Niklas Koppernigk, 1473-1543) de que a Terra se movia e que o Sol era imóvel. A teoria do “Heliocentrismo”, de Copérnico, que colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a então vigente teoria “Geocêntrica” (que considerava a Terra como o centro), é considerada como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, tendo constituído o ponto de partida da Astronomia. Cara ou coroa? Dracma!

24.05.2022
ESSE TAL DE PARMÊNIDES É UM ALFENIM / JOÃO SCORTECCI
Esse tal de Parmênides é deveras um alfenim azedo. Uma moeda de meia pataca! Para ele o Ser é — e não pode não ser — limitado e ilimitado, dividindo-se o mundo em dois elementos: luz e trevas, positivo e negativo, vida e morte. Parmênides (530 a.C. - 460 a.C.), filósofo grego natural de Eleia, cidade grega na costa sul da Magna Grécia, via as mudanças físicas que ocorrem no mundo como uma mistura da qual participam o Ser e o não Ser. Eis a questão!
Para o grego Parmênides, o nada — não Ser — não é e não pode ser. Um contraste entre a verdade — que não é — e a aparência — que pode pensar ser. Um enrosco! Pensar e ser são o mesmo! Pensar sobre nada é não pensar, da mesma forma que dizer nada é não dizer. E mais: o não ser não pode ser pensado nem enunciado. Tenho dito! Aqui com os meus ossos: eu existo? Cadê o exemplar do meu René? Deve estar na estante da sala ou teria ele sido um Descartes do lote que enviei para o sebo do Messias? Talvez. “Ego cogito, ergo sum”. Volto para as dualidades da morte. Salve Parmênides! Entrei de vez no jogo. E agora? Difícil largar o veneno e não pirar. Continuo respirando, acho. Uma coisa puxa outra e mais outra. Esse filósofo Parmênides é um alfenim jacaré — massa branca de açúcar e óleo de amêndoa doce em forma de coração ferido.
Na infância tinha alfenim de tudo que era formato: flores, animais, cachimbos, peixes, pombinhos, galinha chocando, homens, sapatinho, chave, margarida, menina, canário e jacaré. Jacaré de rabo grande! Será que Parmênides um dia provou do doce da existência? E se o Ser fosse diferente de si mesmo, ele não seria o que é? O Ser não pode não ser. Tenho dito! O Ser é um. Não podemos conceber que exista outro Ser. O primeiro Ser teria que não ser o segundo Ser e teria que ser compreendido como não sendo. Justo! Além disso, é absurdo pensar que o Ser não é. Nunca duvidei! Por isso, só pode existir um Ser. Por fim e já concluindo, o Ser não pode ser gerado. Nada pode ser gerado do nada. O nada não é e não pode ser. Então ele não pode dar origem ao Ser. Se fosse gerado de outro Ser, isso seria admitir que existem dois seres e um deles seria o não Ser de outro, e isso é impossível. Conclusão: o nada é um jacaré de açúcar e óleo de amêndoa que não existe. E pensar que fui na infância uma criança feliz.

EU QUERO É ROSETAR COM A ROSETA DA ESPORA! / JOÃO SCORTECCI
Eu quero é rosetar! Rosinha do pomar, do bilhete, da janela, do quintal do vizinho. Quero varar-me pela brecha da telha – nu – com a ponta cruel da minha espora. Nada importa – ainda. Depois passo mercúrio cromo e coloco um esparadrapo no rasgo. Eu quero é rosetar! Quero pinar – desbragadamente – com o punhal da castidade. Quero sangrar na noite do caranguejo negro. Eu quero é rosetar! Muito. Beijar a lona do circo! Zé Anão – o palhaço – diz sempre: “O bom é hilário!” Eu quero rosetar em Roseta. Quero Rosinha da cidade da província egípcia de Al-Buhaira, que fica a leste de Alexandria: na boca do mar mediterrâneo. Lá – noutra vida de deus – cultivava espinhos e esporas. Saudade! Isso bem antes de acharem a tal pedra de Roseta. E quando foi isso mesmo? Em 1799. Eu, o pequeno Napoleão e todo o exército francês. Uma expedição! “Acho que você está com febre!” Talvez. “Você não tem medo da dentada da espora da loucura?” Tenho. Fazer o quê? “Viaja quando?” Hoje mesmo. Eu, Rosinha, uma pequena mala de couro e alguns aloegos: bússola estelar (presente do poeta Louis Awad), mapa da biblioteca de Alexandria (presente do amigo Demétrio de Faleros), canivete suíço (presente do meu pai Luiz), cavalinho de pau (fuga da infância perdida) e um bloco de papel, com lápis de carpinteiro, um riscador de estrelas. “Pretende voltar da loucura ou vai ficar por lá, de vez?” Depende. Vai que a pedra mágica me pega outra vez. “Não entendi?”. Na última viagem no tempo fiquei por lá – perdido – mais de um século. “Você volta para o seu aniversário, no mês de agosto?” Talvez. Eu quero é rosetar lá em Roseta! “Uma pergunta, desavisada de tudo: lápis de carpinteiro?” Sim. Lápis de carpinteiro. Mania! Quero tracejar poesia no delta do Nilo. Quero abraçar Rosinha até a morte no hilário do mediterrâneo. “Já avisou Rosinha?” Não. “Ela sabe que você pirou da cabeça?” Ainda não. A surpresa é sempre inevitável. “Quem disse isso?” Napoleão, o imperador. “Não teria sido Demétrio?” Acho que não. Eu quero é rosetar com a roseta da espora!
EU, ISAAC ASIMOV / JOÃO SCORTECCI
Tornei-me fã do escritor russo de obras de ficção científica Isaac Asimov (Isaak Yudovich Ozimov, 1920-1992), no ano de 1972, quando iniciei uma longa e quase completa viagem lendo e relendo sua imensa obra de ficção científica, em livros comprados na Brasiliense, da Rua Barão de Itapetininga, na capital paulista. "Eu, robô" (1950) foi o primeiro de todos. Um clássico. "Nove Amanhãs" (1959) é o meu preferido. Asimov é também o responsável pelas leis diretivas da robótica: 1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2) Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. 3) Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis. Mais tarde Asimov acrescentou a “Lei Zero”, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal. Há quem ache tudo isso uma “babaquice” de Isaac. Um engano! Quem poderia imaginar que Asimov escreveria as próprias leis de sobrevivência da humanidade? Asimov era um “claustrófilo”, gostava de espaços pequenos e fechados. No primeiro volume da sua autobiografia, ele conta um desejo infantil de possuir uma banca de jornal, numa estação de metrô de Nova Iorque, dentro da qual ele se fecharia e escutaria o ruído dos carros enquanto lia. Em 1964, aceitou uma proposta do jornal “The New York Times” e fez uma série de previsões acerca do mundo do futuro, projetando-o como seria dali a 50 anos, isto é, em 2014. Asimov previu a existência dos micro-ondas, da fibra ótica, da internet, de uma biblioteca global, dos microchips, das TVs de tela plana e até de pessoas acometidas de depressão. Asimov pretendia escrever 500 livros e, por pouco, não atingiu essa marca; escreveu 463 obras. Mas, somando-se todos os livros, desenhos e coleções editadas, totalizam-se 509 itens em sua bibliografia completa. Asimov  morreu de falha cardíaca e renal, em decorrência do vírus da AIDS, adquirido depois de transfusão de sangue recebida durante uma operação de "bypass gástrico" (cirurgia bariátrica), em dezembro de 1983. Asimov faleceu aos 72 anos de idade, em 6 de abril de 1992, em Nova Iorque.
FARDA, FARDÃO, BILAC E PATROCÍNIO, EM TEMPOS “VAPOROSOS” / JOÃO SCORTECCI

O inventor e industrial francês, Léon Serpollet (1858-1907), foi o pioneiro dos automóveis e bondes movidos a vapor, da marca Gardner-Serpollet. Em 1896, inventou e aperfeiçoou o “flash boiler”, um tipo especial de caldeira, muito mais compacta e controlável, ideal para o uso em veículos. Em abril de 1902, na capital da França, dirigindo seu potente Serpollet, obteve o recorde de velocidade no solo: 120,8 km/h.
O primeiro carro da cidade do Rio de Janeiro - um Serpollet a vapor - foi adquirido pelo farmacêutico, jornalista e abolicionista, José do Patrocínio (José Carlos do Patrocínio, 1853-1905), que, no ano de 1897, retornando de Paris, trouxe a novidade. A “máquina” teve vida curta. Na história das “trombadas” literárias, foi o primeiro "arauto" de acidente automobilístico da cidade do Rio de Janeiro, na época, Capital Federal.
No volante - na condição de piloto - estava o poeta, inspetor de ensino e membro da Academia Brasileira de Letras, Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, 1865-1918); e, de copiloto e orientador, o próprio José do Patrocínio. A “máquina” abalroou à velocidade de 4 km/h, na estrada velha da Tijuca. A vítima teria sido uma “árvore” que, bravamente, resistiu ao impacto. A mesma sorte não teve o “vaporoso” Serpollet, que acabou no ferro-velho.
É o que dizem. Dizem, ainda, que Olavo Bilac se gabava de ter sido o precursor dos acidentes de automóvel no Brasil. Em crônica publicada no jornal "A Notícia", em 1905, Bilac assim descreve o primeiro automóvel da cidade do Rio de Janeiro: feio, pequenino, amarelo e que deixava um cheiro "insuportável" de petróleo no ar. "Quando havia pane, a garotada, formando círculos em torno do veículo, rompia em vaias."
Sinopse dos fatos: poeta, inspetor de ensino, acadêmico, parnasiano, desabilitado, abalroou máquina alheia, no tronco de uma árvore, na Tijuca, “com o afeto que se encerra em nosso peito juvenil”. O resto é fofoca e - de passagem - não faz parte da obra “Farda, Fardão, Camisola de Dormir”, nem das desavenças ideológicas de Amado, o Jorge.

18.09.2021

FILHOS DE ARACATI, DO MAR E DA LIBERDADE / JOÃO SCORTECCI
O jangadeiro e abolicionista Francisco José do Nascimento (1839-1914) nasceu em Canoa Quebrada, Aracati (“Terra dos Bons Ventos”, em Tupi-guarani), distante 150 km de Fortaleza, no Ceará. Aracati é hoje um importante polo turístico do estado e, a partir do ano 2000, patrimônio histórico e artístico nacional pelo IPHAN. Os primeiros habitantes das terras de Aracati foram os índios Potiguaras. No início da colonização portuguesa resistiram “ferozmente” aos invasores. Foram aliados dos ingleses e dos franceses, comerciantes de pau-brasil. É terra do revolucionário Eduardo Angelim (lavrador e um dos líderes do movimento Cabanagem, Guerra dos Cabanos, Província do Grão-Pará, em 1835), do romancista naturalista Adolfo Caminha (Adolfo Ferreira dos Santos Caminha, 1867-1897), do bispo católico Manuel do Rego Medeiros (1829-1866), do ator, radialista, locutor e roteirista Emiliano Queiroz, do pianista clássico Jacques Klein (1930-1982) e do abolicionista Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar (ou Chico da Matilde). Em 25 de março de 1884, o Ceará tornou-se a primeira província brasileira a abolir a escravidão. Dragão do Mar contribuiu para essa abolição pioneira. Em janeiro de 1881, liderados por Dragão do Mar e pelo escravo liberto José Luis Napoleão, os jangadeiros se recusaram a transportar para os navios negreiros os escravos que seriam vendidos para o Rio de Janeiro. Posteriormente, em agosto de 1881, houve uma nova tentativa, desta vez para São Paulo, e mais uma vez foram impedidos. Palavras do Navegante Negro: “No porto do Ceará não embarcam mais escravos.”
FILOMENO, O “VASSOURA” MUQUIRANA DA ALDEOTA / JOÃO SCORTECCI
Filomeno, o amável, era um muquirana. Um pão-duro. Papai Luiz o chamava de “Filorento”. Guardava o seu dinheiro num baú escondido debaixo da cama. A pobre de sua mulher, D. Mariazinha, passava apuros. Tinha um único vestido - preto - que servia para tudo: missa, casamento e velório. O casal não teve filhos, e a fortuna do sovina era de dar inveja. É o que diziam. Filomeno era proprietário de uma fábrica de vassouras e morava perto da casa dos meus avós, na Aldeota, na Fortaleza dos anos 1960. Meu papai Luiz contava - sempre - duas de suas muitas histórias de “pão-durice”. A primeira era de quem lhe pedia emprego, na fábrica de vassouras. “Qual o seu nome?”. “José Pinto, Senhor”. “Sabe varrer o chão?”. “Sei, sim.”. “Aqui na minha fábrica de vassouras - as melhores do Nordeste, dizia sempre - quem não souber varrer o chão não trabalha.”. “Quanto eu vou ganhar, Sr. Filomeno?”. “Meio salário e uma vassoura.”. “Uma vassoura?” Filomeno, o amável, era um homem justo, porém controlado: “José, você vai varrer a fábrica - todos os dias - depois do expediente. Se quebrar a ferramenta, eu desconto do seu salário.”. “Sr. Filomeno, obrigado. Tenho uma pergunta: até quando vou ter que varrer a fábrica, depois do expediente?”. “Até o Natal.”. “Sr. Filomeno, ainda estamos no mês de março!”. “Eu sei. Experiência é tudo na vida.” Meu papai Luiz contava ainda que o José Pinto ficou no posto de “varredor” até a véspera do Natal daquele ano. O combinado vale sempre! Passou o serviço para o seu irmão caçula, o Francisco Pinto, recém-chegado de Itapipoca, interior do Ceará. José Pinto trabalhou na fábrica de vassouras durante 25 anos e chegou a Gerente da Expedição. O seu maior orgulho era carregar no peito - do lado esquerdo do coração - um pingente dourado de uma “vassoura” da campanha para presidente do Jânio Quadros, presente do Sr. Filomeno, o amável. “Filorento” - vez por outra - batia na porta da casa dos meus avós e pedia um favor. Um martelo, um pedaço de arame, uma xícara de açúcar, um lápis com ponta, agulha e linha, coisas de pouco valor. Nada mais que isso. Até que um dia, espiou de longe, pelo vão da porta, e cobiçou um quadro da Santa Ceia, cópia da obra de Raffaelli, que ficava na parede da sala de jantar da casa. Meu avô, percebendo o olho grande do vizinho muquirana, disse: “Gostou? É seu. Pode levar de presente!” O Sr. Filomeno levou o quadro, um prego e o martelo emprestado. Dias depois, voltou para agradecer pelo presente e convidar meus avós para jantarem em sua casa, no sábado seguinte. Mesmo surpresos e desconfiados, aceitaram o convite. Foram servidos: sopa de chuchu, moela de frango com arroz branco, duas batatas cozidas e dois ovos estrelados. Sr. Filomeno levantou-se, e, em pé, com um garfo, dividiu as batatas e os ovos em quatro pedaços milimetricamente iguais. Beberam Ki-Suco de laranja e, de sobremesa, comeram um manjar de coco, sem ameixas. Filomeno morreu no final dos anos 1970, um ano depois do falecimento de sua esposa. Sua fortuna - é o que se sabe - ficou com um sobrinho distante, que fechou a fábrica de vassouras e foi ser “rabo-de-burro” na cidade do Rio de Janeiro. Experiência é tudo na vida!

24.12.2021
FOLIAÇÃO DE SANTA WIBORADA – PATRONA DOS BIBLIÓFILOS / JOÃO SCORTECCI
A palavra “encadernação” deriva de “caderno”, do latim “quaternus”, que significa “de quatro em quatro”. As quatro partes em que se dobrava um fólio - folha dobrada ao meio de uma folha maior - para constituir um caderno. Wiborada, a freira beneditina, bibliotecária e encadernadora de livros, nascida no ducado da Suábia, hoje Suíça, e falecida no ano de 926, tinha o dom da profecia e paixão pelos livros.
Em 925, previu uma invasão húngara em sua região. Seu aviso premonitório possibilitou que os religiosos dos mosteiros de Saint Gall e Saint Magnus escondessem os livros da biblioteca do mosteiro - enterrando-os - e escapassem para cavernas nas colinas próximas. Os manuscritos mais preciosos foram transferidos para a Ilha de Reichenau (localizada no Lago Constança, no sul da Alemanha), considerado um lugar seguro.
Em 926, sua premonição se concretizou, e Wiborada, que se negou a fugir, pagou com a própria vida, quando foi brutalmente assassinada. Seu corpo, mutilado e desfigurado, foi abandonado em uma pequena elevação, onde mais tarde encontraram enterrados os livros intactos. Em 1407, o Papa Clemente II a proclamou santa. Foi a primeira mulher a ser canonizada na história. É patrona dos livros, dos livreiros e dos bibliófilos. Na arte, ela é comumente representada segurando um livro, para representar a biblioteca que ela salvou, e um machado, que significa a forma de seu martírio.

FUZIS, FEIJÕES E FLATULÊNCIAS / JOÃO SCORTECCI
“Sinédoque” é uma figura de linguagem – a palavra vem do grego e significa “compreender várias coisas conjuntamente”. É um tipo especial de “metonímia”. Caracteriza-se pela substituição de um termo por outro. Consiste na atribuição da parte pelo todo (pars pro toto), ou do todo pela parte (totum pro parte). Isso tudo - ou quase nada - para tentar entender, ou desenhar, quem sabe, o perfil da relação-sinédoque entre um fuzil - pedra que produz fogo - e um feijão - semente que alimenta e alegra a barriga dos brasis com proteínas, ferro, cálcio, vitaminas, carboidratos e fibras.
Aqui - em dia de incertezas - descubro “conjuntamente” a relação-sinédoque entre fuzis e feijões. Leio, também, sobre flatulências, gases expelidos pelo ânus, puns, traques e muito sobre armas automáticas, modelo 762, de 20 tiros, que custam, aproximadamente, 12 mil reais, em lojas da Internet, o equivalente a 1600 quilos de feijão.
Minha “pederneira” fartou-se de gases! Feito isso, iniciei, de pronto, outra leitura qualquer, numa sequência no modo “totum pro parte”. Na página seguinte, no rodapé das ideias, outra sinédoque. Coincidências não existem! Li sobre o rastilho de nitrato de potássio, enxofre e carvão que assola o país.
Na fábula “João e o pé de feijão” o menino sonhador - troca uma vaca - a única que tinham - por um punhado de feijões mágicos. A mãe de João, enfurecida, joga os feijões pela janela. Os feijões brotam num gigante pé de feijão, que sobe até o céu. João, então, escala o feijoeiro e, no alto, encontra um castelo, lugar habitado por um gigante que se alimenta da miséria humana. A história continua, cheia de aventuras, até o dia em que João - fugindo do gigante que o persegue - com um machado, corta o pé de feijão.

27.08.2021

GANDHI, JYOTIRAO E FERNANDO PESSOA: QUEM DÁ É A VIDA / JOÃO SCORTECCI
“Mahatma” — composta por “maha” (“grande”) e “Atman” (“alma ou espírito”) — é uma palavra do sânscrito, grupo de línguas indo-áricas, antigas e modernas, que formam a maioria das línguas indo-europeias da Índia, Paquistão, Bangladesh e outros países vizinhos. Uma grande alma! Seres que, por meio do poder da vontade e da evolução espiritual, atingiram a “mestritude” espiritual. Quem dá é a vida! O termo “Mahatma” também é utilizado na Índia como título de honra atribuído a pessoas de alma grande, como o advogado e anticolonialista indiano Gandhi (Mohandas Karamchand Gandhi, 1869-1948) e o pensador e escritor Jyotirao Phule (Jyotirao Govindrao Phule, 1827-1890). Jyotirao — nome recebido em homenagem ao Deus Jyotiba — dedicou-se à erradicação da intocabilidade (segregação de grupos de pessoas) e do sistema de castas e a esforços na educação de mulheres e castas oprimidas. Casta (“cor”, em sânscrito) é um sistema tradicional, hereditário ou social de estratificação, ao abrigo da lei e com base em classificações como a raça, a cultura, a ocupação profissional e a religião. Gandhi, na sua “mestritude” espiritual e política, anticolonialista e de resistência não violenta, usou, na campanha de independência da Índia, a tática do “Satyagraha” — termo hindi composto pelas palavras “Satya”, que pode ser traduzida como “verdade”, e “agraha” que significa “firmeza”, “constância”. A filosofia do “Satyagraha” influenciou também Martin Luther King, na campanha que ele liderou pelos direitos civis nos Estados Unidos da América do Norte. Os princípios básicos da filosofia do “Satyagraha” são: não violência, verdade, honestidade, não roubar, não “posse” de bens materiais, trabalho corporal pelo pão de cada dia, jejum, destemor, igualdade e respeito a todas as religiões, boicote aos produtos e costumes estrangeiros e combate à intocabilidade (segregação). Os Mahatmas Gandhi e Jyotirao — cada um no seu tempo e do seu modo — foram incansáveis na luta contra a intocabilidade de castas e o imperialismo econômico, social e cultural dos colonizadores e senhores do mundo opressor contra os mais pobres e humildes. Aqui cabem os versos do poeta português, Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena./ Se a alma não é pequena.” E quem dá é a vida!
GARNIER, DE BAPTISTE GARNIER, CASA GARRAUX, DE ANATOLE GARRAUX, E A LIVRARIA DE LACHAUD, DE FERDINAND BRIGUIET / JOÃO SCORTECCI
A Livraria e Editora Garnier (A B. L. Garnier, anteriormente denominada “Garnier Irmãos”) funcionou na cidade do Rio de Janeiro de 1844 a 1934, como uma das principais casas editoriais da segunda metade do século XIX. Seu presidente, editor, gráfico e livreiro, o francês Baptiste Garnier (Baptiste Louis Garnier, 1823-1893), notabilizou-se por publicar, durante cerca de 20 anos, livros de escritores que se tornaram famosos, como Machado de Assis. Foi o primeiro editor brasileiro a encarar a impressão e a edição como atividades completamente diferentes. Baptiste Garnier chegou ao Brasil em 24 de junho de 1844 e abriu uma filial da Garnier Frères, de propriedade de seus irmãos mais velhos, Auguste e Hippolyte. No início, a Livraria Garnier (na Rua do Ouvidor, no. 69; e, a partir de 1878, no no. 71), editava seus livros no Brasil e os imprimia em Paris e em Londres. No início da década de 1870, Baptiste Garnier abriu sua própria tipografia com o nome “Tipografia Franco-Americana”, que deixou o legado de 655 trabalhos de autores brasileiros publicados entre 1860 e 1890, além de várias traduções, do francês, de romances mais populares. Deve-se a Baptiste Garnier o formato francês dos livros que o Brasil adotou: “in-oitavo” (16,5 x 10,5 cm) e “in-doze” (17,5 x 11,0 cm), imitações da firma parisiense Calmann-Lévy, fundada em 1836 e até hoje influente no mercado francês de edições. Em 1891, com saúde precária, Baptiste iniciou negociações para a venda de sua empresa, sem sucesso. Faleceu três anos depois, em 1893. A Garnier passou, então, para seu irmão mais velho, Hippolyte, que residia em Paris. Em 1898, Hyppolite mandou para o Brasil o gerente de loja, o francês Julien Lansac, que nomeou Jacinto Silva como assistente-chefe, o qual teve grande autonomia para trabalhar, devido às dificuldades de Lansac por não conhecer a língua portuguesa. Em 1904, Jacinto Silva saiu da Garnier e foi trabalhar na Casa Garraux, do francês Anatole Louis Garraux, localizada na cidade de São Paulo; e, em 1920, instalou sua própria casa editorial a “Casa Editora O Livro”, que foi o centro do movimento modernista. Hippolyte Garnier morreu aos 95 anos de idade, em 1911, e Julien Lansac voltou à França, em 1913. A Garnier encerrou as atividades em 1934, quando foi vendida a Ferdinand Briguiet, proprietário da Livraria de Lachaud, passando a usar o nome “Livraria Briguiet-Garnier”, a qual permaneceu em atividade até 1951, quando foi comprada pela editora portuguesa Difel - Difusão Europeia do Livro.

GONÇALVES DIAS: EM CISMAR - SOZINHO - À NOITE! / JOÃO SCORTECCI
O poeta, advogado e acadêmico maranhense Gonçalves Dias (Antônio Gonçalves Dias, 1823-1864), autor do poema “Canção do Exílio”, vítima de um naufrágio do navio Ville Bologna, aos 41 anos de idade, na baía de Cumã, município de Guimarães, no estado do Maranhão. Gonçalves Dias foi um ávido pesquisador das línguas indígenas e do folclore brasileiro. Formou-se em Direito, em Coimbra, Portugal, retornando ao Brasil em 1845, após bacharelar-se.

No exílio escreveu: “Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar – sozinho – à noite – Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras; Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar – sozinho – à noite – Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que eu desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.

O verso mais bonito de “Canção do Exílio” é desconhecido por leitores e admiradores de sua obra: “Em cismar - sozinho - à noite”. Ficar absorto em pensamentos - sozinho - e ser devorado de saudade pelo canto do sabiá. Imagem linda e perfeita de quem viveu o exílio.
Machado de Assis, ao saber da morte de Gonçalves Dias, escreveu, no Diário do Rio de Janeiro, de 9 de novembro de 1894: “Morreu no mar-túmulo imenso para talento”. 
GRAÇA ARANHA E OS PASSADISTAS DOS HORRORES / JOÃO SCORTECCI
O escritor, diplomata e acadêmico maranhense Graça Aranha (José Pereira da Graça Aranha, 1868-1931) é considerado um autor pré-modernista. Seu romance “Canaã”, publicado em 1902, aborda a imigração alemã no estado do Espírito Santo, por meio do conflito entre dois personagens principais, Milkau e Lentz, que representam diferentes linhas filosóficas. Temas como opressão feminina, imperialismo germânico, militarismo, corrupção dos administradores públicos, ostracismo, conflito de adaptação à nova terra são tratados nesse romance. “Canaã” foi inspirado no naturalismo filosófico alemão e inaugurou uma nova fase do romance brasileiro, com a fusão entre Realismo e Simbolismo. Graça Aranha foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, na capital paulista, entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, quando se realizaram atividades artístico-culturais, envolvendo artes visuais, literatura, teatro, cinema e música. Houve ainda exposições, concertos, palestras, conferências e discursos de escritores, como: Ronald de Carvalho, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Na abertura do evento, Graça Aranha proferiu a conferência intitulada "A emoção estética da arte moderna", defendendo uma arte, uma poesia e uma música novas, com algo do "Espírito Novo" apregoado por Apollinaire (Guillaume Apollinaire, 1880-1918), escritor e crítico de arte francês, um dos mais importantes ativistas culturais das vanguardas do início do século XX, conhecido particularmente por sua poesia visual, fundindo escrita e disposição gráfica das palavras, e por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas na França, como o do Cubismo, além de ser o criador da palavra “Surrealismo”. Na conferência de abertura da Semana de 1922, Graça Aranha afirma: “Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição, que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de ‘horrores’. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida, se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros ‘horrores’ vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado (...).” O maranhense Graça Aranha rompeu com a Academia Brasileira de Letras em 1924, a qual acusou de “passadista” e marcada por total imobilismo literário. Ele chegou a declarar: "Se a Academia se desvia desse movimento regenerador, se a Academia não se renova, morra a Academia!". Graça Aranha morreu 9 anos depois da Semana de Arte Moderna de 1922, no dia 26 de janeiro de 1931, aos 62 anos de idade.
GUTENBERG E A BÍBLIA DE LETRAS GÓTICAS / JOÃO SCORTECCI
O escritor, sacerdote, missionário e tradutor Úlfilas (310-383) foi um godo (povo da Germânia - Alemanha - que invadiu os impérios romanos do Ocidente e do Oriente, do século III ao V) e meio-grego da Capadócia (região da Anatólia Central, na Turquia). Viveu no Império Romano no auge da “controvérsia ariana” que dividiu a Igreja cristã desde um pouco antes do “Concílio de Niceia” até depois do “Primeiro Concílio de Constantinopla”, em 381. A mais importante dessas “controvérsias” tem a ver com a relação entre “Deus Pai e Deus Filho”.
Úlfilas, considerado o “apóstolo dos godos”, traduziu a Bíblia do grego (fragmentos dessa tradução sobreviveram no Códice Argênteo, que está desde 1648 na Biblioteca da Universidade de Uppsala, na Suécia) para a língua gótica e, para isso, criou o alfabeto gótico. “Minúscula Carolíngia” ou “Minúscula Carolina” é uma caligrafia desenvolvida durante a Idade Média com o objetivo de se tornar o padrão caligráfico europeu. A sua criação fez parte de um conjunto de reformas na educação impulsionadas por Carlos Magno, entre finais do século VIII e início do século IX, e usada no Sacro Império Romano-Germânico. A reforma pretendia aumentar a uniformidade, clareza e legibilidade da caligrafia, de forma tal que o alfabeto latino pudesse ser facilmente lido entre as várias regiões.
A escrita ou letra gótica é o tipo de letra angulosa e com linhas quebradas, originada entre os séculos XII e XIII, a partir do “fraturamento” paulatino das formas manuscritas da escrita carolíngia. Foi usada na Europa Ocidental desde 1150 até 1500.
O alfabeto gótico (ou godo) criado pelo bispo e tradutor Úlfilas é o alfabeto manuscrito que surgiu na Idade Média a partir do alfabeto grego. O termo "gótico" vem do latim medieval “gotticu” e é um adjetivo que designa o que é proveniente, relativo, criado ou usado pelos “godos”, assim denominado o povo da respectiva tribo germânica. Cada letra do alfabeto tem um valor numérico. Para sobressaírem os sons que o grego não tinha, Úlfilas recorreu aos “signos rúnicos”. O alfabeto gótico é dividido em dois grupos para as letras minúsculas. Grupo 1: a, c, e, i, m, n, o, r, u, v, w, x, t , l, f e p. Grupo 2: b, d, g, h, k, q, s, y e z.
O alfabeto gótico teve existência efêmera (um termo grego que significa: apenas por um dia). Efemeridade universalizada por meio da Bíblia de Gutenberg.
HERÓIS DE 1932, PANTALEÃO E O QUERIDO TIO EOLO VENTURA / JOÃO SCORTECCI
Hoje é aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, que tinha por objetivo derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. O “estopim” do levante armado, precipitado pela revolta popular, deu-se após a morte de quatro jovens - Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo - por tropas getulistas, durante um protesto contra o Governo Federal.
No dia 23 de maio de 1932, um grupo de manifestantes tentou invadir a sede do PPP - Partido Popular Paulista (ex-Liga Revolucionária), grupo político-militar encabeçado por Miguel Costa, sustentáculo de apoio ao regime de Getúlio Vargas. O embate deu-se no centro da cidade de São Paulo, na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República. O grupo político-militar resistiu à invasão com o uso de armas e granadas. Após a “fuzilaria”, muitos feridos e quatro mortos. Um quinto manifestante, Orlando de Oliveira Alvarenga, foi ferido, faleceu três meses depois e não teve seu nome associado ao movimento: MMDC.
“Sem dinheiro não se faz nada, nem revolução!” Cinco dias depois da eclosão do movimento Constitucionalista, o governador aclamado, Pedro de Toledo (1860-1935), decretou a autorização de emissão do “dinheiro paulista” lastreado de acordo com as reservas em ouro nos cofres do estado. São Paulo imprimiu papel-moeda, cédulas de 5, 10, 20, 50, 100 e 200 mil réis.
Meu saudoso tio Eolo Ventura, casado com tia Margô (Margarida de Paula Ventura), irmã mais velha do meu pai Luiz Gonzaga, foi soldado constitucionalista e - em almoços de família - contava a história da noite tensa que viveu durante o conflito de 32. Seu agrupamento estava acampado na fronteira do estado paulista com o de Minas Gerais quando receberam um alerta da presença das tropas de Getúlio nas cercanias. Pânico! Por volta das três horas da madrugada escutaram uma movimentação estranha e barulho de galhos quebrados. Mesmo com a ordem de não atirarem, abriram fogo. Em menos de trinta minutos “detonaram” toda a munição do agrupamento.
Depois do silêncio e do breu da noite, um pequeno grupo de soldados recebeu a missão de vasculhar a área. Meia hora depois veio o apito de silvo breve - que significa: siga em frente, caminho livre - e o agrupamento encontrou na vala da trincheira uma vaca morta, perfurada de balas.
Depois das risadas e da sobremesa, tio Eolo Ventura sussurrava a moral da tragédia: a vaca havia sido alvejada 32 vezes! É mentira, Terta? Memórias de Pantaleão, herói de 1932 e de uma vida inteira.

HOGARTH PRESS, CASAL WOOLF E O FLUXO DE CONSCIÊNCIA / JOÃO SCORTECCI
A casa editorial britânica Hogarth Press foi fundada em 1917, pelo casal Woolf, Leonard Sidney Woolf (1880-1969) e Virginia Woolf (1882-1941). Durante o período entreguerras, a editora deixou de ser um passatempo e se tornou um negócio. Compraram impressoras comerciais e começaram a publicar livros do “Grupo de Bloomsbury”, formado por artistas e intelectuais britânicos, que existiu entre 1905 e o fim da Segunda Guerra Mundial. Dentre seus membros mais conhecidos, estão Virginia Woolf, John Maynard Keynes, Clive Bell, E. M. Forster, Duncan Grant, Desmond MacCarthy e Lytton Strachey. A Hogarth Press foi a pioneira na publicação de trabalhos sobre psicanálise e obras estrangeiras traduzidas, especialmente da língua russa. Em 1938, Virginia Woolf renunciou aos seus interesses no negócio, que passou a funcionar com uma parceria entre Leonard Woolf e o poeta John Lehmann (1907-1987), fundador dos periódicos “New Writing” e “London Magazine”. A parceria durou até 1946, quando a casa editorial passou a ser administrada pela Chatto and Windus, editora independente de livros, fundada na Era Vitoriana. Desde 1987, “Hogarth” é um selo da The Crown Publishing Group, parte da Random House Inc., destinado a publicar uma nova geração de escritores. Virginia Woolf estreou na literatura em 1915, com o romance “The Voyage Out”, que abriu o caminho para a sua carreira como escritora e uma série de obras notáveis. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances “Mrs. Dalloway” (1925), “To the lighthouse” (1927), “Orlando: a biography” (1928). No final dos anos 1920, tornou-se uma escritora de sucesso, com reconhecimento internacional, mas caiu no ostracismo após a Segunda Guerra. Foi redescoberta por causa do livro-ensaio “A Room of One's Own” (1929) – “Um teto todo seu”, na tradução brasileira –, no qual se encontra a famosa citação "Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu, se ela quiser escrever ficção". Woolf foi uma das precursoras do uso do fluxo de consciência, técnica literária em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias. Essa técnica literária marcou o estilo de Woolf, James Joyce e William Faulkner. Em 1941, com o estopim da Segunda Guerra Mundial, a destruição da sua casa em Londres e a fria recepção da crítica à sua biografia do amigo pintor e crítico de arte, Roger Fry (1866-1934), Virginia Woolf caiu em depressão. Em 28 de março de 1941, vestiu seu casaco, encheu os bolsos com pedras, caminhou em direção ao Rio Ouse, perto da sua casa, em North Yorkshire, no Reino Unido, e se afogou. Seu corpo foi encontrado somente três semanas mais tarde, em 18 de abril de 1941, por um grupo de crianças, perto da ponte de Southease, no Sudeste da Inglaterra.

IMPRESSÃO OFFSET - QUANDO O ACASO INVENTA ENGENHOCAS / JOÃO SCORTECCI
A lista de invenções descobertas por acaso é grande. Acidentes acontecem! Descuidos, erros e ações não planejadas acabam revelando ideias incríveis que terminaram em grandes descobertas para a humanidade. A lista de exemplos é significativa: borracha vulcanizada, insulina, cookies de chocolate, Super Bonder, Raio X, LSD, penicilina, Teflon, Viagra, picolé, Sacarina, Velcro, Coca-Cola, micro-ondas, vidro blindado, vaselina, palito de fósforo, batata chips, dinamite, marca-passo, filme plástico e impressora offset.
Esta descoberta ao acaso coube ao empresário Ira Washington Rubel (1860-1908), proprietário da fabricante de papel Ira Washington Rubel, de Nutley, New Jersey, USA. Entre 1903 e 1904, a empresa desenvolveu o primeiro sistema offset litográfico para impressão em papel. A inspiração foi um acidente de “esquecimento”. Ao operar sua impressora litográfica, Ira Rubel percebeu que, se não inserisse o papel, a placa de pedra acabava transferindo a imagem para o cilindro de impressão de borracha. Quando, então, colocava o papel na máquina, a imagem era impressa dos dois lados do papel: uma imagem obtida da placa de pedra e outra, do cilindro de impressão de borracha. Percebeu, para sua surpresa, que a imagem impressa pelo lado da borracha - macia e de boa qualidade - era muito mais nítida.
A primeira impressora offset - de impressão indireta com base em cobertura de borracha - criada por Ira Rubel foi operada durante um ano, quando, então, foi vendida para a “Union Lithographic Company”, por 5 mil dólares. Nessa empresa, o equipamento entrou em operação no ano de 1907, depois de ter sobrevivido a um terremoto em São Francisco (1906) e a um incêndio nas proximidades do cais de Oakland (1907). A engenhoca de Ira Rubel possibilitava imprimir três mil cópias em uma hora. Em menos de 50 anos, a impressão offset substituiu as tecnologias de impressão tipográfica e se tornou o processo de impressão mais comum em todo o mundo. A impressora offset original de Ira Washington Rubel está preservada no “Smithsonian Institution” - maior complexo de museus, educação e pesquisa do mundo - em Washington, DC.
IMPRESSÃO RÉGIA E O LEGADO DO POETA E LIVREIRO EVARISTO DA VEIGA / JOÃO SCORTECCI
O poeta, jornalista, político, acadêmico e livreiro Evaristo da Veiga (Evaristo Ferreira da Veiga e Barros, 1799-1837), patrono da Cadeira n.10 da Academia Brasileira de Letras, ficou conhecido por ser o autor da letra do "Hino à Independência", com música de D. Pedro I. Evaristo da Veiga passou a se interessar por jornalismo ao visitar as oficinas da Impressão Régia, criada na cidade do Rio de Janeiro, por decreto de 13 de maio de 1808, depois da transferência da família real portuguesa para o Brasil. A partir dessa data, tornou-se possível a compra de livros impressos no Brasil e sua importação de outros países, além de Portugal, por meio de autorização da “Mesa do Desembargo do Paço”, criada no Brasil pelo alvará de 22 de abril de 1808 e que integrava a estrutura do Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens, órgão superior da administração judiciária que se instalou no Brasil com a vinda da Corte portuguesa. As obras à venda eram anunciadas no jornal “Gazeta do Rio de Janeiro” ou numa lista impressa nas últimas páginas de algumas delas, prática editorial hoje pouco usada e apenas por algumas editoras. As primeiras máquinas gráficas das oficinas da Impressão Régia foram instaladas nos porões do palácio do diplomata, cientista, político e escritor português Antônio de Araújo e Azevedo (1754-1817), o primeiro Conde da Barca – título nobiliárquico criado por D. João, Príncipe Regente de D. Maria I de Portugal. Evaristo da Veiga era o segundo filho do português Francisco Luiz Saturnino da Veiga (1771-1841) com a brasileira Francisca Xavier de Barros. Tendo chegado ao Brasil aos 13 anos de idade, o pai de Evaristo foi professor régio de primeiras letras e, depois, livreiro na Rua da Alfândega, no centro da cidade do Rio de Janeiro, vendendo livros trazidos da Europa. Foi nessa livraria que o poeta Evaristo da Veiga se tornou um “leitor voraz”. Depois da morte da esposa, em 1823, desejoso de se casar novamente, Francisco Luiz entregou aos filhos, Evaristo e João Pedro, a parte que lhes tocava na herança materna. Os irmãos abriram uma livraria, na esquina das ruas da Quitanda e São Pedro, também no centro da cidade do Rio de Janeiro. Em 1821, no “Diário do Rio de Janeiro”, havia anúncios de oito lojas de livros. Os primeiros anúncios da livraria de Evaristo e João Pedro datam de outubro de 1823, 14 dias antes de D. Pedro I dissolver a Assembleia Constituinte. Em 1828, economicamente independente, Evaristo se separou do irmão e estabeleceu seu próprio negócio, ao comprar a livraria e tipografia do francês Jean-Baptiste Bompard, na Rua dos Pescadores, n. 49. Bompard chegou ao Brasil em 1823 e foi trabalhar como caixeiro na loja de seu primo, o livreiro e editor Paulo Agostinho Martin, filho do famoso livreiro francês Paul Martin, que vivia em Lisboa. Martin é considerado o primeiro livreiro-editor brasileiro, tendo editado livros de variados gêneros nas oficinas da Impressão Régia. Após a morte de Paulo Martin, no final de 1823, Bompard assumiu a livraria, conservando-a até 1828 e vendendo-a, em seguida, para Evaristo da Veiga. Nesse mesmo ano, Evaristo ingressou no “Aurora Fluminense” (1827-1835), jornal de matiz liberal, bimestral – fundado por José Apollinário de Moraes, José Francisco Sigaud e Francisco Chrispiniano Valdetaro – que se constituiu um importante veículo de oposição ao governo de Pedro I. A partir de 1829, Evaristo se tornou proprietário do jornal, pautando seus artigos na defesa do constitucionalismo, do sistema representativo e da liberdade de imprensa. Em 1830, foi eleito para a Câmara dos Deputados pela província de Minas Gerais, reelegendo-se em três legislaturas. Participou ativamente do movimento de 7 de abril, que levou à abdicação de Pedro I, e tornou-se uma forte liderança do Partido Liberal. Monarquista, defendeu as reformas constitucionais e a aprovação do Ato Adicional, lei n. 16, de 12 de agosto de 1834, que alterou a Constituição de 1824, modelou a formação do Estado e teve um importante papel no projeto de instituição e manutenção do Império brasileiro. Em 1832, sofreu um atentado, atribuído aos conservadores, liderados por José Bonifácio de Andrada e Silva e seu irmão, aos quais Evaristo fazia forte oposição. Em 1835, defendeu a candidatura do Padre Diogo Antônio Feijó como regente único. Desiludido com a política e com os rumos da regência que apoiara, em 30 de dezembro de 1835 encerrou o Jornal “Aurora Fluminense”, com oito anos de existência, e, no ano seguinte, retirou-se para Campanha, Minas Gerais. Evaristo da Veiga morreu livreiro, no Rio de Janeiro, em 12 de maio de 1837, jovem de tudo, aos 37 anos de idade.

15.05.2022

JACÓ 100 - HOMENAGEM PELO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DO EDITOR JACÓ GUINSBURG / JOÃO SCORTECCI
O crítico de teatro, ensaísta, professor e editor, Jacob Guinsburg (1921-2018), nasceu na Bessarábia, atual Moldávia, país do Leste Europeu e antiga república soviética, que faz fronteira com a Ucrânia e com a Romênia. Guinsburg emigrou para o Brasil com seus pais em 1924, com três anos de idade. Envolveu-se, desde muito jovem, na vida cultural e intelectual do país, participando intensamente da renovação do teatro brasileiro. Escreveu na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro sobre literatura brasileira, judaica e internacional, com artigos no campo das artes, da literatura e da crítica teatral. Entre suas obras, encontram-se “Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou”, “Aventuras de uma Língua Errante - Ensaio de Literatura e Teatro Ídiche”, “Leone De Sommi: Um Judeu no Teatro da Renascença Italiana”, ”Guia Histórico da Literatura Hebraica”, “Dicionário do Teatro Brasileiro”, “Diálogos Sobre Teatro, Stanislavski, Meierhold & Cia. - Ensaios de Teatro Russo”, “Semiologia do Teatro”, “Da Cena em Cena” e inúmeros ensaios de estética e história do teatro, traduções e edição de várias obras sobre Diderot, Lessing, Buechner e Nietzsche. É editor das obras completas do crítico e teórico de teatro teuto-brasileiro, o alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973), que viveu no Brasil depois da Segunda Guerra Mundial. Como editor participou das editoras Rampa, Difel e Perspectiva. Hoje na “Folha de S. Paulo”, no Painel das Letras, Walter Porto (Ilustrada, C2), fiquei sabendo que a editora Perspectiva está preparando uma justa homenagem ao editor por ocasião do seu centenário de nascimento. Na “robusta” programação: livros, mesas, filme e a publicação da obra inédita “Digitais de um Leitor”, compilação de textos sobre livros que funcionam como uma jornada por décadas da literatura. Aqui com os meus ossos: o que significa “livros que funcionam como uma jornada por décadas da literatura”? Vou procurar saber! Vou - primeiro – enviar um e-mail para o jornalista Walter Porto. Depois, caso não tenha êxito, vou consultar alguns amigos da editora e, por fim, amigos que vão participar da mesa, evento de pontapé inicial, no dia 21 próximo, denominado: “Memórias Livreiras de Guinsburg”. Provavelmente um “aloego” literário ou algo assim.

04.09.2021

JAMES JOYCE, LITTLE REVIEW E O NOJO POR “ULISSES” / JOÃO SCORTECCI
O poeta, contista e romancista irlandês James Joyce (James Augustine Aloysius Joyce, 1882-1941) viveu boa parte de sua vida expatriado. Morou em Paris e Zurique. É considerado um dos mais eminentes poetas do imagismo (movimento literário da poesia anglo-americana que favorecia a precisão das imagens e uma linguagem clara e objetiva) e um dos maiores escritores do século XX, tendo utilizado recursos narrativos inovadores para a época, como o fluxo de consciência. Suas obras mais conhecidas: “Gente de Dublin” ("Dublinenses”) (1914), “Retrato do Artista Quando Jovem” (1916) e “Ulisses” (1922).
James Joyce faz parte da lista de escritores censurados e perseguidos da história. Quando publicou o livro de contos “Dublinenses”, numa edição de mil exemplares, o impressor, John Falconer, radicado em Dublin, queimou 999 cópias, porque lhe pareceu que a obra não tinha uma “linguagem apropriada”. Um dos romances mais polêmicos e influentes do século XX é exatamente “Ulisses”, de Joyce. Quando da publicação de um trecho de “Ulisses” na revista literária “Little Review”, Nora Barnacle (1884-1951), sua esposa, repeliu o texto com nojo.
Carteiros do Correio americano queimaram exemplares da revista “Little Review” para manifestar sua repulsa. Em 1921, a “Sociedade para o Combate ao Vício”, de Nova York, processou os diretores da revista que foram condenados a pagar cinquenta dólares de multa e impedidos de publicar outros capítulos do livro. Joyce encontrou dificuldades para publicar “Ulisses” nos Estados Unidos da América do Norte. A “Shakespeare and Company”, uma famosa livraria da Margem Esquerda parisiense, de propriedade de Sylvia Beach, publicou-o em 1922. Uma edição inglesa publicada no mesmo ano pela mecenas Joyce Harriet Shaw Weaver encontrou censura das autoridades estadunidenses, e as 500 cópias enviadas àquele país foram confiscadas e destruídas.
Em 1923, o editor John Rodker imprimiu uma tiragem extra de 500 exemplares - destinada a substituir as cópias destruídas - mas estes livros foram queimados pela alfândega inglesa. “Ulisses” permaneceu proibido nos Estados Unidos até 1933.
Embora Joyce tenha vivido fora de sua terra natal durante a maior parte da vida adulta, sua identidade irlandesa foi essencial para sua obra. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin. Escreveu: "Sempre escrevo sobre Dublin, porque se eu puder chegar ao coração de Dublin, posso chegar ao coração de todas as cidades do mundo.”
Em 1940, doente, quase cego e com a chegada da Segunda Guerra Mundial, teve de deixar Paris e, por fim, voltou à Zurique. Morreu no ano seguinte, em 1941, de úlcera duodenal perfurada e peritonite generalizada. Está enterrado em Zurique, no Cemitério Fluntern, junto com sua esposa Nora Barnacle.
JAMES JOYCE, LITTLE REVIEW E O NOJO POR “ULISSES” / JOÃO SCORTECCI
O poeta, contista e romancista irlandês James Joyce (James Augustine Aloysius Joyce, 1882-1941) viveu boa parte de sua vida expatriado. Morou em Paris e Zurique. É considerado um dos mais eminentes poetas do imagismo (movimento literário da poesia anglo-americana que favorecia a precisão das imagens e uma linguagem clara e objetiva) e um dos maiores escritores do século XX, tendo utilizado recursos narrativos inovadores para a época, como o fluxo de consciência. Suas obras mais conhecidas: “Gente de Dublin” ("Dublinenses”) (1914), “Retrato do Artista Quando Jovem” (1916) e “Ulisses” (1922). James Joyce faz parte da lista de escritores censurados e perseguidos da história. Quando publicou o livro de contos “Dublinenses”, numa edição de mil exemplares, o impressor, John Falconer, radicado em Dublin, queimou 999 cópias, porque lhe pareceu que a obra não tinha uma “linguagem apropriada”. Um dos romances mais polêmicos e influentes do século XX é exatamente “Ulisses”, de Joyce. Quando da publicação de um trecho de “Ulisses” na revista literária “Little Review”, Nora Barnacle (1884-1951), sua esposa, repeliu o texto com nojo. Carteiros do Correio americano queimaram exemplares da revista “Little Review” para manifestar sua repulsa. Em 1921, a “Sociedade para o Combate ao Vício”, de Nova York, processou os diretores da revista que foram condenados a pagar cinquenta dólares de multa e impedidos de publicar outros capítulos do livro. Joyce encontrou dificuldades para publicar “Ulisses” nos Estados Unidos da América do Norte. A “Shakespeare and Company”, uma famosa livraria da Margem Esquerda parisiense, de propriedade de Sylvia Beach, publicou-o em 1922. Uma edição inglesa publicada no mesmo ano pela mecenas Joyce Harriet Shaw Weaver encontrou censura das autoridades estadunidenses, e as 500 cópias enviadas àquele país foram confiscadas e destruídas. Em 1923, o editor John Rodker imprimiu uma tiragem extra de 500 exemplares - destinada a substituir as cópias destruídas - mas estes livros foram queimados pela alfândega inglesa. “Ulisses” permaneceu proibido nos Estados Unidos até 1933. Embora Joyce tenha vivido fora de sua terra natal durante a maior parte da vida adulta, sua identidade irlandesa foi essencial para sua obra. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin. Escreveu: "Sempre escrevo sobre Dublin, porque se eu puder chegar ao coração de Dublin, posso chegar ao coração de todas as cidades do mundo.” Em 1940, doente, quase cego e com a chegada da Segunda Guerra Mundial, teve de deixar Paris e, por fim, voltou à Zurique. Morreu no ano seguinte, no dia 13 de janeiro de 1941, de úlcera duodenal perfurada e peritonite generalizada. Está enterrado em Zurique, no Cemitério Fluntern, junto com sua esposa Nora Barnacle.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO E NIETZSCHE, SEM RESSENTIMENTOS! / JOÃO SCORTECCI
Aceite-se! Nietzsche vai e volta e não para de “perigosamente” nos olhar no fígado. Sujeito “estranho” e “azedo”. Não sei se gosto dele. Deveria? Ele declina, escala, sobe, mastiga, cospe, arrasta e invade nossas fortes fraquezas. Nossas identidades! Mexe com as nossas parábolas fantasiosas, nossos laços afetivos, nossas resistências inúteis, trágicas e fúteis. Estava lendo um - interessante - artigo sobre a “cultura do ressentimento” e, “de quebra”, sobre a importância do perdão nas relações humanas, quando Nietzsche (Friedrich Wilhelm Nietzsche, 1844-1900) entrou “de bico” na história, por meio da interpretação do articulista: “Você precisa entender a ‘gênese do ressentimento’, precisa ter estômago forte, abrir o seu corpo podre, que exala vingança, ódio e raiva (...) É nele - seu corpo – que mora a moléstia e a enfermidade.(...) O ressentimento – aquele que não sabe perdoar - é uma das condições mais perigosas ao homem! (...) Reconheça a mágoa, não deixe que a raiva te defina.” Fui lendo, concordando, discordando, aceitando, questionando, isso e aquilo. Fui espelho, telhado de vidro, esponja, canga de jumento e até protagonista do “pesadelo” que é a natureza humana. Nietzsche é mesmo um alucinógeno de almas. Mude a conversa! Mude! Alguém soprou no meu ouvido. Quem? Um anjo torto. Um anjo Severino, talvez. Foi o que fiz: mudei-me – de estação e sintonia. Fui à Web, consultei efemérides, abri links de aniversários, respondi versos e me vi - temporariamente - livre, curado do vampiro do Nietzsche. Hoje - dia 9 de janeiro de 2022 - aniversário de nascimento do poeta pernambucano João Cabral (João Cabral de Melo Neto, 1920-1999). Peguei de pronto - de alma lavada - o livro “Morte e Vida Severina”, sem ressentimentos. João Cabral não cansa, não mastiga, não cospe, não arrasta e nem invade nossas desgraças do dia a dia. Olha o que ele me disse, a título de apresentação: “O meu nome é Severino,/ não tenho outro de pia./ Como há muitos Severinos,/ que é santo de romaria,/ deram então de me chamar/ Severino de Maria;/ como há muitos Severinos/ com mães chamadas Maria,/ fiquei sendo o da Maria/ do finado Zacarias.” Parabéns, João! 102 anos não é fácil. Mexe com tudo. Sem ressentimentos!
JOÃO UBALDO DITOSO E “O SORRISO DO LAGARTO” / JOÃO SCORTECCI
“Ditoso” significa aquele que tem boa dita, venturoso, feliz, afortunado! Não li o livro “A Casa dos Budas Ditosos”, do escritor baiano João Ubaldo (João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, 1941-2014). A obra foi lançada pela Objetiva, em 1999, e — é o que dizem — tem o pecado da luxúria como tema central. Em forma de monólogo, uma mulher de 68 anos de idade, nascida na Bahia, narra sua vida e como jamais se furtou a viver — sem respingos de culpa — as infinitas possibilidades do sexo. “Buda”, que significa “desperto”, é um título atribuído na filosofia budista àqueles que despertaram para a verdadeira natureza dos fenômenos — impermanentes, insatisfatórios e impessoais — e se puseram a divulgar tal descoberta aos demais seres. Título é título, e nós, escritores, sofremos com isso. Alguns títulos nascem prontos e, em alguns casos, até antes da obra concluída. Outros, não! Escolhê-los, para muitos, é uma tortura. Eu — quando o danado tenta complicar a minha vida — recorro a subtítulos, partindo, sempre, de um título curto. Funciona. “A Casa dos Budas Ditosos” — reafirmo, não li — parece-me um desses títulos que guardam em si seus próprios segredos e mistérios. Na dúvida: devo informar-me, procurar saber, até lê-lo e não pecar pela luxúria do “não li e não gostei”, máxima atribuída ao poeta modernista Oswald de Andrade, quando perguntado sobre um livro do romancista José Lins do Rego (1901-1957). Do escritor João Ubaldo, li os romances “Sargento Getúlio” e “O Sorriso do Lagarto”. Nunca nos falamos e, quando estivemos próximos, na cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti de 1984, a ele outorgado naquele ano, pela obra “Viva o Povo Brasileiro”, a sorte passou batida. Lendo sua biografia literária, vi que “Sargento Getúlio” — obra regionalista, que tem como tema o banditismo no sertão nordestino e usa linguagem coloquial e repleta de regionalismos — recebeu o Prêmio Jabuti de 1972, de “Autor Revelação”, categoria que a CBL - Câmara Brasileira do Livro, responsável pela premiação, abandonou de vez. Uma pena! Vez por outra, reclamo e nunca sou atendido. A justificativa é simples: não acho justo um autor novo ou estreante em determinada categoria concorrer — nas mesmas condições — com um escritor maduro e conhecido. É frustrante. Para o Jabuti de 2021, a Scortecci Editora inscreveu 45 títulos, todos de autores novos ou estreantes em várias categorias. Não pescamos nada. Temos — com orgulho e luxúria — um Jabuti (1986) e, por mais sete vezes, estivemos na seleção dos 10 finalistas, nas categorias poesia, conto, reportagem e literatura infantil. Voltando ao João Ubaldo, se vivo fosse, hoje, dia 23 de janeiro, estaria completando 81 anos de idade. Ainda “não há prova científica de que existem lagartos que sorriem.” Mas assim são os fenômenos ditosos: impermanentes, insatisfatórios e impessoais.
JORGE AMADO, GETÚLIO VARGAS, BEXIGA E O FOGARÉU DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
Nos anos 1970 e 1980 li e reli quase toda a obra - composta de 49 títulos - do escritor baiano Jorge Amado (Jorge Leal Amado de Faria, 1912-2001) um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. Considero o romance “Capitães da Areia” (1937), a mais marcante de todos. Destaco ainda os romances “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Tenda dos Milagres”, “Tieta do Agreste”, “Gabriela, Cravo e Canela” e “Tereza Batista Cansada de Guerra”.
Jorge Amado foi traduzido em 80 países e obteve sucesso também na TV, no teatro e no cinema. Integrou os quadros da intelectualidade comunista brasileira e também não escapou da queima universal de livros. Em 1937, durante o Estado Novo (1937-1946), por ordem direta do ditador Getúlio Vargas, teve queimados mil e oitocentos exemplares do livro “Capitães da Areia”, na Cidade Baixa de Salvador, a poucos passos do Elevador Lacerda e do atual Mercado Modelo.
Getúlio Vargas “inaugurou” a sua “Comissão de Buscas e Apreensões de Livros do Estado de Guerra do Governo”, queimando em praça pública um dos maiores clássicos da literatura brasileira. O fogaréu era um símbolo do combate à "propaganda do credo vermelho", como definiram as autoridades do Estado Novo. Os exemplares queimados - na sua maioria - foram recolhidos das livrarias de Salvador - e iluminaram, aos olhos da fome, da miséria, da bexiga (varíola) e da turma do trapiche, uma das maiores tragédias da literatura brasileira.
Dizem - não sei se é verdade - que no meio da multidão que assistiu ao extermínio estavam os espíritos de Pedro Bala, Dora, João Grande, Professor João José, Pirulito, Gato, Boa-Vida e outros.
JORGE ESTRELA, JORGE MARINHO E A SCORTECCI DA LOJA 13 / JOÃO SCORTECCI
A Scortecci Editora nasceu no mês de agosto de 1982, na loja 13, da Galeria Pinheiros, localizada na Rua Teodoro Sampaio, 1704, na cidade de São Paulo. Eu mesmo cuidei da pintura da loja e da arrumação e fixação das estantes brancas de aço para colocação dos livros publicados e, então, comercializados. Iniciei o negócio com perto de 40 títulos, na maioria livros de poesia. Na loja, de 30 metros quadrados, além das estantes que cobriam as paredes, do chão até o teto, havia uma mesa, uma poltrona, duas cadeiras “interlocutoras”, uma máquina de escrever IBM elétrica, um arquivo de aço de duas gavetas e pastas suspensas, um fichário de aço da Kardex, uma linha telefônica e duas vitrinas com livros, pendurados em um varal com pregadores de roupa.
“Olá. O que vai ser aqui?” Não havia ainda fixado o letreiro: “João Scortecci Editor”. Parei o que estava fazendo e fui até a porta da loja atender o que viria a ser, na história da editora, o primeiro “chamado”. “Vai ser uma editora de livros”, respondi. “Que legal. Eu sou escritor! Quando vai ser a inauguração?”, perguntou. “No próximo dia 13, sexta-feira, das 19h às 22h. Você está convidado”. E o papo continuou. “Mora em Pinheiros?” “Sim. Aqui no prédio da Galeria.” “E o seu nome?” “Jorge Miguel Marinho”, respondeu. Ficamos amigos. Jorge foi o primeiro escritor a visitar a Scortecci e durante dez anos - até o ano de 1992 - nos visitava quase diariamente. Visitas rápidas, tempo para um cigarro e uma espiada na vitrina, em um ou outro livro novidade.
Carioca, nascido em 8 de julho de 1947, de família de poucos recursos, teve contato com a literatura tardiamente, aos 15 anos de idade. Escritor, roteirista, ator e professor, com graduação em Letras e mestrado em Literatura pela Universidade de São Paulo e licenciatura em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Ciência e Letras Nove de Julho, era autor novo, quando nos conhecemos. O seu primeiro livro - coletânea de versos - “O talho” havia sido lançado no ano anterior, em 1981, pela Loyola. Jorge construiu uma carreira literária brilhante. Publicou dezenas de livros e conquistou vários prêmios. “Na curva das emoções” (1989) foi premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e pela Associação Paulista de Críticos de Arte. “Te dou a lua amanhã” (1994) e “Lis no peito - um livro que pede perdão” (2006) receberam prêmios “Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro. “Lis no peito” foi também premiado pela FNLIJ e integrou o Catálogo de Bologna e o Catálogo White Ravens da Biblioteca de Munique.
Jorge Miguel Marinho faleceu em 18 de junho de 2019, aos 72 anos. Talvez tenha sido o amuleto da Scortecci de “olhar e validar com o coração” o meu letrado sonho.
JOSÉ GALVÃO, JANUÁRIO LEAL E JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER, O TIRADENTES / JOÃO SCORTECCI
O gigante José Galvão, conhecido como “Montanha” – de pele morena, cabelos compridos e barba cerrada – era o líder do bando mais temido da região do Alto da Mantiqueira, a “Quadrilha da Mantiqueira”. O bando era organizado e numeroso. Matava os policiais para roubar as fardas e com elas realizavam falsas blitze. Tinham rede própria de informantes, espalhados pelas vilas, ao longo da Estrada Real (1.630 quilômetros de extensão, que atravessava as províncias de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, passando por mais de 100 vilas ou cidades, ligando Ouro Preto a Paraty), rota do ouro e de diamantes, no Brasil Colonial, nos primeiros 60 anos do século XVIII. A maior parte dos ataques acontecia à noite. Ninguém era poupado, fosse homem, mulher, criança ou idoso. A quadrilha foi desmantelada em 1786, a partir das diligências feitas pelo Alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes. Outros bandos menores, não menos temidos, também pilhavam a Coroa e os comerciantes da região. Eram eles: bando “Mão de Luva” (porque o chefe da quadrilha usava luvas), contrabandistas que operavam em Minas Gerais e no Rio de Janeiro; bando “Vira-saia”, que atuava no norte de Minas Gerais, perto da Serra do Grão Mogol e que dizia ter pacto com o diabo; e a quadrilha do terrível “Sete Orelhas”, chefiada por Januário Garcia Leal, que recebeu esse nome porque portava um colar com sete orelhas humanas, arrancadas dos homens que mataram seu irmão. Foram várias as tentativas de se conter a criminalidade. A maioria com pouco ou nenhum sucesso. Em 1766, o Rei de Portugal, Dom José I, proibiu os sítios volantes e ranchos, sem estabelecimento sólido, e determinou que os indivíduos dispersos deveriam se estabelecer em povoações civis. Em 1781, o dentista, tropeiro, minerador e militar Tiradentes assumiu o patrulhamento da Serra da Mantiqueira, com a missão de estudar as terras, rios, fazer cartas geográficas dos sertões e traçar o perfil dos habitantes da região. A partir de seus estudos, foram reconhecidos e oficializados caminhos que ligavam as minas ao Rio de Janeiro e estabelecidos os locais estratégicos em que deveriam ser colocados registros, rondas e patrulhas. Com o sucesso da missão e o fim das quadrilhas, em especial a de José Galvão, o prestígio e o respeito da população e dos comerciantes por Tiradentes cresceram, a ponto de causar inveja e incomodar as lideranças da Coroa portuguesa na região. Foi a partir desse período que Tiradentes começou a se aproximar de grupos que criticavam o domínio português e passou a fomentar, a partir de Vila Rica e seus arredores, a independência da província. Insatisfeito por não conseguir promoção na carreira militar, tendo alcançado apenas o posto de alferes, à época patente inicial do oficialato, Tiradentes pediu licença da Cavalaria em 1787. Além das influências externas, fatores mundiais e religiosos contribuíram também para a articulação da conspiração da Inconfidência Mineira. O sentimento de revolta geral atingiu o ponto máximo com a decretação da Derrama, cobrança de impostos em atraso. Com a constante queda na receita institucional, devido ao declínio da atividade mineradora, em 1789 a Coroa resolveu aplicar o mecanismo da Derrama para garantir o recebimento das receitas oriundas do Quinto, imposto português que reservava um quinto de todo o minério extraído no Reino de Portugal. Os inconfidentes, entre eles o Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, os poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto e o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, marcaram um levante para a ocasião da Derrama em 15 de março de 1789. Antes, porém, que a conspiração se transformasse em revolução, foi delatada aos portugueses pelo Coronel Joaquim Silvério dos Reis, pelo Tenente-Coronel Basílio de Brito Malheiro do Lago e pelo luso-açoriano Inácio Correia de Pamplona, em troca do perdão de suas dívidas com a Real Fazenda portuguesa. Tiradentes foi então enforcado e seu corpo, esquartejado, no dia 21 de abril de 1792. Seus restos mortais foram distribuídos ao longo de Santana de Cebolas (atual Inconfidência, distrito de Paraíba do Sul), Varginha do Lourenço, Barbacena e Queluz (atual Conselheiro Lafaiete). É o que eu – até hoje – não sabia! 
JOSÉ OLYMPIO, CASA GARRAUX E BATATAIS - SEMANA DE ARTE MODESTA DE 1987 / JOÃO SCORTECCI
A José Olympio Editora está completando 90 anos. Foi fundada pelo editor e livreiro batataense, José Olympio (José Olympio Pereira Filho, 1902-1990), em 1931, na cidade de São Paulo. Em 1918, com 16 anos de idade, José Olympio deixou Batatais - Região Metropolitana de Ribeirão Preto - e se mudou para a capital paulista, com o objetivo de estudar Direito. Conseguiu um emprego na Papelaria, Livraria e Typographia “Casa Garraux” (A. L. Garraux &. C.), então de propriedade de Charles Hildebrand. Trabalhava na seção de livros, e o serviço consistia em abrir caixas de livros e limpar a poeira das estantes. Depois passou a ajudante de balconista, época em que tomou gosto pelos livros.
A Casa Garraux era frequentada por políticos e escritores, como Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. Em 1926, com a morte de Charles Hildebrand, José Olympio assumiu o cargo de gerente da seção de livros. No final da década de 1920, José Olympio começou a se interessar por livros raros e tornou-se um respeitado entendido no assunto. Com a morte do advogado e jornalista, Alfredo Pujol (Alfredo Gustavo Pujol, 1865-1930), colecionador de livros raros, Olympio fez uma oferta para a família e comprou todo o acervo desse colecionador. Foi o início do seu legado. Adquiriu - depois - vários outros acervos, para, em 1931, aos 28 anos de idade, fundar a Casa José Olympio Livraria e Editora, na Rua da Quitanda, 19 A, na capital paulista.
Em 1934, a livraria mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, então centro intelectual do Brasil. Em 1935, Olympio se casou com a professora e escritora Vera Pacheco Jordão, com quem teve dois filhos, Vera Maria Teixeira e Geraldo Jordão Pereira. Nas décadas de 1940 e 1950, a José Olympio se tornou a maior editora brasileira. Publicou perto de 2 mil títulos, com 5 mil edições, sendo 900 autores nacionais e aproximadamente 500 autores estrangeiros.
Em 1987, visitei Batatais - cidade natal desse editor e livreiro -, durante a “Semana de Arte Modesta”, encontro comemorativo dos 65 anos da “Semana de Arte Moderna”, de 1922. O evento em Batatais foi “grandioso” e registrou a presença de centenas de escritores de todo os cantos do Brasil. Fomos e voltamos de ônibus alugado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Do meu lado - eu na janela e ele no corredor do meio -, o escritor e editor Pereira (Antonio Olavo Pereira, 1913- 1993), irmão caçula de José Olympio. A viagem de 350 km, de São Paulo até Batatais, durou quase 6 horas. Dos atrasos e das demoras, uma única certeza: torcendo para não chegar nunca! Conhecê-lo foi um “presente dos deuses”. Na época, a Scortecci Editora tinha pouco mais de 5 anos de idade.
Em 2001, a José Olympio - que em 2021 está completando 90 anos - foi comprada pelo Grupo Editorial Record.

KARDEC, KARDEX E O PC 286 DA SCORTECCI / JOÃO SCORTECCI
Nos anos 1980, li “O Livro dos Espíritos”, do filósofo e tradutor francês, Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail, 1804-1869). Kardec notabilizou-se como o codificador do espiritismo e um dos pioneiros na pesquisa científica sobre fenômenos paranormais. A obra publicada em 18 de abril de 1857 contém os princípios do Espiritismo sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as Leis Morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade.
Em 2019, ganhei de presente um audiolivro da obra e, durante algum tempo, ocupou espaço no estojo de CDs, do carro. O estojo foi roubado numa parada de estacionamento ao lado do prédio da Abigraf, na Rua do Paraíso, na cidade de São Paulo. Já fui vítima do roubo de óculos, sacola com material de bike, pneu estepe, canivete suíço e alguns carregadores de celular.
Dos anos 1977 até 1982, antes de fundar a Scortecci Editora, trabalhei no departamento comercial da “F.K. Equipamentos para Escritório”, no bairro da Liberdade. Na época, chefiava o departamento e, numa roda de bate-papo com vendedores do setor, o assunto “desviou-se” para o universo místico, sociedades secretas e as religiões. “Papo-cabeça”, expressão muito usada na época. Falávamos de bruxarias, profetas, Buda, Maomé, Jesus e de Kardec. “Quem vendeu o Kardex?” A pergunta veio de longe, do supervisor de vendas do comercial, que se juntou ao grupo. Silêncio. “Eu”, respondi. “Parabéns!” Vender equipamentos “Kardex”, da Remington Rand, na época, já era engodo. “Foi o último!” Catei o troço - pesadíssimo - e levei para casa. Abri mão da comissão e usei o crédito como desconto. Usei o fichário “Kardex” durante anos para a catalogação de livros e endereços de autores.
Em 1982, quando da criação da Scortecci Editora, ele foi junto e, por muitos anos, figurou no “imobilizado” da empresa. Foi substituído no final dos anos 1980, quando, para desespero do time do comercial da época, compramos o nosso primeiro computador, um PC 286. O computador – o próprio capeta em pessoa - durou não mais do que cinco derradeiros dias. A máquina “suicidou-se”, atirando-se por indução do primeiro andar de um sobrado que ocupávamos na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Minha culpa, minha tão grande culpa. Anotem, por favor: outro dia prometo contar sobre o “suicídio eletrônico” do PC 286 e a história da bruxa Heloísa, que, no ato da tragédia, gritava: “Você é um louco! Você é um louco!”.
LEIS DA POESIA E AS PERCEPÇÕES DO MARKETING / JOÃO SCORTECCI
No ano de 2010 recebi de presente do amigo e editor Milton Assumpção, Diretor-Presidente da M. Books, um exemplar do livro “As 22 Consagradas Leis de Propaganda e Marketing” do Michael Newman. A obra - recomendadíssima - foi base na preparação do seminário de nome “Como vender serviços gráficos e fidelizar clientes” que preparei para profissionais do mercado gráfico. Vez por outra recebo convite para uma nova “reapresentação” do trabalho, o que me obriga a revisar o arquivo. Faço poucas alterações: incluo casos novos e troco algumas imagens. Detalhes, apenas isso. As 22 “Consagradas” Leis de Propaganda e Marketing continuam pertinentes e oportunas. Um amigo e grande publicitário - já falecido - dizia sempre: “Marketing é uma enganação útil e necessária.” Foi piada “e de boas risadas” durante muito tempo. Depois da sua prematura morte, um “mantra” nas minhas resoluções de vida empresarial. Ambos cultivávamos a Lei do Marketing da Singularidade: “Em cada situação, apenas um único movimento produz resultados substanciais”. No resto - discordávamos - sempre. Nossa amizade era um exercício de provocações! Estou agora finalizando a releitura do capítulo 4, que trata da Lei do Marketing da Percepção: “O marketing nunca será uma batalha de produtos, e sim de percepções” ou “A poesia nunca será uma batalha de palavras, e sim de percepções.” A poesia não dorme, adormece!
LEITOR NO TRAPÉZIO /JOÃO SCORTECCI
Eu me vejo: espelho, fotografia, desenho, pintura, traço, rabisco... Livro-leitor no trapézio? Meus iguais, sempre. Qual das escalas eu me dou: degraus, curvas, lombadas, labirintos ou abismos? Perdição de leitor: melhor ficar - paginando - de vez e sempre. Minhas medições são letras do alfabeto, capítulos, sumários, lombadas, orelhas e versos. Meu celeste: talvez poesia! Meu olhar de sol - hoje chove lá fora -, segredos de voo. Leio o verbo, as linhas da mão e o imperfeito da vida. Nas cordas do trapézio, não há vertigens – só o improvável. O cair ou o subir, além. E no melhor da trama: eu passarinho. Eu Ícaro, eu leitor. No trapézio, perigosamente leitor.
LÍNGUA FERINA E A DAMA QUE TINHA UM CRAVO NA BOCA / JOÃO SCORTECCI
“Alcunha” - do árabe “al-kunya”: apelido que substitui um nome próprio. São também sinônimos de “alcunha” as palavras “apodo”, “antonomásia”, “cognome” e “epíteto”. Alcunhado de “Boca do Inferno”, o poeta e advogado baiano Gregório de Matos (Gregório de Matos Guerra, 1636-1696) é considerado um dos maiores poetas do Barroco (estilo marcado pelo rebuscamento, requinte e exagero de adornos) e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa do Brasil colonial. Ganhou o “cognome” por sua ousadia em criticar padres, freiras, a Igreja católica e autoridades políticas. “Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,/ E é que quem o dinheiro nos arranca,/ Nos arranca as mãos, a língua, os olhos.” Gregório de Matos é também considerado um poeta “pornográfico” e um “poète maudit”, praticante da desobediência absoluta, da rejeição a toda e qualquer regra imposta e da recusa em pertencer a qualquer ideologia instituída. “Quanto mais que é escusado/ na boca o cravo: porque/ prefere, como se vê/ na cor todo o nacarado:/ e o mais subido encarnado/ é de vossa boca escravo:/ não vos fez nenhum agravo/ ele de vos dar querela,/ que menina, que é tão bela,/ sempre tem boca de cravo.” Gregório de Matos morreu no Recife/PE, aos 59 anos de idade, vitimado por uma febre contraída em Angola.

23.12.2021
LITOGRAFIA - A ARTE QUÍMICA DE ESCREVER NA PEDRA / JOÃO SCORTECCI
“Lithos”, em grego, significa “pedra”, e “graphein”, ”escrever”. Foi o ator e dramaturgo austro-alemão, Alois Senefelder (Johann Alois Senefelder, 1771-1834), quem inventou, em 1798, a impressão litográfica, conhecida também como impressão química. Essa técnica de impressão utiliza uma pedra de calcário, de grão muito fino, plana e polida e se baseia na repulsão (forças que se repelem mutuamente) entre a água e substâncias gordurosas.
Na obra “Vollstandiges Lehrbuch der Steindruckery” (“Curso Completo de Litografia”), de 1818, Senefelder contou o seu segredo, que, em resumo, consistia no seguinte: as pedras de calcário eram desenhadas ou escritas com uma tinta pastosa, composta por cera, sabão e negro de fumo e gravadas com a aplicação de uma solução de goma arábica e ácido nítrico, que atacava apenas as zonas a descoberto. Desse modo, obtinha-se um suave alto relevo, uma matriz positiva. Ao contrário das outras técnicas de gravura – como as usadas na xilogravura e na gravura em metal -, a litografia é planográfica, ou seja, o desenho é feito por meio da aplicação da gordura sobre a superfície da matriz. A impressão da imagem é obtida por meio de uma prensa litográfica que desliza sobre o papel.
A litografia foi usada extensivamente no início do século XIX na impressão de documentos, rótulos, cartazes, mapas, jornais e possibilita, ainda, impressão com qualidade nos substratos: plástico, madeira e tecido, além do papel. Outra vantagem técnica é o reaproveitamento das pedras de calcário, que podem ser novamente polidas e reutilizadas como matriz. O tratado publicado por Alois Senefelder está dividido em duas partes: a primeira é uma história da invenção e seus diferentes processos, e a segunda contém instruções práticas para a sua aplicação nas artes gráficas. Essa obra teve grande repercussão na Europa, especialmente na Inglaterra. A litografia é um processo de impressão antigo. Hoje é utilizado apenas em trabalhos com fins artísticos.
LIVROS CENSURADOS E QUEIMADOS MAIS INFLUENTES DA HISTÓRIA / JOÃO SCORTECCI
O naturalista, geólogo e biólogo britânico Darwin (Charles Robert Darwin, 1809-1882) célebre por seus avanços sobre evolução nas ciências biológicas estabeleceu a ideia que todos os seres vivos descendem de um ancestral em comum. Em 1859 publicou “A origem das espécies” e propõe a teoria de que os ramos evolutivos são resultados de seleção natural e sexual, e a luta pela sobrevivência resulta em consequências similares às da seleção artificial.
A obra foi publicada em Londres, impressa por John Murray, com tiragem de 1.250 exemplares. A edição esgotou-se em um dia, e a Igreja reagiu violentamente. O assunto polêmico gerou artigos de jornais, sátiras e caricaturas que debochavam do britânico. Em 1860 saiu uma segunda edição, que também se esgotou em poucos dias.
O livro “A origem das espécies” provocou um escândalo na sociedade e foi rejeitado em colégios, bibliotecas do mundo e na comunidade científica. Há registro de que edições inteiras foram destruídas e queimadas. A teoria de Darwin - de que todos os seres vivos descendem de um ancestral em comum - precisou de décadas para ganhar aceitação e reconhecimento da sociedade e da comunidade científica. Hoje a teoria de Darwin é considerada o mecanismo unificador para explicar a vida e a diversidade na Terra.
Pesquisa feita no Reino Unido durante a Academic Book Week (2019) elegeu “A origem das espécies” de Charles Robert Darwin a obra censurado mais influente da história. Na lista dos 20 títulos censurados mais influentes da história - a título de curiosidade - aparecem: 1984 (George Orwell), Uma vista da ponte (Arthur Miller), Amado (Toni Morrison), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), Country Girls (Edna O'Brien), Seus Materiais Escuros (Philip Pullman), Eu sei porque o pássaro engaiolado canta (Maya Angelou), Amante (Lady Chatterley de DH Lawrence), Of Mice and Men (John Steinbeck), Direitos do Homem (Thomas Paine), Versos Satânicos (Salman Rushdie), O apanhador no campo de centeio (JD Salinger), A Cor Púrpura (Alice Walker), As Vinhas da Ira (John Steinbeck), A Metamorfose (Franz Kafka), Para matar um Mockingbird (Harper Lee) e Ulysses (James Joyce).
Darwin, em seus últimos anos, publicou outros livros polêmicos: A variação dos animais e plantas sob a ação da domesticação (1868), A descendência humana e a seleção sexual (1871) e Expressão das emoções no homem e nos animais (1872).

20.05.2021
LU XUN E AS “FLORES MATINAIS COLHIDAS AO ENTARDECER” / JOÃO SCORTECCI
O escritor chinês, Lu Xun (Zhou Zhangshou, 1881-1936), é considerado o pai da literatura moderna na China. É o representante máximo do “Movimento Quatro de Maio” - de 4 de maio de 1919 -, movimento anti-imperialista, cultural e político, em protesto contra a resposta do governo chinês ao Tratado de Versalhes (tratado de paz assinado pelas potências europeias, que encerrou oficialmente a Primeira Guerra Mundial) e, em especial, contra a permissão dada ao Japão para manter territórios em Shandong (província da República Popular da China e centro cultural e religioso fundamental para o taoísmo, o budismo chinês e o confucionismo), que tinham sido devolvidos pela Alemanha, após o cerco de Tsingtao (encontro entre as forças japonesas e alemãs, de 31 de outubro a 7 de novembro de 1914).
Lu Xun fez parte da “Liga de Escritores de Esquerda” e se destacou por seus ataques à cultura chinesa tradicional e pela defesa da necessidade de reformas profundas na cultura e na sociedade chinesas. Entre 1902 e 1909, viveu no Japão e começou os estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Tohoku. Anos mais tarde, contou o motivo de não ter concluído o curso: “O que a China realmente precisava era de uma reforma da sua cultura e sua sociedade.”
Em 1909, voltou a seu país. Em 1918, na revista reformista “Nova Juventude”, publicou "Diário de um Louco", obra pioneira no seu gênero escrita em língua vernácula. Defendia a abolição do uso dos caracteres chineses e se mostrava partidário da adoção do “latinxua”, um dos múltiplos sistemas de escrita do idioma chinês com alfabeto latino usados naquela época. Sua obra inclui contos, novelas, crônicas e ensaios. Em 1926, escreveu “Flores matinais colhidas ao entardecer”, a única obra publicada no Brasil, em edição bilíngue, com tradução de Yu Pin Fang, pela Editora da Unicamp. Lu Xun morreu de tuberculose, em Shanghai, no ano de 1936, com 55 anos de idade.

LUIZ CALDAS TIBIRIÇÁ E AS PACOVÁS / JOAO SCORTECCI
Foi o professor Ézio Grassi Peluso quem me apresentou o geólogo, arqueólogo e lexicógrafo, Luiz Caldas Tibiriçá (1913-2006), considerado um dos maiores especialistas em línguas indígenas da América do Sul. Tibiriçá e Ézio frequentaram a Scortecci Editora durante anos. Ficamos amigos, e o pouco que sei de tupi-guarani devo a ele. Em dado momento da vida, Tibiriçá pirou da cabeça. Abandonou tudo – pensou em suicídio – e foi morar em uma vila de pescadores na cidade de Cananéia, litoral paulista. Ficou lá um par de anos. “Fui curar-me da civilização”, disse-me. Pude conhecê-lo quando retornou, ainda mais sábio e encantador. Humilde e simples. Uma vez o levei comigo para um evento literário na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Na estrada, ele me pediu para comprar uma penca de pacovás. "Uma penca?". “Sim”, confirmou. Foi o que fiz. Encostei o carro na primeira banca de frutas da estrada e fiz a compra. “Quer uma?” “Não”, respondi. Durante a viagem – aproximadamente 158 km, de São Paulo até Piracicaba – Tibiriçá comeu 32 pacovás. Guardou as cascas num saco plástico. “Tudo bem com você?”, perguntei. “Sim, tudo. Eu gosto de pacovás!”. “Estou vendo”. Justificou-se: “Durante os anos em que vivi com os índios Guarani, na cidade de Cananéia, comia bananas.” Depois da festança, reclinou o banco do passageiro e dormiu profundamente. Parecia feliz. Luiz Caldas Tibiriçá, desde muito cedo, tomou contato com os índios Guarani-Nhandeva, de Itanhaém, no litoral paulista, e, aos 21 anos de idade, com muitas tribos do Pantanal: Guaicuru, Andauê, Chiriguano, Terena e outras. Estudou cerca de 200 dialetos indígenas e elaborou 83 monografias, das quais foram editadas apenas quatro. É autor de sete obras de referência: “Dicionário Tupi-Português”; “Dicionário Guarani-Português”; “Dicionário de Topônimos Brasileiros de Origem Tupi”; “Dicionário da Mitologia Universal”; “Vocabulário Tupi Comparado”; “Dicionário de Termos Asiáticos e Ameríndios”; “Estudos comparativos do japonês com línguas ameríndias: evidências de contatos pré-colombianos”. Foi Diretor do Museu Particular de Jundiaí "Francisco de Matheo" e Membro Titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. No retorno da viagem a Piracicaba, contou-me sobre sua depressão e como conseguiu curar-se da doença da civilização. “Você ainda pensa em suicídio?”, insisti. “No momento, não!”, respondeu. Olhou-me nos olhos e sorriu. Parecia em paz. No ano de 1992, mudei-me da Galeria Pinheiros, onde funcionava a Scortecci. Foi a última vez que nos vimos. Lembro-me de ter passado o novo endereço da editora, mas ele nunca mais deu o ar da graça. Simplesmente desapareceu.

22.02.2022
MADAME BOVARY, GUSTAVE FLAUBERT E AS REDES SOCIAIS / JOÃO SCORTECCI
Lendo sobre “Clausuras e as redes sociais”, encontrei a expressão “bovarismo”, que consiste em uma alteração do sentido da realidade, em que uma pessoa tem deturpada autoimagem, considerando-se outra, que não é. O “bovarismo” faz referência ao estado de insatisfação crônica de um ser humano, produzido pelo contraste entre suas ilusões e aspirações e a realidade frustrante. Essa designação de uma condição psicológica foi introduzida pelo filósofo francês Jules de Gaultier, em seu estudo “Le Bovarysme, la psychologie dans l’œuvre de Flaubert” (1892), no qual se refere ao romance “Madame Bovary”, do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), publicado em livro em 1857 e cuja protagonista, Emma Bovary, converteu-se no protótipo da insatisfação conjugal. Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, pelo seu senso de realidade, pela sua lucidez sobre o comportamento social e pela força de seu estilo em grandes romances. “Madame Bovary”, sua mais famosa obra, foi publicada inicialmente pela revista literária francesa “Revue de Paris”, por Laurent-Pichat e Maxime Du Camp, em outubro de 1856. Resultado de cinco anos de trabalho, “Madame Bovary” é uma dura depreciação dos valores burgueses. Segundo alguns críticos conservadores, Flaubert ridiculariza sua própria condição social. A obra – considerada na época ousada e imoral – foi censurada. Em janeiro de 1857, Flaubert sentou no banco dos réus, com argumentos de acusação conduzidos pelo promotor do caso, o advogado Ernest Pinard. Em 7 de fevereiro de 1857, foi absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena, de Paris, graças à defesa conduzida pelo advogado Marie-Antoine-Jules Sénard, que reconstituiu a origem nobre e aristocrática do escritor e convenceu o júri de que a acusação estava julgando todo um livro a partir de apenas alguns trechos. Nos autos de defesa, Sénard procurou mostrar que há realismo na história de uma mulher que se perde em sonhos inatingíveis e morre em decorrência deles. Assim são as tragédias do amor! Perguntado sobre quem era Emma Bovary, Flaubert respondeu, apenas: “Madame Bovary sou eu”. Aqui com os meus ossos, pensando e repensando sobre as “clausuras” e os “bovarismos” das redes sociais, respondo, apenas: Gustave Flaubert e Emma Bovary somos todos nós!

MÃE NILCE DAS SEIS DA TARDE / JOÃO SCORTECCI
Querida mamãe Nilce: algo toca e nos abraça sempre que a vida marca mais um tempo nas horas da seis da tarde. Foi assim, quase sempre, nos nossos últimos anos, antes da separação espiritual. Não há mais os sinos e nem as orações pela graça de Maria. A vida é veloz. Tudo ficou no passado antigo, no corpo ausente - na falta que você nos faz - no silêncio da perda e na saudade que é imensa. Naquela hora do entardecer, ainda me pergunto do carinho, ao escutar a sua inconfundível voz: “João, aqui é a mamãe” como se eu não soubesse que era mamãe Nilce - eterno amor de mãe -, e ela presente, sempre, no coração inquieto do seu filho caçula João. Mamãe Nilce faleceu em 2003, jovem e linda, e até hoje - quase duas décadas depois -, ainda me abraça, a cada novo entardecer de dia. É a nossa melhor e doce hora, da vida veloz que nos ilumina viver. Até breve, na graça de Maria.

MAMÃE NILCE SCORTECCI E A “BIBLIOTECA DAS MOÇAS” / JOÃO SCORTECCI
“Biblioteca das Moças” foi uma coleção de romances especializada em literatura para jovens mulheres, publicada entre 1920 e 1960, pela Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato e Octalles Marcondes Ferreira e que, em 1980, passou a fazer parte do grupo IBEP - Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas. A coleção era composta por cerca de 180 volumes, com romances de vários autores, a grande maioria assinados por M. Delly, pseudônimo do casal de irmãos franceses Frédéric Henri Petitjean de la Rosière (Vannes, 1870 – Versailles, 1949) e Jeanne Marie Henriette Petitjean de la Rosière (Avinhão, 1875 – Versailles, 1947). As narrativas geralmente eram ambientadas na França e tinham enredos com estrutura bem definida: o herói nobre e rico e a heroína plebeia e pobre, perfazendo uma trama complexa que culminava com o casamento feliz, como nos contos de fada. O casamento era, então, apresentado como a redenção da mulher. Por volta de 1920, as jovens começaram a frequentar as livrarias, escolhendo e comprando os próprios livros, e a “Biblioteca das Moças” foi organizada em função dessa alternativa, destinada ao público feminino da época. Em 1930, a Companhia Editora Nacional chegou a publicar mais de 900 mil exemplares; em 1940, esse número chegou a 1,4 milhão; e, em 1950, o número total de publicações duplicou em relação à década anterior, alcançando mais de 2,9 milhões de exemplares publicados. Mamãe Nilce foi uma leitora voraz de livros dessa coleção. Lembro-me de ter visto – isso nos anos 1960 – alguns exemplares perdidos na casa dos meus avós maternos, na cidade de São Carlos, interior do estado de São Paulo. Na adolescência, mamãe Nilce varava noites, à luz de velas, escondida de seus pais, nos seus melhores sonhos de mulher. Nilce foi uma leitora voraz a vida toda. Já casada e com filhos, morando em Fortaleza, capital do Ceará, montou, com o meu pai Luiz, uma imensa biblioteca, basicamente formada de coleções, enciclopédias, dicionários e clássicos da literatura universal. Hoje fiquei sabendo que a “Biblioteca das Moças”, antes editada exclusivamente por homens, está de volta, agora com roupagem feminina, reestreando com o livro erótico “Algo a mais”, da escritora britânica Elinor Glyn (1864-1943). Segundo a gerente editorial da casa, Luiza Del Monaco, o projeto se alinha a uma proposta de reformulação ampla da Companhia Editora Nacional, que completará cem anos em 2025. O plano é publicar um livro por trimestre. Os próximos dois ainda são do catálogo da Nacional, mas a pretensão é, em seguida, publicar inéditos. Particularmente, por admiração e respeito aos proprietários e amigos da casa editorial e também – mais do que tudo – pelas centenas de velas queimadas noite adentro por Nilce Scortecci, em sua doce adolescência de menina-moça, desejo sucesso. Na verdade, muito sucesso!
MARIA VIANNA, A ATRIZ E POETA NA “VERTICAL DOS DESCAMINHOS” / JOÃO SCORTECCI
“O Menino da Porteira” é um filme brasileiro de longa-metragem de 1976, dirigido por Jeremias Moreira Filho, inspirado na canção homônima, de Teddy Vieira. O filme foi rodado nas cidades de Araraquara e Borborema, no estado de São Paulo, e de Ouro Fino, no estado de Minas Gerais. No elenco, estavam Sérgio Reis, Jofre Soares, Maria Vianna e outros.
Maria Vianna (Maria Viana de Souza, 1946-1984) começou sua carreira de atriz com um pequeno papel no filme “Sinal vermelho, as fêmeas”, mas o sucesso chegou logo depois, ao fazer o principal papel feminino em “Paixão de um homem”, ao lado do cantor Waldick Soriano. Maria Vianna fez vários filmes nos anos 1970: “O signo do escorpião”; “O poderoso garanhão”; “O menino da porteira”; “Mágoa de boiadeiro”; “Os pastores da noite”; e “O cangaceiro do diabo”.
Conheci a atriz Maria Vianna no ano de 1982, por meio do economista e político, Cunha Bueno - então Secretário de Cultura do Estado de São Paulo - quando ela publicou, pela Scortecci, o livro de poesias “Vertical dos Descaminhos”. Para o contrato de edição do livro, essa cearense, de Santa Quitéria, apresentou o documento de identidade com o nome de “Maria Viana de Paula”. “Somos parentes!”, foi o que me disse, na época. Belíssima, morena, 36 anos de idade e famosa no meio cinematográfico brasileiro.
O lançamento do seu livro “Vertical dos Descaminhos” aconteceu no MIS - Museu da Imagem e do Som, na Av. Europa, 158, Jardim Europa, na capital paulista. Evento “disputadíssimo” com a presença de políticos e artistas famosos, entre eles: Regina Duarte, Tarcísio Meira, Sérgio Reis. O evento estava marcado para começar às 19h. O livro ficou pronto na véspera e foi retirado pela autora no dia do evento, que combinou de levá-los diretamente para a noite de autógrafos, no MIS. Antes - foi o que ela me disse, na ocasião - o expediente: retirar o vestido na costureira, cabeleireiro, unhas, maquiagem e sessão de fotos. O espaço no MIS, às 19h30, já estava “lotado”, e o público - aproximadamente 300 pessoas – já impaciente, aguardando a chegada da atriz. Às 20h30, o público começou a ir embora. Aborrecidos! Maria Vianna chegou ao lançamento às 21h10, quase já no horário marcado para encerrar: às 22h. “Deus do céu, o que aconteceu?”, perguntei. Ela - na maior calma do mundo – respondeu: “Estava vindo de táxi, quando lembrei que havia esquecido os livros no porta-malas do carro. Voltei para buscá-los”.
Maria Viana faleceu em 1984, aos 37 anos de idade. Sua morte - e o seu nome verdadeiro - até hoje são um mistério. Amigos da atriz desmentem a sua morte e afirmam que Maria Vianna (a Greta Garbo brasileira) vive reclusa em Nova York, nos Estados Unidos, desde 1983, quando nos vimos pela última vez, na virada do ano de 1982, na cidade de São Paulo.

MARMELADA COLOMBO, ESPINHELA CAÍDA E ARTERIOSCLEROSE / JOÃO SCORTECCI
No Ceará dos anos 60 só existiam três doenças. Espinhela caída, Doença de corno e Arteriosclerose. As duas primeiras crônicas ou não, tinham remédio e até cura. Doenças que com o tempo da vida “se-acostumavam-se” com elas. Remediado está! O esterno, do nada, parava de sofrer castigo e os chifres - depois de expostos - paravam de coçar e incomodar a sorte. A terceira doença - a arteriosclerose - era de morte. O encarnado morria frouxo das calças e esquecido das memórias. Triste. Vez por outra faiscava e arranhava algo de lúcido na vitrola. Perdi um avô assim. Meu Pai Luiz - por já ter morrido na última década - disseram então sofrer de “demência”. E assim foi. Hoje lendo sobre “terçol” descobri que o povo chama o troço no olho de “viúva”. Engraçado foi saber que existe até simpatia para curar a infecção decorrente de bactérias estafilococos. Simpatia para curar terçol em viúvas. Está na web. Anotem: Tirar do dedo o anel de ouro (para quem ainda não o colocou no prego) e esfregá-lo com resiliência na cueca adormecida do falecido. Depois do anel de ouro “energizado” colocá-lo na cabeça do terçol. Pronto. Assunto resolvido. Andei listando “mazelas” caseiras de antigamente: cobreiro, furúnculo e pereba. Vovó Sara - mãe do meu Pai - curava de tudo na maior tranquilidade. Furava, cortava, espremia e depois passava mercurochrome. Hoje existem os dermatologistas e suas pomadas. Nada contra! Vovó dizia: vão-se os anéis e ficam os dedos! Na plenitude de sua “demência” chupava laranja lima, comia marmelada Colombo, assava suspiros e cantarolava, sempre: “O mar também tem amante, o mar também tem mulher. É casado com areia dá-lhe beijos quando quer...”
MATA HARI, A ESPIÃ DUPLA DO AMOR / JOÃO SCORTECCI
No “olho do dia!” E na “ordem do sol”. “Uma rameira? Sim, mas uma traidora - jamais!” Foi assim que fiquei conhecendo a história da espiã e dançarina Mata Hari. Na minha infância - lá no Ceará dos anos 1970 - era uma marca de cigarro barato, sem filtro, que era vendido a granel. Fumávamos no paredão do Colégio Cearense ou na Praça da Igreja do Coração de Jesus. Era lá, no breu do paredão, que “fuzilávamos” os amores da época. A Mata Hari “original” - símbolo da ousadia feminina - chamava-se Margaretha Gertruida Zelle (1876-1917), uma dançarina exótica, dos Países Baixos, que, durante a Primeira Guerra Mundial, foi acusada de espionagem e condenada à morte por fuzilamento.
A biografia da cortesã é misteriosa, cheia de tramas, mistérios, amores e ”aventuras” sexuais. Mata Hari, aos 16 anos de idade, foi expulsa da escola, depois de ter sido acusada de seduzir e se envolver com um diretor da escola. Em 1895, com 19 anos de idade, casou-se com o capitão Rudolf MacLeod (1856-1928), 20 anos mais velho que ela. O casal, durante alguns anos, morou na ilha de Java, principal ilha da Indonésia, para onde MacLeod, militar que era, havia sido enviado, e lá tiveram dois filhos. Foi em Java que Margaretha aprendeu danças folclóricas balinesas e técnicas sexuais orientais, que lhe proporcionaram - anos mais tarde - fama como cortesã de luxo.
Em 1902, de volta à Europa, o casal separou-se, e Margaretha foi acusada pelo marido de ter levado uma vida libertina na ilha. Em Paris, a partir de 1905, estreou na noite com shows de dança e strip-tease. Mata Hari usava véus translúcidos e, com sua dança exótica, mexia com a imaginação dos homens. Teve romances secretos com oficiais militares, políticos e empresários da época. Em 1914 - durante sua turnê em Berlim - eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Era amante do chefe de polícia local, que a apresentou ao cônsul alemão, Eugen Kraemer, chefe da inteligência alemã, que a recrutou como espiã, tornando-se a agente H-21, na Europa. De volta a Paris, conheceu o capitão Georges Ladoux, oficial da contraespionagem francesa, tornando-se, então, agente dupla, passando a vender informações secretas para os dois lados da guerra.
Em 13 de fevereiro de 1917, foi presa pelas autoridades francesas, em seu quarto no hotel Elysèe Palace, em Paris. Antes de ser levada presa, pediu que lhe dessem tempo para tomar banho e mudar de roupa. Depois de alguns minutos, saiu do banheiro, completamente nua e oferecendo chocolates a seus captores em um capacete prussiano. O estratagema de tentar escapar, foi inútil, não funcionou. Foi acusada de espionagem, de ser uma agente dupla e de ter sido a causa da morte de milhares de soldados. Foi executada por um pelotão de fuzilamento, em 15 de outubro de 1917, aos 41 anos de idade.
A lenda sustenta que o esquadrão de fuzilamento teve que usar vendas para evitar que os soldados sucumbissem ao seu charme. No entanto, os fatos comprovados são que ela se recusou a ter os olhos enfaixados e antes de ser alvejada, lançou um beijo de despedida aos 12 soldados da guarda. Apenas quatro tiros a atingiram: dois em suas pernas e dois em seu peito, um deles atingindo o coração, causando sua morte instantânea. Seu corpo foi dissecado e usado para as aulas de anatomia - prática comum com os executados na época. Sua cabeça, embalsamada, permaneceu no Museu de Criminosos da França até 1958, ano em que misteriosamente desapareceu. Dizem que, vez por outra, encarna o corpo de uma dançarina balinesa e sai mundo afora seduzindo pecados de amor. Mata Hari era uma mulher belíssima. No olho do dia e também na ordem do sol.

MEMÓRIAS DE ESTRICNINA - CARTA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO PARA FERNANDO PESSOA / JOÃO SCORTECCI
Memórias de estricnina! O poeta e contista português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi um dos grandes expoentes do modernismo português e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu (Revista Literária Orpheu, 1915). Suicidou-se (no Hotel de Nice, em Paris), aos 25 anos de idade, utilizando-se de cinco frascos de arseniato de estricnina. Sua carta de despedida - onde revela suas razões - foi escrita para o amigo Fernando Pessoa, datada de 31 de março de 1916: “A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas "cartas de despedida"... “Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída...” Mário de Sá Carneiro escreveu ainda - versos - sobre o seu funeral: "Quando eu morrer batam em latas, Rompam aos saltos e aos pinotes, Façam estalar no ar chicotes, Chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro, Ajaezado à andaluza, A um morto nada se recusa, E eu quero por força ir de burro!" Não há registro de que sua “última vontade” tenha sido atendida. 

METAVERSO E A POESIA / JOÃO SCORTECCI
O assunto da hora - ou do momento, como queiram – chama-se “Metaverso”. Todo dia leio e escuto sobre o assunto. Virou febre! “Metaverso” é a terminologia utilizada para indicar um tipo de “mundo virtual” que tenta replicar a realidade por meio de dispositivos digitais. Um lugar virtual “coletivo e compartilhado”, constituído no universo da "realidade virtual", "realidade aumentada" e "Internet 5G". O termo foi cunhado pela primeira vez na obra "Nevasca", de Neal Stephenson, lançada em 1992. Exemplos: os jogos VRChat, Second Life, Roblox e Fortnite. Hoje fiquei sabendo que o Facebook anunciou a intenção de adotar o “metaverso” em sua plataforma. E pensar que nós - poetas - já estamos cometendo “metaverso” desde que o mundo virou um vício. E mais: não precisamos de óculos especiais, avatar e nem de simpatias.
MUITO ALÉM DO JARDIM - ENQUANTO AS RAÍZES NÃO FOREM ARRANCADAS! / JOÃO SCORTECCI
O filme “Being There” (Muito além do jardim, 1979), do gênero comédia dramática, dirigido por Hal Ashby, roteiro de Jerzy Kosinski, com o ator e comediante inglês Peter Sellers (Richard Henry Sellers, 1925-1980) está na minha lista dos 15 melhores filmes de todos os tempos. São eles: "Muito além do jardim", "Poderoso chefão", "2001 - Uma odisseia no espaço", "Blade Runner", "Assim caminha a humanidade", "Indiana Jones", "Tempos modernos", "Apocalypse Now", "A primeira noite de um homem", "Butch Cassidy", "O Império dos sentidos", "Avatar", "ET - O extraterrestre", "Guerra nas estrelas" e "Cidadão Kane".
Chance (oportunidade) Gardiner (Gardner, jardineiro) é um “videota” - de meia idade - que trabalhou a vida toda como jardineiro e que tem na televisão o único contato com o mundo. Ele não sabe ler e nem escrever, não tem carteira de identidade e nunca andou em um automóvel. Após a morte de sua mãe - no parto - foi adotado por um senhor, chamado na história de "O Velho".
Quando seu patrão morre, Chance Gardiner é obrigado a deixar a casa (não havia nenhum testamento e nenhum registro da sua existência). Ao deixar a casa, carregando uma pequena mala, chapéu e bengala, é atropelado pela limusine da rica senhora Benjamin Rand, esposa de um influente magnata, que acaba se tornando seu amigo e confidente. A partir daí, tudo o que Chance Gardiner fala (sobre jardinagem e televisão) e até mesmo quando ele se cala, passa a ser interpretado como algo sábio e genial. As pessoas acham que ele está usando metáforas ao falar de jardinagem quando perguntado sobre economia. Desfecho: a senhora Benjamin Rand se apaixona por ele e com a morte do marido, Chance Gardiner assume o seu lugar e seus negócios milionários. O que fica sobre Being There: “Num jardim, há tempo de cultivar. Há primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois a primavera e o verão outra vez. Enquanto as raízes não forem arrancadas, tudo está bem e terminara bem”. 
Being There é um romance escrito por Jerzy Kosinski. Publicado em 1970, teve sua primeira edição brasileira em 1971, pela editora Artenova.
NAVEGANDO NOS GALHOS DE UMA GOIABEIRA / JOÃO SCORTECCI
Na infância dos anos 1960, o navio pirata era no dorso de uma goiabeira, que ficava no quintal da casa da vovó Sarah do Carmo Paula, em Fortaleza, no Ceará. Quem já “navegou” nos galhos verdes de uma goiabeira sabe que a nau balança com o perigo do vento e enverga suas ondas, igual tempestade no mar. Todo menino - um dia qualquer - sonhou em ser bombeiro, motoqueiro rodoviário, mocinho pistoleiro com estrela de aço no peito, astronauta do espaço e pirata do mar. Já enterrei tesouros no céu, roubei beijos da lua, apaguei incêndios no coração, amarrei laços na onça do mato, joguei peteca no silêncio, brinquei de careta, pulei riscado no chão, rabisquei versos na areia do sol e viajei - perdido em asas - no túnel do tempo.
No quintal da casa da vovó Sarah tinha de tudo que é fruta: seriguela, romã, figo, ata, mamão, coco, cajá, graviola e um imenso pé de goiaba. Meu pai - sabendo o quanto curioso era o seu pirata caçula, provocou-me: “você sabe onde se esconde o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba?” Hoje lendo sobre “código de conduta” dos piratas do mar encontrei algo que me derrubou do galho da goiabeira: “O homem que fica para trás é deixado para trás.” Desconhecia tal conduta covarde do código dos piratas. Decepção! Nunca mais quero brincar de pirata do mar. Meu pai escondeu de mim - durante anos - o segredo do esconderijo do bicho da goiaba. Um dia ele me contou. Lembro-me que foi no dia que desci do galho da goiabeira e parti para morar em São Paulo, com 16 anos incompletos. Vez por outra me lembro do segredo de pai relevado no dia do seu abraço de despedida: “Filho, cuidado com as moscas piratas que tentam pousar na sua vida”.
NAVIO NA GARRAFA DO RIO DO ANZOL / JOÃO SCORTECCI
Nasci na boca do rio do anzol, que, feroz e afoito, afogava-se - dia e noite - na imensidão do mar das garrafas. Escrevi o “bilhete” à mão. Dois versos de amor, uma graça de dor e uma despedida de adeus. Tapei a garrafa com rolha de cortiça e nadei junto, lado a lado com ela, até o encontro das águas. Impossível ir adiante, vencer o vento do destino e a própria correnteza das almas. Exausto: abandonamo-nos à deriva! O poema na garrafa ficou lá, depois acolá e no olho: distante, mais distante, até desaparecer no seu próprio fim. Inglória não sabe do poema “torto” que escrevi e nem do amor ácido depositado na garrafa. Inglória não é “mulher” da boca do rio do anzol. Não traga cachaça, não cospe e não mastiga língua de boi. Inglória não é dor do dia - das tardes ingênuas - e nem das noites cruas do corpo. Inglória é do barro da criação divina - das fantasias do sopro - e do outro lado das águas. Inglória é espírito! Inglória não sabe pecar safadezas, chorar por qualquer coisa, brincar de beijo e abraço, morder ferrolhos e, pasmem, nunca viu de perto o mar de sal nos seus pés. Inglória, feroz e afoita, veio de um sonho amargo, quase pesadelo, veio de folha de caderno rasgado, do nada e do vazio de todas as coisas. Inglória veio - frágil e volátil - e ficou no sono. E eu dormi inteiro. Acordei - ainda adormecido - nas águas do rio do anzol. A garrafa se foi – perdeu-se, perdidamente! Talvez navio, talvez náufrago, talvez fada, duende ou bruxa. Dois versos de amor, uma graça de dor e uma despedida de adeus.
NIETZSCHE, O BODE E AS DIONISÍACAS DA VIDA / JOÃO SCORTECCI
Das tragédias: “Tragos” - que se refere a um bode e - “oidé” - que compreende um canto. Durante as representações teatrais dedicadas ao deus Dionísio (conhecido como o deus da libido e da fertilidade), um bode era sacrificado ao canto de uma “oda” (poema lírico que expressa um forte sentimento) por aqueles que formavam o coro. Dionísio é um dos mais importantes deuses da religião e mitologia grega e o mais humano de todos. Foi o último deus a ser aceito no Olimpo e também o único filho de um simples mortal.
Os gregos antigos eram apaixonados por teatro. Foram eles que criaram os gêneros clássicos da dramaturgia: comédia, drama e tragédia. Esta última em sua origem era uma representação marcada por dor e sofrimento. Os atores nas apresentações usavam máscaras enfeitadas com chifres de bodes. O poeta e filósofo prussiano Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), no ano de 1871, publicou a obra "O nascimento da tragédia no espírito da música". Para Nietzsche, a arte - e somente ela - propiciava enfrentar a dor da existência. Sua filosofia central é a ideia de "afirmação da vida", que envolve questionamento de qualquer doutrina que drene uma expansiva de energias.
Para Nietzsche, o homem ocidental tem seguido na direção do deus Apolo, mas tem se esquecido da paixão e da energia representada pelo deus Dionísio. As reflexões de Nietzsche - mais recentemente - foram recebidas em novas abordagens filosóficas e se movem ao encontro do "transumanismo" (movimento filosófico que visa transformar a condição humana - com o uso das novas tecnologias - às máximas potencialidades em termos de evolução humana, deixando em segundo plano a evolução biológica, alcançando o patamar de pós-humano).
O “bode” e as “odes” estão novamente no teatro das tragédias. Na verdade sempre estiveram. Nunca se ausentaram da dramaturgia da vida. O bode de Dionísio até então dormia o sono do Olimpo, e os poetas em suas odes - apenas eles - resfolegavam libidos poéticos ao léu do espírito da dor e do sofrimento.
NO TRAVESSEIRO DAS VAIDADES DO MUNDO / JOÃO SCORTECCI
O "Livro do Travesseiro" ("Makura no Sōshi") da escritora japonesa Sei Shônagon (c. 966-1017), um inventário da cultura do Japão feudal, escrito no século X, é a principal obra da literatura clássica japonesa. Sei Shônagon foi dama de companhia da Imperatriz Teishi, durante o Período Heian. A obra é um composto de 300 textos curtos, que podem ser lidos em sequência ou ao acaso.
Com uma capacidade de produzir “insights” (compreensão de uma causa e efeito específicos dentro de um contexto particular), o livro ilumina tanto os pequenos fatos do cotidiano no Palácio Imperial, como os fenômenos da natureza, as sutis interações da vida social e a refinada trama de valores estéticos, que enlaçam e organizam praticamente todas as esferas da cultura. O “Livro do Travesseiro” foi traduzido para o português por uma equipe de professoras de origem oriental do Centro de Estudos Japoneses da USP e publicado em 2013, pela Editora 34.
Pouco se sabe sobre a vida da escritora - nem mesmo o seu nome verdadeiro. Sei Shōnagon é um apelido que recebeu quando entrou para a corte da Princesa Sadako (Imperatriz Teishi). Na época as damas de companhia recebiam um novo nome, composto pelo ideograma do nome de família. O título da obra em japonês - "Makura no sōshi" - vem de um episódio que é contado no Livro, segundo o qual a Princesa Sadako (Imperatriz Teishi) havia recebido de presente um maço de folhas de papel de boa qualidade - artigo de luxo, na época - e não sabia o que fazer com ele.
Sei Shōnagon, então, aconselhou a princesa a fazer um travesseiro com o maço de folhas de papel. O "Livro do Travesseiro" foi escrito por volta dos anos 1001 e 1010, quando Sei Shōnagon já vivia retirada da corte, possivelmente como monja em um templo budista, onde terminaria seus dias em preces, orações e abdicação das vaidades do mundo.

NOITE ILUSTRADA, ZÉ TRINDADE E A TIPOGRAFIA DO LICEU CORAÇÃO DE JESUS
O Liceu Coração de Jesus é uma instituição da Congregação dos Salesianos, localizada no bairro dos Campos Elíseos, na região central da cidade de São Paulo. Foi fundado por Dom Bosco (João Melchior Bosco, 1815-1888), com o auxílio de Dona Isabel, princesa imperial do Brasil, no ano de 1885, com o nome de “Liceu de Artes, Ofícios e Comércio”.
Inicialmente, o Liceu teve como primeiros alunos os filhos de escravos libertos e de imigrantes italianos, oferecendo ensino gratuito em oficinas profissionalizantes de sapataria, alfaiataria e artes gráficas. Foram alunos desse Liceu: Antero Greco, Carvalho Pinto, Franco Montoro, Fulvio Stefanini, Grande Otelo, Jânio Quadros, José Carlos Pace, Laudo Natel, Rodolfo Mayer, Mário Travaglini, Toquinho, Noite Ilustrada e muitos outros.
Vez por outra - mudando de rota - volto para casa subindo a Av. Rebouças, pelo caminho do Rio das Pacas, até o bairro de Higienópolis, onde moro. Não sei de quem foi a “genial” ideia de homenagear o cantor, compositor e violonista Noite Ilustrada (Mário de Souza Marques Filho, 1928-2003) com um túnel. Quando iluminado - de dia ou de noite - ilustra a cidade, descortina o céu escuro, quebra o inesperado, freia o tempo veloz, desacelera a vida e chama a poesia.
Dizem que o pseudônimo “Noite Ilustrada” foi dado pelo ator e poeta Zé Trindade (Milton da Silva Bittencourt, 1915-1990), que comandava, na cidade de Além Paraíba, Minas Gerais, a revista musical “Noite Ilustrada”, onde o jovem Mário de Souza Marques Filho começou a carreira de violonista. Não descobri - na pobre e rápida pesquisa - no que o poeta “Noite Ilustrada” se profissionalizou, quando aluno do Liceu Coração de Jesus. Artes gráficas, sapataria ou alfaiataria? Zé Trindade que o diga: “Mulheres. Cheguei!” O resto é noite vazia de estrelas.
NOSSA SENHORA DA GUIA, AVELAR E OS ÍNDIOS CARIRIS / JOÃO SCORTECCI
Monteiro, de Avelar, freguesia portuguesa do concelho de Ansião, distrito de Leiria, centro de Portugal, veio para o Brasil depois do grande terremoto que destruiu a cidade de Lisboa, no ano de 1755. Embarcou para a Capitania do Ceará (Brasil Colonial), fugindo das perseguições religiosas promovidas pelo poderoso primeiro ministro português Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo, 1699-1782), durante o reinado de D. José I (1750-1777), conhecido na história como período “Pombalino”. Marquês de Pombal - responsável pelo projeto da reconstrução de Lisboa e um dos responsáveis pela expulsão dos jesuítas de Portugal foi também perseguidor implacável e cruel, dos cristãos novos. Monteiro, cristão novo, trouxe na mala - presente de sua mãe - uma imagem de Nossa Senhora da Guia, padroeira de Avelar e dos Navegantes, para que o protegesse durante a viagem ao Brasil. A imagem de Nossa Senhora da Guia, do século XVIII, de Avelar, Portugal, guia e protege até hoje a Família PAULA. Está sob a guarda da Família Paula Ventura, herdeiros do memorial de Maria Margarida de Paula Ventura, irmã do meu pai Luiz Gonzaga, filhos de João Batista de Paula e Sara do Carmo Paula, bisnetos do português Monteiro. João Batista e Sara eram primos legítimos. O território do atual estado do Ceará, no Brasil Colônia, era dividido em lotes. Monteiro, não se sabe o porquê e o que o levou a região, fixou residência no lote compreendido da foz do Rio Jaguaribe à foz do Rio Mundaú, região habitada pelos índios Cariris. Monteiro, amigo da tribo, recebeu de presente uma esposa índia. A jovem - é o que dizem na família - era uma menina e não queria se casar. Tentou fugir. Foi laçada e amarrada no lombo de um burro. Tiveram uma única filha, de nome Maria Monteiro (apelidada de Vovó Coração) que casou com o comerciante José do Carmo Ferreira Chaves, da cidade de Quixadá, interior do Ceará. Tiveram cinco filhos: Maria Carminda, Maria do Carmo, José do Carmo, Enéas do Carmo e Arthur do Carmo. Maria Carminda, a filha mais velha, casou-se com José Ferreira de Paula Filho e tiveram seis filhos. O mais novo da prole, João Batista de Paula (o Batista da Light), meu avô paterno, nasceu na cidade de Quixadá/CE, no dia 26 de março de 1895 e faleceu aos 71 anos de idade, no ano de 1966. Batista, era assim que gostava de ser chamado, foi o meu avô amado. Nunca nos abandonamos e vez por outra, aparece de estrela e guia, no coração do meu corpo espiritual.
O AMADO JORGE E SEUS LEGADOS: LIVROS, LIBERDADE DE CRENÇA RELIGIOSA E ISENÇÃO DE TRIBUTAÇÃO SOBRE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
O escritor baiano Jorge Amado (Jorge Leal Amado de Faria, 1912-2001) é um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. É o autor mais adaptado do cinema, do teatro e da televisão. Destaques: “Dona Flor e seus dois maridos”, “Tenda dos Milagres”, “Tieta do Agreste”, “Gabriela, Cravo e Canela” e “Tereza Batista Cansada de Guerra”. Sua obra literária - 49 livros, ao todo - também já foi tema de escolas de samba por todo o País. Seus livros foram traduzidos em 80 países e em 49 idiomas. “Capitães da Areia” é sua obra mais influente. Um romance poético! Um clássico dos livros sobre a “infância abandonada”, onde se narra a história crua e comovente dos meninos pobres morando em um trapiche - armazém abandonado - na região do cais, na cidade de Salvador-Bahia. O livro foi publicado em 1937, ano em que a polícia do Estado Novo, de Getúlio Vargas, apreendeu e queimou em praça pública exemplares desse livro, entre outras obras do autor. “Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar”. Na adolescência, foi um dos fundadores da "Academia dos Rebeldes", grupo de jovens escritores que desempenhou um importante papel na renovação da literatura baiana.
Na década de 1930, mudou-se para a capital federal (Rio de Janeiro), onde cursou a faculdade de Direito e ali travou seus primeiros contatos com o movimento comunista organizado. Viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952). Em 1946, foi eleito deputado federal pelo PCB - Partido Comunista Brasileiro. Foi o autor das emendas constitucionais n. 3.064, que suprimiu a censura prévia e estabeleceu a isenção de tributação sobre livros e periódicos, e a n. 3218, que garantiu a liberdade religiosa. Desligou-se do PCB em 1956, depois das denúncias de Nikita Khruchev contra Stalin, no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Em 1961, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. De sua experiência acadêmica bem como para retratar “os casos” dos imortais da ABL, publicou “Farda, fardão, camisola de dormir”, numa alusão clara ao formalismo da entidade. Jorge Amado morreu em 6 de agosto de 2001. Seu corpo foi cremado e suas cinzas enterradas em sua casa no bairro do Rio Vermelho, em Salvador-Bahia.

O CAMPO MINADO DA PRAÇA PRINCESA ISABEL / JOÃO SCORTECCI
Em 1972, quando vim morar em São Paulo, minha diversão era passear no supermercado Peg-Pag, esquina das ruas Martim Francisco e Palmeiras, no bairro Santa Cecília, tomar café no aeroporto de Congonhas, sopa de cebola no Ceasa, chopp com ovos de codorna no Bar Novidades, na rua D. Veridiana e comer ossobuco no Giovanni, na Rua Timbiras, quase esquina com a Praça da República. No roteiro de visitas – sonhos realizados ao longo do mesmo ano – o Museu do Ipiranga, o Shopping Iguatemi, a Estação da Luz, o Butantã, o Parque da Água Branca e a Praça Princesa Isabel, no bairro Campos Elíseos. Antes de se chamar “Praça Princesa Isabel”, o local já foi denominado “Campo Redondo” e “Largo dos Guaianases” e fazia parte do terreno da Chácara Charpe ou Chácara Mauá, por ser propriedade do Barão e Visconde de Mauá. Sua atual denominação foi uma iniciativa do vereador Henrique Queiroz, na sessão da Câmara Municipal, em 19 de novembro de 1921, dias depois do falecimento da Princesa Isabel, em 14 de novembro de 1921. No final do ano de 1941, foi instituído um concurso internacional de maquetes para criação de um monumento em homenagem ao Duque de Caxias (Luís Alves de Lima e Silva, 1803-1880), considerado o maior herói militar brasileiro. Vitor Brecheret (1894-1955) foi o vencedor, entre 30 concorrentes, concebendo um modelo de gesso do monumento que, ao todo, tem aproximadamente 48 m de altura. O monumento só foi instalado e inaugurado em 1960, e Brecheret, falecido cinco anos antes, não pôde contemplar sua obra. Hoje fiz o meu pedal de bike pelo centro de São Paulo: Praça da República, Theatro Municipal, Estação Júlio Prestes, Museu da Língua Portuguesa, Pinacoteca de São Paulo, Vale do Anhangabaú, Largo do Paissandu, Praça dos Correios, Mosteiro de São Bento, Parque Jardim da Luz, Sala São Paulo, Hotel Dan Inn Planalto, Bar Brahma, Galeria do Rock e Praça Princesa Isabel (foto), que, infelizmente, virou abrigo de pessoas que viviam em hotéis no entorno da “cracolândia” e foram despejadas em ações de reintegração de posse da Prefeitura de São Paulo. Numa área de 16,6 mil m², entre as avenidas Rio Branco e Duque de Caxias, cerca de 400 barracas e mais de 1,5 mil pessoas, formam uma das maiores concentrações de sem-teto da cidade. Uma ou duas vezes por mês pedalo na região central da cidade, principalmente depois que comecei a pedalar sozinho, isso nos dois últimos anos, devido à epidemia da Covid-19. Hoje – confesso – fiquei assustado com a quantidade de pessoas morando nas ruas. São milhares! Estou postando a foto com tristeza, dor e aperto no coração. Tristeza! O espaço estava policiado – contei sete viaturas da polícia militar – e vários grupos de voluntários fornecendo roupas, alimentos e conforto espiritual. Não presenciei violência ou qualquer situação de perigo. Nada além de abandono, miséria, sofrimento, dor, fedor e morte.
O CASO "HARRY POTTER" E O SERMÃO DE FOGO / JOÃO SCORTECCI

"Harry Potter é o diabo e está destruindo pessoas!". Num domingo, 30 de dezembro de 2001, em Alamogordo, ao sul do Novo México, nos Estados Unidos da América do Norte, uma comunidade religiosa liderada pelo Pastor Jack Brock (Jack Dempsey Brock, 1927-2020) queimou 30 exemplares da série literária juvenil “Harry Potter”, da escritora, roteirista e produtora cinematográfica britânica, J. K. Rowling.
Os livros de Rowling ganharam popularidade mundial, recebendo múltiplos prêmios e vendendo mais de 500 milhões de cópias. A Warner Bros adaptou os livros para o cinema, e os filmes entraram na lista de maior bilheteria da história. Harry Potter, o menino bruxo, foi capaz de enfeitiçar milhões de leitores, derrotar as forças do mal e transformar sua criadora numa mulher de sucesso e milionária, mas fracassou, quando teve que enfrentar a ira dos fiéis da "Congregação da Igreja da Comunidade de Cristo", liderados pelo Pastor Jack Brock.
A série “Harry Potter” foi demonizada por aqueles religiosos como "uma obra-prima do engano satânico". Enquanto cantavam “Amazing Grace” e queimavam livros, o Pastor insistia em afirmar: "Harry Potter é o diabo e está destruindo as pessoas". Jack Brock admitiu, em público, que nunca leu nenhum dos romances da série de Potter, mas disse que pesquisou o conteúdo deles. "Por trás desse rosto inocente está o poder das trevas satânicas", acrescentou, apontando para o simpático rosto de Harry James Potter - interpretado no filme pelo ator inglês, Daniel Jacob Radcliffe – estampado na capa de um dos livros. Em seguida, atirou-o no fogaréu da ignorância.

O DANTE NEGRO - DURADOURO, ESTÁVEL E PERMANENTE / JOÃO SCORTECCI
O poeta catarinense Cruz e Sousa (João da Cruz e Sousa, 1861-1898) foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. Com a alcunha de “Dante Negro” ou “Cisne Negro”, segundo o professor, sociólogo e crítico literário Antonio Candido (1918-2017), Cruz e Sousa foi o "único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços." Filho de escravos alforriados, recebeu desde pequeno uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Sousa – cujo sobrenome adotou. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do teuto-brasileiro naturalista, botânico e professor Fritz Müller (Johann Friedrich Theodor Müller, 1882-1897), com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais. Müller foi um pioneiro no apoio factual à teoria da Evolução, de Charles Darwin, e exerceu grande influência sobre Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. “Broquéis” é o seu livro de estreia (1893) e “Lésbia”, o seu poema mais marcante: “Cróton selvagem, tinhorão lascivo,/ planta mortal, carnívora, sangrenta,/ da tua carne báquica rebenta/ a vermelha explosão de um sangue vivo./ Nesse lábio mordente e convulsivo/, ri, ri, risadas de expressão violenta/ o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,/ a morte, o espasmo gélido, aflitivo.../ Lésbia nervosa, fascinante e doente,/ cruel e demoníaca serpente/ das flamejantes atrações do gozo./ Dos teus seios acídulos, amargos,/ fluem capros aromas e os letargos,/ os ópios de um luar tuberculoso.” Em 1893, casou-se com Gavita Rosa Gonçalves (costureira) e com ela teve quatro filhos que morreram prematuramente, também de tuberculose. Cruz e Souza morreu jovem, no dia 19 de março de 1898, de tuberculose, com 36 anos de idade.
O DESABAMENTO “MISTERIOSO” DO TETO DA IGREJA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS / JOÃO SCORTECCI
Eu tinha pouco mais de sete meses de idade quando aconteceu a tragédia do desabamento do teto da igreja do Sagrado Coração de Jesus. Foi uma sexta-feira, dia 15 de março de 1957, por volta das 13h15, na cidade de Fortaleza/CE. Morávamos a três quarteirões da igreja, no centro, na Avenida D. Manoel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias. Minha irmã, Ana Cândida - a caçula - ainda não havia nascido, e estávamos de malas prontas - de mudança - para a Fazenda Nilcevia, na cidade de Dois Córregos, interior de São Paulo. Meus avós maternos haviam sofrido um grave acidente de carro, e minha avó, Maria Aparecida, precisava de cuidados especiais, tempo que durou três anos. Meus irmãos, Luiz Gonzaga e José Henrique, com 6 e 7 anos de idade, respectivamente, na hora do desabamento da igreja estavam no grupo escolar, do outro lado da praça, a não mais que 15 metros de distância da igreja. O estrondo foi de tremer o chão. Minutos depois, o telefone tocou - era do grupo escolar - e papai foi buscá-los de jipe. A exemplo de Roma, Fortaleza é uma cidade construída sobre seis colinas, assentada numa planície que varia de 15 a 20 metros acima do nível do mar. A igreja se localizava na colina “Alto da Pimenta” - conhecida, popularmente, como “Morro do Pecado” -, onde antes existira uma capela construída pelo “Boticário Ferreira” dedicada a Nossa Senhora das Dores. A igreja foi construída por José Francisco da Silva Albano, Barão de Aratanha, a pedido da baronesa, Liberalina Angélica da Silva Albano, para seu filho Frei Xisto Albano, um frade da ordem dos capuchinhos, que, mais tarde, tornou-se bispo. Nos anos 1950, para abrigar um conjunto de sinos, a torre-agulha da igreja foi demolida, e, no seu lugar, foi construída outra torre, dessa vez, quadrada. As bases da torre original não resistiram, e tudo veio abaixo. A notícia do desabamento se espalhou, e logo uma grande multidão ocupou a praça. Até o Governador Paulo Sarasate e a primeira-dama, Albanisa Rocha Sarasate, compareceram à Praça do Sagrado Coração de Jesus, solidarizando-se com o povo de Fortaleza. Meus irmãos, Luiz Gonzaga e José Henrique, até hoje contam sobre a tragédia, o estrondo e a poeira que cobriu tudo. Ninguém, por sorte, ficou ferido. A igreja foi reconstruída e, coincidência ou não, oficialmente reinaugurada em 26 de novembro de 1961, na semana em que havíamos “reocupado” a casa da Av. D. Manoel, reformada, depois de quase três anos morando em Dois Córregos. Muito se fala sobre o “Morro do Pecado” e de o lugar ser “assombrado”. Já escutei de tudo: morte de padre com a cabeça esmagada, acidentes de carro na serra de Pacoti, sumiço de santa... Pesquisando, não encontrei nada de concreto. Dizem - verdade ou mentira - que o espírito do “Boticário Ferreira” (Antônio Rodrigues Ferreira de Macedo, 1800-1859) ainda peca por lá e não abre mão dos prazeres do “Morro do Pecado”. Ferreira foi político, farmacêutico e militar. Foi prefeito de Fortaleza por dois mandatos. Em sua homenagem foi renomeada a “Praça Municipal” - no centro e principal praça da cidade - para “Praça do Ferreira”.
O ERRANTE DE GIBRAN - NA POÉTICA UM DESTRO GAUCHE / JOÃO SCORTECCI
Hoje em um livreto com pensamentos inúteis: “Errar muito não significa que você é um errado na vida. Você é um errante.” A máxima me levou até a obra O ERRANTE do poeta e filósofo libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931) e sua parábola sobre a insatisfação e os desencontros da vida. Gibran foi leitura do inicio dos anos 70. Dois assuntos - atuais e oportunos - chamaram-me a atenção: a febre dos mal-entendidos (ignorância sistêmica) e o desencontro de opiniões (extremistas e radicais) fora do circulo virtuoso das ideias. Sua obra mais conhecida (O Profeta, 1923) figura entre os livros mais vendidos no mundo e foi traduzido em mais de 100 idiomas. Gibran tem o poder de conversar com você. Fala com simplicidade, espiritualidade e profunda sabedoria. Não impõe, não obriga e não castiga. Ele fala - você escuta - e você mesmo lhe responde. Diálogo de almas. Em "O Profeta" o início do autoconhecimento: “o que poderia lhes falar senão do que está agora movendo dentro de vossas almas?” Não sou um “errado” de tudo. Sou um poeta errante! Na poética eu diria: um destro gauche! Gibran Khalil Gibran nasceu em Bsharri, distrito libanês localizado na província do Líbano Setentrional, no dia 6 de janeiro de 1883. Morreu em Nova Iorque, no dia 10 de abril de 1931, com 48 anos de idade.
O GRANDE IRMÃO E OS INFLUENCIADORES DIGITAIS / JOÃO SCORTECCI
Lendo sobre “influenciadores digitais”, lembrei-me de Eugene Zamiatin, escritor russo, autor do romance distópico “Nós”. Eugene (Evgéni Ivánovitch Zamiátin, 1884-1937) foi um influenciador literário. Um gênio criativo! Com sua obra “Nós”, abduziu a criatividade de escritores como Aldous Huxley, George Orwell e Ayn Rand. Três ícones da ficção! Tenho minha lista “cósmica”, fomentada desde os anos 1970: Isaac Asimov (“Eu, Robô”), Arthur C. Clarke (“2001: uma odisseia no espaço”), Ray Brandbury (“Fahrenheit 451”), Edmund Cooper (“A Humanidade Artificial”), Aldous Huxley ("Admirável Mundo Novo") e George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903-1950), escritor e jornalista inglês, nascido na Índia Britânica, autor do distópico “Nineteen Eighty-Four” (“1984”), romance escrito em 1949, em que se narra a vida “sufocante” de indivíduos “aprisionados ” num sistema de opressão e autoritarismo — pelo líder supremo do Partido, intitulado de “Grande Irmão” —, pela vigilância tecnológica da “teletela”, uma espécie de TV que espia os cidadãos, devassando a privacidade de todos, alegando tratar-se de uma questão de segurança. Voltando aos “influenciadores digitais”, assunto de “Nós”, de Eugene Zamiatin, observo no texto “Deles”, os influenciadores digitais, o uso e prática de uma “novilíngua” ou uma “novafala”, como a usada pelo “Grande Irmão” no distópico “1984”, de Orwell. Depois que reli “Nineteen Eighty-Four”, passei a chamar o “monitor” do meu PC — dispositivo físico que observa, supervisiona, controla ou verifica operações de um sistema eletrônico — de “teletela”. Rod Serling - roteirista norte-americano, criador da série “The Twilight Zone” – escreveu sobre fantasia e ficção científica: “Fantasia é o impossível tornado provável. Ficção científica é o improvável tornado possível.” George Orwell morreu em Londres, de tuberculose, em 21 de janeiro de 1950, aos 46 anos de idade.
O LEGADO DE GUTENBERG / JOÃO SCORTECCI
O inventor Johannes Gutenberg (Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg) nasceu no dia 24 de junho (data simbólica escolhida na época do 500º. aniversário do “Festival de Gutenberg” no ano de 1900), entre os anos de 1394 e 1404, na cidade alemã de Mainz ou Mogúncia, às margens do Rio Reno, no coração da Alemanha. Era filho de um rico comerciante de nome Friele Gensfleisch zur Laden, que trabalhava como ourives na Casa da Moeda Eclesiástica Católica, e de Else Wyrich, sua segunda esposa, filha de um lojista da região. 
Interessado pelas ciências e pelas artes, Gutenberg gostava de ler e estudar e cultivava a “sina” de fabricar livros com o objetivo de barateá-los, possibilitando assim acesso e oportunidade para muitos. 
Gutenberg desenvolveu um sistema mecânico de tipos móveis, e sua invenção, que deu início à Revolução da Imprensa, contribuiu de forma decisiva para o sucesso da Reforma Protestante de Martinho Lutero e para a popularização do livro impresso no mundo. Foi eleito por jornalistas americanos e europeus “O homem do milênio”.
Com 20 anos de idade, Gutenberg mudou-se para Estrasburgo, cidade na fronteira franco-alemã. Entre as atividades de que se ocupou estão a ourivesaria e a produção de lembranças para romeiros que visitavam a cidade. 
Em 1437, foi chamado à Justiça por Ana Eisernen Thur, pela promessa de casamento não cumprida. Não fugiu ao compromisso e - mesmo a contragosto - casou-se com ela. Não há registros do nascimento de filhos ou mesmo registro de terem compartilhado vida conjugal. Empobrecido e impedido de ler e estudar, dedicou-se - durante 30 anos - ao invento da imprensa com um único propósito: fabricar livros! 
Entre suas muitas contribuições para a imprensa, estão: a invenção de um processo de “moldes” de produção de tipo móvel, a utilização de tinta à base de óleo e a utilização de uma prensa de madeira similar à prensa de parafuso agrícola. Sua invenção - simples, mas funcional e eficiente - e a combinação dessas três “engenhocas” possibilitaram o surgimento da "Das Werk der Buchei” ou “Fábrica de Livros”.
Gutenberg foi o segundo a usar a impressão por tipos móveis, por volta de 1439. O primeiro foi o artesão chinês Bi Sheng (990-1051 d.C.), no ano de 1040, e é considerado o inventor global da prensa móvel. O sistema de impressão de Bi Sheng - feito de tipos de porcelana - é uma das quatro grandes invenções da China Antiga, juntamente com a bússola, a fabricação do papel e a pólvora. Essas quatro descobertas tiveram um enorme impacto no desenvolvimento da civilização chinesa e global.
A história da impressão sobre papel começou, portanto, na China, no final do século II da Era Cristã. Os chineses sabiam fabricar papel, tinta e usar placas de mármore com o texto entalhado como matriz. No século VIII, começaram a comercializar o papel como mercadoria no mundo árabe. A técnica de fabricação do papel foi revelada aos árabes por prisioneiros chineses. No século XIII, as fábricas de papel proliferaram na Ásia Menor (Iraque e Região) e na Espanha, então sob o domínio mouro.
A “imprensa” propriamente dita já existia. Ao que consta, as primeiras ideias sobre imprensa ocorreram a Gutenberg quando observava um anel com o qual os nobres selavam documentos, neles imprimindo o brasão da família. Esse anel tinha o brasão escavado em metal ou pedra preciosa e deixava uma impressão em alto-relevo sobre o lacre quente. 
Por volta de 1450, Gutenberg juntou tipos, papel, prensa e tinta numa só “engenhoca”. Para isso, só teve de usar a cabeça para juntar várias técnicas: moldes que possibilitaram a fabricação dos tipos (pequenos blocos metálicos esculpidos em relevo: letras reutilizáveis, agrupadas para formar textos), tinta (óleo de linhaça e negro-de-fumo, que marcava o papel sem borrar) e uma prensa movimentada por uma barra, que movia a rosca e o prelo - para cima e para baixo - aplicando pressão sobre o papel, numa superfície com tinta.
Foi assim que Gutenberg imprimiu várias imagens de São Cristóvão e as levou ao bispo de Estrasburgo, que ficou impressionado com a simetria e a perfeição das imagens do Santo. Gutenberg, fazendo segredo de seu invento, saiu da “conversa” carregado de encomendas e com um livro emprestado, nunca devolvido. Cunhou as letras individualmente (primeiro em madeira, depois em chumbo fundido) e amarrou a “composição” numa caixa vazada de madeira. A primeira prensa utilizada foi uma adaptação mecânica de uma prensa que servia para produzir vinhos pressionando o papel com tinta contra o caixote de tipos. 
Estava inventada a impressão tipográfica, uma tecnologia que sobreviveria com poucas modificações até o século XIX. A “engenhoca” de Gutenberg revolucionou a cultura e o conhecimento humano e deu por encerrado - magistralmente - o período das trevas da Idade Média, que se iniciou com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e terminou com a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453.
Pouco se sabe sobre a vida de Gutenberg - além de alguns documentos comerciais e judiciários, sua oficina gráfica e a impressão de sua magnífica “Bíblia”. Esses documentos possibilitam deduzir que gastou todo o dinheiro de que dispunha, antes que chegasse a produzir qualquer coisa que lhe proporcionasse renda e lucro. 
Por volta de 1438, formou uma sociedade com três burgueses da cidade, Andreas Dritzehn, Hans Riffe e Andreas Heilmann. Começou publicando folhetos e livretos religiosos, mas a morte de Dritzehn naquele mesmo ano lhe trouxe problemas com a Justiça. Os irmãos de Dritzehn processaram Gutenberg, porque queriam herdar o direito de entrar na sociedade. Perderam a causa, mas o longo e demorado processo na Justiça esgotou todas as suas economias.
Em 1448 - já com 50 anos de idade - conseguiu o patrocínio de um financiador chamado Johann Fust - a quem confiou o segredo da invenção - para imprimir seu primeiro livro. Fust investiu 800 florins no negócio, uma soma considerável na época. Dois anos depois, mais 800 florins. Fust - não vendo futuro no negócio - executou, em 1455, a impagável dívida. Gutenberg foi à falência. A oficina gráfica caiu nas mãos de Johann Fust (investidor e banqueiro) e de Peter Schöffer (genro de Fust e também artesão de tipos).
Em 1456 publicaram - finalmente - o primeiro livro impresso: a chamada “Bíblia”, da tradução latina conhecida como “Vulgata”, feita por São Jerônimo no século IV. A “Bíblia” foi impressa em 42 linhas (em colunas duplas), caligrafia gótica, com 1282 páginas e tiragem de 180 exemplares (45 em pergaminho e 135 em papel). As letras maiúsculas e os títulos foram ornamentados à mão e coloridos. A obra foi publicada sem data, nem local ou nome dos impressores. É, oficialmente, a “Bíblia de Fust e Peter”. Mas, fazendo justiça ao seu verdadeiro autor, foi apelidada de “Bíblia de Gutenberg”.
Gutenberg só escapou da ruína total, graças à proteção de um funcionário municipal de Mainz, Konrad Humery, que lhe ofereceu os meios de montar outra oficina de impressão. Em 1462, voltou a Estrasburgo e, três anos depois, para sua terra natal, sob a proteção do arcebispo Adolfo II, que lhe proporcionou uma pensão, roupas, comida e vinho.
Johannes Gutenberg faleceu no dia 3 de fevereiro de 1468, com aproximadamente 70 anos de idade. Seu legado faz parte da lista das dez maiores invenções da humanidade.
O MANGAKÁ TEZUKA E A PHOENIX / JOÃO SCORTECCI
Osamu Tezuka (1928-1989) foi um “mangaká” - desenhista de mangás - influente no Japão e no resto do mundo. É lembrado no Japão como o "pai do mangá moderno” ou “Deus do Mangá''. Com sua obra “Shin Takarajima” publicada, em 1947, Tezuka começou o que ficou conhecido como a revolução do mangá no Japão. Sua produção lendária gerou algumas das séries de “mangás” mais bem-sucedidas e premiadas daquele país, entre elas: “Astro Boy”, “Kimba”, “O Leão Branco”, “Dororo”, “Black Jack” e “Hi no Tori”. Osamu Tezuka não é o inventor dos mangás. É o “mangaká” que os popularizou. O desenho de Tezuka é facilmente identificável: o traço é claro, as imagens são simples, o enquadramento cinematográfico e o humor têm sempre seu lugar. O autor nunca hesita em se colocar em cena com sua silhueta reconhecível principalmente por sua boina e seus óculos grossos. Sua obra completa chega a mais de 700 mangás, com mais de 150.000 páginas. A grande maioria nunca foi traduzida do original japonês e continua inacessível aos leitores do Ocidente. Em 1954, publicou “Phoenix 1” (Pássaro de fogo), obra de 12 volumes, inacabada, considerada a obra da sua vida, segundo o próprio mangaká. “Phoenix” trata de reencarnação. Cada história envolve uma busca pela imortalidade, personificada pelo sangue do pássaro de fogo, que, conforme desenhado por Tezuka, assemelha-se ao Fenghuang (ave mítica que renasce das cinzas). Acredita-se que o sangue concede vida eterna, mas a imortalidade na Fênix é inalcançável ou uma terrível maldição, enquanto a reencarnação no estilo budista é apresentada como o caminho natural da vida. Tezuka divulgou os quadrinhos japoneses ao redor do mundo. Foi assim que conheceu o artista francês de história em quadrinhos, Moebius (Jean Giraud, 1938-2012), e o cartunista brasileiro, Maurício de Sousa. Em 2012, a Mauricio de Sousa Produções publicou duas edições da revista “Turma da Mônica Jovem”, com alguns dos personagens principais de Tezuka, incluindo Astro Boy, Black Jack, Safire e Kimba, junto à “Turma da Mônica" em uma aventura na floresta amazônica contra uma organização de contrabando de árvores. Tezuka morreu de câncer de estômago, em Tokyo, aos 60 anos de idade, no dia 9 de fevereiro de 1989. Sua morte teve um impacto imediato no público japonês e no universo dos mangakás. O Museu Osamu Tezuka - dedicado a sua memória e suas obras - foi construído na cidade de Takarazuka, província de Hyogo, no Japão, cidade onde Tezuka viveu grande parte da vida.
O MANIFESTO FUTURISTA DE MARINETTI / JOÃO SCORTECCI
Hoje soube do “Manifesto Futurista”, escrito pelo poeta italiano, Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), e publicado no jornal francês “Le Figaro”, em 20 de fevereiro de 1909. Confesso: não conhecia! O Manifesto marcou a fundação do Futurismo — um dos primeiros movimentos da arte moderna, considerado uma das principais correntes artísticas surgidas na Itália do século passado. Esse polêmico Manifesto contém 11 itens, que proclamavam a ruptura com o passado e a identificação do homem com a máquina, a velocidade e o dinamismo do então novo século. A Europa — no início do século XX — fervia e respirava “rupturas” e também “suspirava” flatulências. Faz parte! O item 1 do Manifesto — geralmente o da convocação, que, em si, valida os demais — assim se declara ao século XX: “Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e do destemor.” Intrepidez? Talvez. No item 2 — sinais de rebelião —, alguns elementos essenciais da obscura proposta: coragem e audácia! Tudo em nome da arte e da poesia. Justo! No item 3, talvez vocação para o suicídio: “A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.” Aqui, os primeiros sinais da loucura futurista: “insônia febril”. Delírio? Talvez. Os itens 4 e 5 parecem hoje hilários: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a ‘Vitória de Samotrácia’.” Hálito explosivo? Mais bonito que a estátua “degolada” da deusa Nice, cujos pedaços foram descobertos em 1863, nas ruínas do Santuário de Samotrácia? Ela mesma! Beleza não se discute! A título de curiosidade, quem visitar o Louvre, em Paris, vai encontrá-la perdida e sem cabeça, em uma de suas escadarias. Pensei em desistir do Manifesto — acontece —, mas, em respeito ao Sr. Marinetti e porque sou deveras curioso, resisti à tentação. Nem que seja a última. Segue o item 5: “Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.” Sem comentários. Avante. Agora, o item 6 — para “sacanear” de vez os amigos poetas: “É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificência para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.” Quais elementos? Juro: perdi! Significado de “munificência”: o mesmo que “prodigalidade”. Atenção, poetas: precisamos no melhor dos versos buscar, sempre, a prodigalidade! Continuando, porque já comecei e não vou desistir. No item 9: “Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo — o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.” Desprezo pelas mulheres? Eu prezo! Pobre Marinetti. No item 10: “Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.” Vileza! Comportamento degradante, indigno. “É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o ‘futurismo’, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.” Eu sabia: os professores são sempre culpados! “Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores [ferros-velhos, alfarrabistas]. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.” Cruel. Tentando — agora — dar um fim justo e equilibrado ao post. Três mentiras verdadeiras: os poetas — sorte deles — continuam imortais em suas órbitas, vivem cheios de insônia febril e delírios e praticam, quase sempre, a “prodigalização” das palavras. Feito isto: bofetões, socos e flatulência literária. Com sua ideologia violenta e incendiária, o Futurismo teve conexão com a retórica fascista após a Primeira Guerra Mundial, mas o polêmico Manifesto de Marinetti — que hoje soa como um conjunto de imbecilidades de pobres de espírito — transcendeu o contexto geográfico, histórico e político, tendo influenciado vanguardas artísticas e literárias do início do século XX, como, no Brasil, o movimento modernista iniciado em 1922, que falava francês, mas não falava tupi-guarani.

20.02.2022
O PERU “ADESTRADO” DE NATAL / JOÃO SCORTECCI
Lá na Fortaleza dos anos 1960, todo mundo - de um jeito ou de outro - se conhecia. Sabia-se onde cada um morava, o que fazia da vida, nome da mulher, do marido e dos filhos, se tinha posses ou não e, principalmente, se era “da sociedade” ou alguém importante. Meu pai Luiz era conhecido e respeitado engenheiro e carregava no sangue cearense o legado do seu pai, João Batista de Paula, alcunhado de “Batista da Light”. O golpe do peru de Natal correu solto naquele ano, e nele também caíram vários “conhecidos”. A ceia de Natal, naquela época, era planejada com antecedência. Era tradição ganharmos de presente peru, galinha da angola, leitão, coelho e cabrito, para engordarem até às festas. O quintal de casa era grande e tinha espaço para o confinamento. Apenas uma recomendação: nada de criar laços afetivos com a bicharada. Desde criança aprendi a preparar peru, galinha da angola, leitão, coelho e até cabrito. Faca afiada, cachaça e machadinha eram as ferramentas do bom serviço. O segredo era único: embebedar o animal. Já tive - uma única vez - problema com um leitão esperto, desconfiado da sorte, que me obrigou a beber junto. Foi uma tragédia: errei o alvo. Ele continuou sóbrio - sorridente - e eu caí bêbado no chão. Um vizinho - empregado do meu tio - teve de terminar o serviço. Eram pouco mais das 8 horas da manhã de um dia de novembro, papai já havia saído para o trabalho, quando a campainha da porta de casa tocou. “Quem será?”. Minha mãe Nilce, ainda de penhoar, atendeu. Era um moço - simpático e educado - carregando debaixo do braço um peru vivo. “D. Nilce, o patrão mandou entregar o peru para a ceia de Natal. Onde solto o bicho?”. Minha mãe, atrapalhada e confusa, indicou o caminho do quintal e pediu que eu fosse junto. O moço limpou os pés no carpete da entrada, pediu licença e soltou o peru no quintal. “D. Nilce, o doutor pediu para eu levar o smoking dele, sapato social, camisa branca e a gravata borboleta. Pediu para eu aproveitar e deixar na lavanderia.”. “Sim, claro.” Em segundos, mamãe Nilce juntou tudo e entregou a encomenda para o mensageiro, que subiu num jipe e foi embora. Trinta minutos depois - não mais que isso - a campainha tocou novamente. “Quem será desta vez?”. Era novamente o mensageiro. “D. Nilce, perdão. O patrão pediu que eu levasse de volta o peru e trouxesse ele já sangrado.”. “Sim, claro, é melhor.”. “João, vai lá e ajuda a pegar o peru”. Eu fui. Estranho foi ver o peru, ao avistar o mensageiro, correr - desbragadamente - para os seus braços. “Adestrado?”, perguntei. O moço catou o peru, subiu no jipe e foi embora, para nunca mais voltar. Escafedeu-se! O golpe - naquela semana, foi isso que o delegado disse - já havia sido aplicado em mais de dez residências do bairro. Naquele Natal de 1960 não comemos peru, e papai - puto da vida - recusou-se a ir ao baile de réveillon do Ideal Clube. Foi o único ano em que não desfiei peru para a noite de Natal, tradição na família.

25.12.2021

O PRELO DE FERRO DE STANHOPE E AS FONTES TIPOGRÁFICAS “DIDOT”, “BODONI” E “BASKERVILLE” / JOÃO SCORTECCI
O escritor, gráfico e cientista britânico, Charles Stanhope (1753-1816), inventou um prelo, por volta de 1795, com um único propósito: publicar as suas obras. Apelidado de “Stanhope press”, o prelo era totalmente construído em ferro. As suas principais inovações foram a pressão regulável - por meio de uma alavanca - e as calhas oleadas de entintamento. Devido a um contrapeso no braço da alavanca de pressão, ela regressava automaticamente à sua posição inicial. Com essas melhorias no sistema de prensagem e de entintagem, obtinha-se uma produção uniforme, fina e constante de até 100 exemplares por hora.
A “engenhoca” de Stanhope - em substituição aos tradicionais prelos de madeira – alcançou sucesso na Inglaterra, com a impressão do jornal “The Times”. Em pouco tempo, conquistou o continente europeu, depois de ter chegado, em 1814, à França, maior centro gráfico, cultural e intelectual da época. O escritor e também impressor francês, Honoré de Balzac (1799-1850), considerado o fundador do Realismo na literatura moderna, descreve ao longo das páginas do livro “Ilusões Perdidas”, editado em 1837, as transformações tecnológicas e as consequências da importação do invento de Charles Stanhope.
Em prelos de ferro, foram “forjados” o design e as fontes tipográficas “Didot” (por Firmin Didot, 1764-1836), na França; “Bodoni” (por Giambattista Bodoni, 1740-1813), em Parma-Itália; e “Baskerville” (por John Baskerville, 1706-1775), na Inglaterra. Em Portugal, coube a Joaquim António Xavier Annes da Costa, administrador da Impressão Régia (hoje, Imprensa Nacional), com autorização da patente inglesa, a fabricação de 13 prelos de ferro. Restam seis dos prelos de Stanhope, em exposição no Memorial da Imprensa Nacional, e dois outros, no acervo do Memorial da Universidade de Coimbra. Durante a administração de Joaquim António Xavier Annes da Costa, de 1808 a 1833, a Impressão Régia publicou cerca de 2.000 títulos, tendo atingido, em 1832, o total de 102 colaboradores gráficos.

O RÁDIO - UMA PAIXÃO DE PILHAS E ONDAS / JOÃO SCORTECCI
O médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e acadêmico, Roquette-Pinto (Edgard Roquette-Pinto, 1884-1954), é considerado o pai da radiodifusão no Brasil. No ano de 1922, criou a “Rádio Sociedade do Rio de Janeiro” com o objetivo de difundir a educação por esse meio, num Brasil onde 60% da população, cerca de 30 milhões de pessoas, não sabia ler.
Roquette-Pinto, numa negociação com empresários americanos da “Westinghouse”, recebeu de presente os equipamentos básicos de transmissão, para criar a primeira emissora de rádio do Brasil. A invenção do rádio é atribuída - com ressalvas - ao físico italiano Marconi (Guglielmo Marconi, 1874-1937). O rádio é a união de três tecnologias: a telegrafia, o telefone sem fio e as ondas de transmissão.
A primeira transmissão de rádio foi para o jornal de Dublin e sobre um evento esportivo que ocorreu durante a regata de Kingstown, capital de São Vicente e Granadinas, no Caribe. A invenção, porém, ainda não tinha o formato que conhecemos hoje, porque transmitia somente sinais. A transmissão de voz só ocorreu em 1922.
Lendo sobre as tecnologias que fundamentaram a invenção do rádio, deparei-me com a telegrafia, invenção do físico Samuel Morse (Samuel Finley Breese Morse, 1791-1872). Interessante! A tecnologia consiste num sistema de telecomunicação que possibilita a transmissão e reprodução à distância do conteúdo de documentos, escritos, impressos, imagens fixas ou qualquer outra informação, por meio de impulsos ou sinais elétricos, através de fios condutores ou de ondas eletromagnéticas. Samuel Morse foi também o inventor do “Código Morse” e do “telégrafo elétrico”.
Sou um apaixonado por radinhos de pilha. Tenho uma coleção deles. Guardo “aglomerados” até os que não funcionam mais. Dói perdê-los para o silêncio da vida.
O VOO SEM FIM DE SAINT-EXUPÉRY / JOÃO SCORTECCI
O escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, 1900-1944) visitou o Brasil, como piloto da Aéropostale, hoje Air France, por três vezes, pousando o seu aeroplano no campo do Campeche, sul da ilha de Santa Catarina. Isso no início do século XX, entre 1929 e 1931. Saint-Exupéry ajudou a implantar rotas de correio aéreo na África, América do Sul e Atlântico Sul, além de ter sido pioneiro nos voos Paris - Saigon e Nova Iorque - Terra do Fogo. Em maio de 1940 - com a invasão dos nazistas na França - fugiu para os Estados Unidos.
Em 1943 escreveu seu livro mais importante “O Pequeno Príncipe”, uma fábula infantil para adultos, obra rica em simbolismo, com personagens como a serpente, a rosa, o adulto solitário e a raposa. A história começa com o narrador descrevendo suas recordações aos 6 anos de idade, quando fez um desenho de uma jiboia que havia engolido um elefante. Quando perguntava o que os adultos viam em seu desenho, todos eles achavam que o garoto havia desenhado um chapéu. O personagem principal do livro é um principezinho, que vivia sozinho num planeta pequenino, onde existiam três vulcões, dois ativos e um já extinto. É uma das obras mais traduzidas no mundo - perto de 220 idiomas - com 145 milhões de exemplares vendidos, sendo 2 milhões deles no Brasil, desde 1952. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” É para milhões de leitores e admiradores da obra “O Pequeno Príncipe” a mensagem mais significativa. Eu - nas muitas releituras - fico com o pensamento da jiboia engolindo um elefante: “O essencial é invisível aos olhos.”
O “LIVRO DE KELLS” E SÃO COLUMBA: POMBA DA IGREJA / JOÃO SCORTECCI
O “Livro de Kells”, também conhecido como “Grande Evangeliário de São Columba”, é um manuscrito ilustrado, com motivos ornamentais, com 680 páginas, feito por monges celtas por volta de 800/806 d.C, no estilo conhecido por “arte insular” ou “arte hiberno-saxónica” produzida após o Império Romano nas Ilhas Britânicas. O termo é usado também para designar a escrita produzida naquela época. Em razão da sua grande beleza e da excelente técnica do seu acabamento, esse manuscrito é considerado por muitos especialistas como um dos mais importantes vestígios da arte religiosa medieval.
O monge São Columba (521-597), nascido em Donegal, Irlanda, também conhecido como “Columba de Iona”, foi grande figura missionária da Escócia. Reintroduziu o cristianismo entre os Pictos - grupo de povos de língua celta - que viveram naquele país. O “Livro de Kells”, escrito em latim, contém os quatro Evangelhos do Novo Testamento, com notas preliminares e explicativas e com numerosas ilustrações e iluminuras coloridas. A “Abadia de Iona” está localizada na Ilha de Iona, próxima da Ilha de Mull, na costa ocidental da Escócia. É um dos mais antigos e mais importantes centros religiosos da Europa Ocidental. Foi o ponto focal da expansão do cristianismo por toda a Escócia e marcou a fundação de uma comunidade monástica por “São Columba”.
Em 563, partindo da Irlanda com doze companheiros, esse monge chegou a Iona e fundou ali um mosteiro que cresceu até se tornar um influente centro para a expansão do cristianismo. Acredita-se que o “Livro de Kells” tenha sido produzido pelos monges em Iona nos anos finais do século VIII e que se destinava principalmente à exibição e não à leitura. As imagens são elaboradas e detalhadas, enquanto o texto é descuidado, com palavras em falta e passagens repetidas. O manuscrito encontra-se exposto permanentemente na biblioteca do Trinity College de Dublin, República da Irlanda.

OS ESCALDOS DA MITOLOGIA NÓRDICA / JOÃO SCORTECCI
“Eddas” é o nome dado a duas coletâneas distintas de textos do século XIII, encontradas na Islândia e que possibilitaram o estudo das histórias referentes aos deuses e heróis da mitologia nórdica e germânica. São partes fragmentárias de uma antiga tradição escandinava de narração oral, que foi escrita em duas recompilações: “Edda Prosaica” ou “Edda de Snorri Sturluson” (historiador, poeta, político e homem de leis, 1179-1241) e “Edda em verso” ou “Edda Poética” ou “Edda de Saemund” (padre e poeta islandês, 1056-1133).
A “Edda Prosaica” é uma coletânea literária religiosa até os anos 1220 ou 1225, contendo também recomendações para poetas, na sua formação no estilo tradicional escandinavo, uma forma de poesia que data do século IX, muito popular na Islândia. Na “Edda em verso” se recompilam poemas muito antigos sobre deuses e heróis da mitologia nórdica antiga, de autores desconhecidos, organizada por autor anônimo.
Existem três teorias referentes à origem do termo “Edda”. Para uma delas, essa é uma palavra idêntica à que, em um antigo poema nórdico (“Rígthula”), parece significar "a bisavó". Para outra, “Edda” significa "poética". Para uma terceira teoria, significa "O livro de Oddi", referindo-se ao lugar onde Snorri Sturluson foi educado. A “Edda Prosaica” está dividida em três partes: “Gylfaginning” – Gylfe, um rei mitológico sueco visita os deuses Asses (Æsir) e faz perguntas sobre o começo do mundo, sobre o cavalo Sleipnir, entre outros; “Skáldskaparmál” - abordagem da língua figurada da poesia nórdica e das suas associações ocultas, com numerosas referências à Edda em verso; e “Háttatal” - compêndio de poesia para os poetas escaldos.
“Escaldo” era a denominação dada a um poeta ou contador de estórias ou, ainda, um narrador popular de episódios históricos na Noruega e Islândia, na Era Viking (800-1050 d.C.). A esses poetas se devem também a transmissão e a posterior conservação em manuscritos da tradição oral escandinava e da mitologia nórdica.
OS ESCRITOS PROIBIDOS DE TOT, FILHO DE RÁ, PROTETOR DOS POETAS / JOÃO SCORTECCI
TOT - filho do deus Sol, Rá, - é o deus do conhecimento, da sabedoria, da matemática, do tempo e da música. É aquele que mantém a ordem - a magia - no universo. Foi o encarregado de inventar a “escrita” entre os egípcios e de iluminar e proteger os poetas. É representado por um babuíno, animal que o acompanha sempre. TOT é homem com cabeça de íbis, uma ave. Compreende - com sabedoria - todos os mistérios da mente humana. Em muitas representações aparece ao lado de uma balança: o “equilíbrio” espiritual no momento do julgamento. TOT pesava a alma do morto antes de ele ir a julgamento. Cabia-lhe examinar e determinar a dignidade do morto: julgar seus sentimentos e propósitos. Era responsável por anotar - nos versos - o resultado de cada julgamento. Com base no peso da “balança” julgava se o morto tinha se conduzido bem ou não e se ele havia tido uma vida digna e honrada. TOT - é o que dizem - exerceu, também, o cargo de secretário das mais obscuras divindades: maiores e menores.
Um papiro escrito há 33 séculos conta a história de como o demônio Nefer Ka Ptah encontrou o "Livro do conhecimento e da sabedoria" do deus TOT", submerso num rio, protegido por serpentes e escorpiões. Copiou-o com um sopro, encharcou-o na cerveja e depois o bebeu adquirindo, instantaneamente, todo o saber do mundo, tudo quanto é dado saber a um deus. TOT, ao se inteirar do roubo do livro, regressou dos umbrais do tempo - matou o demônio Nefer Ka Ptah - e recuperou o livro. O papiro com a "saga" pode ter sido destruído ou queimado por volta de 360 a.C. Dizem ainda que TOT - na cidade de Alexandria e na matemática do tempo - se converteu no corpo de Hermes Trismegisto (o três vezes grande, legislador egípcio e filósofo, que viveu na região de Ninus, por volta de 1.330 a.C.) e ajudou a iluminar 36 livros sobre teologia e filosofia, além de seis sobre medicina, todos destruídos após sucessivas invasões ao Egito. Para cada livro “queimado” ou "destruído" pelo demônio Nefer Ka Ptah, o deus TOT coloca na “balança do tempo” um novo poeta - que, desavisado de tudo - segue iluminando o mundo da humanidade.
OS INCUNÁBULOS / JOÃO SCORTECCI
Incunábulo ("começo", "origem", "berço") é um livro impresso com tipos móveis entre 1455 - data aproximada da publicação da "Bíblia de Gutenberg" - até 1500. Sua origem vem da expressão latina "in cuna" ("no berço"), referindo-se assim ao berço da tipografia. Os incunábulos imitavam os manuscritos. Muitos incunábulos não tinham páginas de rosto, e em poucos deles há indicação de onde e por quem foram impressos. Demorou 50 anos para que o livro impresso passasse a ter suas próprias características, abandonando, paulatinamente, as de livro manuscrito. Existem incunábulos em 18 idiomas: latim, alemão, italiano, francês, holandês, espanhol, inglês, hebreu, catalão, checo, grego, eslavo, português, sueco, bretão, dinamarquês, frísio e sardo. Foram identificados cerca de mil tipógrafos e seus respectivos livros. Um, em cada dez, era ilustrado com gravuras feitas em madeira ou metal. Outros tinham a letra inicial do capítulo manuscrita artisticamente, após a impressão.
Do incunábulo mais comum, "Liber Chronicarum" - conhecido como "Crônica de Nuremberg" -, restam 1250 cópias. O autor, Hartmann Schedel (1440-1514), médico, humanista e historiador, foi um dos primeiros cartógrafos a fazer uso da impressão, inventada por Johannes Gutenberg em 1493. Da "Bíblia de Gutenberg" - o primeiro e certamente o mais famoso e valioso dos incunábulos - restam 48 cópias conhecidas.
Há registro de cerca de 28 mil títulos desse tipo de livro, a maior parte usando letras góticas. Os exemplares conhecidos no Brasil derivam, em sua maioria, da vinda da Família Real portuguesa em 1808 e se encontram na Biblioteca Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. Outros foram trazidos por congregações religiosas - como o da Biblioteca do Mosteiro de São Bento, na cidade de São Paulo - ou comprados de particulares - como os nove exemplares da Biblioteca Mário de Andrade (fundada em 1925), também na capital paulista.
É de 1477 o exemplar mais antigo pertencente à Biblioteca Mário de Andrade, o da "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino. Nessa biblioteca há outros sete incunábulos, entre eles: um exemplar da "Bíblia de Gutenberg" (1492) e dois exemplares da "Crônica de Nuremberg" (1493), que descreve a história do mundo, com cerca de 1.600 xilogravuras, considerado o maior livro ilustrado de sua época.
OS LIVROS ENCADERNADOS COM PELE HUMANA / JOÃO SCORTECCI
Não conheço o “Museu de Surgeons” e muito menos Edimburgo, capital da Escócia. Curiosidades de viagem: conhecer a Pedra do Destino (usada na coroação dos governantes escoceses) e agora visitar o “Museu de Surgeons” e ver de perto - o próximo possível - o livro encadernado com pele humana do assassino irlandês William Burke (1792-1829).
Estava lendo na web sobre a lei Anatomy Act, de 1832 (Lei do Parlamento do Reino Unido que concedeu licença gratuita a médicos, professores de anatomia e estudantes de medicina - de boa fé - para dissecar corpos doados) quando soube da história do irlandês William Burke (condenado por realizar trâmites ilegais de corpos recém-enterrados às faculdades de medicina inglesas) que sua pele virou capa e encadernação de livro. O ato de usar pele humana para encadernar livros chama-se “Bibliopegia antropodérmica”.
Até maio de 2019, o “The Anthropodermic Book Project” examinou 31 dos 50 livros em instituições públicas supostamente com encadernações antropodérmicas, dos quais dezoito foram confirmados como humanos e dezoito foram demonstrados como couro animal. A referência mais antiga no “Oxford English Dictionary” data de 1876.
Aos condenados à morte, a doação involuntária de seus corpos fazia parte da própria sentença: uma espécie de humilhação “post mortem”. A prática da “Bibliopegia antropodérmica” oscilavam entre a homenagem póstuma, o erotismo e a eterna lembrança de um julgamento criminal importante. Lendo e aprendendo!
OS PARASITAS DA WEB E DO PAY-PER-CLICK / JOÃO SCORTECCI
“Parasitas” são organismos que vivem em associação com outros dos quais retiram os meios para a sua sobrevivência. Todas as doenças infecciosas e as infestações dos animais e das plantas são causadas por seres considerados parasitas. A Web é uma “selva”, uma “hospedaria” infestada deles. Pragas!
Aqui no post de hoje não cabe listar os benefícios, os serviços, as convergências das coisas e tudo de bom que existe nela. Hoje, não! Escolhi, da lista das pragas da Web, falar da praga “criminosa” que são os “links patrocinados”, uma das maiores fontes de receitas do Google e outros. Minha relação com o Google é de amor e ódio, jamais de indiferença. Os chamados “links patrocinados” (“pay-per-click”) são um formato de anúncio publicitário veiculado na Web, pago, sob a forma de uma hiperligação (“hiperlink”) que é exibida nos resultados de pesquisa em páginas, base orgânica dos sistemas de buscas.
Existem três tipos: busca por palavra-chave, por assunto e por perfil. Digitando-se “livros” ou “publicação de livros” ou ainda “publique seu livro”, o “buscador” entrega centenas de links associados aos assuntos. Os primeiros listados são os anúncios “patrocinados” e os demais, na sequência, apontados por conteúdo, interesse e relevância. Paga-se para anunciar e se fazer presente, com destaque, no topo da lista, no buscador. Até aí é um serviço interessante, funcional e útil. Uma “mão na roda”! Assim são os dicionários, as enciclopédias, as bibliotecas, os fichários, os anuários, as listas amarelas e os arquivos de busca.
Ultrapassados, obsoletos ou não, todos funcionam assim. O que é uma vergonha, uma canalhice, uma safadeza é permitir que parasitas incluam no “pacote” de palavras-chaves o seu nome, o seu perfil, o nome da sua empresa, marcas registradas (exemplos: “Fábrica de Livros”, “Publique seu Livro”, “Amigos do Livro”, “Print on Demand” e outras), tentando competir, enganar e até confundir escritores que buscam na Web informações sobre a arte de escrever, edição, impressão e comercialização de livros.
Tenho encontrado de tudo: links com o meu nome, nome da minha empresa, artigos, entrevistas, que levam diretamente para outros endereços. O absurdo de hoje - pasmem - está na TV LIVRO SCORTECCI, no YouTube, página institucional do Grupo Editorial Scortecci, onde postamos vídeos de recitais, mesas de debates, lançamento de livros e entrevistas. Dois terços do cabeçalho da página inicial, página de abertura, estão ocupados com anúncios de parasitas que vivem do trabalho suado, leal e justo de outros. Respeito à concorrência, à diversidade e à ética. Valores que não fazem parte do bando de parasitas que habitam a Web. Piolhos do mercado! Ratos!

OS PASSARINHOS DA FACE DE CÂMARA CASCUDO / JOÃO SCORTECCI
O livro “O tempo e Eu - confidências e proposições” do poeta, historiador, folclorista, advogado e jornalista Câmara Cascudo (Luís da Câmara Cascudo, 1898-1986) foi publicado em 1967. Obra de natureza autobiográfica, com apontamentos sobre sua vida, suas vontades, interesses e sonhos. O livro ocupou-se de mim quando visitei um sebo em Pinheiros, zona oeste da cidade de São Paulo. Isso em 1988. Até então nunca tinha lido nada do folclorista potiguar. Ali mesmo - de pé - apoiado numa estante abarrotada de livros, dei conta das suas proposições, página por página, linha por linha, senti suas confidências de meninice, vivi o seu tempo presente e distante de tudo e, mais do que surpreso, me enxerguei no abraço do seu Eu.
Luís da Câmara Cascudo - rosto, olhar e boca - sempre me assustou. Confesso! O resto da tarde passou ligeira até a hora do alfarrabista fechar o dia. Comprei o livro e o carreguei comigo por alguns dias, até o tal “medo de careta” desaparecer da cabeça e do coração. Sumiu. O livro “O Tempo e Eu - confidências e proposições” deu-me relevância, bondade, compreensão, gratidão, paz e sabedoria popular. Câmara Cascudo - na vez de poeta - resfolegou: “Os pássaros não são devedores dos frutos e da água da fonte. Eles testificam, perante a natureza, a continuidade da missão cultural.” e - certeiramente - acertou o eu de mim. Não tenho mais medo de careta!

OSMAN LINS: LISBELA DE TIRAR O FÔLEGO / JOÃO SCORTECCI
Conheci a escritora paulistana Julieta de Godoy Ladeira (1927-1997) já viúva do escritor Osman Lins, na Casa Mário de Andrade, bairro da Barra Funda, em São Paulo, nos anos 1990. Quem nos apresentou foi o escritor e jornalista Ricardo Ramos. Julieta chegou acompanhada de Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas e Anna Maria Martins.
Entrelaçamo-nos num interessante papo literário. Ricardo Ramos era o centro do “carrossel” que resfolegava seus “causos” engraçados, de tirar o fôlego. Um aparte pertinente: ler Ricardo Ramos era o mesmo que “escutá-lo”. Palavras de Lygia, dama da literatura brasileira.
Julieta estreou na literatura, em 1962, com o livro de contos “Passe as férias em Nassau” que recebeu da CBL, o Prêmio Jabuti.
Não conheci o escritor pernambucano Osman Lins (Osman da Costa Lins, 1924-1978). Seu romance "Avalovara" (Melhoramentos, 1973) é uma obra de engenharia narrativa, construído a partir de um palíndromo (Quadrado Sator - quadrado mágico composto por cinco palavras latinas - SATOR, AREPO, TENET, OPERA, ROTAS). Dentro do quadrado de Osman Lins, o mistério do enredo de Avalovara: “O criador mantém cuidadosamente o mundo em sua órbita.” Osman Lins também é autor da comédia romântica “Lisbela e o Prisioneiro (1961) adaptada para televisão (1994) e para o cinema (2003).
O que conheço de Osman Lins e sua obra veio de corações de admiradores: Julieta, Ricardo, Lygia, Anna e Fábio Lucas. Difícil não gostar, quando gostar é de tirar o fôlego das palavras.

OTTAVIANO DE FIORE, FHC E O MINISTÉRIO DA CULTURA / JOÃO SCORTECCI
Das amizades do livro e da leitura. Conheci o napolitano Ottaviano de Fiore (1931-2016) no Ministério da Cultura, em Brasília-DF, quando eu era Conselheiro das Áreas de Humanidades e Integradas, da Lei Rouanet. No governo de Fernando Henrique Cardoso, Ottaviano foi Secretário do Livro e Leitura (1995 a 2002), dedicando-se à abertura de inúmeras bibliotecas por todo o país. Um Garibaldi (Giuseppe Garibaldi, 1807-1882), herói de dois mundos. O seu trabalho na Secretaria marcou época. Sempre que possível, conversávamos sobre livros e formação de bibliotecas. Aprendi muito. Um dia – mais próximos e confidentes – conversamos sobre sua amizade com FHC, sobre Ibiúna e o ano de 1968, quando do 30º Congresso da UNE - União Nacional dos Estudantes. Na ocasião, ao menos mil estudantes foram presos pela Força Pública e pelo Dops - Departamento de Ordem Política e Social. Nosso último papo aconteceu em 2003, no Museu da Língua Portuguesa, na cidade de São Paulo. “Abraço, 'chefe'.'' Era assim que o recebia, carinhosamente. Ele me olhava e sorria. “Bom te ver, Scortecci!” Para nós – Garibaldis – nada melhor que estes dois mundos: livros e bibliotecas. Dizia, sempre: “A biblioteca foi uma espécie de pátria para muita gente”. Aqui com os meus ossos: não sei o que seria de mim sem eles.
OUROBOROS E A NATUREZA CÍCLICA DA VIDA / JOÃO SCORTECCI
A vida é cíclica e essência de sua própria natureza. Infinita - por definição, conceito ou fé - e geometricamente representada pelo número oito, deitado ou em pé. Tanto faz. Sua inclinação: direita, esquerda ou centro - igual o mar e suas venturas - é espelho e cenário mutante do que somos. Cíclica e imprecisa - a vida - “acontece” nos limites e no espaço dimensional do tempo: o da existência! Nada fora dela respira, pensa, nega, aceita, sobrevive e ama. Amanda Gorman (a jovem poeta negra que declamou “A colina que subimos” na posse dos presidentes Joe Biden e Kamala), nos disse: "O que eu realmente desejo com o poema é ser capaz de usar minhas palavras de uma forma em que nosso país ainda possa se unir e se curar..." Cíclica - por sigma ou sinal - de natureza divina e espiritual. Espelho que nos olha: mastro, vela e vento. Essência que “resfolega” conceitos, sabedorias e fé. E mais: esperança! E o que ela poeta e a vida - sempre - nos ensinam: a colina que subimos - do oito em movimento - não representa inércia, castigo, vazio da besta ou destino de sorte. Significa herança, linhagem e equilíbrio. E depois das tormentas? Bonança e calmaria. A serpente “Ouroboros” da mitologia grega devorando a sua própria cauda. Difícil definir o seu começo e fim de sua própria natureza.

24.01.2021
PADILHA, BELKIS, FRANQUI E CORTÁZAR: CRONÓPIOS DA POESIA / JOÃO SCORTECCI
O poeta cubano Herberto Padilla (1932-2000), com a vitória da Revolução Cubana em 1º de janeiro de 1959, foi nomeado correspondente oficial em Nova Iorque, onde residia na época. Em 1962, retornou a Cuba para trabalhar no jornal “Revolución”, publicação oficial do governo cubano, dirigido por seu amigo poeta, Carlos Franqui (1921-2010). Padilla envolveu-se em polêmicas e caiu em desgraça, por defender a criação de um comunismo que valorizasse ideias como as da filosofia existencialista do francês Jean-Paul Sartre (1905-1980).
Em 1968, Franqui rompeu com o governo cubano ao assinar uma carta condenando a invasão soviética da Tchecoslováquia, deixando, então, Padilha desprotegido e jogado à sorte.
Em 1971, Padilha e sua esposa, a poeta Belkis Cuza Malé (1942-   ),foram levados à prisão, acusados de “atividades subversivas” contra o governo revolucionário de Cuba, tendo sido libertados face à forte reação internacional — que reuniu intelectuais, como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Alberto Moravia, Susan Sontag, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Hans Magnus Enzensberger, Juan Goytisolo e Julio Cortázar — e depois de uma retratação pública, assumindo culpa perante um tribunal.
Em 1951, aos 37 anos de idade, o poeta e escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), por não concordar com a ditadura na Argentina, quando Perón assumiu a presidência, partiu para Paris, inicialmente por um período de dez meses, mas acabou ficando em definitivo, tornando-se, inclusive, em 1981, cidadão francês. Cortázar é considerado um dos autores mais inovadores e originais de sua época, mestre da história, da prosa poética e do conto e criador de romances importantes que inauguraram uma nova maneira de fazer literatura no mundo hispânico, rompendo com os moldes clássicos, por meio de narrativas que escapam à linearidade temporal. “Histórias de Cronópios e de Famas”, de 1962, é um de seus livros mais intrigantes, que promove uma espécie de reinvenção do mundo, por meio de seus personagens, os cronópios, os famas e as esperanças, os quais alcançam sensibilidade e fascínio, na medida em que traduzem a psicologia humana.
Os cronópios, segundo Cortázar, são criaturas verdes, úmidas e distraídas, e sua força é a poesia. Eles cantam como as cigarras, indiferentes ao cotidiano, esquecem tudo, são atropelados, choram, perdem o que trazem nos bolsos e, quando saem em viagem, perdem o trem, levam coisas que não lhes servem. Os famas são organizados e práticos, prudentes, fazem cálculos e embalsamam suas lembranças; quando fazem uma viagem, mandam alguém na frente para verificar os preços e a cor dos lençóis. As esperanças “são sedentárias e deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso ir vê-las, porque elas não vêm até nós”. Os poetas — cada um com o seu verso — são cronópios da poesia, que cantam como as cigarras, são atropelados, choram, esquecem tudo, perdem o trem, carregam no coração dores que não lhes servem. Não são organizados, prudentes e tampouco práticos. São errantes! Às vezes, são também como as estátuas — dobraduras de papel —, que é preciso ir vê-las, porque não vêm até nós. Os cronópios são criaturas verdes, úmidas e distraídas, que nos habitam, quando somos poesia.
PANTHÉON DE PARIS, VICTOR HUGO E A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS / JOÃO SCORTECCI
Visitei o “Panthéon de Paris” no ano de 2010. Monumento estilo neoclássico situado no monte de Santa Genoveva, no 5.º arrondissement de Paris (os arrondissements de Paris correspondem a uma divisão administrativa que decompõe a comuna de Paris em vinte arrondissements municipais), em pleno Quartier Latin.
Não tive a oportunidade de visitar o túmulo do poeta, romancista e dramaturgo Victor Hugo (Victor-Marie Hugo, 1802-1885), autor de “Les Misérables” ("Os miseráveis") e de “Notre-Dame de Paris”, entre diversas outras obras de fama e renome mundial. Lembro-me que - na época, já tarde do dia - optei pela “Sorbonne Université”. Perdi também a oportunidade de conhecer a Biblioteca de Santa Genoveva. Acontece! Victor Hugo passou a infância entre Paris, Nápoles e Madrid. Considerado um menino precoce, tendo sido, em 1817, aos 15 anos de idade, premiado pela Academia Francesa, por um de seus poemas. Em 1821 publicou seu primeiro livro de poesias, “Odes et poésies diverses” (Odes e Poesias Diversas), com o qual ganhou uma pensão, concedida por Luís XVIII e em 1822 o seu primeiro romance, "Han d'Islande" ("Hans da Islândia").
Em 1825, aos 23 anos, recebeu o título de “Cavaleiro da Legião de Honra” e, com outros escritores, ajudou a criar um “Cenáculo” literário. “Cenáculo” - que significa jantar - é o termo usado para o local onde ocorreu, de acordo com os cristãos, a “Última Ceia” e onde hoje se encontra um grande templo, no Monte Sião, em Jerusalém. Um “cenáculo” de escritores!  O acontecido me levou de “corpo e alma” até o filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, do gênero drama, dirigido por Peter Weir, escrito por Tom Schulman e estrelado pelo saudoso Robin Williams.
Victor Hugo morreu há exatos 136 anos, em 22 de maio de 1885. De acordo com seu último desejo, seu corpo foi  enterrado no “Panthéon de Paris”, cenáculo de muitos imortais da humanidade.
PAPAI NOEL, CAROÇO DE UVA, TRANÇA DE CEBOLAS E O PUXA-SACO DO PESCADOR OSMAR / JOÃO SCORTECCI
Nunca acreditei em Papai Noel. Mas deveria. Tinha tudo, na infância, para me deixar enganar. “Enganar” é uma palavra forte. Na falta de outra – evitando, assim, cair na armadilha da ingenuidade – fico com ela. Simples assim. Listei três das minhas “inocências” – duradouras, sim – já que elas sobreviveram ao tempo e pontuaram toda a minha meninice. Quando acordei – assim, do nada – não sofri muito. Não fiquei triste e nem me senti traído. Já era adulto. Quando Papai Noel não veio naquele ano, eu já cultivava a maturidade: lembrar, recordar e rir de mim mesmo. Deixei-me enganar que as cebolas já nasciam trançadas, que uvas eram cultivadas a partir dos caroços cuspidos e que um puxa-saco era aquela pessoa que arrastava pela vida um pesado saco de areia salgada. Nunca ninguém me contou – deveriam? – a verdade verdadeira sobre a trança de cebolas pendurada no prego atrás da porta da despensa e, muito menos, sobre os caroços de uva cuspidos na terra, na noite de Natal. Acontece. Já com o bajulador, o popularmente conhecido como “puxa-saco”, foi diferente. “Mãe, o que é puxa-saco?” Talvez tenha sido – creio – a única vez em que a minha mãe tenha me enrolado na resposta. Deve ter tido lá suas razões. Eu até que desconfio. Sou um “bocudo”, que não sabe guardar segredo. Ela, talvez, com receio que eu abrisse o bico e mais, fosse procurar saber “o porquê”, enrolou-me com amor de mãe: “É uma pessoa que vive arrastando o saco alheio.” Algo assim. “Na areia da praia?”, indaguei. “Sim”. Referia-se, então, ao Pescador Osmar, um jangadeiro que havia abandonado o mar, para ganhar a vida zelando pelas casas de veraneio, que pontilhavam a orla da “Prainha”, do município de Aquiraz, distante 32 km de Fortaleza, a capital cearense, que, até o ano de 1726, foi sede administrativa da capitania do Ceará. Pobre Osmar! Perdoe-me! Juro que, na época, sofri por ele, de imaginar vê-lo puxando o tal saco de areia do mar. Eu o ajudaria! Na primeira oportunidade, às escondidas, indaguei-lhe: “Osmar, você é um puxa-saco?” Ele riu, cuspiu – adorava cuspir na areia quente do chão – e seguiu o seu caminho. Mamãe Nilce – quando soube da minha danação – puxou-me as orelhas. Ganhei castigo? Não me lembro. Com o Pescador Osmar, eu e meu irmão José Henrique aprendemos a velejar nas águas de sal, pescar caranguejos, limpar peixes e caçar bichos no mato. Pescador Osmar tinha verdadeira adoração por esse meu irmão. Quando seu filho caçula nasceu, batizou-o com o nome de José Henrique. Confesso: nunca o vi arrastar pelas praias de Aquiraz o tal pesado saco com areia do mar. Pescador Osmar foi, na minha infância de velas e ventos, o Dragão do Mar, o Francisco José do Nascimento (1839-1914), jangadeiro, prático-mor e abolicionista. No ano de 2011, eu e meu irmão José Henrique voltamos lá. Na parede da rua onde tínhamos nossa casa, encontramos uma homenagem ao Pescador Osmar, falecido nos anos 1980. Na foto, no centro de nossas vidas de velas e ventos, o José Henrique (irmão), o José Henrique (filho caçula do Pescador Osmar) e eu, João Ricardo, que, a partir de 1972, tornou-se o João Scortecci.
PASTEL DE FEIRA FALA POR SI / JOÃO SCORTECCI
Hoje madruguei e fui pedalar cedo. Depois das 9 da manhã, o calor derruba a infantaria. Não só o calor: o frio também. Depois de 10 km, parei numa barraca de pastel e pedi o de sempre: pastel de queijo. Na verdade, pedi a opção dois, porque, quando encontro, a primeira opção é pastel de alho-poró. Não é em todo lugar que tem. Faz parte! O assunto na barraca – movimentadíssima – era sobre a guerra e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Na conversa: Eu, o pasteleiro Vladimir – que não é o Putin – o ciclista Emmanuel, do pedal da zona norte – que não é o Macron –, um pedinte de feira, de nome Boris – que bicava um pastel – e uma senhora, gordinha e simpática, de nome Ludmila, professora aposentada. No papo, saiu de tudo: que a ONU é uma piada e a OTAN, um pacto de covardes, que a Europa está de calças sujas, que o Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, é um banana, que o Bolsonaro foi o mensageiro da morte, que o Putin “azarou” a mulher dele, que a Alemanha está “sem gás” e que o Putin é um puto, doido de pedra. “Viu a cara dele revirando os olhos?” “Eu vi”, confirmei. Tudo conversa atrapalhada, sem fio e nem pavio, em que todo mundo falava junto e ao mesmo tempo. “Papo de guerra” é o mesmo que discutir religião, política e futebol. Muita merda e pouca razão. Vladimir, o pasteleiro, declarou estar preocupado com os jogadores de futebol que jogam em times da Ucrânia, em especial com o corintiano Pedrinho, hoje jogador do Shakhtar Donetsk. Emmanuel – o ciclista – contava a história de um tanque russo que havia atropelado e passado por cima de um carro. “É assim que fazem conosco, ciclistas”, declarou. Ludmila, a professora aposentada – que não é a mulher do Putin – comentava sobre um casal de matemáticos da USP, de origem ucraniana, que estavam em Kiev – capital da Ucrânia – abrigados no subsolo de um prédio para se proteger do bombardeio. “Tragédia!” Eu, atento, anotando os aloegos. Por fim, depois de comer dois pastéis por minha conta, um de queijo e outro de carne, foi a vez do Boris, o pedinte - que não é o primeiro-ministro inglês - palpitar no parlatório da pastelaria: “Acho que tudo isso é efeito da covid, que amoleceu os miolos do russo”. Silêncio. Foi nessa hora que a vida olhou as horas e o sol e resolveu seguir caminho. Boris ficou por lá. Festeiro que só ele. Alegre. Provavelmente já caçando outro cliente e pensando, talvez, quem sabe, num pastel de palmito. Repetir nem sempre é uma boa pedida. Pedalei mais 5 km e encerrei o pedal. Confesso: o Boris "imunizou-me" a razão. Amanhã tem mais pedal e juro: nada de guerra, covid e pastel. Talvez um quibe, uma isca de peixe ou um churrasquinho de feira, com farofa.

27.02.2022

PEDIDOS DE MORTE / JOÃO SCORTECCI
O escritor Franz Kafka (1883-1924) autor dos livros “A Metamorfose”, “O Processo” e “O Castelo” pediu - antes de morrer - ao jornalista e escritor Max Brod (1884-1968) que queimasse seus cadernos. Deixou-lhe, uma mensagem: "Querido Max. Meu último desejo: tudo o que escrevi é para ser queimado, sem ler." Max Brod - teimoso e curioso - desobedeceu e não queimou nada.
Para Dora Diamant (1898-1952), sua amante, Kafka pediu a mesma coisa: “Queime tudo!” Dora não o fez. Guardou alguns escritos e 36 de suas cartas para ela. Em 1933, o material acabou confiscado pela Gestapo, de Hitler. Moral da história: Antes de morrer - se for mesmo um pedido de morte - queime-se você mesmo! 
PEDRO, MASSAO, VIANNA, CUNHA E VINICIUS: POSTO QUE É CHAMA!/ JOÃO SCORTECCI
Hoje fiquei sabendo da morte do fotógrafo Pedro de Moraes, filho do inesquecível poeta e compositor Vinicius de Moraes. Pedro faleceu no último dia 27, aos 79 anos de idade. Quando da morte do seu pai, em 1980, o editor e artista gráfico Massao Ohno (1936-2010) me ligou e deu – de sola – a triste notícia: “O Vinicius morreu!” “Não sabia”, respondi surpreso. Massao, então, emendou de pronto: “Falei agora com o Pedro, filho do Vinicius. Ele autorizou usarmos aquela foto do pai de perfil, num cartaz! Sabe qual é?” “Não”, respondi. “Faço a arte e você imprime os cartazes”, disse-me ele. Topei na hora. “Vai ter uma missa, algo assim, na igreja da Consolação, em homenagem a Vinicius. A ideia é distribuir – gratuitamente – os cartazes na cerimônia”. Terminamos a conversa com a promessa de nos falarmos novamente no final do dia. Liguei, então, para a Maria Vianna, atriz em filmes como “Menino da Porteira”, “A pequena órfã” e autora da Scortecci, com o livro de poemas “Vertical dos Descaminhos”. Prontamente, ela ligou para o deputado Cunha Bueno, amigo e também autor da Scortecci, na época Secretário de Cultura do Estado de São Paulo. O pedido era curto e irrecusável: patrocinar, em homenagem a Vinicius, a impressão dos cartazes, formato meia folha, em papel couchê! Massao Ohno e Maria Vianna trabalharam rapidamente! Dois dias depois, já com os fotolitos prontos, Cunha Bueno autorizou a impressão de 500 cartazes. Mais do que suficiente. No dia da homenagem, foram distribuídos gratuitamente. Surpresa foi encontrá-los à venda, na entrada da igreja da Consolação. Acontece. O cartaz e as provas de fotolito hoje fazem parte do memorial de 40 anos da Scortecci. Na belíssima foto original tirada por Pedro de Moraes, aparecem uma garrafa de uísque e um copo, além do perfil do poeta eternizado por Massao Ohno, no cartaz. Vinicius: “Que não seja imortal, posto que é chama,/ Mas que seja infinito enquanto dure.”
PEIXES-BANANA, REVISTA “THE NEW YORKER” E J. D. SALINGER / JOÃO SCORTECCI
“The New Yorker” é uma revista norte-americana dedicada à cobertura da vida cultural da cidade de Nova Iorque, que publica críticas, ensaios, reportagens investigativas e também ficção. A revista - fundada por Harold Ross - estreou em 21 de fevereiro de 1925. A primeira capa, com um cavalheiro de cartola observando uma borboleta através de um monóculo, foi desenhada pelo artista gráfico, Rea Irvin (1881-1972), que também desenvolveu a fonte que é usada para logo e manchetes da revista.
O conto “Um dia perfeito para os peixes-banana”, do escritor norte-americano J. D. Salinger (Jerome David Salinger, 1919-2010), foi publicado, pela primeira vez, na “The New Yorker”, no ano de 1948. O conto de Salinger relata um dos efeitos colaterais da Segunda Guerra entre alguns de seus sobreviventes: a melancolia, os transtornos mentais e a predisposição ao suicídio.
O romance “O Apanhador no Campo de Centeio”, publicado em 1951, é o seu livro de maior sucesso de público e vendas. Um milhão de cópias são vendidas a cada ano, com vendas totais de mais de 65 milhões de exemplares. Foi incluído na lista da “Time Magazine” dos 100 melhores romances em inglês, escritos desde 1923.
Salinger morreu de causas naturais em sua casa, em New Hampshire, em 27 de janeiro de 2010, aos 91 anos de idade.

03.10.2021

PLURALISMO CÓSMICO E A ARTE DA MEMÓRIA DE GIORDANO BRUNO / JOÃO SCORTECCI
O poeta, teólogo, filósofo, matemático, teórico de cosmologia, ocultista hermético e frade dominicano italiano Giordano Bruno (nascido Filippo Bruno, 1548-1600) foi condenado à morte na fogueira pela Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício, sob a acusação de heresia, ao negar várias doutrinas católicas essenciais, incluindo a condenação eterna, a Trindade, a divindade de Cristo, a virgindade de Maria e a transubstanciação (mudança do pão e do vinho na substância do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, no ato da Consagração). Giordano Bruno ficou conhecido por suas teorias cosmológicas. Propôs que as estrelas fossem sóis distantes, cercados por seus próprios planetas, e levantou a possibilidade de que esses planetas criassem vida neles mesmos, proposição filosófica conhecida como “pluralismo cósmico”. Insistiu, também, em afirmar que o universo é infinito, e nele não poderia haver um "centro". Foi queimado em uma fogueira no Campo de' Fiori, em Roma, em 1600. Visitei o monumento em sua homenagem — busto encapuzado — no Campo de' Fiori, em Roma, em maio de 2008, debaixo de um forte calor. As escadarias do monumento, erguido onde ele foi executado, estavam apinhadas de gente, e sua presença no centro da praça parecia longe daquele momento da história. O monumento — belíssimo —, obra do escultor Ettore Ferrari (1848-1929), foi erguido em 1889, por círculos maçônicos italianos. Após sua morte, Giordano Bruno ganhou fama considerável e passou a ser considerado, por muitos, como um mártir da ciência. Além da cosmologia, estudou e escreveu sobre a arte e as técnicas de estimulação da memória. Antes da invenção do primeiro alfabeto linear (por volta de 1700 a.C., pelos fenícios), todo o processo de transferência de informação era basicamente oral e, para tanto, esses povos precisaram desenvolver técnicas eficazes de memorização, a fim de assegurar sua unidade política, social e religiosa. A arte da memória foi sendo deixada de lado com o advento e a expansão do universo da imprensa. Infinita? Talvez. Os antigos gregos consideravam a memória uma identidade sobrenatural ou divina, que dava aos poetas o poder de voltar ao passado e de lembrá-lo para a coletividade. A arte da memória tinha ainda o poder de conferir imortalidade aos mortais. O poder de contar suas histórias e falar sobre suas raízes, heranças e sonhos. Giordano Bruno era um poeta e, mais do que ninguém, acreditava nos versos da imortalidade e do pensamento, na composição do universo e na expansão — infinita — da memória de Deus.

19.02.2022

QUEM QUER FALAR COM LYGIA FAGUNDES TELLES? / JOÃO SCORTECCI
Tudo – ou quase tudo – já foi dito sobre a incrível e maravilhosa escritora, Dama da Literatura Brasileira, Lygia Fagundes Telles. Lygia nasceu no dia 19 de abril de 1923. Foi o que ela me disse, pessoalmente, uma única vez. Recentemente, quando da sua morte, no dia 3 de abril de 2022, encontraram documentos – registro de nascimento, de batismo e certidão de casamento –, atestando que ela nasceu em 1918. Vale o escrito! Conheci Lygia com seus 60 anos de idade, no ano de 1978, na sede da UBE - União Brasileira de Escritores, na capital paulista. Uma mulher belíssima, elegante e gentil. Sou testemunha de que nunca recuou frente a um desafio em favor dos escritores e da liberdade plena, em todos os sentidos. Nos aproximamos no ano de 1982, quando me tornei editor de livros e diretor da UBE. Lygia foi quem levou Menotti Del Picchia à Scortecci Editora, em 1982, compareceu a dois lançamentos de livros de minha autoria (“A Morte e o Corpo” e “Água e Sal - Fragmentos de Tempo Algum”), foi presença constante nas reuniões, aos sábados, na casa do escritor e crítico literário Fábio Lucas e foi à minha casa – quando eu morava na Rua Cândido Espinheira, no bairro Santa Cecília, na festa de meu aniversário de 28 anos. Vez por outra, falávamos ao telefone. Não existiam celular, e-mail, WhatsApp, e a internet era ainda uma precária novidade. Quando me passou o número do seu telefone, disse: “Guarde-o a sete chaves.” Lembro que, ao ligar pela primeira vez, senti um frio na barriga e uma tremedeira nas pernas. “Quem quer falar com ela?” “João Scortecci”, respondi. Minutos depois, Lygia atendeu a ligação, com sua voz inconfundível. A mesma cena se repetiu duas ou três vezes. “Quem quer falar com ela?” Desde a primeira ligação achei a voz da atendente estranha e seca, mas muito parecida com a de Lygia. Com o tempo – e mais liberdade, claro – descobri que se tratava de Lygia, num disfarce, um filtro, uma salvaguarda de privacidade. Na primeira oportunidade que tive, quebrei o protocolo: “Lygia, sou eu, o Scortecci.” Ela gargalhou. Momento raro. Um dia, na sede UBE, justificou-se, educadamente. “Faço isso para afastar os chatos!” Em mais de 40 anos de vida literária, nunca vi Lygia sair do sério ou perder a calma, mesmo nos momentos tensos dos “anos de chumbo”. Guardo lembranças maravilhosas do privilégio que tive com sua amizade literária. De todas as lembranças – foram muitas – a melhor de todas foi vê-la entrar na Galeria Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, 1704 – onde, durante 10 anos, funcionou a Scortecci –, de braço dado com o Príncipe dos Poetas, Menotti Del Picchia. Inesquecível. Lygia eterna. Até quando? Sempre. Parabéns pelo seu aniversário de 104 anos!
RENÉ THIOLLIER, MECENAS DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 E O PARQUE MÁRIO COVAS / JOÃO SCORTECCI
O escritor e advogado René Thiollier (René de Castro Thiollier, 1882-1968) foi um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia e conselheiro no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Foi também um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Amigo do então prefeito da capital paulista, Artur Bernardes, foi René Thiollier quem conseguiu alugar o Teatro Municipal de São Paulo — pagando o aluguel de seu próprio bolso e dando como garantia seus bens pessoais — para a realização das atividades da “Semana”. Era filho do francês Alexandre Honoré Marie Thiollier e de Fortunata de Sousa e Castro Thiollier, irmã da Baronesa de Itapetininga e Baronesa de Tatuí, proprietária de todo o vale do Anhangabaú. A família morava numa luxuosa casa na Avenida Paulista, número 1.853, esquina com a Alameda Ministro Rocha Azevedo. Durante anos, essa casa abrigou as reuniões da Academia Paulista de Letras, da qual René Thiollier foi aclamado secretário-geral perpétuo. Pouco lembrado e quase sempre esquecido quando o assunto é a Semana de 1922, Thiollier foi também cronista e colunista social, escrevendo para publicações, como “Diário Popular”, “Jornal do Commercio”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “Revista do Brasil”. Publicou livros de contos (“Senhor Dom Torres” e “A Louca do Juqueri”), estudos histórico-biográficos (“Um Grande Chefe Abolicionista: Antônio Bento”, “A República Rio-Grandense” e a “Guerra Paulista de 1932”), crônicas e ensaios (“O Homem da Galeria”, “Episódios de Minha Vida” e “A Semana de Arte Moderna”). Foi eleito para a Academia Paulista de Letras em 1934 e lá criou a Revista, que dirigiu por 15 anos até 1952, quando se afastou para sempre dessa Academia. Sobre a obra literária de René Thiollier — que acabou não “vingando” —, questiona-se a qualidade da escrita e o descompasso com as ideias modernistas. René Thiollier foi um “mecenas”, e sua ajuda e colaboração foram fundamentais para a realização, com êxito, da Semana de Arte Moderna de 1922. Em 18 de abril de 2008, por meio do Decreto nº 49.418, do prefeito Gilberto Kassab, a Prefeitura de São Paulo criou o parque que recebeu o nome de “Prefeito Mário Covas”. Essa decisão recebeu críticas da família Thiollier e de outros paulistanos, que gostariam de homenagear o antigo proprietário do local, o escritor e advogado René Thiollier. Seu pai, Alexandre Honoré — que foi proprietário da primeira livraria de São Paulo, a “Casa Garroux” — construiu a mansão da Avenida Paulista em homenagem à esposa, Fortunata. Em 1909, Alexandre Honoré viajou para a Europa para tratamento da saúde e resolveu alugar o casarão para a família de Burle Marx. Na época, o casal esperava o quarto filho, que nasceu na mansão da Villa Fortunata e viria a ser Roberto Burle Marx, o paisagista mais reconhecido e celebrado do Brasil. René Thiollier — o mecenas — morreu no ano de 1968, aos 86 anos de idade.
RICARDO RAMOS - GOSTAVA DELE AOS TRANCOS E BARRANCOS! / JOÃO SCORTECCI
Conheci o jornalista e escritor Ricardo Ramos (Ricardo de Medeiros Ramos, 1929-1992), em 1978, numa quarta-feira, na sede da UBE - União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de Maio, 250, no centro da cidade de São Paulo, entre as praças da República e da Sé. Chegávamos cedo, aos poucos, por volta das 17 horas. A sede da entidade ficava no penúltimo andar do prédio, no 13º piso, num imenso salão de 459 m², pertencente ao INSS. No espaço, havia: logo na entrada, à direita, uma sala de diretoria, com uma mesa de reunião, em que cabiam – no aperto – 16 pessoas, duas poltronas, estante com livros; uma secretaria conjugada à sala, com duas mesas e alguns arquivos de aço; um salão principal, com sofás, formando três ambientes; à esquerda, um pequeno auditório para 40 lugares; banheiros, no final do salão; e, ocupando todo o espaço do fundo do salão, uma pequena cozinha e o inesquecível “Bar do Franco”, ponto de encontro de intelectuais e artistas, onde bebíamos uísque cowboy e comíamos pastel de queijo. Íamos embora tarde da noite, em pequenos grupos, por questão de segurança ou para jantar fora – e continuar bebendo – na madrugada paulistana. Ricardo Ramos publicou dezenas de livros. Foi publicitário, editor, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e o idealizador do Prêmio Nestlé de Literatura. Ganhou, por três vezes, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com as obras: “Os caminhantes de Santa Luzia” (1960), “Os desertos” (1962) e “Matar um homem” (1971). Era um contador de causos e não perdia uma boa piada, por nada deste mundo. Sempre aprontava! A lista de travessuras é grande! Vez por outra, aos sábados, nos reuníamos na casa do professor e crítico literário Fábio Lucas, na Vila Mariana. Bebíamos, jogávamos conversa fora e depois saíamos para comer feijoada no restaurante “Livorno”, na Rua Vergueiro. No lançamento do seu livro “Desculpe a nossa falha” (1991), fui presenteado com um exemplar. Ricardo Ramos me chamou de lado e disse, apontando para a sua foto na orelha do livro: “Scortecci, gosto muito desta foto. Quero ser lembrado por ela!”. Ricardo Ramos morreu jovem, com 63 anos de idade. Estivemos juntos, pela última vez, numa noite inesquecível, na casa do amigo comum José Carlos Garbuglio, que recepcionava, na época, um casal de professores franceses. Lembro-me dos dois assuntos da noite: Plano Collor, que havia nos deixado na maior pindaíba, e Jacques-Yves Cousteau (1910-1997) e suas viagens de pesquisa, a bordo do poderoso Calypso. “Aqui na minha casa – foi o que Garbuglio nos disse – podemos meter o pau em qualquer desgraçado deste mundo, vivo ou morto, menos no Cousteau!”. Palavras e risos que até hoje ecoam na memória afetiva. Ricardo Ramos já estava doente. Naquela noite, a meia garrafa de uísque que bebeu lhe fez mal. Estranhei. Depois, quando a doença veio, entrou em depressão e se isolou. Calou-se! Nem telefone atendia. Faleceu no dia 20 de março de 1992. Juntei os amigos próximos e imprimimos, na Gráfica Scortecci, um pôster com mensagens e a foto que ele adorava. Em sua homenagem, providenciamos, também, junto à Prefeitura Municipal de São Paulo, a indicação para uma praça com seu nome, nas proximidades da Avenida Sumaré, em São Paulo. O seu velório foi na Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche. Sua morte foi notícia em toda a mídia. No “Jornal Hoje", da Globo, sua última travessura. Alguém duvida? O apresentador deu a notícia do falecimento, leu sua biografia (invejável) e mostrou, erroneamente, não a sua foto de que ele tanto gostava, mas a foto de José Carlos Garbuglio. Este escritor, que assistia ao noticiário da Globo – foi o que me contaram, depois – quase morreu do coração. A foto do post de hoje é a de que Ricardo Ramos gostava e, com ela, imortalizou-se. "Gostava dele aos trancos e barrancos!" foi o que escrevi no pôster, hoje peça integrante da memória de 40 anos da Scortecci.
SABEDORIA CAIPIRA: QUE A VIDA NOS AJUDE COM A PROSA / JOÃO SCORTECCI
O escritor, farmacêutico, político e professor, Euclydes Camargo Madeira (1907-2000), era um contador de “causos”. Conheci-o no início dos anos 1980, quando publiquei três de seus livros: “Tietê - Terra dos apelidos, sua história, sua gente e suas coisas”, “O Professor de Urussunga” e “Na Terra de Cornélio Pires - Sua história, sua gente, seus imigrantes, seus causos e seus apelidos”. Até então desconhecia o espírito - e seus encantos - da sabedoria caipira, que hoje me fascina. Mudamos sempre! Euclydes Madeira morava na cidade de Tietê, interior de São Paulo, e tinha o hábito de madrugar na porta da editora. Começava a falar - contar seus “causos” - e não parava mais. Depois de “matracar” por horas, pedia, gentilmente, desculpas. “Falei muito!”, justificava. No início incomodava e atrapalhava e muito minha agenda. Depois, com o tempo, passei a curtir sua companhia. A dependência veio - acontece - e não mais abria mão de atendê-lo, sempre. Quem o conheceu sabe do que falo: um caipira bom contador de “causos” e mestre na arte da sabedoria popular.
Hoje, lembrei-me do Madeira e de Tietê, quando lia na Web sobre “Soluções práticas para problemas pequenos”, aqueles do dia a dia, simples, que chegam e vão embora, do nada. Na leitura - do quase um manual de autoajuda - alguns questionamentos, iniciais e provocativos: O problema existe? Tem solução? O que precisa ser feito? Vale a pena? Quanto vai custar? Etc. E mais, continuando na leitura: “os marqueteiros são especialistas em usar expressões novas para embalar ideias velhas e teorias antigas”. E mais: “a baixa estima dos brasileiros”, “complexo de cachorro vira-lata” e “mania que temos de valorizar apenas o que vem do exterior” etc. Quando estava me preparando para abandonar o manual “Soluções práticas para problemas pequenos” e partir para outra leitura provavelmente mais interessante, li, no rodapé da página, uma nota singular, com um provérbio ímpar da sabedoria caipira. Dizia: “Não adianta contar as galinhas que restam do galinheiro enquanto a raposa ainda estiver nas cercanias!” Feito isso - num lampejo de quase saudade - o mestre caipira Euclydes Madeira, sussurrou: “Que a vida nos ajude com a prosa!”
SABINO, BRAGA, EDITORA DO AUTOR, SABIÁ E O AI-5 / JOÃO SCORTECCI
Eu e o escritor mineiro, Fernando Sabino (1923-2004), um dos responsáveis pela minha vida de livros, nunca conversamos sobre a Editora do Autor (1960 até 1966), fundada por ele em sociedade com Rubem Braga e Walter Acosta, e, muito menos conversamos, sobre a Sabiá Editora (1967 até 1972), fundada com o escritor Rubem Braga (1913-1990). Nossos encontros sempre foram rápidos e pontuais, em aeroportos, feiras e bienais, em rádios e programas de TV. No ano de 1960, o jornalista Sabino, então correspondente do “Jornal do Brasil”, visitou Cuba, na comitiva de Jânio Quadros (1917-1992), eleito Presidente da República. Na volta da viagem, Sabino escreveu "A Revolução dos Jovens Iluminados", texto incluído na obra que inaugurou, oficialmente, a Editora do Autor. Depois foram lançados os livros: "Furacão sobre Cuba", de Jean-Paul Sartre; "Ai de ti, Copacabana", de Rubem Braga; "O Cego de Ipanema", de Paulo Mendes Campos; "Antologia Poética", de Manuel Bandeira; e “O Homem Nu”, de Sabino. Um dos títulos de maior sucesso da casa editorial foi “Para uma menina com uma flor”, de Vinícius de Moraes, em 1966. Clarice Lispector também publicou por essa casa editorial e, posteriormente, pela Sabiá. Coube à editora de Sabino e Braga traduzir e publicar “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014), e “O Apanhador no Campo de Centeio”, do norte-americano J. D. Salinger (1919-2010). A Editora Sabiá publicou importantes autores brasileiros: Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Dante Milano, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Autran Dourado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Murilo Mendes e Stanislaw Ponte Preta. Publicou, também, traduções de obras de outros escritores estrangeiros: Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Manuel Puig, Mario Vargas Llosa. Em 13 de dezembro de 1968, a Editora Sabiá programou uma grande festa no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, com o lançamento de vários livros, entre os quais: "Revolução dentro da Paz", de Dom Hélder Câmara; "Roda Viva", de Chico Buarque de Holanda; "O Cristo do Povo", de Márcio Moreira Alves; e "Nossa luta em Sierra Maestra", de Che Guevara. Nesse mesmo dia, foi editado o Ato Institucional nº 5, que “oficializou” a ditadura militar no Brasil. A festa de lançamento – infelizmente – acabou tendo de ser cancelada. A Sabiá resistiu bravamente até o ano de 1972, quando foi comprada pela Livraria José Olympio Editora, fundada em 1931, e que, desde 2001, pertence ao Grupo Editorial Record. Fernando Sabino foi um "encontro marcado” na minha vida de escritor, editor e menino sonhador. “O encontro marcado” e Eu, fomos publicados no ano da graça de 1956. Destino? Talvez.
SAFO, ODE A AFRODITE E O SALÃO LITERÁRIO DE MADEMOISELLE DE SCUDÉRY / JOÃO SCORTECCI
“Ode a Afrodite” é um poema lírico escrito pela poetisa grega Safo, em que o orador pede a ajuda de Afrodite (deusa do amor, da beleza e da sexualidade na antiga religião grega e responsável pela perpetuação da vida, prazer e alegria) em busca de um jovem amado. Safo é conhecida por sua poesia escrita para ser cantada ao som da lira. O poema “Ode a Afrodite” chegou aos nossos dias preservado pelo historiador e crítico literário grego da Ásia Menor, Dionísio de Halicarnasso (nascido na metade do século I a.C. e falecido possivelmente no fim do século I a.C.), em sua obra “A composição dos nomes”. O poema faz uso da linguagem homérica e alude a episódios da “Ilíada”. Pouco se sabe sobre a vida de Safo. Era filha de uma família rica da aristocracia de Mitilene (capital da ilha grega de Lesbos, situada no mar Egeu). Fontes dizem que ela tinha três irmãos e os nomes de dois deles são mencionados no poema "Os Irmãos", descoberto em 2014. Os versos, divulgados pelo "The Times Literary Supplement", da Inglaterra, expressam o amor de Safo por suas companheiras na ilha grega de Lesbos, que deu origem ao termo "lesbianismo" para designar o amor entre mulheres. O poema foi encontrado após Michael Gronewald e Robert Daniel (pesquisadores da Universidade de Colônia, na Alemanha) identificarem um papiro que envolvia uma múmia do século III a.C. A escritora francesa Madeleine de Scudéry (1607-1701), também conhecida como Mademoiselle de Scudéry – de pseudônimo “Safo”, em homenagem à poetisa grega, e com estilo literário conhecido como “preciosismo” – conduziu, em meados do século XVI, na França, um importante salão literário, conhecido como "sábados de Mademoiselle de Scudéry", nos quais personagens proeminentes da sociedade francesa, tais como, Madame de Lafayette, Conrart, Chapelain, Montausier, François de La Rochefoucauld, Sevigné, Antoine Gombaud e Paul Pellisson, reuniam-se para discutir questões eruditas e filosóficas. Scudéry foi a primeira mulher a obter o prêmio da Academia Francesa. O livro “Mademoiselle de Scudéry - sua vida e sua correspondência” foi publicado somente 172 anos depois de sua morte, no ano de 1873. É de Scudéry a conhecida máxima da razão: “Quando se faz aquilo que se pode, faz-se aquilo que se deve.”
SANTO AMARO, PAULO EIRÓ, HENRIQUE NOVAK E LUANDA - UMA BAILARINA MORTA / JOÃO SCORTECCI
Santo Amaro – hoje distrito da região metropolitana da cidade de São Paulo – foi município independente de 1832 até 1935, quando foi reincorporado à capital paulista (Decreto n. 6.983). Até à promulgação da Lei Provincial n. 33, de 1877, incluía as áreas dos atuais municípios de Itapecerica da Serra, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Taboão da Serra, São Lourenço da Serra e Juquitiba. A expansão de Santo Amaro começou no século XIX, mais precisamente em 1827, quando recebeu o primeiro grupo de imigrantes alemães que desembarcaram da Galera Holandesa "Maria", no porto de Santos; o segundo grupo desses imigrantes ali chegou no século XX, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. A origem da região de Santo Amaro está ligada a uma aldeia indígena à margem do rio Jeribatiba, que, em 1950, foi nomeado oficialmente como “Pinheiros”. Assim como o rio, o bairro teve diferentes nomes: “Virapuera”, “Jeribatiba”, “Ibirapuera”, “Santo Amaro de Virapuera” e finalmente “Santo Amaro”. De origem cristã, esse é o nome de um santo nascido em 513 d.C., na Itália, e identificado como protetor dos carroceiros, carregadores e fabricantes de velas. A região passou a ser conhecida como “Santo Amaro” depois que o Padre José de Anchieta (1534-1597) rezou uma missa com a imagem do santo, à margem do rio Jeribatiba. Santo Amaro é também o local de nascimento do poeta e dramaturgo Paulo Eiró (Paulo Emilio de Salles Chagas Eiró, 1836-1871), que morreu jovem, desiludido e depressivo, com apenas 35 anos de idade. Assim como muitos poetas do século XIX, ele tinha uma musa inspiradora – sua prima, Cherubina Angélica de Salles, um amor escondido e impossível. Quando ela se casou com um desconhecido, o poeta entrou em depressão e adoeceu. Mudou-se, então, para a cidade de São Paulo, para estudar Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, e morar, de favor, no Seminário Episcopal de São Paulo, no bairro da Luz. Enlouquecido – com crises de depressão cada vez mais constantes – e sem vocação religiosa, abandonou os estudos e voltou para Santo Amaro, por recomendação do diretor do Seminário, que também aconselhou seu pai, Francisco Antonio das Chagas – professor conhecido na região como “Chico Doce” – a destruir o caderno de poesias do filho, como solução e cura para sua loucura. Quando do casamento da sua musa, Paulo Eiró escreveu o soneto “Fatalidade”, um de seus poemas mais conhecidos: “Que vista! O sangue se afervora e escalda! / Por que impulso fatal fui hoje à igreja? / Quer meu destino que, ao entrar, lá veja / Noiva gentil de cândida grinalda. / Nos olhos sem iguais, cor de esmeralda,/ Lume de estrelas, plácido, lampeja:/ Seu branco seio de ventura arqueja; / Louros cabelos rolam-lhe da espalda. / Hora de perdição! Sim, adorei-a; / Não tive horror, não tive sequer medo / De cobiçar uma mulher alheia. / Unem as mãos; o órgão reboa ledo; / Em alvas espirais, o incenso ondeia.../ E eu só, longe do altar, choro em segredo!” Com a saúde cada vez mais frágil, foi internado no Hospício dos Alienados, na cidade de São Paulo. Morreu no dia 27 de junho de 1871, vítima de meningite. Em março de 1957, foi inaugurado, em sua homenagem, o Teatro Paulo Eiró, no bairro de Santo Amaro. Foi lá – nos anos 1980 – que escrevi o poema-livro “Luanda - Uma bailarina morta”, ao saber da morte – por atropelamento, numa das esquinas do teatro – de uma jovem bailarina, que carregava nos braços um par de sapatilhas. Mais recentemente, dois ou três meses antes do surto da covid-19, recebi na editora o amigo e jornalista Henrique Novak, com um livro sobre Paulo Eiró: biografia e poesias inéditas – até então “perdidas” – e salvas do fogaréu da ignorância. Quem as guardou? Para publicá-lo, dependia de autorização de alguém, possivelmente um parente do poeta ou algo assim. Aguardo – ansioso – o seu retorno e a obra para publicação, ainda em 2022. Henrique Novak – para quem não o conhece – foi, nos anos 1980, jornalista da seção “Página do Livro”, do jornal “Diário Popular” (SP), a quem nós, aqueles então jovens poetas e escritores, seremos eternamente gratos pelo espaço e apoio incondicional.

02.05.2022
SECA IMPERIAL, CISTERNA DO GONZAGA, GORILA E O ROUBO AO BANCO CENTRAL / JOÃO SCORTECCI
A seca que assolou o Nordeste Brasileiro (1877-1879) matou aproximadamente meio milhão de pessoas. A província do Ceará foi a que mais sofreu com a calamidade. Foram três anos seguidos sem chuvas, sem colheita, sem plantio, com perda de rebanhos e com a fuga das famílias, deixando despovoado o sertão. A tragédia era assunto corrente na Família Paula e afetou – emocionalmente – o meu pai, Luiz Gonzaga, que, desde criança, sofria de Transtorno Obsessivo Compulsivo que o condicionava a lavar as mãos quando tocava em alguma pessoa ou objeto. Isso o apavorou a vida inteira. O medo de ficar sem água era tanto, que edificou, no quintal de casa, no subsolo da Vila Santa Terezinha – conjunto de 4 casas –, uma cisterna para armazenar água da chuva. Junto, instalou um sistema duplo de bombas – compradas na J. G. Vieira. Acompanhei o projeto e a construção da engenhoca, apelidada de “Cisterna do Gonzaga”. O projeto, depois de ajustes técnicos, transformou-se numa imensa piscina subterrânea. “Luiz, um exagero!”, palavras da mamãe Nilce. Ele cobriu a cisterna com lajotas, plantou árvores de sombra, samambaias, bancos de concreto, jardim, canteiro, armadores com redes, construiu uma churrasqueira, copa, uma pista de dança, aparelhagem de som e luz negra. Inaugurou o espaço com uma tremenda festa. Curti a “Cisterna do Gonzaga” até o ano 1972, quando deixei a cidade de Fortaleza e vim morar, definitivamente, na cidade de São Paulo. Naquela casa permaneceram meus pais e minha irmã caçula, Ana Cândida. Meus irmãos mais velhos, Luiz e José – na época – já moravam em São Paulo. Em 1974, já tarde da noite, minha mãe Nilce acordou assustadíssima. “Luiz, tem ladrão no telhado”. Gonzaga pegou o revólver 32, uma relíquia de seis tiros, e partiu em busca do invasor. O barulho vinha do telhado dos fundos, próximo da cobertura da “Cisterna do Gonzaga”. Foi quando telhas começaram a voar, jogadas do alto da casa, na sua direção. Papai Luiz recuou, catou uma lanterna e voltou com a máquina engatilhada. Iluminou na direção do vulto e exclamou, aos gritos: “Santo Deus! Não pode ser! Um gorila? Nilce, tem um gorila no telhado.” “Luiz, deixa de brincadeira e vem dormir.” Ele ligou para os bombeiros. Nada. “Trote é crime!” Foi o que disseram. Desligou. Ligou então para o governador, amigo da família. “Luiz, você bebeu?” Juro que não, insistiu. Mamãe Nilce – até então – calma e rindo muito. A coisa ficou séria, quando o gorila desceu do telhado, mordeu o Júlio, o jardineiro da casa – que tentava espantá-lo com um pau de vassoura – e começou a depenar os galhos das samambaias do jardim. “Luiz, atira no filho de uma puta!” O gorila parecia divertir-se, muito! A polícia chegou cedo – a mando do governador – que acionou a brigada dos bombeiros. “Um gorila!”, exclamou o sargento responsável pela operação de resgate do gorila: “Também pudera: água fresca e selva!” Papai – emputecido – sorriu! A fera foi então capturada e enjaulada – isso depois de três tiros de tranquilizante. O que na época se soube: gorila macho, fugido do zoológico da “Cidade da Criança”, distante alguns quarteirões de casa. A Família Paula deixou o Ceará – definitivamente – no ano de 1982. A Vila Santa Teresinha foi então vendida e, anos depois, demolida. No terreno, hoje, funciona um imenso estacionamento pertencente ao Banco Central do Brasil. A “Cisterna do Gonzaga” ficou mesmo famosa em agosto de 2005. Ladrões cavaram um túnel de 80 metros de comprimento, 70 centímetros de largura e 4 metros de profundidade, saindo da Rua 25 de Março, rua dos fundos da Vila Santa Terezinha, passando pela Av. D. Manoel, até à tubulação das águas pluviais da Av. Heráclito Graça, onde ficava o cofre do banco. A obra tinha energia elétrica, iluminação e ventilação sofisticada. Segundo a Polícia Federal, os ladrões roubaram 164 milhões de reais (69.8 milhões de dólares, na época). A epopeia do roubo e da construção do túnel registrou, na história de roubos, o momento hilário – e hoje documentado, inclusive em filmes – em que os bandidos atingiram o concreto da “Cisterna do Gonzaga” pensando ser a blindagem do cofre. O túnel ficou parcialmente inundado. Perderam três dias para retirar toda a água, tapar o furo e fazer um desvio estratégico, dessa vez, passando por baixo da casa da esquina, da família do médico Biasoli. Tiveram que cavar mais 15 metros até atingirem finalmente a blindagem do cofre, para, com sucesso, realizar um dos maiores roubos da história do Brasil.
SEGURANÇA POR OBSCURANTISMO: IMPOSSÍVEL RASGAR, IMPOSSÍVEL ESQUECER! / JOÃO SCORTECCI
Johannes Trithemius (João Tritêmio) é o pseudônimo do polímata e monge beneditino alemão Johannes Heidenberg (1462-1516), que se tornou ilustre na Renascença Alemã como lexicógrafo, cronista, criptógrafo e ocultista, influente no desenvolvimento do ocultismo moderno. Foi, também, mestre de Henrique Cornélio Agrippa - intelectual polímata e influente escritor do esoterismo da Renascença, 1486-1535 - e de Paracelso, pseudônimo do médico, alquimista, físico, astrólogo e ocultista Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, 1493-1541. “Tritêmio” é uma lusitanização de “Trithemius”, alatinado da sua terra-natal: aldeia alemã de Trittenheim. João Tritêmio criou a esteganografia (do grego "escrita escondida”), técnica que consiste em esconder um arquivo dentro do outro, de forma criptografada (forma de segurança por obscurantismo).
O primeiro uso registrado da palavra data do ano de 1499, no livro de sua autoria intitulado “Steganographia”. Ele ficou conhecido também por suas pesquisas sobre ocultismo e magia. Desenvolveu um método secreto que possibilitaria influenciar e dominar a mente de qualquer pessoa, por mais que ela tentasse resistir ao domínio. O manuscrito com o método secreto foi destruído após a sua morte. É importante frisar a diferença entre criptografia e esteganografia. Enquanto a primeira oculta o significado da mensagem, a segunda oculta a existência da mensagem. A criptografia (em grego: “kryptós”, "escondido", e “gráphein”, "escrita") é uma área da criptologia que estuda técnicas da comunicação segura. Refere-se à construção e análise de protocolos que impedem terceiros de lerem mensagens privadas. Muitos aspectos em segurança da informação, como confidencialidade, integridade de dados e autenticação são centrais para a criptografia moderna: comércio eletrônico, cartões de pagamento baseados em chip, moedas digitais, senhas de computadores e comunicações militares. Nos anos 1960 - menino de tudo - escrevi o meu primeiro “enigma” poético. Um alfabeto amoroso! Cada número secreto uma letra de números. Um infinito amor em papel. Impossível rasgar, impossível esquecer!
SELLERS, CHAPLIN E TODAS AS GARGALHADAS SUBITÂNEAS / JOÃO SCORTECCI
O escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) um dia me disse: “Gosto de quem gosta de mim”. Adotei a sina e, desde então, pratico com naturalidade - e desavisado de tudo - a máxima. Sofre-se menos, ama-se mais! Gosto das pessoas que me fazem rir, desbragadamente. Rir, rir mesmo. Admiro as pessoas engraçadas - por natureza ou espírito - e, por empatia, as almas carrancudas, sisudas, mal-humoradas que, do nada - de pá e lua - ou por um toque qualquer, caem no gargalhar incontrolável. Dois comediantes - ambos ingleses - são referências do riso. Peter Sellers (Richard Henry Sellers, 1925-1980) e Charles Chaplin (Charles Spencer Chaplin, 1889-1977). No filme “Being There” - “Muito Além do Jardim” ou “O Videota”, de 1979, com roteiro de Jerzy Kosinski -, Peter Sellers me faz, até hoje, urinar nas calças, literalmente. Chaplin é o maior de todos e, até hoje, o melhor das risadas inesperadas. Destaque para os filmes: “O Garoto”, “Luzes da Cidade”, “Tempos Modernos”, “Luzes da Ribalta” e, o melhor de todos: “O Grande Ditador”. Hoje, 25 de dezembro, dia de Natal, é aniversário de morte de Chaplin, que faleceu dormindo, aos 88 anos de idade, na Suíça. Em março do ano seguinte, seu cadáver foi roubado da sepultura, com caixão e tudo. Dois meses depois, uma grande operação policial capturou os criminosos e também o caixão, encontrado enterrado num campo em Noville, perto do Lago Léman, na França. Charles Chaplin considerava o cinema uma arte essencialmente pantomímica: teatro gestual que faz o menor uso possível de palavras e o maior uso de gestos, expressões faciais e movimentos corporais, por meio da mímica. É a arte de narrar com o corpo. Minhas gargalhadas - as inesperadas - são assim: imprevistas, repentinas, inopinadas. Trágicas. Essencialmente, poéticas. E subitâneas.
SHAKESPEARE E O POEMA BUMERANGUE / JOÃO SCORTECCI
“Ser ou não ser, eis a questão.” O escritor e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), autor de "Hamlet", "Macbeth", "Romeu e Julieta", também foi poeta e dos bons. Versos enxutos: “Conhecendo melhor meus próprios erros, / A te apoiar te ponho a par da história / De ocultas faltas, onde estou enfermo; / Então, ao me perder, tens toda a glória.” Para quem não tem o hábito de ler poesia uma dica que aprendi com um professor de literatura, já falecido. Ler o poema de trás pra frente! Seguem, então, os versos de Shakespeare, de trás pra frente: “Então, ao me perder, tens toda a glória / De ocultas faltas, onde estou enfermo / A te apoiar te ponho a par da história / Conhecendo melhor meus próprios erros.” Que tal a dica? William Shakespeare morreu no dia do seu aniversário - 23 de abril de 1616 - com 52 anos de idade. “Será mais nobre sofrer na alma - pedradas e flechadas - de um destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias?” Na dúvida: Hamlet e o arremesso de ocultas faltas. Versos para voltar à mão do vate quando não atingir o alvo dos meus próprios erros.
SOPÃO, OSWALD DE ANDRADE E A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 / JOÃO SCORTECCI
Conheci o poeta e pintor modernista, Menotti Del Picchia (1892-1988), no final dos anos 1970. Em 1982, quando inaugurei a Scortecci Editora, na Galeria Pinheiros, na cidade de São Paulo, tive a honra de recebê-lo na loja, numa inesquecível tarde de agosto, acompanhado da escritora e acadêmica, Lygia Fagundes Telles. Entre 1982 e 1983,  frequentei a casa de Menotti, na Avenida Brasil, na capital paulista. Fiquei amigo também de Helena Rudge Miller, sua enteada, filha de Charles Miller - considerado por muitos o pai do futebol no Brasil - e de Antonietta Rudge, que, nos anos 1920, casara-se com Menotti. De 1934 a 1945, esse poeta e pintor modernista colaborou com o meu avô, José Scortecci, na Revista PAN, e, juntos, foram inimigos de um dos maiores salafrários que este país já teve: Assis Chateaubriand. Eu, Menotti e Helena conversávamos sobre tudo: literatura, política e principalmente sobre os “causos” da Semana de Arte Moderna, realizada de 11 a 18 de fevereiro de 1922. O "Príncipe dos Poetas" - titulo que recebeu em 1982 - era “fã” de Juscelino Kubitschek. Na parede da entrada da sua casa, tinha uma foto de JK. Vez por outra, interrompia o papo, apontava para a foto e bradava: “Grande homem!”. Na literatura, o assunto predileto eram as doideiras do Oswald de Andrade. Segundo Menotti, o vate antropofágico era possuído por profunda e insaciável fome. Reuniam-se - costumeiramente - nos fins de semana. Quando Oswald chegava à  casa de Menotti, abria geladeiras, armários, o saco de pão, tudo que cheirasse comida. O seu apetite era incontrolável! Helena, que participava do nosso papo, balançava a cabeça rindo, confirmando a prosa. Para fugir dos ataques de Oswald, por sugestão de alguém, criaram, então, o famoso “sopão literário”, com as sobras da semana. Não se perdia nada! Menotti - de quem ganhei algumas gravuras que guardo no meu acervo - pintou um retrato de Oswald de Andrade, com babador, “antropofagando” o tal “sopão literário”. O quadro a óleo - eu o vi - ficava na parede da cozinha da casa do "Príncipe dos Poetas", como prova do crime modernista. Não sei do seu paradeiro, infelizmente. Nos anos 1990, tornei-me amigo do escritor e cineasta, Rudá de Andrade (Rudá Poronominare Galvão de Andrade, 1930-2009), filho de Oswald e Pagu (Patrícia Galvão). Contei-lhe a história e aguardei sua reação. Rudá me olhou - pareceu-me surpreso - e depois caiu no riso solto, vampiresco. Seus olhos brilharam. Nada disse. Riu muito. E a amizade continuou até a sua morte. Hoje, dia 11 de janeiro de 2022 - já nos aproximando das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna -, o antropofágico Oswald de Andrade estaria completando 132 anos de idade.
SUASSUNA, JOSÉ FERREIRA, KARL MARX E O PERFIL IDEOLÓGICO DA ADOÇÃO / JOÃO SCORTECCI
Ariano Suassuna, Eu e mais alguns poucos, gostamos – desbragadamente – dos loucos, dos doidos de pedra. Suassuna declarou: “Eu tenho muito interesse por doido, pois eles veem as coisas de um ponto de vista original. E isso é uma característica do escritor também, o escritor verdadeiro não vai atrás do lugar comum, ele procura o que há de verdade por trás da aparência. O doido é danado para revelar isso! Eu gosto muito de história de doido. Não sei se é por identificação. Mas eu gosto muito. Eu tenho um primo, Saul. Uma vez ele disse para mim: Ariano, na família da gente quem não é doido, junta pedra pra jogar no povo.” Hoje conheci o simpático Karl Marx, um filhote de cão vira-lata, do José Ferreira, pedinte que trabalha no farol da Avenida Pedroso de Moraes, no bairro Pinheiros, na cidade de São Paulo. Ferreira – vez por outra – ganha o doce da minha sobremesa e mais um agrado monetário de R$ 2,00 ou R$ 5,00 reais, dependendo do dia. Faz parte! Quando estou atravessando a rua – farol aberto ou não, isso pouco importa –, Ferreira pula na frente dos carros, abre os braços e pede passagem para o seu amigo João. José Ferreira – trinta e poucos anos - tem barraca, fogareiro, panela, faca de corte, pratos e talheres. Tudo desarrumado e espalhado na calçada. Ano passado, José Ferreira foi atropelado. Hoje anda com dificuldade e puxa da perna direita. Sempre que ele me vê, logo convida: “Sr. João, quer almoçar comigo?” “Não, obrigado”, respondo. Curioso que sou, indago: “O que tem de bom hoje?” Ferreira, então, lista o cardápio, nos detalhes de um Chefe. Perde tempo no tempero e reclama – sempre – do carvão que ganha de uma padaria do bairro. Macarrão, arroz e uma mistura. “E a arrecadação do ponto: como anda?” “Ruim. Já foi melhor. O farol anda atrapalhando o negócio. Antes demorava mais e dava tempo para cobrir duas fileiras de quatro carros. Agora, não”. “Compreendo. E o Karl Marx?” Apontei para o cão que se coçava feito maluco. “Foi presente do dono de uma cadela do Largo da Batata, que pariu um macho e duas fêmeas.” Pensei em pegar o Karl Marx no colo e lhe fazer um agrado. Adoro vira-latas! Desisti. Parecia sujo e “tomado” por pulgas. “Ferreira, uma pergunta: por que o nome Karl Marx?” José Ferreira apontou o dedo na direção do cão e me disse: “Olha o pelo dele, farto, branco e preto, lembra a barba profética do Karl Marx?” “Lembra sim”, respondi. E sugeri: “Você deveria dar um banho nele. O coitado está se coçando todo.” “Melhor não”, justificou-se. “Não?” “Não. Depois vão dizer que o Marx é cachorro de rico – egoísta – e isso não combina com o seu semblante ideológico.” “Ferreira, que doideira! Explica, por favor.” “Comunista não gosta muito de tomar banho.” “Ferreira, quem disse isso? Marx foi um filósofo e economista socialista, que escreveu ‘O Capital’ – provoquei – então: comunista toma banho, não fede a bode, mas dizem que gosta de comer criancinha!” Joguei o anzol. Ferreira olhou-me nos olhos, piscou para o Karl Marx e mudou de papo. “Ração é muito cara?” “Muito”, respondi. “Então eu proponho socializarmos o Max.” Não entendi. Fui embora pensando na oferta generosa do doido de pedra do José Ferreira. Que Suassuna não me escute! Confesso: sempre quis ter um vira-lata de rua, e Karl Marx, no melhor do ponto de vista original, seria uma nobre adoção ideológica. Segunda-feira, no mais tardar na terça – eu prometo – vou socializar o vira-lata do Karl Marx. Na dúvida: comprar-lhe ração e vê-lo crescer - livre e solto - na Paulicéia Desvairada.
SUSTENTABILIDADE E GERVÁSIO, O ESG DO PASTEL / JOÃO SCORTECCI
“Eu sou um ESG do pastel!”. Foi o que me confidenciou Gervásio, alagoano, da cidade de Arapiraca, quarenta e poucos anos, quinze deles morando na capital do estado de São Paulo, um microempreendedor individual, dono de uma barraca de “pastéis”, da feira livre, da Rua Antonio Bicudo, no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Conheci Gervásio numa quinta-feira — dia de comer pastel de feira — depois de uma noite terrível e infeliz do time do Palmeiras, quando foi eliminado da Copa do Brasil pelo time do ASA, de Arapiraca, dentro do Parque Antarctica, na capital paulista. Foi em 2002. Uma tragédia! Pedi pastel de queijo — um dos meus preferidos — e uma garapa de cana-de-açúcar, da barraca ao lado. Gervásio — o moço de Arapiraca — entregou-me o pastel, esperou que eu o mordesse e babasse depois de queimar a língua, para, então, perguntar, do nada: “O Senhor ‘mexe’ com livros, né?”. “Sim.” Até hoje me espanto, quando me perguntam sempre a mesma coisa e o que faço na vida. “Eu sou um livro!”, respondo sempre. A máxima — uma salvaguarda — destrava a língua do tagarela e costuma “quebrar o gelo”, na hora aguda. O que eu faço na vida — não sei a razão — costuma me incomodar muito. Não gosto de surpresas! Boas ou ruins. Não sou desconfiado; sou confiado! Gervásio, então — depois das apresentações — iniciou o papo. Ele, em pé, trabalhando; e eu, esfomeado, esperando a minha vez, sentado num banquinho molenga, à sombra da barraca de “pastéis”. "Estou lendo um livro sobre ESG.”. “Interessante”, respondi. “Estou gostando. Muito!”, completou. “Você sabe o que significa ESG?”. Joguei a vara de pesca, com isca, e esperei a fisgada. Gervásio coçou a cabeça, tirou da frigideira o pastel da vez, posicionou-se e, então, afirmou: “Sei, sim”. Gostei dele. Parecia confiante. Soltou a língua: “ESG, sigla que quer dizer ‘Environmental, Social and Corporate Governance’. Traduzindo: ‘Ambiente, Social e Governança Empresarial’.”. “Esse cara é bom!”, pensei. Ele respirou fundo, olhou-me nos olhos e continuou falando, aparentemente determinado e confiante. “É o espírito, o DNA de uma empresa dita responsável, sadia, comprometida, conectada com o mundo sustentável. São critérios de conduta — continuou — que devem ser adotados pelas empresas, para atraírem investidores socialmente conscientes.”. “Parabéns! Estou surpreso! Onde você aprendeu tudo isso?”, indaguei, curioso. “Lendo no livro ‘Você sabe o que é ESG?’”. “Gervásio, diga-me, por favor: você estudou até que ano da escola?”. “Terminei o ginásio. Perdi meu pai quando criança. E lá em casa as coisas ficaram ruins de tudo.”. “Lamento”, comentei, com respeito. "Leio de tudo. Até o que não entendo! No livro — continuou ele, já questionando e abrindo de vez o lacre — falam das empresas grandes, das megas, ricas e poderosas. As que faturam em dólares! E nós, os MEIs do Real? O que será de nós? Falam em selos, licenças ambientais, certificados... Estou lendo — continuou — o capítulo que aponta os indicadores essenciais para saber se uma empresa é saudável, lucrativa e consciente a nível social e ambiental.”. “E quais são os indicadores?”, provoquei, dando corda e aprendendo — muito — com o danado do alagoano pasteleiro. Gostei dele. Agora, duplamente. "Tem os ambientais, que mostram o comportamento da empresa em relação aos problemas ambientais, tipo mudanças climáticas, esgotamento de recursos, tratamento de resíduos, poluição etc.; os sociais, que são o modo como uma empresa lida e se relaciona com os seus colaboradores, fornecedores e clientes; e tem também o da governança, sobre as políticas empresariais e de governança aplicadas, tipo estratégia tributária, lideranças, direitos e deveres de sócios e acionistas e, também, aspectos estruturais de sua imagem corporativa.”. Gervásio — o Professor de Arapiraca — não parava nunca de falar. Parecia uma metralhadora cuspindo fogo. Pedi, então, outro pastel de queijo. Ele não me escutou, creio. Deixei prá lá. Desisti. “E nós, os MEIs do Real?”, cobrou-me, novamente. Fui embora daquela degustação de ESG com pastel, pensando numa resposta justa e plausível para dar ao novo amigo, torcedor do ASA de Arapiraca. Uma resposta realizável, economicamente viável, participativa, integrada, para — quem sabe? — ajudá-lo com os desafios e as necessidades de “fomentar” no seu negócio um ato de "sustentabilidade" e, possivelmente, para também ser útil a milhares de empresas de médio e pequeno porte, mundo afora. Pergunto-me: o que será delas? Empresas inimigas? E seus trabalhadores e colaboradores? Marginais? Escórias? No Brasil, a utilização de critérios ESG está ainda no início, mas as empresas — todas, sem exceção — grandes ou pequenas estão preocupadas e comprometidas com a nova ordem mundial: “Sobreviver!”. O mercado global cobra e exige da sociedade uma “agenda sustentável”. Como “fazê-la florescer?". Como “viabilizá-la, com fraternidade e justiça social”? Representando a Abigraf - Associação Brasileira da Indústria Gráfica, junto à FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, tenho participado de grupos de trabalho que estudam propostas para a “sustentabilidade” inteligente, racional e possível. Tenho aprendido muito. Não tanto, talvez, como dialogando com o Professor Gervásio, o pasteleiro de Arapiraca. Marcamos para a próxima quinta-feira, às 10h, outro papo-cabeça, na barraca de “pastéis”. Pretendo — desta vez — degustar ESG com um pastel light — de alho-poró, possivelmente — e, também, substituir a garapa por um doce copo de água de coco. Algo assim. Não gosto de surpresas, já disse isso. Antes de rabiscar minha possível “agenda sustentável”, consultei — desavisado de tudo — o significado de “Gervásio” no Dicionário Informal da Web. E pasmem com o que eu descobri! Gervásio significa “lança pontuda”. Indica uma pessoa com uma aguda percepção dos problemas sociais e vontade de resolvê-los, plenamente. Assim sendo!
T. S. ELIOT E O LAGO LÉMAN / JOÃO SCORTECCI
O poeta, tradutor e jornalista mineiro, Paulo Mendes Campos (1922-1991), traduziu Júlio Verne, Oscar Wilde, Jane Austen, William Shakespeare, Charles Dickens, Gustave Flaubert, Pablo Neruda, Emily Dickinson, James Joyce, Jorge Luis Borges, T. S. Eliot, entre outros. Em 1956, para a Editora Civilização Brasileira, traduziu um dos poemas mais influentes do século XX: “The waste land” (“A terra inútil”), de 1922, do poeta e dramaturgo norte-americano T. S. Eliot (Thomas Stearns Eliot, 1888-1965). Eliot foi professor, bancário no Lloyds Banking Group e editor na casa publicadora britânica Faber and Faber, uma das maiores do mundo e conhecida principalmente por ter publicado vários livros de poesia. A editora foi fundada em 1926 e, na sua lista de autores premiados, estão 13 ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura e seis ganhadores do Prêmio Man Booker, um dos mais importantes do Reino Unido. Eliot concluiu “The waste land” em Lausanne - cidade suíça, situada às margens do Lago Léman, localizada 62 km a nordeste de Genebra - durante um período de isolamento, para tratamento médico e psicológico, devido a trabalho excessivo e preocupações familiares, que afetavam sua saúde. Escreveu: “O rio não carrega papéis de embrulho, garrafas vazias,/ lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarro/ ou qualquer outro testemunho das noites de verão. As ninfas se foram. / Seus amigos, os ociosos herdeiros dos potentados da cidade,/ também se foram, sem deixar endereço. / Junto às águas do Léman, sentei-me e chorei.” T. S. Eliot - Nobel de Literatura de 1948 - nasceu em Saint Louis, no Missouri, EUA, no dia 26 de setembro de 1888 e faleceu em Londres, Inglaterra, no dia 4 de janeiro de 1965, aos 77 anos de idade.
TALMUDE - UM DOS LIVROS MAIS CENSURADOS DA HISTÓRIA / JOÃO SCORTECCI
Talmude é um dos livros básicos da religião judaica, contém: a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus. Trata-se de coletânea de livros sagrados com registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, à ética, aos costumes e à história do judaísmo. O Talmude tem dois componentes: a Mishná - compêndio escrito da Lei Oral judaica - e o Guemará - discussão da Mishná e dos escritos tanaíticos. O Talmude - editado em aramaico - originou-se da necessidade de complementar a Torá (livro sagrado do judaísmo - composto pelos primeiros cinco livros da Bíblia hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio).
O Talmude foi um dos livros mais perseguidos da história. Em 1239, Gregório IX (Papa de 1227 a 1241) nomeou censores e mandou-os procurar exemplares do Talmude. Quando soube que foram armazenados, fez queimá-los. Em Paris, no ano de 1244, dezenas de sacerdotes eliminaram centenas de exemplares do Talmude. Luís IX, Filipe III e Filipe IV, na França, entre 1290 e 1299, fizeram o mesmo: converteram a obra em cinzas. Em 1319, em Perpignan e Toulouse, a Igreja queimou dezenas de exemplares. Em 1322, o papa João XXII ordenou fazer o mesmo.
Em 1490, em Salamanca, um auto de fé incluiu o Talmude e outras dezenas de livros hebraicos no fogaréu.  Em abril de 1559, em Cremona, foram queimados 12 mil livros judaicos, dentro de uma oficina tipográfica de livros. Em 1553, um grupo de sacerdotes em Roma, Itália, recolheu exemplares do Talmude e os queimou no Campo di Fiore (Campo de Flores). É bem conhecida também uma das queimas do Talmude, na Polônia, em 1757. Os “kamenets-podolski” pegaram mil exemplares dessa obra e as destruíram publicamente. E, no século passado, os nazistas não perderam a oportunidade de aniquilar qualquer exemplar do Talmude existente na Alemanha. O Talmude é considerado um dos livros mais censurados da história.
TELÊ SANTANA, CAFU E AS BOLAS CRUZADAS NA ÁREA / JOÃO SCORTECCI
Estive com o jogador e técnico de futebol Telê Santana (Telê Santana da Silva, 1931-2006) uma única vez. Não o vi jogar. Uma pena! Parou no final dos anos 1960. Dizem que era um ponta-direita habilidoso, jogava futebol moderno, coletivo e solidário. Nos anos 1980, fui a pé – morava perto – buscar meu filho Alexandre no “Colégio Caminhando”, na Rua Conselheiro Brotero, no bairro Higienópolis, quando dei de cara com o Mestre Telê, também indo buscar provavelmente uma criança na escola. Não é fácil conversar com mineiros. São desconfiados e manhosos! Levou tempo para ele “soltar a língua”. Quando disse que era escritor e editor de livros, tudo ficou mais fácil. Engatamos um papo sobre futebol e foi difícil irmos embora. No início do mês de abril de 2022 estive na feira gráfica “Expoprint”, no pavilhão do Expo Center Norte, na cidade de São Paulo, e tive oportunidade de encontrar o jogador de futebol Cafu (Marcos Evangelista de Morais), lateral-direito campeão do mundo. Com direito a foto e autógrafo! Quando o avistei, de pronto me lembrei do Mestre Telê e da célebre “dura” que deu nesse jogador, durante um treino do São Paulo Futebol Clube: “Vai, Cafu, acerta um cruzamento. Você está envergonhando a camisa do São Paulo.” Revoltado com a crítica, Cafu respondeu de pronto: “Quero ver o senhor acertar!” Em silêncio – como um bom mineiro – Telê Santana pegou a bola e cruzou. Acertou. Cruzou de novo. Acertou de novo. Telê nunca foi um treinador tático. Era teimoso e turrão. Casca de ferida! Seu grande mérito era corrigir defeitos básicos de seus atletas. Cafu – um dos maiores laterais-direitos que vi jogar – aproveitou a lição. Treinava, diariamente, cerca de 150 cruzamentos, e construiu uma carreira de sucesso. Jogou em quatro Copas do Mundo. E hoje, com Carlos Alberto Torres, Leandro e Daniel Alves, figura na galeria dos maiores laterais brasileiros de todos os tempos. Telê Santana, como técnico de futebol, brilhou no São Paulo Futebol Clube – onde ganhou tudo – e na seleção brasileira de futebol, com a inesquecível seleção de 1982, que encantou o mundo. Hoje, 21 de abril, é aniversário de seu falecimento, em 2006, aos 72 anos de idade. Coincidência ou não, nesta data, também morreram os ilustres mineiros Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier) e Tancredo Neves. Todos "bolas de ouro" cruzadas na área!
TÊTE-BÊCHE, OLHO-DE-BOI E O PAPA PIO XII / JOÃO SCORTECCI
Sou colecionador de selos. Faço isso desde o ano de 1969. Tenho alguns selos raros e sete “Olhos-de-boi”, do Brasil Império, valiosíssimos. Foi D. Pedro II quem trouxe a ideia para o Brasil. Com a emissão do primeiro selo brasileiro em 1º de agosto de 1843, colocou o País em segundo lugar na criação do selo postal. No mundo, o primeiro selo postal foi o “Penny Black”, criado na Inglaterra, em 1840. Minha coleção ainda não tem um herdeiro. Talvez um neto, um sobrinho ou – quem sabe? – um ET, com língua grande e goma nos olhos, acolha e dê continuidade à coleção. Tenho fé. Selos contam histórias, comemoram datas, registram fatos e acontecimentos importantes da história. Nos dias 20 e 21 de outubro de 1934, o governo brasileiro recebeu a visita do Cardeal Eugenio Pacelli (Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, 1876-1958), que, cinco anos depois, assumiria o pontificado, como Papa Pio XII. O então Cardeal foi hospedado no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro – na época, capital da República – e visitou o monumento do Cristo Redentor. Para comemorar a data – depois do fracasso da Casa da Moeda por não ter conseguido apresentar um selo comemorativo que agradasse aos Correios – a missão foi confiada à Tipografia Alexandre Ribeiro & Cia, que os imprimiu a “toque de caixa”. Esses selos – cobiçados pelos filatelistas brasileiros – ficaram conhecidos como os "selos Pacelli", emitidos nos valores de 300 Réis e de 700 Réis, impressos em folhas de papel “médio”, com a filigrana vertical “Cruzeiro do Sul” referenciada no catálogo filatélico RHM com a letra “k”, com o denteado 11, contendo 32 exemplares cada. Na impressão dos selos, foram utilizadas duas chapas distintas. Uma com um bloco de quatro selos, e outra com um bloco de oito selos. A impressão foi feita em duas etapas. Após se completar a impressão das primeiras duas linhas, a folha era virada para impressão das duas linhas faltantes. Assim, a folha subia para a máquina oito vezes, quando usada a primeira chapa (bloco de 4), e quatro vezes, quando usada a segunda chapa (bloco de 8). Devido a esse processo, os selos das duas linhas centrais foram impressos em "tête-bêche" (par de carimbos em que um está de cabeça para baixo em relação ao outro). Tenho na minha coleção dois exemplares de cada, em ótimo estado. Eugenio Pacelli tornou-se Papa da Igreja Católica e Chefe de Estado da Cidade Estado do Vaticano, em 2 de março de 1939, seis meses antes do início da Segunda Guerra Mundial. Em 20 de outubro de 1939, publicou a sua primeira Encíclica, a “Summi Pontificatus”, em que exprime a angústia pelo sofrimento que a guerra impõe a indivíduos, famílias e toda a sociedade. Na Encíclica, afirma que a "hora das trevas" caiu sobre a humanidade e convida todos a orar "para que a tempestade se acalme e sejam banidos os espíritos de discórdia que levaram a tão sangrento conflito." Na noite de 25 de dezembro de 1942, na sua famosa alocução de Natal, condenou a perseguição nazista aos judeus. Em 10 de setembro de 1943, os nazistas invadiram Roma. O Papa Pio XII abriu a Santa Sé aos refugiados, estimando-se que tenha concedido cidadania do Vaticano a cerca de 1,5 milhão de pessoas, durante a ocupação alemã. Hitler ameaçou sequestrar o Sumo Pontífice. O general Karl Otto Wolff, das SS, recebeu ordem para ocupar o mais rapidamente possível o Vaticano, garantir a segurança dos arquivos e dos tesouros artísticos e "transferir" o Papa com toda a Cúria, para que não caíssem nas mãos dos Aliados e exercessem influência política. Na sua radiomensagem, “Ecco alfine”, de 9 de maio de 1945, Pio XII reafirma o que tanto já vinha repetindo: "Só a paz e a segurança imposta sob justiça podem garantir ao povo um ordenamento público conforme as exigências fundamentais da consciência humana e cristã". Muitas histórias “não confirmadas” giram em torno do seu papado, algumas acusando-o de ter colaborado com Hitler e o nazismo. Pio XII morreu aos 82 anos de idade, no dia 9 de outubro de 1958, quando eu tinha pouco mais de 2 anos de idade. Seis décadas se passaram desde seu falecimento, mas suas palavras de condenação à guerra e de reafirmação da paz continuam atualíssimas. Infelizmente.

28.02.2022
THIAGO DE MELLO, O POETA FEITO DE CANTO E PÃO / JOÃO SCORTECCI
“Moço, onde fica Barreirinha?”. Logo ali, perto de tudo e longe de nada, na direção de Manaus, na leveza das águas do Rio Andirá e — quem a vida nos dirá —, morada do poeta, Thiago de Mello (30.03.1926 - 14.01.2022). Conheci-o nos anos 1980. Inquieto e doce. Sorriso leve, feito de pássaros e sereno: necessariamente ele. Amoroso! Foi o que me disseram de sua intimidade. Durante a ditadura militar no Brasil, Thiago de Mello se exilou na Argentina, no Chile, em Portugal e na Alemanha. No Chile, rabiscou versos com Neruda, que escreveu um belo depoimento para o livro de Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto”, de 1965. Quando voltou ao País, foi preso. E voltou por quê? Para lutar e lutar. Dizia isso, sempre, como em seu poema “mais querido”, “Madrugada camponesa”, em versos de fecundar a terra: “(...) faz escuro ainda no chão,/ mas é preciso plantar/ (...) Não vale mais a canção/ feita de medo e arremedo/ para enganar a solidão.” O poeta voltou - para perto de tudo - e lutou. Sobre a natureza humana, escreveu: “Agora vale a verdade/ cantada simples e sempre,/ agora vale a alegria/ que se constrói dia a dia/ feita de canto e de pão.” Thiago de Mello é considerado um dos poetas mais influentes e respeitados no Brasil, reconhecido como um ícone da literatura amazonense e brasileira. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Um de seus poemas mais conhecido é “Os Estatutos do Homem - Ato Institucional Permanente”, escrito no Chile, em 1964, no qual “clama” a atenção para os valores simples da natureza humana. “Permanente?”. Sim, permanente e único. No Artigo I, sanciona: “Fica decretado que agora vale a verdade./que agora vale a vida/e que de mãos dadas/ trabalharemos todos pela vida verdadeira (...)”. “Os Estatutos do Homem”, composto por 13 Artigos e um “Artigo final”, é de uma beleza ímpar e universal. Um hino à liberdade, forjado nos princípios da natureza. O “Artigo final” consagra e celebra o espírito de paz pelo homem e pela vida. O poeta determina: “Fica proibido o uso da palavra liberdade,/ a qual será suprimida dos dicionários/ e do pântano enganoso das bocas./A partir deste instante/ a liberdade será algo vivo e transparente/ como um fogo ou um rio,/ e a sua morada será sempre/o coração do homem.”. Conta o poeta que, quando mostrou esse poema para Neruda, ele se emocionou e disse: “Quero vê-lo traduzido para o espanhol.”. Essa é a tradução mais conhecida do poema, em espanhol. Thiago, o poeta, feito de canto e pão. “Faz escuro, mas eu canto”: assim é a vida verdadeira.
TODO MUNDO NO MARANHÃO É RIBAMAR / JOÃO SCORTECCI
O poeta e memorialista Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira, 1930-2016) nasceu no dia 10 de setembro. Hoje estaria completando 91 anos de idade. Sobre o seu pseudônimo, declarou o seguinte: "Gullar é um dos sobrenomes de minha mãe, o nome dela é Alzira Ribeiro Goulart, e Ferreira é o sobrenome da família, eu então me chamo José Ribamar Ferreira; mas como todo mundo no Maranhão é Ribamar, eu decidi mudar meu nome e fiz isso, usei o Ferreira que é do meu pai e o Gullar que é de minha mãe, só que eu mudei a grafia porque o Gullar de minha mãe é o Goulart francês; é um nome inventado, como a vida é inventada eu inventei o meu nome".
Conheci-o no lançamento do seu livro “Poema Sujo”, no Rio de Janeiro, e o reencontrei - dois ou três anos depois - num bate-papo, durante a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Simples e reservado. Educadíssimo! Na época do nosso segundo encontro tive vontade de perguntar-lhe sobre o outro José Ribamar, também maranhense, autor de “Marimbondos de fogo”. Não tive coragem. Algum motivo? Desconheço. E mais: não imagino qual teria sido a sua resposta.
Quando Ferreira Gullar faleceu, em 2016, Sarney, o outro José Ribamar, declarou: “O Brasil perde seu maior poeta”. Na minha lista estaria entre os cinco maiores, na companhia de Drummond, Mario Quintana, Manuel Bandeira e Cecília Meireles.

10.09.2021
TUDO VALE A PENA, SE A ALMA NÃO É PEQUENA! / JOÃO SCORTECCI
“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!” O poeta português Fernando Pessoa (Fernando Antônio Nogueira Pessoa, 1888-1935) foi educado na África do Sul, numa escola católica irlandesa. Dominava o idioma inglês e foi nele que escreveu o seu primeiro poema. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa e apenas uma em língua portuguesa: “Mensagem” (44 poemas, em 1934). Como poeta, escreveu sob diversas personalidades (heterônimos): Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros. Traduziu do inglês para o português Shakespeare e Edgar Allan Poe (o imortal poema: “O Corvo”). Um de seus mais famosos poemas é “Mar Português”: “Ó mar salgado, quanto do teu sal, / São lágrimas de Portugal, / Por te cruzarmos, quantas mães choraram,/ Quantos filhos em vão rezaram!/ Quantas noivas ficaram por casar, /Para que fosses nosso, ó mar! / Valeu a pena? Tudo vale a pena, / Se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador, / Tem que passar além da dor. / Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.” E "Viajar! Perder Países" é um dos seus poemas mais belos. Quem o lê viaja: o resto é só terra e céu. 

VIAJAR! PERDER PAÍSES! 

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
UTOPIAS DO DIA 22, DISTOPIAS DE NOVEMBRO E BALAS DE LSD DO ANO DE 1963 / JOÃO SCORTECCI
Das utopias. Kennedy (John Fitzgerald Kennedy, 1917-1963) foi assassinado em Dallas, com um tiro na garganta e outro na cabeça e Huxley (Aldous Leonard Huxley, 1894-1963), em Los Angeles, com uma injeção “amiga” de LSD. Huxley foi editor da revista Oxford Poetry e publicou contos, poesias e literatura de viagem. Foi indicado sete vezes para o Prêmio Nobel de Literatura, mas nunca ganhou a merecida e cobiçada estatueta. Foi um desbravador da literatura e da consciência humana. Autor de clássicos imortais como “Admirável Mundo Novo” e “As Portas da Percepção”, explorou o uso de alucinógenos como a mescalina, o LSD e outros psicodélicos a fim de expandir a consciência e descobrir novos horizontes do pensamento humano. A experiência com drogas psicodélicas foi tão importante para Huxley, que o autor planejou deixar a vida em uma viagem de LSD - e, com a ajuda de sua mulher, assim o fez. O conheci nos anos 1980, quando li a sua obra. Na biografia do verso de capa o ano de sua morte: 1963! Na época passou batido e somente hoje registro a distopia: Huxley morreu no mesmo dia que Kennedy! Onde eu estava? Em Fortaleza, no Ceará, na sala da casa da Dona Dóris Holanda. Eu, Alexandre, Guilherme, Raul e Paulinho, amigos de uma vida inteira. Estávamos no chão, colando figurinhas de jogadores de futebol do Santos, de Pelé, do Botafogo, de Garrincha e outros. Quando o plantão do radiojornalismo “O Seu Repórter Esso” - nos alertou da tragédia. Kennedy - 35° presidente dos Estados Unidos - havia sido baleado e morto em um atentado na cidade de Dallas. Eu tinha sete anos de idade e já, desde aquela época - sabia “conjugar” a máxima preferida do meu papai Luiz: “A vida é desleal e desumana.”. Utopias, distopias, balas de LSD, alucinógenos e figurinhas “carimbadas” de um admirável mundo novo.
VAIA TRIBAL E SINGULAR, FAÇA SOL OU CHUVA / JOÃO SCORTECCI
30 de janeiro é o Dia da Vaia no Ceará. Data singular, em que se comemora — com muita vaia — o aniversário de 80 anos da vaia ao astro-rei — o Sol. Isso aconteceu no dia 30 de janeiro de 1942, uma sexta-feira — depois de três dias de chuva —, em plena Praça do Ferreira, no centro da cidade de Fortaleza. Dizem que os vaiadores do Sol esperavam ainda mais chuva, quando — inesperadamente — o astro-rei cuspiu do meio de nuvens escuras um jato de luz, contrariando a todos. Surpresos e inconformados, os poetas da vida aplicaram uma tremenda vaia no danado do rei morto, rei posto. Vaia é coisa séria e merece respeito. O seu significado é messiânico, primitivo e tribal. É o que dizem! Vaia é o fervor do espírito que grita! Lembro-me de ter levado duas delas. Talvez até mais. Não conto aqui as vaias silenciosas e nem as mudas de espírito. Apenas as merecidas! As que mereceram o grito tribal da sorte. A primeira foi no ano de 1970, quando era técnico do time de futebol de salão nas olimpíadas do Colégio Cearense, em Fortaleza. Tirei do jogo um atleta querido da turma e coloquei no seu lugar um “perna de pau”. A outra vaia, já nos anos 2000, foi durante a 16ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, quando tentava organizar a fila de autógrafos no lançamento do livro "Bailarino da Emoção", do poeta e músico Aguiberto Santos, já falecido, na época agente do cantor e compositor, Ney Matogrosso. Foi hilário! Pedi calma e que a multidão fizesse — gentilmente — fila para os autógrafos. Foi um desastre. A danada da vaia veio forte — tribal — e a situação, infelizmente, saiu do controle. Fui obrigado a chamar a segurança do evento e colocar o rabo no meio das pernas. A vaia é incontrolável. Nela, tudo junto e misturado: desagrado, desaprovação e protesto. Vaia é algo absoluto! Vaia é pior que coceira na cabeça ou bocejo coletivo: basta alguém começar e pronto! Pedir calma ou tentar se justificar é o mesmo que assinar sentença de morte. Assim é a vida com suas singularidades de selva. Primitivas, messiânicas e humanas.
VARGAS E A POLÍTICA LINGUÍSTICA – PROIBIDO FALAR ALEMÃO, ITALIANO E JAPONÊS / JOÃO SCORTECCI
Durante a ditadura do Estado Novo (1937 a 1945), o Brasil passou por um processo de supervalorização do nacionalismo, movimento liderado pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas (Getúlio Dornelles Vargas, 1882-1954), como forma de fortalecimento do centralismo de poder político do Estado brasileiro. Nesse processo, “nasceu” a noção varguista de “crime idiomático”, cujos alvos principais foram os idiomas Italiano, Alemão e Japonês. Esse movimento de nacionalização linguística intensificou-se no campo educacional a partir de 1938, por meio de reforma do ensino que obrigou todas as escolas do país a ensinarem o Português como único idioma. As instituições de ensino foram obrigadas a contratar somente professores brasileiros e a adotar e propagar apenas nomes de figuras brasileiras. Foi vetado qualquer curso de língua estrangeira para menores de 14 anos e instituiu-se o ensino de educação moral e cívica. Coube ao Exército brasileiro a “humilhante” obrigação de fiscalizar e punir os infratores com o rigor da lei. Há registros de revolta e indignação na tropa. A censura instituída por Vargas passou a restringir a presença da imprensa estrangeira no país. As editoras e gráficas brasileiras foram proibidas de ter colaboradores estrangeiros em seus quadros e, também, impedidas de publicar material bilíngue, incentivando-se o nacionalismo ufanista. Nomes de ruas, clubes de futebol (Palmeiras, Cruzeiro e outros), lojas, gráficas e jornais (como a Revista PAN, do meu avô materno, José Scortecci) foram pressionados a mudar de nome. (Aqui, um parêntese oportuno: foi o editor José Scortecci, quem, em maio de 1940, publicou “Triunfo”, conto de estreia da escritora de origem ucraniana, Clarice Lispector.) Muitos sofreram perseguição e ameaças. Muitos crimes foram cometidos. Meu avô materno – italiano de Arezzo, Toscana – depois que sua gráfica “Novidades”, que imprimia a Revista PAN, foi alvo de incêndio criminoso, mudou-se para a cidade de Dois Córregos, interior de São Paulo, e adotou o codinome de “Nem”. A perseguição política – no início e discretamente – focou os judeus, mas, a partir de 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, italianos, alemães e japoneses passaram a ser o principal alvo do Estado brasileiro. Os estrangeiros tiveram seus direitos restringidos, passando a necessitar de uma série de documentos para transitar pelo país. Jornais, revistas e livros, que mantinham a memória da imigração, foram apreendidos e fechados. Há registros de gráficas e editoras que foram fechadas ou obrigadas a ser vendidas. Poucas resistiram. O Estado brasileiro passou a incentivar a violência contra teuto-brasileiros e imigrantes da Alemanha, Itália e Japão. Igrejas estrangeiras foram atacadas e incendiadas. Grupos tradicionais italianos foram obrigados a trocar de identidades, e bairros de imigrantes japoneses tiveram sua memória apagada com a destruição de livros, arquivos e fotos. Bibliotecas inteiras – nos estados de São Paulo e Paraná – foram “enterradas”, e muitos de seus acervos acabaram, infelizmente, perdidos. Em 1942, um submarino alemão realizou seis ataques a navios brasileiros, matando 877 brasileiros, entre civis e militares. A comoção nacional gerada pela agressão abalou a neutralidade do governo de Getúlio Vargas – nitidamente simpatizante do nazismo de Hitler – e, em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra contra a Alemanha e a Itália.

01.03.2022
VERNE, HETZEL E NADAR – PREDIÇÕES DO GÊNERO DE FICÇÃO CIENTÍFICA / JOÃO SCORTECCI
O escritor francês Júlio Verne (Jules Gabriel Verne, 1828-1905) é considerado por críticos literários o inventor do gênero de ficção científica, tendo feito, em seus livros, predições – ato de afirmar com convicção aquilo que poderá acontecer num momento futuro – sobre o aparecimento de novos avanços científicos, como os submarinos, as máquinas voadoras e a viagem à Lua. Quando criança, li seus três principais livros: “Viagem ao Centro da Terra” (1864), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870) e “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” (1873). A carreira literária de Júlio Verne começou a se destacar quando se associou a Pierre-Jules Hetzel (1814-1886), editor experiente, que publicava livros de grandes escritores da época, como Alfred de Bréhat, Victor Hugo, George Sand e Erckmann-Chatrian. Hetzel publicou a primeira grande novela de sucesso de Júlio Verne, o relato de viagem à África em balão, intitulado “Cinco semanas em um balão” (1862). A história contém tantos detalhes, como os de coordenadas geográficas, que os leitores se perguntavam se era ficção ou relato verídico. Na verdade, Júlio Verne nunca havia estado em um balão ou viajado à África. Todas as informações vieram de sua imaginação e capacidade de pesquisa. Foi Hetzel quem apresentou Verne a Félix Nadar (Gaspard-Félix Tournachon, 1820-1910), fotógrafo, caricaturista, jornalista, pioneiro e entusiasta do voo humano (balonismo) e da fotografia aérea. Tornaram-se grandes amigos, e Nadar o introduziu em seu círculo de amigos cientistas, de cujas conversações o escritor provavelmente tirou algumas de suas ideias. O último livro de Verne, “O senhor do mundo” (1904), foi publicado um ano antes da sua morte, em 24 de março de 1905, aos 77 anos de idade. O “pai da ficção científica” escreveu mais de 100 livros, e sua obra é a mais traduzida em toda a história, com traduções em 148 línguas, segundo estatísticas da UNESCO. Verne, Hetzel e Nadar foram “cúmplices” de uma vida inteira. Foram visionários, quiméricos e balonistas do fantástico voo humano ao futuro.
VOVÔ BATISTA DA LIGHT E O ABRIGO CENTRAL, FORTALEZA/CE / JOÃO SCORTECCI
Meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968. Eu tinha 12 anos, incompletos. Era seu neto preferido, segundo minha mãe Nilce. Até hoje estamos ligados em pensamento - saudade imensa - e espiritualmente. A nossa história começou em 1962 quando ele me levou pela primeira vez para conhecer o Abrigo Central, no centro de Fortaleza, no coração da Praça do Ferreira, símbolo da cidade cearense. O Abrigo Central, centro de convivência que abrigava pessoas que esperavam ônibus, uma pequena rodoviária, foi construído em 1949 e demolido em 1967, com a alegação de que estava ruindo e representava um perigo. Eu e meu avô Batista tomando café preto, sem açúcar, no Abrigo Central é a mais forte lembrança que tenho dele. Fomos a pé, da Av. D. Manoel 1086, onde morávamos, até o centro, na Praça do Ferreira. Uma boa caminhada. Eu tinha 6 anos de idade, ainda usava bermudas e dava os meus primeiros passos de independência. Meu avô, já aposentado, ex-superintendente da Light, vestia-se com elegância e seus ternos de linho branco eram marca registrada. Brincavam, na época, que tinha apenas um único terno branco de linho. Batista qual o segredo: como você faz para ficar sempre alinhado e elegante? Puto da vida, respondia: Fico pelado enquanto tua mãe lava, seca e passa! Carregava pendurado no braço esquerdo - mesmo em dias de sol - o seu inseparável e clássico, guarda-chuvas. Batista (era assim que gostava de ser chamado) era um contador de "causos". Suas histórias eram engraçadas e divertidas. Adorava contar histórias de mulheres. Seu repertório feminino era grande. Tinha de tudo: putas, vadias, vigaristas, tias, donzelas, raparigas, moças de família e santas. Naquele dia inesquecível da minha primeira visita ao Abrigo Central o lugar estava lotado de gente. Sempre assim vovô? Sempre, respondeu. O calor era sufocante e um cafezinho propunha refrescar o corpo. Foi o que ele me disse. Meu avô pediu dois cafés pretos, sem açúcar. Eu que até então só tomava leite morno, me vi encrencado. Ele bebeu quente, de um só gole. Eu esfriei o meu, assoprando para não queimar a língua. Naquele dia meu avô encontrou amigos, contou piadas e "bolinou" moças que passavam pela praça. Cumprimentava todas, sem exceção, com um delicioso tapinha no bumbum. Minha sobrinha, dizia. Elas sorriam. Hoje, se fizesse isso, seria linchado em praça pública e processado por assédio sexual. Um safado, segundo minha mãe. Seu avô adora um "rabo" de saia, justificava. No caminho de volta para casa parávamos para comprar pão e queijo. Zé, dizia ele, quero um quilo de queijo sem buracos! A brincadeira era a mesma de sempre. Pedia em voz alta - em busca de atenção alheia - e piscava o olho para mim. Zé sorria e respondia: - Pode deixar seu Batista. Um quilo sem buraco bem pesado! A minha inocência durou anos até entender que era uma deliciosa brincadeira. No meu julgamento de criança o Zé era um tremendo pilantra que vendia queijo com buracos e roubava no peso. Fomos mais cinco ou seis vezes tomar café, sem açúcar, no Abrigo Central. Logo depois meu avô adoeceu e nos despedimos para sempre do Abrigo Central. Sua doença - é o que diziam na época - era arteriosclerose. Tinham até uma explicação para a sua doença: feijão, farinha e toucinho! No final da vida - já recluso e impedido de sair de casa - brincávamos de tabuada, de jogar dama e gamão, de contar dinheiro de papel jornal (sua brincadeira preferida) e se balançar na sua cadeira de vime no terraço. Meu avô Batista era um “apaixonado” por bundas. Devo isso a ele e aos meus melhores pecados. Quando uma grande bunda grande passava na sua frente ele sorria e dizia: Olha lá a Raimunda. Feia de cara e boa de bunda! As mulheres hoje, explicava, são foguetes. Não são mais princesas do céu. São foguetes de rabo quente e pegam fogo por nada. São capetas! Vovô João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968 - véspera de carnaval - um ano depois da demolição do Abrigo Central.
VOVÔ ÍNDIO TUPINIQUIM E PAPAI NOEL SIBERIANO / JOÃO SCORTECCI
Getúlio Vargas, Plínio Salgado e Monteiro Lobato, nos anos 1930, tentaram substituir o ridículo papai Noel siberiano, oriundo da cultura nórdica, pelo Vovô Índio, de roupas verdes, adaptação de um personagem criado por Lobato. Dizem que o batismo do tal Hulk tupiniquim, aconteceu no “Natal dos Pobres”, evento badaladíssimo na época, inclusive com a presença do próprio Getúlio e sua trupe. O Vovô Índio durou “pouco” e logo caiu em desgraça. Quando o “monstro verde” de cocar e tudo, entrou na festa, as crianças gritaram e caíram no choro. Foi um vexame! Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e a influência americana, o Noel siberiano ganhou força e derreteu, definitivamente, o Vovô Índio.
WALT WHITMAN E O POEMA SEM-FIM / JOÃO SCORTECCI
Versos imitando os ritmos da fala! O poeta, jornalista e impressor estadunidense Walt Whitman (1819-1892) é considerado por muitos como o "pai do verso livre". Entre 1842 e 1844, editou o jornal diário “Aurora” e o "Evening Tatler". Durante um ano, escreveu para o “Long Island Star”, tornando-se – em seguida – editor do “Daily Eagle de Brooklyn”, posição que ocupou de 1846 a 1848. Editou também o “Freeman de Brooklyn”, entre 1848 e 1849, e, no ano seguinte, montou uma tipografia e uma papelaria. Em julho de 1855, publicou a primeira edição de "Folhas de Relva" (“Leaves of Grass”), impressa na gráfica Rome Brothers de Brooklyn, de propriedade dos gráficos e imigrantes escoceses Andrew e James Rome, e cujos custos de edição Whitman pagou. “Folhas de Relva" é considerado um marco na literatura universal. Os versos dos poemas são livres, longos e brancos, imitando os ritmos da fala. Uma curiosidade: o livro teve oito edições e foi revisto e ampliado várias vezes. Uma obra – eternamente – inacabada! A primeira edição foi publicada em 1855, sem o nome do autor e com apenas 12 poemas e um prefácio. A segunda edição ganhou o seu nome na capa e um total de 32 poemas. Entre eles, o poema "Canto de mim mesmo". A terceira edição – já com 154 poemas – foi publicada em 1860. Em 1861, a editora foi à falência, e a obra de Whitman foi pirateada. Em 1867, com oito poemas novos, saiu a quarta edição de “Folhas de Relva”. A quinta edição foi publicada em 1870, com uma segunda tiragem em 1971, que incluía "Passagem para a Índia” e mais 71 poemas, alguns dos quais inéditos. Em 1876, foi publicada a sexta edição, em dois volumes. A sétima edição, publicada em 1880, não foi distribuída, pois foi recolhida por ordem do promotor público, que a julgou imprópria. Essa edição só foi retomada em 1882 e com a inclusão de 20 poemas inéditos. A oitava edição foi publicada em 1889. Quando Walt Whitman preparava nova edição de “Folhas de Relva”, morreu por causa de uma pneumonia, em 26 de março de 1892. Vivi drama semelhante com o livro de poemas "A Morte e o Corpo" (1984). A cada nova edição – foram muitas – excluía poemas, incluía novos e reescrevia outros. Uma obra inacabada! Na quinta edição, frustrado e inconformado por não conseguir concluí-la, escrevi e publiquei no final do livro, após o último poema, uma nota de conformismo: “Dilema literário para não julgar. Fazer da vida o poema sem-fim.” Feito isso, confesso, encontrei uma inquieta paz. Ao longo de 40 anos, a máxima ganhou várias versões, entre as quais: “Viver é fazer da vida um poema sem-fim!” Mais recentemente, no ano de 2022, tornou-se – por enquanto, quem sabe – uma sentença: “Faço da minha vida de livros um poema sem-fim.”

WAYNE NA GUARDA DA CASA DAS ARMAS / JOÃO SCORTECCI
“Duke” dos trejeitos. Quando criança “praticava” todos! Um em especial: ajustar e afivelar na cintura o cinto de couro do revólver. Fazia isso - sempre - antes de “pistolar” os inimigos do velho oeste. Era um aviso involuntário - um tique nervoso - de que iam voar balas!
“Filho, o que você quer de presente de Natal?” Dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne (Marion Robert Morrison, 1907-1979). E muita espoleta estrela! “De novo?” Sim! “Pede outro presente”. Não! “Quer ganhar meias?” Não! Já disse. Meias é castigo! “E lenço Presidente?” Pior. “E uma boa sova?” Também não.
“O seu quarto parece um paiol de pólvora de tanta espoleta, chilena, rojão e bomba rasga lata. Arsenal de guerra? Quer explodir tudo?” Talvez. “O que você disse, menino?” Nada. Mãe, e se o quarto explodir e tudo pegar fogo? “Você morre!” Posso então pedir o meu último desejo? “Pode” Quero dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne. Juro que no ano que vem peço outra coisa. “Você jura?” Juro.
“Duke” (John Wayne) faleceu em 11 de junho de 1979. Foi na minha infância de “balas e espoletas” o meu maior cowboy e é até hoje o responsável pela guarda da casa das armas.

WEFFORT, MÁRCIO SOUZA, JOSÉ ÁLVARO MOISÉS, OTTAVIANO DE FIORI, PAULO RENATO SOUZA E UM OLHAR SOBRE A CULTURA BRASILEIRA / JOÃO SCORTECCI
Em 1998, Francisco Weffort e Márcio Souza, organizadores, publicaram a obra “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, pela FUNARTE, Ministério da Cultura. O Presidente do Brasil era Fernando Henrique Cardoso; José Álvaro Moisés, o Secretário de Apoio à Cultura; e Ottaviano De Fiori (in memoriam), o Secretário de Política Cultural do Ministério da Cultura. Um time de primeira! Eu estava no meu segundo mandato na CNIC - Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), responsável pelas Áreas de Humanidades e Integradas.
Durante o 1º Salão Internacional do Livro de São Paulo, em 1999, no Centro de Exposições Expo Center Norte, em São Paulo, o Ministro da Cultura Francisco Correia Weffort, com o jornalista, dramaturgo, editor e romancista amazonense Márcio Souza autografaram a obra “Um Olhar sobre a Cultura Brasileira”, numa concorrida tarde de autógrafos, no estande do MinC. Estavam presentes escritores, editores, profissionais do livro, jornalistas e o Ministro da Educação Paulo Renato (Paulo Renato Costa Souza, 1945-2011), que recebeu das mãos do Ministro Weffort o exemplar autografado de número 1. Paulo Renato recebeu o livro, agradeceu e me passou para segurá-lo. Um belíssimo livro, capa dura, com 472 páginas, impresso em couché, formato 21 x 28 cm. Eu acompanhava a comitiva do Ministro Weffort, juntamente com amigos da Câmara Brasileira do Livro, do MinC e da CNIC. Não vi quando o Ministro Paulo Renato se desgarrou do grupo.
Encontramo-nos, depois, em Brasília, mas o livro autografado acabou ficando “esquecido” em São Paulo. O Governo FHC - segundo mandato - terminou em 2003, e nunca vingou a promessa de nos encontrarmos em São Paulo. O Ministro Paulo Renato faleceu em 2011. Guardo o exemplar autografado com o maior carinho e zelo, na certeza de que um dia fará parte do “Memorial Ministro Paulo Renato Costa Souza”, um dos mais importantes e lúcidos ministros da educação do Brasil.
ZÉ DO ISQUEIRO – UM PIROBOLOGISTA DE PEDRO II / JOÃO SCORTECCI
Conheci - nos anos 60 - um pirobologista. Magro e alto. Piscava muito e carregava entre os dedos um isqueiro de prata. “Filho isso não é profissão. É suicídio!” Desisti da sorte depois que o Zé do Isqueiro, profissional de artefatos explosivos, “detonou-se” deste mundo, num piscar de olhos. Uma tragédia! Zé do Isqueiro morreu “chamuscado” e seu corpo virou uma tocha de luzes, gases, fumaça e calor.
Foi nessa época que tentei então a sorte de goleiro - de Castilho Voador - e na pior - uma sombra de goleiro Manga. Até passei numa “peneira” para goleiro no time juvenil do Ceará. Desisti do jogo depois que “descobriram” que eu só “voava” para o lado esquerdo do gol. A pirotecnia de criança, então, limitou-se - apenas - em soltar balões com buchas de parafina, bombas rasga-latas e rojões de três tiros.
Em 1969 - num sábado de julho - foi a minha vez de “explodir”, tocar fogo no quarto e abrir uma cratera na barriga. “O que aconteceu?” Deu azar! Respondi. Hoje lendo sobre a coroação de Pedro II - em 18 de Julho de 1841 - dei de cara com a alma penada do Zé do Isqueiro. Os festejos da coroação de Pedro II duraram nove dias. Uma farra imperial! O fogaréu ficou aos cuidados do pirobologista Francisco de Assis Peregrino. Um mestre estudado na Europa! Um palacete (erguido para a coroação de D. João VI em 1818) explodiu e pegou fogo. Os edifícios que estavam ao redor tiveram as suas vidraças estilhaçadas. Quatro pessoas morreram na tragédia. Entre os mortos o próprio Peregrino. Na hora do fogaréu o representante do Império Austríaco - Barão Daiser - profetizou: “O golpe de vista no momento em que o imperador se apresentou ao povo da balaustrada da varanda era magnífico e, possivelmente, incomparável.” Até então o Barão Daiser não sabia que o palacete de D. João VI havia ido ao suicídio num piscar de olhos.  
“À ESPERA DOS BÁRBAROS”, DE KAVÁFIS - POEMA ATUAL E OPORTUNO / JOÃO SCORTECCI
A cidade de Alexandria, no Egito, é a segunda mais populosa do país, com cerca de 5,2 milhões de habitantes. É o maior porto do país e um dos principais pontos turísticos egípcios. Estende-se por 32 quilômetros na costa mediterrânica do centro-norte do Egito. É o local onde fica a famosa Biblioteca de Alexandria. O poeta grego-otomano Konstantinos Kaváfis (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria. É considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno. Dois anos depois da morte do pai, e durante sete anos, de 1872 a 1879, o poeta morou em Londres, Inglaterra, com sua mãe e seus irmãos. O período em que viveu em Londres foi importante na formação da sua sensibilidade poética. A vida na Inglaterra não foi o que a família esperava. Não progrediram. Na verdade, perderam o pouco de recursos que tinham e retornaram para Alexandria, em 1879. Kaváfis trabalhou durante 30 anos na Bolsa de Valores Egípcia. Era um cético, um descrente. Questionava a cristandade, o patriotismo e a heterossexualidade. Em vida, não publicou nenhum livro. Seus poemas eram distribuídos em folhas soltas ou publicados em revistas literárias.
Em 1935 - dois anos depois de sua morte - publicou-se o livro póstumo com seus 154 poemas mais conhecidos. À Espera dos Bárbaros” é um de seus poemas mais conhecido e - para muitos - sempre atual e oportuno. Segue: “O que esperamos nós em multidão no Forum? / Os Bárbaros, que chegam hoje. / Dentro do Senado, porque tanta inação? / Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores? / É que os Bárbaros chegam hoje. / Que leis haveriam de fazer agora os senadores? / Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis. / Por que é que o Imperador se levantou de manhã cedo? / E às portas da cidade está sentado, / no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça? / Porque os Bárbaros chegam hoje. / E o Imperador está à espera do seu Chefe para recebê-lo. / E até já preparou um discurso de boas-vindas, / em que pôs, dirigidos a ele, toda a casta de títulos. / E por que saíram os dois Cônsules, e os Pretores, / hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas? / E por que levavam braceletes, e tantas ametistas, / e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas? / E porque levavam hoje os preciosos bastões, / com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana? / Porque os Bárbaros chegam hoje, / e coisas dessas maravilham os Bárbaros. / E por que não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores / para discursar, para dizer o que eles sabem dizer? / Porque os Bárbaros é hoje que aparecem, / e aborrecem-se com eloquências e retóricas. / Por que, subitamente, começa um mal-estar, / e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios! / E por que se esvaziam tão depressa as ruas e as praças, / e todos voltam para casa tão apreensivos? / Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram. / E umas pessoas que chegaram da fronteira / dizem que não há lá sinal de Bárbaros. / E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? / Essa gente era uma espécie de solução”.

13.09.2021
“A LINE OF TYPE”, DE OTTMAR MERGENTHALER / JOÃO SCORTECCI
A tipografia nasceu “em conflito”. Gutenberg teve de enfrentar a ira dos copistas quando da invenção de sua “prensa” de tipos móveis. Coisas do demônio! Desse “conflito tecnológico” – e sem volta - nasceram os jornais, as revistas, possibilitando, consequentemente, a popularização dos livros. O primeiro jornal semanal foi o “Nieuwe Tijdinghen”, fundado na Antuérpia, Bélgica, em 1605.
No Brasil - 200 anos depois - o primeiro jornal foi a “Gazeta do Rio de Janeiro”, que começou a circular em 10 de setembro de 1808, com o fim do embargo pela Coroa portuguesa, que, até então, proibia a existência, na Colônia, de imprensa, indústrias, bibliotecas e universidades. Há, no entanto, quem afirme que o primeiro jornal do País foi o “Correio Braziliense”, impresso em Londres, Inglaterra, por Hipólito José da Costa, e distribuído no Brasil a partir de 1º. de junho de 1808.
A primeira revista brasileira, "As Variedades ou Ensaios de Literatura", foi lançada em 1812, em Salvador/BA, pelo editor português, Manoel Antonio da Silva Serva, e durou não mais que dois números. A arte da tipografia tornou-se um ofício nobre, com privilégios para poucos. Da invenção de Gutenberg até à Revolução Industrial, os métodos de trabalho pouco evoluíram. Até 1814, quando foi inventada a máquina de impressão cilíndrica, o trabalho tipográfico tinha sido manual, quer na composição, quer na impressão.
À invenção da máquina cilíndrica seguiu-se, passadas três décadas, a da impressora rotativa, que veio dar um significativo incremento à impressão de livros, jornais, revistas e outros impressos. Mas, se o problema da impressão estava, em parte, resolvido, a composição continuava a ser morosa e trabalhosa. Era urgente a necessidade de se inventar uma máquina que substituísse o grande número de trabalhadores até então mobilizados para a composição.
Coube ao imigrante alemão, Ottmar Mergenthaler (1854-1899), de Baltimore, EUA, proprietário do “New York Tribune”, a invenção - considerada a oitava maravilha do mundo - da máquina de composição de tipos de chumbo. Em 1884, Mergenthaler apresentou ao mundo gráfico a sua incrível “Linotype”, equipada com chumbo em ponto líquido, capaz de compor uma linha inteira de texto com um simples toque no seu teclado. Com essa mecanização, a produtividade do processo de composição octuplicou, equivalendo ao trabalho de oito compositores manuais. Ao ver sua engenhoca funcionando, Mergenthaler exclamou: “A line of type!”. 

“CENOTÁFIO” DO POETA DESCONHECIDO / JOÃO SCORTECCI
Cenotáfio: memorial fúnebre erguido para homenagear alguma pessoa ou grupo de pessoas cujos restos mortais estão em outro local ou estão em local desconhecido. Quando criança - no Ceará dos anos 1960 - visitei no município de Pacoti, no maciço de Baturité, o “cenotáfio” construído pelo comendador Ananias Arruda, em homenagem à sua esposa “Donaninha Arruda.” Em Brasília, Praça dos Três Poderes, o “Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves” (Tancredo de Almeida Neves, 1910-1985), é um memorial cívico para homenagear os heróis nacionais que, de algum modo, serviram para a maturidade e engrandecimento da Nação Brasileira. Nomes que constam no livro do Panteão da Pátria: Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Machado de Assis, Anita Garibaldi, Dom Pedro I, Duque de Caxias, Chico Mendes, Ana Néri, Santos Dumont, Frei Caneca, Getúlio Vargas, Villa-Lobos, Zuzu Angel, Carlos Gomes, Rui Barbosa, Ulysses Guimarães, Tobias Barreto, Euclides da Cunha e outros. A lista de candidatos inscritos - aguardando a vez - é imensa. Entre eles: Sérgio Viera de Melo, Ayrton Senna, Enéas Carneiro, Vital Brasil, Pedro II, Osvaldo Cruz e Luiz Gonzaga. No dia 24 de agosto de 2020, recebi uma notícia triste, que me emocionou muito. Acontece. A morte de um poeta de 90 anos de idade participante das antologias da casa. Recebeu seus exemplares de direito de participação na antologia e faleceu. Sua filha escreveu: “Papai morreu feliz. Morreu poeta!” Proponho o “Cenotáfio do Poeta Desconhecido”. Morrer poeta! E morrer.
“DECAMERÃO”, DE BOCCACCIO, E “A DIVINA COMÉDIA”, DE DANTE / JOÃO SCORTECCI
“Decamerão” é uma coleção de cem novelas escritas pelo poeta e crítico literário florentino Giovanni Boccaccio (1313-1375). As histórias são contadas por um grupo de sete moças e três rapazes que se abrigam em um castelo próximo de Florença, para fugir da peste negra, que afligia a cidade. Boccaccio provavelmente iniciou “Decamerão” após a epidemia de 1348 e o concluiu em 1353. As histórias de amor vão do erótico ao trágico: histórias de sagacidade, piadas e lições de vida. Além do seu valor literário e ampla influência, o livro fornece um documento da vida na época. Escrito no vernáculo da língua florentina, é considerado uma obra-prima da prosa clássica italiana. Com subtítulo de “Príncipe Galeotto”, “Decamerão” marca com certa nitidez o período de transição vivido na Europa com o fim da Idade Média, após a epidemia da peste negra. A obra tem o senso medieval de numerologia e significados místicos. As sete moças representam as Quatro Virtudes Cardeais (Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança) e as Três Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade). E os três homens representam a Divisão da Alma em Três Partes (Razão, Ira e Luxúria), conforme a tradição helênica. Boccaccio, especializado na obra do florentino Dante Alighieri (1265 -1321), ao ler a "Comédia" (poema épico e teológico, dividido em três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”), ficou tão fascinado que a renomeou de "A Divina Comédia", título com o qual a obra seria imortalizada. Boccaccio foi autor de uma das primeiras biografias de Dante Alighieri, intitulada “Trattatello in laude di Dante”, também conhecida como “Vita di Dante”. Fascinado e absorvido pela obra do biografado, Boccaccio iluminou “Decamerão” com significados místicos e espirituais – conscientemente ou não –, buscando atingir, na divindade, a imortalidade da “Comédia”. Boccaccio faleceu no dia 21 de dezembro de 1375, aos 62 anos de idade. Seu corpo está sepultado na Igreja de São Jacó e São Filipe, em Certaldo, na Toscana, Itália.
“DIA DAS LETRAS GALEGAS” EM HOMENAGEM A ROSALÍA DE CASTRO
O dia 17 de maio foi instituído em 1963 como o “Dia das Letras Galegas”, quando se comemoraram os 100 anos de edição da primeira obra escrita em língua galega (língua ibero-românica ocidental de caráter oficial da Comunidade Autônoma da Galiza), “Cantares Gallegos”, da escritora espanhola Rosalía de Castro (Maria Rosalía Rita, 1837-1885). Nascida em Santiago de Compostela, capital da Comunidade Autónoma da Galiza, noroeste de Espanha, Rosalía de Castro é considerada a fundadora da literatura galega moderna. Escreveu tanto em prosa quanto em verso, empregando o galego e o castelhano. Sua obra esteve profundamente marcada pelas circunstâncias que rodearam sua vida, como sua origem, os problemas econômicos, a morte dos seus filhos e sua frágil saúde. Em 1863, em Vigo, cidade da costa noroeste da Espanha, o seu primeiro grande livro, "Cantares Gallegos", foi publicado por seu marido, o historiador galego Manuel Murguía (1833-1923), que geriu, sem a licença da esposa, a impressão de um poemário que fixa o começo de uma nova era para a poesia galega e que foi a base do ressurgimento da literatura galega, numa época em que essa língua estava extinta como língua escrita. Em 1880, Rosalía de Castro publicou “Folhas Novas”, praticamente uma continuação de “Cantares Gallegos”. Em castelhano, publicou “La flor” (1857), “A mi madre” (1863), “En las orillas del Sar” (1884) e o romance “El caballero de las botas azules” (1867), obras marcadas pelo Romantismo literário. Rosalía de Castro passou os últimos anos da sua vida em Padrón, na província espanhola de Galiza, na "Casa da Matanza", que depois se tornaria casa-museu. A morte acidental do seu filho mais novo aos dois anos de idade e sua doença amargaram os seus derradeiros anos de vida. Morreu de câncer em 1885, aos 48 anos de idade. Antes de morrer, pediu aos filhos que queimassem os trabalhos literários que, reunidos e ordenados por ela mesma, não foram publicados. Foi enterrada no campo-santo da Adina, na Galiza. Anos mais tarde, em 1891, seus restos foram transladados para o Panteão de Galegos Ilustres, no convento de São Domingos de Bonaval, em Santiago de Compostela.

17.05.2022
“GALÁXIA DE GUTENBERG” EM EXPANSÃO / JOÃO SCORTECCI
O canadense Marshall McLuhan (Herbert Marshall McLuhan, 1911-1980) foi educador, filósofo e teórico da comunicação, conhecido por vislumbrar a Internet, quase 30 anos antes de ser inventada. Ficou também famoso por sua máxima “O meio é a mensagem” e por ter cunhado o termo “aldeia global”. McLuhan foi um pioneiro dos estudos culturais e filosóficos sobre as transformações sociais provocadas pela revolução tecnológica do computador e das telecomunicações. Desenvolveu uma série de conceitos que alcançaram grande fama, foram amplamente divulgados e têm sido revisitados por pesquisadores da comunicação, na atualidade.
Em 1962, publicou “A Galáxia de Gutenberg”, um estudo dos caminhos desde a cultura manuscrita até à impressa. Nesse livro polêmico, afirma que, até ao advento da televisão, vivíamos na "Galáxia de Gutenberg", em que o conhecimento era entendido apenas em sua dimensão visual. Esse redimensionamento, por um lado, possibilitou a difusão do conhecimento, mas, por outro, reduziu a comunicação a um único aspecto, o escrito. Foi a partir de "Galáxia de Gutenberg” que se difundiu o termo “aldeia global”.
Nesse livro, McLuhan explica como a tecnologia da informação - principalmente a mídia impressa - afeta a organização cognitiva dos indivíduos e como isso afeta a totalidade da organização social. Afirma, ainda, que as tecnologias não são simplesmente invenções que as pessoas utilizam no dia a dia, mas são os meios pelos quais as pessoas são “reinventadas”. Discordo. Acho a proposição artificial, robótica, desumana, catastrófica, sem saída e infeliz. “Aperte o botão de reiniciar - ganhe uma vida nova - e seja feliz!” E as nossas experiências, nossos desejos, nossos sonhos, nossas heranças espirituais e legados? “Deletar” a vida? Não quero “reinventar-me”. Não precisamos nos reinventar! Juntos, podemos escolher melhor, mudar destinos, compartilhar ideias, criar opções, melhorar a vida, justificar fatos, aprender e ensinar, amar, compartilhar vontades, perdoar e sonhar um mundo melhor. Nossa natureza depende também do meio. E a mensagem é a esperança.

11.09.2021
“O PASQUIM”, JAGUAR E LEILA DINIZ / JOÃO SCORTECCI
“O Pasquim” foi o mais prestigiado semanário brasileiro de oposição ao regime militar pós-1964 e circulou entre 1969 e 1991. Seus fundadores foram: Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Ziraldo. De uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, atingiu - em meados dos anos 1970 - a marca de mais de 250 mil. “O Pasquim” caracterizava-se - no início - como uma publicação comportamental, que falava sobre sexo, drogas, feminismo e divórcio. Depois, foi se politizando, principalmente após a promulgação do Ato Institucional n. 5, passando, então, a ser porta-voz da indignação de setores da sociedade brasileira. O nome, que significa "jornal difamador, folheto injurioso", foi sugestão de Jaguar: "Terão de inventar outros nomes para nos xingar!" Como símbolo do jornal, foi criado o ratinho Sig (de Sigmund Freud), desenhado por Jaguar, baseado na anedota da época que dizia: "se Deus havia criado o sexo, Freud criou a sacanagem". Com o tempo, juntaram-se ao time figuras de destaque na imprensa brasileira, como Millôr, Manoel "Ciribelli" Braga, Miguel Paiva, Prósperi, Claudius e Fortuna. Além de um grupo fixo de jornalistas, a publicação contava com a colaboração de nomes, como Luiz Carlos Maciel, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sérgio Augusto, Ruy Castro, Laerte e Fausto Wolff.
Em 1969, por causa de uma entrevista com a atriz Leila Diniz (1945-1972), feita pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, foi instaurada a censura prévia aos meios de comunicação, por meio da Lei de Imprensa. Em novembro de 1970, a maioria dos redatores foi presa, depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga (de autoria de Pedro Américo).
Até fevereiro de 1971, o semanário foi mantido sob a editoria de Millôr Fernandes (que escapara à prisão), com colaborações de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara e Gláuber Rocha. “O Pasquim” foi alvo de dois atentados a bomba. Na década de 1980, bancas que vendiam o semanário passaram a ser alvo de atentados e de ameaças, o que levou os jornaleiros - na sua maioria - a recusarem trabalhar com a publicação. Graças aos esforços do cartunista Jaguar (Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe), “O Pasquim” continuaria ativo até a edição de número 1.072, de 11 de novembro de 1991.

PASQUIM, do italiano "Pasquino", nome de uma estátua mutilada sobre a qual os romanos afixavam escritos anônimos. Aos pés da estátua e, geralmente, no pescoço eram coladas, “as pasquinadas”, folhetos com conteúdo satírico, frequentemente em versos, dirigidos a personagens públicos importantes, inclusive ao Papa.

“ÓSTRACOS” DE TELHA DE BARRO E BALADEIRAS NO RIO PAJEÚ / JOÃO SCORTECCI
Quebrar telhas! Quando criança – isso no Ceará dos anos 1967 e 1968 – quebrávamos telhas de barro e fazíamos “óstracos” para caçar calangos, tijubinas, ratos do mato, sabiás e rolinhas de papo gordo, no vale do Rio Pajeú. Lembro-me de que, nesses cacos de telhas, desenhávamos com giz números da sorte, estrelas de cinco pontas, letras com as iniciais do nome ou apelido e, nos maiores, pequenos versos segredados da alma. Nossas inquietudes, dores e pecados. Fazíamos pedidos, encomendávamos prendas de amor, roubávamos, das águas do rio, velas e ventos de um tempo qualquer e distante. Tempestades? Talvez. Depois — predadores que éramos — guardávamos o pente de tiros na cartucheira do dia. Os nossos “óstracos” eram munição para as baladeiras — os estilingues — feitas de forquilhas de goiabeira, câmaras de pneu, cortadas na grossura de um dedo, amarradas e presas, num pequeno retângulo de couro cru, que abraçava os projéteis de morte. Um “cacudo”, de cinco pontas, era uma bala de prata — mortal —, que zunia no Pajeú e explodia no alvo. Eu era bom de pontaria! A caça do dia era guardada num bornal de pano. No final da tarde, antes do banho, contávamos — numa roda de feitos — o melhor da safra, o caminho ceifado de sangue e glória. Na Grécia Antiga, em Atenas, os óstracos eram usados como cédulas de votação para determinar se uma pessoa deveria ser punida com o ostracismo, o desterro social e político. As “Cartas de Laquis” que compreendem 21 óstracos, encontradas no sítio de Tel Duveir, na Palestina, entre 1932 e 1938, são peças que datam do fim do período de ocupação judaíta, em Laquis — cidade do Antigo Oriente Próximo, agora um sítio arqueológico e um parque nacional israelense — antes de sua destruição, em 586 a.C., pelas mãos de Nabucodonosor II, o Grande, rei do Império Neobabilônico. Os “Óstracos de Samaria”, conjunto de 64 fragmentos de cerâmica, com inscrições em caracteres hebreus, encontrados na sala do tesouro do palácio de Acabe, em Samaria — região montanhosa do Oriente Médio, constituída pelo antigo reino de Israel, entre os territórios da Cisjordânia e de Israel — registram carregamentos de óleo e vinho levados de vários lugares vizinhos para Samaria. Na época da escrita dos óstracos, os israelitas associavam a adoração de Jeová com a do deus cananeu, Baal. Alguns nomes de pessoas encontrados nos óstracos de Samaria significam “Baal é meu pai”, “Baal canta”, “Baal é forte”, “Baal se lembra”. E eu me lembro, ainda, de — no tempo em que enterrávamos tesouros no quintal de casa — ter guardado na lancheira do Zorro um caco de telha no formato da cabeça de leão. Não me recordo de tê-lo resgatado, nem a lancheira. Nesse pote do tesouro, além do óstraco cabeça de leão, guardei um pente, um anel de bambu, um lápis de carpinteiro, um engodo de barbante, uma tampinha de refrigerante Grapette, um anzol de pescar mussum preto e um carretel de linha 24 — com cerol — para lancear arraia no vale do Rio Pajeú. Desterro, também? Talvez.
“PLUFT, O FANTASMINHA”, DE MARIA CLARA MACHADO / JOÃO SCORTECCI
“Pluft, o Fantasminha” (1955) é a peça teatral infantil de maior sucesso da escritora e dramaturga mineira Maria Clara Machado (Maria Clara Jacob Machado, 1921-2001). Considerada a maior autora de teatro infantil do País, escreveu 30 peças para crianças e cinco para adultos. Em 1951, fundou, na cidade do Rio de Janeiro, uma das maiores escolas de teatro do Brasil, o Tablado. Na peça “Pluft, o Fantasminha”, uma menina de nome Maribel é raptada pelo malvado pirata Perna-de-Pau. Escondida no sótão de uma velha casa, ela conhece uma família de fantasmas e faz amizade com Pluft, um fantasminha que tem medo de gente. A peça foi encenada pela primeira vez pelo teatro Tablado, em setembro de 1955, com direção da autora, e recebeu o prêmio da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1961, foi adaptada para o cinema, por Romain Lesage, e, em 1975, para minissérie de TV, produzida pela Rede Globo em parceria com a TV Educativa. Posteriormente, foi publicado livro com a peça vertida para prosa. Maria Clara Machado era filha do escritor Aníbal Machado e de Aracy Varela Jacob, que morreu quando Maria Clara tinha nove anos de idade. Sua família mudou-se da capital mineira para a cidade do Rio de Janeiro e se radicou no bairro de Ipanema, onde Maria Clara morou desde os dois anos de idade até sua morte. Desde seus tempos de criança, a casa onde morou era um ponto de encontro de intelectuais, amigos de seu pai – nas palavras dela, "um romântico comunista". Entre os grandes nomes que frequentavam as reuniões estavam Maria Helena Vieira da Silva, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcanti, Oswaldo Goeldi, Guignard, Portinari, Otto Lara Resende, Rubem Braga, João Cabral de Melo Neto, Moacyr Scliar e Tônia Carrero. Também passaram por lá Albert Camus (escritor, filósofo, e jornalista franco-argelino) e Pablo Neruda (poeta-diplomata chileno e político, Prêmio Nobel da Literatura em 1971). Maria Clara Machado faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 30 de abril de 2001, aos 80 anos de idade. Dizem que hoje vive no Tablado do coração de Maribel, no sótão de uma velha casa, na companhia de Pluft, um fantasminha que tem medo de gente.
“TEODICEIA” E O PARADOXO DO TRILEMA / JOÃO SCORTECCI
Doa a quem doer! Gosto de “estudar” o significado de uma palavra, sua origem, seu carma imaterial, seu peso e som, sua energia e força, quando escrita — num bom texto — ou quando pronunciada e dita, por uma boca inteligente, sábia e oportuna. Meu pai dizia, sempre: “Palavra usada fora do contexto não ajuda e até atrapalha sua razão”. Depois da máxima, justificava, assim: “É uma merda!”. Ríamos muito. Quando a piada era boa — sempre era — concluía a deixa, dizendo: “Não coloque a palavra ‘merda’ antes de nada. Sempre depois! Ela no início, vão pensar que é sua, e você vai acabar sendo, queira ou não, o responsável pela cagada da história toda. Depois — depois e depois — ela deixa de ser somente sua e ganha o direito de ser de todos: uma cagada coletiva!”. Quando uma palavra novíssima entra na “cachola”, eu anoto e, quando dá, busco o seu significado. Uma mania antiga. A palavra da vez — de hoje da madrugada — é “teodiceia” (do grego "Deus" e "justiça": "justiça de Deus"), termo derivado do título da obra “Ensaio de Teodiceia”, do filósofo e polímata alemão, Leibniz (Gottfried Wilhelm Leibniz, 1646-1716), que sustenta a existência de Deus, com base na discussão do problema da existência do mal e de sua relação com a bondade de um deus onisciente e onipotente. Leibniz é figura central na história da matemática e na história da filosofia, com sua defesa do racionalismo. "Teodiceia”, entre outras coisas, busca uma resposta ao “Paradoxo de Epicuro" — atribuído ao filósofo grego Epicuro de Samos — e ao "problema do mal". Ele mesmo! Epicuro argumenta contra a existência de um deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e benevolente. A lógica do paradoxo — sob o jugo do trilema — rege que, se duas delas forem verdade, excluem automaticamente a outra, então não pode existir um deus com as três características: onipotência, onisciência e onibenevolência. Acredita-se que o teólogo e filósofo Santo Agostinho (Aurélio Agostinho de Hipona, 354-430 d.C.) tenha desenvolvido a primeira forma da “teodiceia”, em resposta ao paradoxo. Como tal, ele tenta explicar a probabilidade de um onipotente (todo-poderoso) e onibenevolente (todo-bom), em meio a evidências do mal no mundo. A bondade e a benevolência de Deus, segundo a “teodiceia agostiniana”, permanecem perfeitas e sem responsabilidade pelo mal ou pelo sofrimento. Santo Agostinho tentou e se esforçou exaustivamente por compreender e desvendar o mistério da “Santíssima Trindade”, e uma de suas principais obras, "Sobre a Trindade", é o resultado desse esforço. Após muito tempo de reflexão e trabalho, chegou à conclusão de que nós, humanos, devido à nossa mente extremamente limitada, nunca poderíamos compreender e assimilar plenamente a dimensão de Deus, somente com as nossas próprias forças e o nosso raciocínio. Solução para o trilema ou enigma: só será possível desvendá-lo, quando, na vida eterna e no paraíso, encontrarmos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Até lá, para não atrapalhar a razão: que merda!