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POSTAGENS DO SCORTECCI
Dos Toques do Baú
Dos toques do baú. Das revelações do ato. Comunicação não verbal e postura. Pensamento corporal? Gestos da linguagem e suas revelações. Eu e as interpretações do dia e do sol no sapato. Expressões do norte magnético e da direção que segue o movimento do caminho.  Seriam direções ou destinos? O céu da estrela - meu poema de manhã - escreve na areia do mar o traço da sombra. Das pisadas no tempo: das meias molhadas e do suor no pescoço. Frieiras nos dedos. Sol no sapato: toque ou postura? Assim caminha o corpo e seus sórdidos desafios de vida. Faciais e úmidas! Retrato de toques. Relevos do álbum que guardo na estante de baús.
Espicaçado não é Palavrão!
Espicaçado (não é palavrão) e aguilhoado (instigado para fazer algo repto). Chamamento ou desafio? Contei a quantidade de clipes (tipo 3.0) do pote de 500g e revisitei minha coleção de selos até então “no grude” desde o ano passado. Muito trabalho pendente! Pretendo ainda concluir de dois livros amasiados no dropbox e um terceiro – novíssimo – na cabeça e no prego da porta. Junto - do prego de prata - a lista de colírios. Das recomendações médicas. Joguei fora as receitas (dobraduras de princípios ativos). Optei escrever nas embalagens o melhor de cada hora. Isso quando não esqueço. Não é fácil segurar no aviso as impossibilidades de um rebelde imperativo. Você sabe o que nos acalma? Presença de outro “desassossegado” de patente superior! Estou ensinando minha neta Iza a cultivar minhocas com clips 3.0. Internet das coisas? É o mesmo que estourar plástico-bolha. Basta começar que a coceira aguilhoada da impulsividade toma conta do toque. Espicaçado penso no depois. No desatar dos nós de aço galvanizado! Qual é mesmo o nome da santa que trata do assunto? Vamos precisar do milagre! 
Dos conflitos
Dos conflitos. Das razões e das incompatibilidades. Da falta de “entendimento” entre duas ou mais partes. Pessoas ou grupos. Antagonismos das diversidades ou dos extremos? Choques de ideias, de valores e de pensamentos curtos. Cabeças ou gerações de traseiros? O sociólogo e filósofo alemão Dahrendorf (Ralf Gustav Dahrendorf, 1929 - 2009) sobre metas da integração social: Todas as sociedades são estruturas estáveis e persistentes; Todas as sociedades são estruturas bem integradas; Todo elo social tem uma função; esta função resulta basicamente na manutenção da estrutura social; A estrutura funcional da sociedade baseia-se no consenso de valores, entre seus membros. Sobre metas da coerção: Toda sociedade está em processo de mudança: mudança social lhe é inerente, e conflito é parte ativa da estrutura; Cada elo social está fundado na coerção de alguns membros por outros. Aqui com os meus ossos em coerção: o imprevisível no absoluto do escuro.
Das Alucinações da Manhã
Das Alucinações da manhã. Dos delírios. Lugar real em lugar algum. Outono febril e suas reservas. Lá fora uma multidão de ausentes. Silêncio. No canteiro de cunhas, cravado no chão do concreto, uma flor de asfalto. Quase jardim. Observo-a, logo existe! Sólida solidão da natureza. Na esquizofrenia da janela um passarinho se agita no vidro. Liberta-te! Liberdade ainda que tardia. Percepções de um voo de estímulos. Das rupturas: o louco! Ele grita no meu silêncio mágico. Dono de si abraça o real e o lugar de calmaria. Ele me “ocupa” observá-lo e “ocupa” o todo da rua deserta. Ele cidade desocupada. Liberdade? E nós: estado febril, paranoia de cunhas e miragens. Estampas das alucinações da hora.
Das facetas de Juno
Das facetas de Juno. As “caras” guardo no cofre do porquinho. As “coroas” eu deixo circular livremente. Sempre foi assim. Aprendi o jogo da sorte com o epíteto do Moneta. Na minha coleção de moedas tenho algumas raridades cunhadas no cume do Monte Capitolino. Isso na Roma antiga. Foi nessa época que conheci Juno. A primeira “cara” que ele me deu de presente guardo até hoje. Cara é Cara, disse ele. Prefira - sempre - as faces e os perfis, justificou. São transparentes e sinceras. São caras e únicas. Verdadeiros talismãs! Esqueça as “coroas” e seus Reis. São mentirosos, cruéis e falsos. E dão azar! Mesmo julgando Juno Moneta um doido de cobre e níquel sempre fiz a minha parte no trato. Quando o cofre do porquinho enche de “caras” trato de esvaziá-lo pagando o almoço do dia. Uma vez sobrou de troco R$ 3,20. A moça do caixa devolveu tudo em “coroas”. Isso não se faz, reclamei. Juno Moneta deve ter ficado fulo da vida. Em respeito ao epíteto nunca mais voltei naquela casa. Rigidez monetária! Não sou supersticioso. Só não gosto de brincar com a sorte. 
Das Manadas
Das manadas. É o chamado "panic buying" ou as compras motivadas pelo pânico. Confesso: a do papel higiênico é coisa de doido. Respeito, claro. Tenho um primo queridíssimo que sofre do “troço”. Sempre que entra em um supermercado compra um fardo de papel higiênico precisando ou não. Fez isso na minha presença três vezes no mesmo dia. Na terceira “aquisição” perguntei de curioso: anda faltando papel na praça? Não. É que tenho essa mania desde quando me entendo por gente. Declarou-se. Compreendo, respondi. Curiosidade mata: E o que você faz com os fardos de papel higiênico? Eu guardo. Isso aconteceu em 2015. Hoje quando fiquei sabendo pela mídia das “manadas” da hora, todas em razão do novo corona vírus, lembrei-me da história. Aqui com os meus ossos: ligo pra o primo ou não? De duas uma: tiro ele da abstinência ou acelero de vez o seu apetite por fardos de papel higiênico. Tenho certeza que ele vai ler esse post. Fazer o quê? Papel higiênico - também - aceita tudo.
Avós e Netos
Avós e netos. Atitude de reserva ou crueldade? Das ausências de pele e suas imposições no ato do convívio. Das gerações do alfabeto e dos conflitos da clausura. Nós avós - jovens e idosos - somos os voluntários do acolhimento, do fraterno, das fraldas, das cólicas, das mamadeiras, das brincadeiras do nada, das primeiras leituras e dos sorrisos da inocência plena. Somos o quebra galho. O Help! Aceitamos perdas, dores e sofrimento. E o cansaço, claro. Aceitamos o menor abraço, o não colo, o aperto - menos doce - do pé, o não cheiro no cangote, o confinamento do avô cavalinho, o aportar das dobraduras de papel, a guarda dos lápis de colorir e até o jogar-se no chão e rolar feito criança. Vale tudo. Não aceitamos a crueldade e a imposição do distanciamento. Isso nunca! E o risco? Eles podem nos matar! É o que dizem. Provavelmente sim. Não nos poupem, por favor. Somos bombril, brastemp e super-heróis.
Das utopias
Das utopias. Das ideias justas e comprometidas. O conceito de organização é de natureza comportamentalista. Depende de estímulo externo. Não basta apenas forjar o ideal de uma estrutura coletiva. Não há corpo inteligente em um bando de almas vazias. Há que se mudar a cultura dos mundos educando indivíduos e respeitando diferenças. Pobre dos criativos que não inovam. Parasitas? Mudar é preciso e coragem faz parte do ato de existir além do simples futuro. Pânico ou vírus: quem vai nos assolar primeiro? 
Zé Raimundo, o encanador.
Zé Raimundo, encanador, quebra galho e velho conhecido vez por outra me liga. Faz isso quando está sem serviço. Ontem no final do dia ele “reapareceu” depois de quase um ano sumido. Quanto tempo Zé! O que você anda fazendo de bom? Perguntei. Pergunta imbecil a minha. Acontece. Zé Raimundo, cearense da cidade de Baturité, foi curto e pontual: Uma merda! Concordei. Tudo uma merda. O Senhor não tem serviço para mim? Nada, respondi. Zé ficou calado. Zé? Insisti. Passou alguns segundos e ele desligou. Dez minutos depois ligou novamente. Sr. João aqui é o Zé. Bom dia Zé! Caiu a ligação né? Diga, insisti. O Senhor não tem serviço para mim? Não. Nada mesmo. Perguntou e desligou novamente. Merda! Ligou mais duas vezes. O Senhor não tem serviço para mim? Não! Você está de sacanagem comigo, perguntei. Não tenho. Já te disse. E que merda é essa que você ligar, perguntar se tenho serviço para você e depois desligar na cara? O que está acontecendo? Problema de crédito ou defeito do celular? Encarei. Desculpa Sr. João. Desculpa. Voz embargada. Estaria chorando? É o tal do vírus, justificou-se. Zé e o que o “corona” tem com isso? Fiquei curioso. Zé está me escutando? Não desliga porra! Sr. João estão dizendo que celular é sujo. Pior que mictório e boca de presidente. Deu no rádio. Estão dizendo para evitar e falar pouco. O Senhor não tem serviço para mim? Perguntou e desligou. 
Patativa do Assaré
Dos encontros de bronze. Dia 5 de março aniversário de nascimento do conterrâneo Antônio Gonçalves da Silva, poeta, compositor e repentista, Patativa do Assaré (1909-2002). Patativa (ave nativa da chapada do Araripe) do Assaré (município do Sul do Ceará) foi um dos principais representantes da arte popular nordestina do século XX. Com uma linguagem simples, porém poética, retratava a vida sofrida e árida do povo do sertão. Projetou-se nacionalmente com o poema "Triste Partida" em 1964, musicado e gravado por Luiz Gonzaga. Seus livros, traduzidos em vários idiomas, foram tema de estudos na Sorbonne, na cadeira de Literatura Popular Universal. Versos do poema Triste Partida: “setembro passou, outubro e novembro. Já tamo em dezembro. Meu Deus, que é de nós, Meu Deus, meu Deus assim fala o pobre. Do seco Nordeste, com medo da peste, da fome feroz.” 
Biografias de Polímatas
Das ausências de líderes. Coleciono biografias de polímatas (aquele cujo conhecimento não está restrito a uma única área). O italiano Ser Piero (Leonardo di Ser Piero da Vinci) foi o maior deles e exemplo do primeiro que me vem à cabeça. Da Vinci foi poeta, cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, músico e figura importante do Renascimento. Hoje aniversário de morte do maior polímata brasileiro: Ruy Barbosa de Oliveira (Salvador, 1849 - Petrópolis, 1923). Foi escritor, jurista, advogado, político, diplomata, filólogo, jornalista, tradutor e orador. Um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo e atuou na defesa do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais. Outros polímatas brasileiros: José Bonifácio, Dom Pedro II, Pontes de Miranda, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Otto Maria Carpeaux, Santos Dumont e Gilberto Freyre. Sobre “O Dr. Barbosinha” ou o "Águia de Haia" escreveu o jornalista William Thomas Stead: "As duas maiores forças pessoais da Conferência de Haia foram o Barão Marschall da Alemanha, e o Dr. Barbosa, do Brasil…” Naquele tempo - saudosismo intelectual - não passávamos vexame e muito menos vergonha nacional.
Das Aflições
Das aflições. Ver e sentir: o instante. A ansiedade veio e ficou no corpo dos olhos. Minhas estrelas do céu? Inércias da vida. O ar anda silencioso e calado. Quase sofrimento. É a natureza buscando a morte. Poema rompido? Talvez. Proximidades. Eu sei, eu sinto, eu sei. No bravo o cordão do suspiro. Alma - quase - pronta. Espírito no infinito das coisas. Eu vou liberto. Eu vou livre. Conheço as dores do cansaço. Penitências? Fico com o sol - inteiro - e uma quase lua. Noite ou escuridão? Não tenho medo. Foi opção viver o intenso infinito. Estou Feliz e em paz. Tudo passa. Eu passarinho.
Poeta italiano Cesare Pavese
O poeta italiano Cesare Pavese (1908-1950) e os momentos da existência: nunca os dias! Autocrítica e reflexões sobre a sua arte: “Não nos lembramos de dias, lembramo-nos de momentos.” Foi combatente antifascista o que lhe rendeu três anos de prisão no sul da Itália. Na prisão escreveu O Ofício de Viver, reflexões sobre a sua arte, seus processos criativos e sobre o sentido da existência. Cesare Pavese suicidou-se em Turim, aos 41 anos de idade. Antes do oficio de viver escreveu: Não conseguimos livrar-nos de uma coisa evitando-a, mas apenas atravessando-a.
Dos Tempos de Hoje
Dos tempos de hoje. Das dimensões: espaciais e temporal. Filosofia de que os momentos que existem são relativos entre si. Eternalismo? Teoria do universo de blocos (passado, presente e futuro coexistem no agora). Desconfio do “presentismo” que afirma que o passado não existe mais e está constantemente desaparecendo a cada pedaço de tempo presente. Na minha infância curtia na TV a série O Túnel do Tempo (1966-1967 – 30 episódios). Adorava a Dra. Ann McGregor (Lee Ann Meriwether, atriz estadunidense). Em um dos episódios da série ela justifica para os dois viajantes do tempo (Robert Colbert e James Darren) o quão importante era o “sincronismo” entre passado e presente. Disse ela: Tempo vivido no passado conta também no presente! Infância é passado presente. São relativos entre si. “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.”
Pânico ou paranoia?
Pânico ou paranoia? Das alucinações. Perseguição ou conspiração? Pânico que assusta e amedronta, sem motivo ou paranoia: ansiedade persistente sobre um medo específico. Qual deles é o vírus? Ontem foi um dia de fúria. Desconfiança ao extremo, amargura, isolamento e irracionalidades. Das tentações. O perseguidor lhe desejando causar o mal. E você se justificando algo ruim. Delírios! Aqui como a flor da sabedoria: esperança ou sobrevivência? Uma deles é a cura. 
Poeta Torquato Tasso
Sorrento é uma comuna italiana da região da Campania, província de Nápoles, onde nasceu o poeta Torquato Tasso, em 11 de março de 1544. A Jerusalém libertada (La Gerusalemme Liberata) é sua obra prima, de 1580, no qual descreve os combates imaginários entre cristãos e muçulmanos, no fim da Primeira Cruzada (proclamada em 1095 pelo papa Urbano II com o objetivo duplo de auxiliar os cristãos ortodoxos do leste e libertar Jerusalém e a Terra Santa do jugo muçulmano), durante o Cerco de Jerusalém de 1099. Torquato Tasso sofria de uma doença mental e morreu poucos dias antes de sua coroação como o rei dos poetas pelo Papa. Tasso, até o início do século XIX, era um dos poetas mais lidos na Europa. Citações de Torquato Tasso: “Perdido é todo o tempo que em amor não é gasto. O amor é um desejo de beleza.”
Das Calendas do Carnaval
Das calendas. Primeiro dia de lua nova. É desta palavra que se originou o termo calendário. No antigo calendário romano havia três dias fixos: as calendas (lua nova), as nonas (lua na metade de sua fase crescente) e idos (data para expressar a segunda metade do mês). Existem oito calendários usados no mundo. São eles: Juliano, Chinês, Judaico, Islâmico, Heche, Etíope, Maia e Gregoriano. Todos combinam ciência e religião. Hoje utilizamos o calendário solar Gregoriano (Papa Gregório XIII, ano de 1582, cujo marco inicial é o nascimento de Jesus Cristo) com seus 365 dias e 6 horas. Proposta para a República Federativa do Brasil: Criar o calendário Carnaval, com apenas dez meses de duração. Para facilitar os “idos” das “nonas” proponho ainda acabar com os anos bissextos. A razão? Chico sabe.
Ainda sobre Alquimistas
Ainda sobre alquimistas. Nicolas Flamel nasceu em Ponoise, França, no ano de 1330. Foi escrivão, copista, vendedor de livros, escritor e alquimista. Escreveu os livros: O Livro das Figuras Hieroglíficas (1399), O Sumário Filosófico (1409) e Saltério Químico (1414). Ganhou fama e fortuna como alquimista. Segundo a lenda teria fabricado a pedra filosofal através da transmutação (conversão de um elemento químico em outro) de metais em ouro por meio de ensinamentos de um livro “misterioso” que fundamentou, posteriormente, suas obras alquimistas. Nicolas morreu com 88 anos, em Paris, no ano de 1418. Em vida ocupou-se em transformar chumbo em ouro. Não teve tempo para aprofundar-se no princípio da “invisibilidade” (outro desafio alquimista) e nem na obtenção do Elixir da Longa Vida, remédio que curaria todas as doenças, até a pior de todas: a morte. Flamel registrou no seu testamento - em código - o processo de transformar chumbo em ouro. No ano de 1758, uma dupla de decifradores, quebrou o código e tentou produzir ouro seguindo as instruções do livreiro parisiense. Em vão. Quem quiser tentar a sorte, o código de Flamel está exposto na Biblioteca Nacional em Paris.
Em Algum Lugar da Cabala
Alquimia. Das combinações: voluntárias ou não! Das transmutações dos verbos copulativos (sujeito e suas características) e das palavras no papel: rabiscadas, nuas e ainda por chegar do nada. Alquimia das ordenações literárias. Das riquezas do texto. No “Elixir da Longa Vida” suas brevidades. Quimeras contra os males físicos e morais. Das pedras. Do filosofal. Dos segredos da panaceia e das simpatias. Remédio de remediar! Qual das mortes é tentação? Na praça dos homunculus o giro da cabala e o impróprio do clone. Do único - que somos nós - e de todos - o derradeiro. O quarto e último - dos princípios da pedra da cobiça – o temporal do desigual e da desigualdade. Até quando? Na estrofe final do poema do alquimista o incerto amanhã: rabiscado, nu e ainda impróprio. Sombrio. Desordenado em algum lugar da emanação divina.
Declinar da Morte
Aqui com os meus desencontros: declinar significa o quê? Palavrinha danada de esperta. Maliciosa! Faz parte do vocabulário de pessoas cultas, inteligentes, polidas e lisas feito quiabo. No popular: cascas de banana! No dicionário declinar significa: “desviar-se, afastar-se de um ponto fixo ou de uma linha determinada”. E mais: “diminuir em forças, atividade, vigor ou intensidade.” Em momento algum da definição “declinar” significa de fato um “não” definitivo, radical, pontual e inegociável. Quando alguém diz gentilmente que prefere “declinar” tenho a impressão  de que preciso melhorar minhas propostas de viver o “sim” plenamente e vez por outra provar o declinar dos desencontros da morte.
Cada época escolhe o seu passado!
Cada época escolhe o seu passado! Hoje descobri que o atual Castelo de Sant’ Angelo (Roma) é o Mausoléu de Adriano (Públio Élio Adriano, imperador romano - 117 a 138 D.C.). Em 1951, Marguerite Yourcenar (primeira mulher eleita para a  Academia Francesa de Letras) escreveu o livro “Memórias de Adriano” autobiografia imaginária sobre a vida e a morte do imperador romano. O livro foi publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira. O fora de contexto que abre o post é de Marguerite. Aqui com os meus ossos: Qual época nós vivemos? Qual passado escolhemos viver? Não satisfeito “rebusquei” na alquimia (e seus elementos) de “A Obra em Negro” outro fora de contexto de Marguerite: É um erro ter razão cedo demais!
Poeta italiano Giordano Bruno
Poeta raiz vez por outra comete heresia. No ano de 1600 o poeta italiano Giordano Bruno foi condenado à morte e queimado vivo pela fogueira da Inquisição do Santo Ofício. Acusação: Heresias cosmológicas! O que Giordano propôs: as estrelas eram sóis distantes cercados por seus próprios planetas. Não satisfeito insistiu em afirmar: o universo é infinito e não há um "centro". Sempre que busco uma estrela no céu lembro-me do dito de Giordano Bruno: “a poesia não nasce das regras”. Eu já cometi uma estrela cadente. Foi no final dos anos 80 publicada em livro de “Quase Tudo”. Giordano repete o mote e insiste em pecar: “A poesia não nasce das regras, a não ser em parte mínima e insignificante; mas as regras derivam das poesias; e, no entanto, são tantos os gêneros e as espécies de verdadeiras regras, quanto são os gêneros e as espécies de verdadeiros poetas”. Das minhas heresias na arte da memória.
Biblioteca da Presidência da República
Wenceslau Brás foi presidente do Brasil. Isso no período entre 1914 e 1918, época que a cidade do Rio de Janeiro era a Capital Federal. Wenceslau gostava de livros e foi o responsável pela criação da Biblioteca da Presidência da República. Definiu seu governo como o "Governo da pacificação dos espíritos", Com a construção de Brasília a biblioteca também mudou de endereço. Hoje tem um acervo de 42 mil itens - três mil discursos de presidentes da República, obras de direito, economia e administração. Ocupa o anexo do prédio principal do Planalto. Confesso que não conheço o espaço mesmo tenho frequentado o Palácio mais de uma dezena de vezes. A biblioteca - que será reduzida pela metade para abrir um escritório com banheiro privativo para a primeira-dama Michelle Bolsonaro - é aberta ao público nos dias da semana. Aqui com os meus demônios: E os 42 mil itens: caberão na metade do todo? A biblioteca continuará aberta ao público leitor? Wenceslau que nos diga: Governo da pacificação dos espíritos?
Não assisto mais TV aberta
Não assisto mais TV aberta. Desisti. Sou fã do rádio. Durmo e acordo nas ondas da CBN e da BAND NEWS. Fiquei. Não perco dos ouvidos os próximos e íntimos: Marcelo Duarte, Petria Chaves, Tatiana Vasconcellos, Fabíola Cidral, Débora Alfano, Luiz Megale, Milton Jung, Sardenberg e Inês de Castro. Hoje na Revista CBN, a incrível Petria Chaves entrevistou a ex-consulesa da França Alexandra Loras e a advogada Thayna Yaredi. Assunto: Racismo estrutural na sociedade e o “apartheid cordial” que vive o Brasil. São 43 minutos de gravação. Vale cada segundo. Ponto imperdível do podcasts quando Petria Chaves confessa: “tenho medo de errar,  cometer uma gafe, dizer uma palavra impensada” Eu digo o mesmo!  Alexandra Loras nos ensina o difícil e lento exercício diário para vencermos o apartheid cordial.
Gosto das sombras do Gnômon
Gosto das sombras do Gnômon. Não me esqueço do que li em um almanaque antigo da sala de um dentista cruel: “elas existem e explicam a presença da luz”. A máxima ficou. Relógio de Sol é um instrumento que mede a passagem do tempo pela observação da posição do Sol. Egípcios e babilônicos gostavam de brincar de sombra movente. Com o tempo a brincadeira ficou chata e então foi substituída por uma vareta na vertical espetada no chão. O que ela - vareta mágica - nos diz aos olhos do sol: Ao amanhecer a sombra estará bem longa, ao meio dia estará no seu tamanho mínimo e ao entardecer volta a alongar-se novamente. No mapa das sombras o “segredo” da presença da luz. Gnômon dos ponteiros deverá estar posicionado de forma a ficar paralelo ao eixo de rotação da terra e na declinação magnética. Na equação do tempo (das diferenças) a dor do dentista cruel que teimada em afirmar que a terra era plana e minha boca uma abóbora de sombras. 
As Clepsidras adoram água
As Clepsidras adoram água. Bebem com boca grande e “gravidam” gotas de sal, pungindo assim as horas de tempo. Confesso que nunca vi uma Clepsidra em ação. São engenhocas engraçadas de cintura fina, tronco largo e depositório farto. As Clepsidras nasceram na Judeia, parte montanhosa do sul de Israel, entre a margem oeste do mar Morto e o mar Mediterrâneo, em 600 a.C. Depois vieram as ampulhetas de areia - menos temperamentais que as Clepsidras (que engripavam no calor e no frio) e também mais eficientes. Tinham também cintura fina, só que duas cabeças iguais. Parte do dia marcavam o tempo de cabeça para baixo. Por volta de 1500, Peter Henlein, na cidade de Nuremberg (Alemanha), fabricou o primeiro relógio de bolso (todo de ferro, com corda para quarenta horas). Em 1595, o italiano Galileu Galilei descobriu o “isocronismo” dos pêndulos e outros - criativos - a fábrica de casinhas de cuco. O século XVI foi das descobertas e também das perseguições religiosas. Relojoeiros protestantes saíram da França e se alocaram na Suíça. Lá nasceram as marcas: Omega, Swatch, Rolex, Tissot, Zenith, Patek Philippe e Breguet. Tudo isso para dizer que mexendo na caixa de coisas antigas encontrei o craque Garricha. Uma capa de relógio Patek Philippe do meu glorioso Botafogo de futebol de botão.
Falar à Maneira dos Romanos!
Falar à maneira dos romanos! A língua inicial acabou subdividida em cinco ramos: o helênico (de onde veio o idioma grego); o românico (que originou o português), o italiano, o francês, o germânico (de onde surgiram o inglês e o alemão); o céltico (que deu origem aos idiomas irlandês e gaélico); e o eslavo (grupo de línguas indo-europeias). O latim era a língua oficial do antigo Império Romano e possuía duas formas: o latim clássico, que era empregado pelas pessoas cultas e pela classe dominante (poetas, filósofos, senadores, etc.), e o latim vulgar, que era a língua utilizada pelas pessoas do povo. O português originou-se do latim vulgar, que foi introduzido na península Ibérica pelos conquistadores romanos. Damos o nome de neolatinas às línguas modernas que provêm do latim vulgar: o catalão, o castelhano e o galego-português, do qual resultou a língua portuguesa. O domínio cultural e político dos romanos na península Ibérica impôs sua língua, que, entretanto, mesclou-se com os substratos linguísticos lá existentes, dando origem a vários dialetos, genericamente chamados romanços (do latim romanice, que significa "falar à maneira dos romanos"). Esses dialetos foram, com o tempo, modificando-se, até constituírem novas línguas. Quando os germânicos, e posteriormente os árabes, invadiram a Península, a língua sofreu algumas modificações, porém o idioma falado pelos invasores nunca conseguiu se estabelecer totalmente. Em resumo: ficou o vulgar! 
Pleonasmo e não adiar para depois!
Conheci Pleo na fila do banco. Ele na casa dos 70 e eu ainda jovem. Isso nos anos 90. Pleo de Pleonasmo. Justificou. É o seu nome de batismo? Sim, respondeu. Eu me chamo José Pleonasmo da Silva. Pequeno detalhe: meu pai era professor de português. Compreendo. Foi consenso geral na família. Fazer o quê? O jeito foi “encarar de frente” e respeitar a vontade da linhagem. Certeza absoluta, respondi. Há muitos anos atrás tentei mudar de nome. Não deu. Conclusão final: ficou Pleo mesmo. Redundante, né? Muito. Olha que eu não fumo, não bebo e não como carne vermelha. Nada de vício. Não abuso. Tudo que é excessivo na transmissão de uma ideia complica a cabeça. Verdade. Reencontrei Pleo na fila do banco mais algumas repetidas vezes. Um dia ele me perguntou: o que você faz? Sou editor de livros. Interessante, respondeu. Você gosta do que faz? Certeza absoluta. Encarei de frente! Já pensou em desistir? Sim. Há muitos anos atrás... Vida de editor é vicioso e redundante. Ninho de pequenos detalhes. Coisas assim. Não quero ficar repetindo de novo e nem adiar para depois.
Onisciente!
Onisciente! Hoje abri caixas, envelopes e histórias da UBE. Fotos, documentos, atas, registros, eventos, originais e escritores. Tudo lá na memória sobre muitas coisas. Luta, firmeza e resistência. Feliz reencontrar a juventude de muitos e a sabedoria dos que já se foram. Mistura de dor e alegria. Milhares de nomes e sonhos. Encontrei o meu trabalho em um punhado de história. 40 anos? Isso. Estou “abduzido” pela energia do encontro. Eu onisciente! Ganhei um peso maior na releitura dos fatos. Isso também é liberdade.
Assim caminha a humanidade!
Ainda sobre o tal “Relógio do Apocalipse” engenhoca criada pela ONG interplanetária de nome “Cientistas Atômicos” que desde 1947 apura a medição simbólica do tempo que resta para o fim do mundo. Midiático saber que faltam apenas “100 segundos”. Missão impossível, até para concluir o derradeiro post. Sherlock Holmes: E agora meu caro Watson? Pobre Doyle! Meu Pai Luiz Gonzaga (isso nos anos 70) era assinante da Revista Seleções (Reader's Digest) e um dia me confidenciou um de seus medos. Pergunta: você sabe o que “levar” no caso de uma catástrofe? Não, respondi. Então anote: “faca, fósforo, lápis e papel, corda, apito, lupa, agulha e linha, anzol, bússola, lenço, cantil, criatividade e inteligência”. Assim caminha a humanidade!
Relógio do Apocalipse
A década de 60 mexeu comigo. Era menino e tudo era motivo de “apavoramento” e “preocupação” além da conta. Os assuntos guerra nuclear, alienígenas e apocalipse eram os preferidos e ocupavam os meus melhores pesadelos. Fiquei sabendo do fim do mundo - contando apenas os últimos 50 anos – umas cinco vezes. Na virada do século a coisa “ferveu” e o tal fim anunciado por oportunistas, profetas, anjos e demônios parecia sem volta. Não aconteceu. Hoje fiquei sabendo da existência de uma engenhoca de nome “Relógio do Apocalipse” criado por uma organização conhecida como Cientistas Atômicos. Na fala - e eu na escuta – a Dra. Rachel Bronson, editora-chefe de um boletim da ONG. Aqui vai o recado aos desavisados: “ os ponteiros do Relógio do Apocalipse foram ajustados nesta quinta-feira (23) e agora marcam 100 segundos para meia-noite — ou o fim do mundo. É o mais perto que o planeta chegou da destruição desde que o Boletim de Cientistas Atômicos passou a fazer a medição simbólica, em 1947.Até a medição de 2020, o Relógio do Apocalipse marcava dois minutos para o fim do mundo. Os cientistas disseram que, desta vez, além do risco de uma guerra nuclear, o planeta passa por riscos relacionados ao meio ambiente e às mudanças climáticas. O recado está dado. Aqui com os meus ossos: antes tarde do que nunca!
Abismar-se!
Das condições. Perecimento do sol e seu aniquilamento do dia. É assim sempre. Lufada e respiro da tarde quente e silente. Doou-se fogo até o fim. Depois - horizonte quebrado – no próprio abismo sem volta. Anulação. Astro morto no altar da natureza. O querer - quase desejo - noite profana. Constelações: Leão, escorpião e outras do céu. Na verdade buscar o escuro das estrelas e o prazer do absoluto mapa de pontas. Uma cadente: risco e traço. Quase navalha. Passou. Eu vi. Abismar-se! Fraqueza do físico e cansaço. Prostração de ficar ali e morrer os olhos. Passamento: felicidade ou alegria? Penso nas entregas do fogo e no calor infernal do poema de nome entardecer. Das derradeiras brisas. Eu e as velas. No corpo do desalento o navegar nas águas. Abismar-se! Repetidas vezes é noite. Amanhã – o qualquer - e um novo dia de sol. Aqui com as minhas frações de corpo: Dói sobreviver!
Apalavrar e pactuar!
Apalavrar e pactuar! Duplicidades de dois! Igual foto de lambe-lambe: preto no branco. Onde usar tinta e papel? Lugar nenhum. O apalavrado se basta. Fio de bigode, cumplicidade, crenças. Isso basta e voa. Vale o olho. Vale o dedo do vento. Sangue apalavrado do pacto? Não. Ato verbal do trato. Esqueceu? Nunca. Jamais! Nada compõe os iguais. Nada justifica os tratados do tempo. Simples igualdade. Pactuados então? Sim. Apalavrados. Colados na estampa do lambe-lambe. Memória. Duplicidades da vida. Em algum lugar do hoje: o sinal.
Epitáfio
Já me vi - corpo morto - na tumba. Três releituras para uma única alma. Devo ter vivido outras. Desconfio. Já escolhi o epitáfio da quarta travessia. Anotem: Viver é fazer da vida um poema sem-fim. Feito isso segue lista de vontades: sapato sem cadarço, dois ou três radinhos de pilha, bandeira que canta e vibra e tábua para levar flechadas de tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa). Minha irmã “Candura” providenciará o canto derradeiro: último da ordem temporal. Poetas cuspirão aloegos. Hora do perdão, das preces, das manias, dos trejeitos e dos segredos do espírito. Alma liberta! Optei pelo fogaréu. Algo “transpira” que vou queimar fácil. Não quero esperar pela autólise do corpo. No prólogo do último poema sem-fim escrevam: intenso e exagerado! 
Avatar de ideias
Avatar de ideias. Yascha Mounk é um jovem cientista político germano-americano especializado em teoria política e democracia. É Professor Associado de Prática na Escola de Estudos Avançados da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC. Hoje a FOLHA (A-17) publica o artigo “O pior está por vir” belíssima tradução da Clara Allain. Em resumo: Quanto mais tempo líderes populistas permanecem no poder, mais radicais se tornam. Inicialmente os populistas são limitados em sua capacidade de concentrar o poder nas próprias mãos. A partir do momento em que esses governos são reeleitos, essas limitações começam a desaparecer. O estado de direito fica ameaçado e o “clientelismo do poder” cresce. Democracias funcionam do equilíbrio de poderes e das coalizões (acordo político ou aliança interpartidária para alcançar um fim comum) sadias. Nas democracias “maduras” (Brasil tem provado ser uma, mesmo que aos trancos e barrancos) duas coisas não se explicam: reeleições e indicação de candidato ao poder travestido de outro.
A Letra Z do Zorro
A letra Z é a vigésima sexta e última letra do alfabeto latino. Tem suas origens no alfabeto fenício, era a letra zain que significava arma e era representado pela figura de uma adaga (espada curta). Conheci o Zorro (mascarado de capa e espada que lutava contra todas as injustiças) na tela preto e branco da TV Ceará, Canal 2, afiliada da Tupi. Isso nos anos 60. Até então televisão era raridade na família. Foi meu tio Zanzão (João Batista de Paula Filho) quem primeiro comprou uma. A sala da sua casa na Av. D. Manoel 1076 ficava apinhada de gente. Lá em casa TV chegou em 1968, uma GE, com seletor automático de canais. TV colorida somente em 1970, para os jogos da copa do mundo de futebol, no México. Zorro nasceu em 9 de agosto de 1919 (está completando 100 anos) da imaginação de Johnston McCulley. Don Diego de la Veja (jovem aristocrata de origem espanhola que enfrentava os poderosos corruptos e cruéis que abusavam do povo humilde de Los Angeles e arredores) era interpretado pelo ator Guy Williams. Faziam parte da trama o seu fiel mordomo Bernardo e o robusto sargento Demetrio López García, um pretenso inimigo mais simpático do que perigoso. A assinatura de três traços com a espada para formar a letra "Z", de Zorro, era a marca registrada da série. 
A palavra “matar” anda solta na web
A palavra “matar” anda solta na web. Está em tudo que é lugar da rede. Até nos pensamentos e ideias de paz. Estava lendo sobre ismos (sufixo que exprime a ideia de fenômeno linguístico) para um livro que estou escrevendo e acabei chegando aos morfemas (menor parte, dotada de significado, que constitui uma palavra), também conhecido como radical, que é o núcleo que abriga a significação externa da palavra. Perdi tempo nos sufixos verbais. Ma (mal) + a(r) de afastamento? Afastar o mal? Seria isso. Cadê meu amigo Pasquale? Ficamos na foto, no papo furado e acabei esquecendo de perguntar sobre os ismos, os fonemas e os radicais livres. Alguém sabe? A história toda me fez lembrar de um texto que escrevi nos anos 80 para a Yakult sobre maçãs. Má (que se opõe ao que é bom; ruim) + sã (saudável, bom). Algo assim: depende de você! O bom não era o dinheiro que pingava a cada safra e sim as caixas de maçã que chegavam – de surpresa – na boa morada.
A vida é Isso
Um dia eu tive 21 anos. Alguns duvidam disso. A vida é assim mesmo: “Desleal e desumana”.  Palavras do meu saudoso pai Luiz. Ele costumava dizer: “Não adianta comprar um canivete. O inimigo sempre carrega um facão”. Estou lendo o livro “1942” do João Barone, rebelde baterista dos incríveis “Paralamas do Sucesso”. Doce saber do seu pai “João Silva”, pracinha brasileiro que lutou na II Guerra Mundial. Meu pai Luiz foi do Pelotão Sampaio. Chegou até a embarcar em um navio americano, mas o navio acabou não zarpando. A guerra havia acabado. Minha avó Sarah - da promessa feita pela vida do seu filho Luiz - foi então resgatar o anel de brilhantes entregue a um padre. Hoje, “quase aos 60” compreendo o real significa da máxima “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Alguns ainda duvidam disso.
Acordeon
Uma das primeiras imagens que tenho da minha mãe Nilce é dela tocando Acordeon (instrumento musical aerofone de origem alemã, composto por um fole, palhetas livres e duas caixas harmônicas de madeira). Nada sei sobre sua compra, se foi presente ou não e, muito menos o seu paradeiro. Era vermelho perolado, parecido com o da foto. Não me lembro da marca, do som e nem das músicas que mamãe Nilce tirava do instrumento de colo. Algumas lembranças de infância são fortes, frágeis e incompletas. Gosto de pensar que são fragmentos de tempo algum do imenso grão de areia que é a vida. 

Nota: fiquei sabendo que o instrumento está com uma de suas netas: Ana Luiza. 
Aloprados na CEF

Sempre gostei de saber da sorte. Minha, dos outros, de alguém que um dia ganhou alguma coisa. Sou um comprador de bilhetes dos “bichos” leão e borboleta, e um disciplinado jogador da MEGA. Adoro rifas, bingos e roletas. Tenho até um número da sorte: o preto 17. Hoje continuo lendo na mídia sobre “as fraudes” na CEF. Nada contra Itapipoca, Serra da Saudade, Borá, Araguainha, Chapada de Areia e Parari. Cidades sortudas! São Paulo, que representa mais da metade das apostas nas loterias, no jogo das bolinhas e das probabilidades, continua com um azar dos infernos. 
19.01.2014

Anjo Torto
No dia 24 de novembro de 1971 um anjo torto me apareceu e me disse: te vejo em São Paulo. Eu tinha 15 anos e três meses de idade e morava em Fortaleza, no Ceará. No dia 3 de fevereiro de 1972 desembarquei na antiga rodoviária Júlio Prestes, em São Paulo. Na mala um caderno (guardo-o até hoje) com as revelações do tal anjo. Ele até hoje me protege e me sacaneia muito. Nos “suportamos” há 44 anos. Envelhecemos nossas vidas com manias, taras e birras. Ele insiste no desapego (seriam então a escrita de suas últimas linhas tortas?) e eu começo a gostar da ideia da sua ausência de mim. 
Anjo Torto II
O anjo torto anda solto. Arrasta suas asas igual vassoura no terreiro do inferno. Pobre de nós escolhidos de deus. Provações: até quando? No céu, as tragédias. No chão, as dores. Quantas mortes de sangue. Quantas aflições no reino da vida. Pobre país, o nosso. Abandonados, somos o grito de órfãos. Vencidos: do abraço vazio. Cadê a esperança do prometido exílio? Cadê o justo de nós? Bell um dia nos disse: somos a geração das crianças traídas! Nas catequeses, o sofrimento dói. Telhado de vidro. Quebra-te! Ó encanto do mal. Na escuta o derradeiro poema: até quando seremos posse do anjo torto? Meu país, nosso país. Nossa dor infinita sofre mais e mais perdas. O que nos assola: medo das águas, das enchentes, do fogo ou do futuro? Penso nos filhos. Penso nos netos. Pobre Brasil torto. Covardia dos demônios.
Antônio Houaiss - Mestre
Antônio Houaiss (filólogo, crítico literário, tradutor, diplomata e enciclopedista) morreu em março de 1999 e não viveu pra ver a virada do século. Adorava gastronomia e sempre que viajava fazia questão de provar - por mais exótica que fosse - a comida típica do lugar. Em uma noite de frio em São Paulo Eu, Houaiss e Enio Squeff (escritor e artista plástico) fomos comer uma pasta na Cantina do Gigetto, na Avanhandava. A presença do filólogo no restaurante foi motivo de alvoroço. Pedimos capeletti de carne e vinho tinto. Ficamos horas no pão com manteiga e no papo sobre suas andanças mundo afora provando comidas exóticas. Houaiss fascinava. Usava as palavras com precisão e equilíbrio. Tudo no seu devido lugar. A plateia - vinda de outras mesas - cresceu e o restaurante parou, literalmente. Foi quando o mestre subiu o tom da voz e começou a contar do sufoco que passou em um país da África cujo prato típico era cérebro vivo de macaquinho. Era uma mesa enorme com buracos do tamanho de um fundo de copo americano. Detalhava. Nos olhava nos olhos. Na mesa apenas colheres de pau e potes com temperos da casa. O silêncio era absoluto. Alguém do restaurante fechou as portas da cantina e se junto a nós. Não podia dizer não! Eu havia provocado e até insistido em provar do prato. Justificava. Os macaquinhos chegaram dentro de uma sacola de couro e gritavam, desesperadamente. Foram presos à mesa pela cabeça por uma barra de ferro. Lembro que uma moça saiu da escuta e foi para o banheiro. Na mesa o capeletti esfriava e não me lembro de ter sido tocado por mim e nem pelo Enio. Houaiss comia, bebia e falava com propriedade. Veio então um homem imenso, negro, com um facão e com a precisão cirúrgica foi cortando rente o tampo das cabeças dos macaquinhos. Pude ver o cérebro das presas pulando na caixa do crânio e o grito de alerta do chefe: peguem a colher de pau e comam. Comam! Foi o que fiz, justificou. Lembro de ter derrubado sal na mesa. Isso é ruim. Dá azar. Pegou o saleiro e jogou sal atrás das costas. Eu e Enio fizemos o mesmo. Três vezes! Não dá brincar com a sorte e nem com as palavras.
Apollon 11
Apollon (deus grego) era filho de Zeus e Leto. Foi Homero quem o imortalizou na ilíada como sendo o deus da divina distância (protetor dos céus). Vestido de nu, no auge de seu vigor, simbolizava-se com a serpente, o corvo e o grifo (criatura alada com cabeça e asas de águia e corpo de leão). Apollon foi do bem e também do mal e continua presente na cabeça do tempo até hoje. Na condição de protetor dos céus Apollon pisou na lua no ano da graça de 1969, na epopeia alada do grifo 11. Homero: Como devo te cantar, tu que por tudo que és mereces o louvor? Poema épico? Divina distância... Eu menino no Ceará colocado na TV preto e branco sonhando um dia ser igual Neil Armstrong e compor - por quê não? – a derradeira ilíada dos céus: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade"
Arigatô

Hoje de manhã fui a cerimônia em memória de Hiroshi Kitani, que faleceu no último dia 30 de agosto, aos 73 anos de idade. Trabalhei sob o seu comando exatos 5 anos, na FK. Foi o meu primeiro e único emprego. Deixei a FK (empresa de Yujiro Furucho), em 1982, para montar a Scortecci e ele, junto com o Amigo Celso Kunioshi, a Kitani Locações. Em 58 anos de vida conto nos dedos as pessoas que marcaram e influenciaram minha vida profissional. Hiroshi Kitani foi uma delas. Foi um Mestre. Um economista brilhante, rápido, inteligente, humilde, sincero e honesto. Seu lema: “Cliente não é bobo e concorrente não é inimigo”. Seus ensinamentos estão até hoje no corpo administrativo da Scortecci. Registro o meu amor e respeito ao povo Japonês. Eles são “estrelas” no meu céu e me acompanham - sempre. Arigatô Kitani San. Arigatô.

06.09.2014

As babás do meu Cerol

Quando criança - lá no Ceará dos anos 60 - na hora de dormir, Eu e meus Irmãos Luiz e José, gritávamos para Das Dores, babá e anjo da guarda: - Das Dores “caga” a luz que eu quero dormir! E ela aos gritos respondia: - Já caguei. Já caguei! Repetíamos a brincadeira toda santa noite, até o dia que ela foi embora e nunca mais voltou. Depois vieram a Joana das águas e por fim, a Teresa do amor. Joana tinha uma doce tara por mim. Banhava-me em uma bacia com água morna e uma colher de sopa de açúcar (dizia ela que era para eu ficar docinho e gostoso...) e Tereza, com o seu delicioso aperto de coxas, nos ensinou o amor de mulher. Reminiscência poéticas do livro: Na Linha do Cerol.

03.03.2013

Autopsia de Napoleão Bonaparte
Em 1936, a Revista PAN, ano II, número 10, página 14, publicou matéria assinada por O. Aubry, testemunha ocular, com revelações “bombásticas” da autopsia de Napoleão Bonaparte (Napoleão I, líder político e militar durante os últimos estágios da Revolução Francesa). Contou ele na reportagem: “Preparada uma grande mesa sobre cavaletes coberta com um pano depositaram nela o cadáver. Durante a primeira parte da operação nada me pareceu chamar a atenção dos médicos da equipe do Prof. Antonmarchi, médico responsável pela autopsia, a não ser a extraordinária quantidade de gordura que cobria quase todas as partes do interior, sob o peito, particularmente na região do coração. Abrindo a parte baixa do corpo, onde está situado o fígado, acharam que o estômago tinha aderido ao lado esquerdo daquele órgão e parecia muito afetado. Os médios, imediata e unanimemente, exprimiram a convicção de que o estômago fora a causa da morte. Retiraram o estômago num estado horrível, reduzido a um terço do seu tamanho normal, coberto de substâncias cancerosas e nele uma cavidade por onde podia passar o dedo mínimo.” Napoleão passou os seus últimos 6 anos confinado pelos britânicos na ilha de Santa Helena. A autópsia oficial concluiu que Napoleão morreu de câncer no estômago, embora haja suspeitas de envenenamento por arsênio. Ninguém explicou até hoje o furo de um dedo no estômago do Italiano, Veneziano e Francês.
Benjamim Costallat
Benjamim Costallat (Benjamim Delgado de Carvalho Costallat) nasceu no Rio de Janeiro em 1897. Foi jornalista, escritor e editor. Estreou na imprensa aos 21 anos de idade, com a coluna de crítica musical Da letra F n.2, publicada no jornal O Imparcial. Foi colaborador fixo dos jornais Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e Revista PAN. Influenciado por João do Rio, escrevia crônicas sobre o submundo do Rio de Janeiro. Ficou conhecido pela sua série Mistérios do Rio. Seu livro A Luz Vermelha foi censurado e recolhido das livrarias, considerado pornográfico e contrário aos valores morais da família brasileira. Na revista PAN, ano II, 1936, número 10, escreveu: A sinceridade dos homens foi sempre duvidosa. A do próprio Adão já deixava muito a desejar. E a Eva nem se fala!
Big Techs Fora da Caixinha
Os gigantes da tecnologia estão avançando com apetite para os negócios financeiros. Os Bancos estão assustados e não sabem como segurar a onda. Muitos ainda estão na idade da pedra e resistentes a tudo que é novo. Seguem o “dinheiro” e priorizam saldos e contas milionárias. São zelosos e guardiões e o fazem com segurança. Onde está o problema? Para acessarmos uma conta bancária, de Crédito ou investimento - usamos “senhas” dos mais variados tipos. Os mais modernos Já utilizam senhas digitais e faciais. Tudo em nome da segurança e do cuidado com o patrimônio alheio. Justíssimo! Vez por outra - enchem o caso de seus clientes - solicitando atualização de cadastro e pedem um monte de bobagens e informações inúteis. Essas informações -  falo das pertinentes - nunca são usadas. No máximo para vender seguros de vida e outras pequenas coisas, que são alocadas nas obrigações de seus gerentes de produto. Não trabalham com o e-mail e nem com o número do telefone celular de seus clientes, diferentemente dos gigantes da tecnologia que usam e abusam das duas ferramentas na formação de perfis ativos de seus usuários. A porta está aberta! Hoje “sabem” da vida de todos nós. Sabem onde estamos, para onde queremos ir, o que consumimos, das nossas ambições, planos, desejos e sonhos. Os Bancos estão cegos ou são ingênuos? Alguns, em suas páginas na web, costumam escrever: “Não enviamos e-mails contendo links ou solicitando atualizações de certificados digitais, componentes de segurança ou identificação do usuário.” Outros “criaram” a tal da infeliz “plataforma” perdendo de vez o pouco do que ainda restava de contato corpo-a-corpo com seus clientes fieis e tradicionais. Isso é usar o ruim da tecnologia. É aquilo que nos afasta e nos isola do mundo. Estão pensando dentro da caixinha e não percebem que a vida acontece fora dela. 

Bilhete ao Poeco / Torrieri Guimarães
Já disse alguém que o trabalho intelectual exige 10% de inspiração e 90% de transpiração – querendo com esta afirmativa significar que uma obra de valor não se improvisa, nem se recebe diretamente de fontes exteriores ao artista, mas é quase sempre fruto de muito trabalho, de muitos anos de vivência, de observações, de estudos. Pode ocorrer que um artista, quando pronto, acabado, isso é, no fastígio de suas faculdades intelectuais, produza com maior facilidade excelentes obras. Nem assim se prescinde do trabalho intenso, nem assim se pode contar apenas com a sua inspiração que, quase sempre, é fruto também desse acúmulo de experiências de uma vida intensamente vivida. Com a Poesia, manifestação mais espontânea da alma, ocorre o mesmo fenômeno e até se exige um pouco mais de apurada vigilância por parte do poeta, por que a inspiração fácil demais geralmente revela pouca profundidade de pensamento e uma tendência à repetição de conceitos já batidos, gastos pelo uso, de pouca ou nenhuma novidade. Daí porque a Poesia, mesmo espontânea e fluente, precisa ser policiada pelo bom gosto do artista que a produz, exigindo, portanto, uma grande dose de transpiração, isto é, de trabalho de depuração dos conceitos, da apuração da forma, de aperfeiçoamento do ritmo e da medida. Pede-se Liberdade à poesia – mas, reflexo que ela é do homem e do mundo que ele cria, exige-se também que não haja abuso dessa liberdade e que, dentro dos seus limites, se possa construir a sua nova forma.
Biscoito da sorte
Abri o biscoito da sorte e li: “processo mental: atitude de quem acredita!” Comi o biscoito (feito de pessoas e coisas) até o ato de engolir vento. Eu e minhas crenças emocionais. Eu e a esperança de resultados positivos. É assim sempre. Dizem que sonhar tem um quê de perseverança. Tem um dedo que toca circunstâncias da vida. Não há indicações do contrário nem sentido letal nos pulmões. Aprendi a respirar meus próprios sentimentos. O ar entra pelos músculos e cria ossos. É na calma que construo esqueletos. Construo pirâmides. Abro outro biscoito. Meu terceiro em um único dia. Penso na carne das pirâmides, justifico pele, cabelos e unhas. Metamorfose de quem dar-se a sorte do instante: esperança ou crença? Fico com os farelos do chão e com o vento das velas. Sopro que sopra: vai-te biscoito feito de coisas e pessoas. 
Bocejar é viral e contamina
Bocejar é viral. Contamina. Alguns dizem que isso acontece porque sua aura está buscando o equilíbrio. Hoje saí para caminhar às 5 da manhã. Fui a pé - ainda sem a bike - até a padaria, para o vício diário do meu café. No bairro conheço todos os madrugadores que saem para meditar, caminhar, correr e agora pedalar. Na subida da Av. Angélica cruzei com o Mestre Matsumoto. Um jovem professor de matemática, já aposentado, na casa dos 70 e poucos anos. Disse-me: “bom dia João” e não parou para conversar. Passou por mim feito uma bala perdida, veloz. Observei-o, pelas costas, admirando sua agilidade e sabedoria. Mais à frente, Matsumoto parou, juntou as pernas e levantou os braços. Andou mais um pouco e repetiu, mais uma vez, os mesmos movimentos. Isso também contamina! Sem medo de estar sendo assaltado por um bandido ou abordado pela polícia, contaminei-me por inteiro. Fui e voltei do café, juntando as penas e levantando os braços. Que delícia! Agora, nas manhãs do meu amanhecer, também levantarei aos céus, os meus dois braços de João. Tomado em assalto, vou me entregar de vez, viral, para o novo dia.
Bodoni, Giambattista
Bodoni, Giambattista (Saluzzo, 1740 - Parma, 1813). Foi Tipógrafo do Duque de Parma e apontado por ele como diretor da "Stamperia Reale" de sua cidade. O seu pai era impressor e foi responsável pela transmissão de conhecimentos e paixão nesse ofício. O prédio aonde a Stamperia se localizava é hoje sede do Museu Bodoni. Em 1798 criou a tipologia Bodoni Book, que provocou uma revolução na comunidade tipográfica da época e é usada até hoje. Em 1788 lançou seu Manuale tipográfico, contendo 291 alfabetos em várias línguas. Para Bodoni, a beleza dos textos residia na letra e assentava em quatro virtudes fundamentais: regularidade, nitidez, bom gosto e graça.
Canoa furada da eficiência

190 é o número que “se liga” quando há uma emergência. O brasileiro já o conhece: virou algoritmo de rotina. Vez por outra funciona e quase sempre trava. O composto deveria ser de “excelência” igual a 10. Hoje li matéria da FOLHA sobre a MP dos Portos. Fiquei sabendo que um navio estrangeiro que chega ao Brasil precisa de 190 informações para poder atracar. Para exportar “isso” e mais “aquilo”. Seis dias são gastos com documentos para liberar um contêiner. Em Cingapura apenas um dia e nos EUA, dois. Um contêiner no Brasil custa pouco mais do que o dobro que nos portos da Europa. Nota: não adianta ligar para o 190 e reclamar do pacotaço burocrático. Recomendamos ligar direto no 181 do disque denúncia.

26.05.2013

Caro Presidente Bolsonaro
Certeza que esse post não vai chegar até o Senhor. Seria muita pretensão e isso não me cabe. Sou apenas editor, livreiro, gráfico e um ex-conselheiro do MinC, da área de Humanidades, da Lei Rouanet. Estou aqui com os meus Eus e apostando que “alguém” entre os quase 5 mil “amigos” lhe dê o recado que segue: Limitar ao teto máximo de 1 milhão projetos da Lei Rouanet é um ato de total falta de conhecimento da importância que a Lei através da renúncia fiscal tem para bienais (livro e artes), museus, festivais, mostras culturais, orquestras, companhias de dança e teatros. Não sei quem anda “soprando” ventania no seu ouvido. Ou tempestade? Quem colhe planta ou algo assim meio no grito.
Carta aos Expositores

Durante a 22ª Bienal do Livro de São Paulo (9 a 19 de agosto de 2012), no Anhembi, enviei carta aos 400 expositores falando do esgotamento do modelo do evento e da necessidade da feira sair da “caixinha” e ganhar a cidade de São Paulo. A proposta recebeu elogios e ganhou a grande mídia. Hoje lendo a Revista São Paulo (Folha de S. Paulo) encontrei a seguinte matéria sobre a Bienal de Artes: “Bienal espalha arte pela cidade” e uma declaração do curador-chefe Sr. Luís Pérez-Oramas: “Sempre disse que a bienal necessita da cidade, e não o contrário”. Gostaria de ver o mesmo acontecendo com os livros. Na próxima semana apresento o projeto para 20 editores descontentes e para três dos candidatos a prefeitura da cidade.

02.09.2012

Carta para o Sr. Assis Chateaubriand
Revista PAN – Semanário de Leitura Mundial
Ano II – número 5 - 23 de janeiro de 1936 – página 37
Carta para o Sr. Assis Chateaubriand
Diário da Noite

O eminente periodista Assis Chateaubriand, que para honra do Brasil dirige a Empresa Diários Associados, o senhor o mais eloquente, o mais difundido, o mais dinâmico e movediço e o mais considerado nas rodas jornalísticas, como o mais integro e o mais honesto da grande família plumitiva, poz-se definitivamente ao lado de PAN. O Senhor Assis Chateaubriand, com essa larga e fecunda experiência que cristalizou nos êxitos sucessivos de suas múltiplas empresas, sabe que a melhor propaganda que se pode fazer de um homem ou de um diário ou ainda de uma revista, não é precisamente o falar bem da pessoa ou cousa; por isso, em seu primeiro número de PAN e como é natural e assim convém, para que a critica mais se valorize, enumera fatos e dados. Naturalmente o que o Senhor Assis Chateaubriand, que todavia, não chega a ser Deus, comete seus erros: disse que o primeiro número de PAN era de feição completamente comunista; que ao rebentar o movimento subversivo que é de domínio público, a direção de PAN se viu forçada a mudar a capa da revista. Já impressa, assim como “torcer” os artigos comunistas, para que parecessem fascistas. Oh! Prodígio intelectual dos redatores de PAN que de um NÃO fazem um SIM! Permita-nos o Senhor Chateaubriand que lhe observemos a inconveniência de exagerar e citar dados falsos, porque então a propaganda não surte o efeito que se busca e isso, amigo Chateaubriand, não nos convém... Os proprietários de PAN foram, são e serão contrários a toda ideia política ou social que preconize a violência.

Observação: O todo poderoso Chateaubriand respondeu “mandando” na calada da noite incendiar as oficinas da gráfica. Foi aberto investigação mais nada foi provado contra o mais bandido jornalista da história deste país. Foi o grande jornalista Cásper Líbero que garantiu a continuidade de PAN, imprimindo a revista nas oficinas de A Gazeta.
Ceticismo
Nós eternos jovens costumávamos “filosofar” sobre esquerda ou direita montados na linha horizontal das ideologias. Era fácil e simples olhar para os lados e decidir sobre qual o caminho ou a direção a seguir. Até para os centristas sempre sobrava um ou mais pontos no horizonte dos espaços. Naquela época pensamos igual fita métrica ou régua T. Hoje a tal linha horizontal de sóis e luas tornou-se um pendulo vertical com bolas de sebo nas extremidades. A direita hoje ocupa a cabeça da besta. Não faz muito tempo era à esquerda dona do pau de sebo. No meio dos desafios em cair, subir e ou continuar no sebo estão os corações do ceticismo. Aqui com os meus botões de ossos: Qual o tamanho da demora? Qual a dimensão do avanço? Qual a hora do alarme do caos? Sóis e luas não são mais os astros do céu político. Fim do mapa de cartas, fim de uma certeza qualquer de futuro.
Clô Orozco

Fui vizinho da empresária de moda Clô Orozco, na Rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis, São Paulo. Sua morte uma perde para todos que conheciam a sua marca inconfundível. Não sabia que suas empresas atravessavam problemas financeiros. Uma tristeza! Esse é o Brasil de hoje que abandonou seus empreendedores, artistas, intelectuais, inventores e cientistas. Hora de propor aos espertos do poder a grife do vale-vida.

29.03.2013

Codinome é coisa de “agente secreto”
Codinome é coisa de “agente secreto” que andava meio fora de uso desde o fim da guerra fria. Agora com a Lava Jato voltou com tudo. Está de Moro! Codinome é a designação que serve para ocultar a identidade de alguém ou para nomear de maneira secreta um plano de ação, uma organização ou quadrilha. Poetando a lista de codinomes na planilha da Odebrecht fiquei “abismado” com a criatividade do time da empreiteira na escolha dos nomes de batismo para o bando de corruptos. Alguns codinomes fazem parte dos versos do poema QUADRILHA do Drummond: Caju amava Belezura, que amava Ferrari, que amava Las Vegas, que amava Balzac, que amava Bitelo, que amava Caranguejo, que amava Mineirinho, que não amava ninguém. Gripado foi para o hospital, Anão para Salvador. Velhinho morreu de dengue, Todo Feio ficou para tio, Comuna suicidou-se e Misericórdia casou-se com Angorá, que não tinha entrado até agora na história da Lava Jato.
Colorau no Arroz
Foi numa “paneladinha” que conheci o colorau. No arroz! É gostoso? É. Prova. Então provei e gostei. Colorau lembra infância. Lembra acampamento, barraca de lona, panela de barro, colher de pau e ki-suco de uva. Arroz, batata inglesa, picadinho de acém e farinha de mandioca. É dessa época o aroma do condimento: pimenta, sal, cebolinha, coentro, cabeça de alho e colorau. É água na boca. Tempero, aroma ou cheiro? Paladar. No final das tardes de sol o fogo ganhava lenha iluminando o escuro e o breu da noite. Estrelas do sólido escuro. Noite que virava roda, laços, histórias de medo e terror. Ganhava respeito e pedaço de rapadura quem assustava mais. Lembro-me do grito da mula sem cabeça, da bruxa de facas no pão, do vampiro de chifres no telhado e da serpente de duas cabeças na vale das águas. Xixi nem pensar. Antes do sono - aquele amontoado de sombras. Perfil de traços. Hora de dormir. “Caga a luz Das Dores” e o silêncio da espera “já caguei”. Risadas. Fechávamos a barraca de lona com pregadores de roupa. Todos do varal do dia. Eu vi um gato preto! Juro. Dá azar? Cala a boca e dorme. Dorme de criança que o tempo não passa nunca... 
Controvérsia. Eu e as palavras
Eu e as palavras. Não há como negar a força de cada uma delas. Dividem-se em duas categorias: as boas de boca e as boas de texto. As boas de oratória (a arte do bem dizer) quando “ditas” no certo da hora - com energia e sabedoria - são sentenças perfeitas de vida ou morte. Assim acontecem com os pensamentos, os provérbios e as máximas. As palavras boas de texto (as que permitem interpretação e transmitem uma mensagem) geralmente acompanham a ideia principal ou ideia mãe de uma obra. Hoje me “peguei” com a palavra controvérsia (boa de boca ou boa de texto?) no sentido de discussão, disputa, polêmica da questão sobre a qual há divergências. Controvérsia é uma palavra quando usada de cunha em conflitos, brigas e bate-bocas costuma causar estragos e valorizar o contraditório. É o tal do “não é bem assim”. A palavra contenção, sinônimo de controvérsia, acende o sinal de alerta do princípio da dúvida. Assim sendo dou-me a escolher: palavra boa de texto!  Fica o aviso: contestação e impugnação são palavras que também habitam o universo das controvérsias. 
Copa do Mundo

Calma Brasil. Hora de serenar os ânimos. Apaziguar o coração humilhado. Perdido. Quase traído. Fomos vencidos pela espada alemã da bola. Gol é assim mesmo: bate na trave e entra. Pena que desta vez não foi um gol dos nossos. Dizem que em 50 foi igual. Luto e tristeza do povo da bola. Hora de abraçar nossas perdas e aprender com a dolorida derrota. Isso também passa Brasil.

08.07.2014

Copyright Act (Ato do Direito de Cópia)
A primeira vez que se tem notícia da utilização do termo copyright data de 1701, na Stationers Company (empresa de fiação da cidade de Londres, da Inglaterra), país que, mais tarde, em 1710, editou o que para muitos estudiosos seria o primeiro texto legal sobre o direito autoral, o chamado  Copyright do Estatuto da Rainha Ana e dizia respeito apenas a livros. (Ana foi a Rainha que uniu em um único estado soberano a Inglaterra e a Escócia, no chamado Reino da Grã-Bretanha). Existem correntes que sujeitam o nascimento do direito de autor à invenção da imprensa na Europa no século XV, criada por Gutemberg. Entretanto, é sabido que muito antes da invenção da imprensa na Europa, a China e a Coréia já contavam com técnicas de impressão e não se pode esquecer que já havia noções de propriedade sobre os trabalhos intelectuais na antiguidade, sobretudo na Roma antiga. No começo do século XIX, muitos Estados já haviam promulgado suas leis sobre direito de autor, sendo somente no final do mesmo século que vários Estados assinaram o primeiro acordo multilateral sobre o assunto: a Convenção de Berna de 1886. Em vigor até hoje, discute e regula as questões ligadas à proteção dos direitos de autor sobre obras literárias, artísticas e científicas, sendo tal tratado o mais importante ponto de referencia do Direito autoral do qual o Brasil é signatário desde 1922.


Cór significa Coração
Pasquale Cipro Neto está na “lista” das pessoas interessantes, que quero conhecer. Sou aluno do seu programa na CBN de nome A Nossa Língua de Todo Dia. Ontem aprendi sobre o pronome relativo CUJO (que serve para criar uma relação de posse) e onde é o seu lugar de direito. CUJO (palavrinha feia que começa com cu) deve ficar entre o possuidor e o possuído. Pronto! Aprendi. Nunca mais vou esquecer da dica. Sexo total (cabe aqui a música Amante Profissional do Herva Doce). Na aula de hoje aprendi sobre a palavra “cór” (sem acento). O acento diferencial é utilizado para permitir a identificação mais fácil de palavras homófonas, ou seja, que têm a mesma pronúncia. A surpresa de hoje foi saber que “cór” significa coração. Não sabia. Quando você diz: de cor e salteado significa “sem esquecer nada” do tempo que achávamos que era o coração o arquivo da memória afetiva, dos sentimentos e do amor. Resumindo tudo: amante profissional de cór entre o possuidor e o possuído cuja relação de posse é a língua nossa de todos os dias.
Cora Coralina e Rachel de Queiroz
Um dia tudo aconteceu. O beijo roubado de Ana. Não foi lá nos Becos de Goiás e nem nas águas do Rio Vermelho. Um dia Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas perdeu o medo e virou Cora Coralina. Moça linda - cheia dos versos - que no dia 20 de agosto de 2019 completaria 130 anos de idade. Foi em 1983, na sede da UBE, quando da entrega do Prêmio Juca Pato - Intelectual do Ano. Eu pequenino e ela gigante! Curvei-me quase meio metro para que ela pudesse me roubar um beijo. Poucas mulheres já ganharam o valioso prêmio Juca Pato promovido pela União Brasileira de Escritores. Foi Cora Coralina que puxou a fila. Depois vieram Lygia, Rachel, Pallottini e Belinky. Foi a escritora luso-brasileira Dalila Teles Veras que - contra tudo e todos – lançou sua candidatura e a duras penas conseguiu listar as trinta assinaturas necessárias para o pleito. . Uma mulher ganhando o Juca Pato e ainda uma poeta? Foi um momento de ruptura importante na entidade e que marcou época. Repeti o mesmo beijo roubado em 1992, desta vez de Rachel de Queiroz conterrânea e amiga da família. Meu avô paterno João Batista de Paula (O Batista da Light) era da cidade de Quixadá, no Ceará e na infância e adolescência haviam sido amigos. Rachel perguntou: você é neto do Batista da Light? Sou sim, respondi. Saudade dele. (meu avô faleceu em 1968). Batista era querido e estava sempre alegre e sorrindo, sentenciou. Rachel de Queiroz estava sentada confortavelmente em uma poltrona na sala da diretoria da UBE da Rua 24 de maio 250 aguardando o inicio da cerimônia. Curvei-me e a beijei. Foi o nosso último encontro. Rachel logo depois adoeceu e morreu em 2003, na cidade do Rio de Janeiro. Beijos roubados são assim: perigosos e inesquecíveis.
Daguerreótipo

Daguerre (pintor, cenógrafo e físico francês) foi o inventor do Daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado ao grande público, em 1839. Consiste numa imagem fixada sobre uma placa de cobre com um banho de iodeto de prata formando uma superfície espelhada. A imagem é ao mesmo tempo positiva e Negativo. Nos primórdios da técnica da daguerreotipia eram necessários cerca de dez minutos de exposição sob forte luz solar para obter uma imagem satisfatória. As primeiras figuras humanas registradas em fotografia foram as de um engraxador e seu cliente, que permaneceram na mesma posição até que a sua imagem ficasse visível. Na Foto (cópia de um daguerreótipo) de Pedro II, com aproximadamente 22 anos de idade. É a fotografia sobrevivente mais antiga do imperador.

Dante Quinterno
Dante Quinterno nasceu em Buenos Aires no ano de 1909. Foi um dos maiores artista de quadrinhos argentinos, famoso por ser o criador dos personagens Patoruzú, Isidoro Cañones e Patoruzito. Em 1924, ele começou a enviar seus desenhos para vários jornais de Buenos Aires e em 1925 publicou seu primeiro quadrinho Panitruco, em El Suplemento . Em 1936 (ano que estreou na Revista PAN – ano II – número 9 – página 13) fundou a Dante Quinterno Publishing. Patoruzú em seu auge vendeu 300.000 cópias. Na década de 1990, ele se afastou do mundo dos quadrinhos, tornando-se um homem de negócios, mas continuou explorando seus personagens com suas próprias empresas de publicação e licenciadas; Editorial Universo SA e Los Tehuelches SA. Dante morreu em 2003.
Das Alavancas
Lembro-me - ainda menino de tudo - do fascínio que foi com um bastão de escoteiro improvisar uma alavanca para mover do solo uma grande pedra. Aventura inútil. Hoje, ainda escoteiro, não usaria bastões para multiplicar forças de remoção. Delicada natureza que se move em roldanas. Vida que se alastra? Içaria do alto o meu próprio dorso. Equilíbrio de mirar de algum lugar o caminho dos bastões de deus.
Das Ambiguidades
Das ambiguidades. Dos ambíguos do trevo. E das encruzilhadas. Direção de dois e tantos sentidos, significado de dois ou muitos lugares. Polissemia de amores. E foi assim o derradeiro amor da Imprecisão com a Indecisão. Paixão das hesitações, do primeiro verso do dia. Poema torto? Ou um indeterminado verso perdido de outros. Assim são as palavras do trevo. Talismã de letras do livro das ambiguidades de tempo algum.
Das bigornas

Das bigornas. Do aço forjado, do ferro golpeado e do meteoro malhado e aguçado. Nelas - os chifres – são do norte e do sul. Ou seriam sinais do nascente e do poente magnético? Bússola do avesso. Lembrei-me de uma bigorna que ficou esquecida no chão do mar. Maré baixa aparecia na areia e ocupava existir. Estava lá e sempre. Maré alta desaparecia nas águas do sal e fim. Quem teria sido o seu açoite? Fico aqui pensando nas duas pontas da sua história de gente. Dualidades? Teria ela sido malhada, golpeada e forjada pelo bruto? Provavelmente. Na condição de utensílio somos serviços da escravidão. É o que somos. Filhos do tronco. Um dia volto lá e desvendo suas águas. Bigorna na areia de oceanos forjada no dorso das marés e do tempo. 

Das capacidades de Fazer Fogo
Das capacidades. Fazer fogo - contê-lo - acomodar e guardá-lo ainda selvagem. Das tentativas da natureza. Tem sido assim por milhões de anos. Há quem diga ser o cuspe de um deus indomável. Um dragão? E suas asas de vento. Das aplicações de rápida oxidação devorando corpos. É o fogo que nos devora. É o devorar que nos alimenta de pecados. Somos os predadores? Assim é a ganância. Dizer que é “nossa” é o mesmo que não ter natureza. Estamos ardendo. Não do corte no pé ou da unha encravada de dor. Estamos ardendo por dentro. Fogo fátuo da redoma que nos ocupa e habita. Somos o Ele indomável. Somos o maior pecado de nós mesmos. Somos o fogo que nos arde no movimento do fim.
Das Coisas Recentes
Vou até lá e volto logo. De pronto, no automático. Isso foi um instante “novo” e muito recente, do agora. Rápido e incomum. Aconteceu e pronto, em um único espaço de existência. Agora - que tudo se foi - não adianta ter pressa! Nada que é recente acontece do passado. Seria um futuro? Foi assim no primeiro dia, depois e em todos os outros, também. Andei - por nada e a toa - listando as coisas do recente e pude então observar que não há razão nas brevidades do tempo. Não há segredos e algo se revela em cena. Não há surpresas e eu levo um susto dos cabelos. Apenas um silêncio. Isso existe? Não há o que temer e logo o suor gela os ossos do corpo. Eu disse que voltaria logo. Foi o que fiz. E isso - de ter voltado - pouco importa. Sou do acaso. Talvez andarilho. Do grito na boca das palavras miúdas, no aconchego do repente - ouço vozes - e no melhor das coisas: adormeço. Das horas. Eu e o relógio que adianta - por nada, por teimosia, por morte na parede do finito.
Das diferenças
Eu as tenho por opção. Por desejo ímpar. Eu as tenho pelos meus atos e valores. Assim eu me julgo e me deixo julgar. Isso explica os meus mundos diferentes, distantes e desiguais. As pessoas que amo, respeito e admiro são e pensam diferentes de mim. Que sorte nos ocupa! São os “olhos” dos meus atritos! Fujo dos iguais. Eles me copiam, imitam o meu comum e até os meus fracassos. Quero os pecados dos atos maduros. O meu viver busca o desigual, a diversidade, a fraqueza, o desafio e a coragem que explode do medo. Das diferenças: quero o que sou.
Das empresas no tempo
Gosto de saber das empresas: do que elas significam, do que elas pensam e principalmente das suas origens. Empresas são criativos de simplicidade de mercado e nada têm de sobrenatural. Não são frutos da genialidade alheia e nem da loucura individual de alguns. Organizações são inventadas e reinventadas pela necessidade, pelo trabalho coletivo e pelo esforço das ideias. Na luta pela eficiência, florescem e outras tantas morrem aos montes, no volume, na variedade e na velocidade das suas próprias atitudes. Não há crescimento e nem inovação no campo dos que trabalham no corpo dos delírios da sorte. A plenitude de uma casa empresarial é o seu próprio sonho de existência e sua capacidade de reinvenção a cada novo tempo.
Das grafias
Das grafias. Aqui vai um cacareco de Aurélio. Perdoe-me! Em dias de Weintraub tudo é piripaque. Tô aqui no disparate da pachorra compondo letra para uma marchinha da hora. Encomenda de carnaval para o mequetrefe do Amorim, folia lá na pocilga da madame Brusqueta. Dinheirinho extra. Ela me pediu: quero palavras novas! Tá no Twitter. Inventa. Seja criativo homem de deus! Pensei pedir ajuda do Abraham. Abraham? O cara do revertério da educação. Aquele ministro do guarda-chuva, amigo do “Kafta”. Pergunta: você quer um cambalacho de carnaval estilo songamonga? Isso. Jiripoca do capiroto! Certo. Vou então escrever um disparate. Algo “imprecionante”. Um siricutico de chavecar o planalto. Quer no meio do despautério uma “paralização”. Tipo breque? Quero. Via custar o dobro tá? Vou ter que dividir autoria com o weintraub. Trato nas redes sociais!
Das ideologias
Das ideologias. Pobre Tracy (Antoine-Louis-Claude Destutt). Filósofo, político, soldado francês e líder da escola filosófica dos Ideólogos que involuntariamente “autorizou” dividir em “iguais e diferentes” a ciência do ideal. Encontrei na web: “conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas ou visões de mundo de um indivíduo ou de determinado grupo, orientado para suas ações sociais e políticas”. O desconhecimento agride. A falta de leitura e estudo mata. Admiro a amplidão dos “estados de consciência” e a “pluralidade da ciência das ideias”. O resto é porcaria. Aqui com os meus leões de barro: fico, continuo ou me deleto? Estou “facebook” na conta de poucos amigos que escrevem e pensam junto. Adoro os “divergentes” e os “sábios” que agregam o post. Aqui vale a inteligência, o humor da crítica, a sensibilidade do que é bruto, o espírito mágico do que somos: frágeis. Insustentável leveza do pensamento ou razão em desequilíbrio? Isso explica eu amar os loucos! Os varridos do senso comum. Os não iguais e diferentes do Tracy.
Das Lutas sem Fim
Das lutas sem fim. Lutas que começam - perpetuam-se - e acabam todos os dias. Não sei o que pesa mais: o cansaço de um dia de luta, a luta em si – que dura o que nos é perpétuo ou o início de todos as lutas do dia. Dúvidas e Eu lá. Certezas e Eu presente. Eu ausente. Eu morte. Eu partido e em pedaços. Luta que Eu não me movimento para essa ou aquela guerra - das tropas do leão - que não são minhas, nem sua e muito menos nossa. Tão nossa das nossas culpas, nossas dívidas. Eu e as perdas, Eu e as demoras. Busco o amanhã e que nele tenha mais de tudo. Insônia. Sangue dos justos. Assim são as lutas pela vida e das vidas sem fim - também lutas - que não acabam nunca. Nunca Eu hoje, nunca Eu ontem, nunca Eu amanhã. 

Das obrigações do Depósito Legal

O Depósito Legal é definido pelo envio de um exemplar de todas as publicações produzidas em território nacional, por qualquer meio ou processo. Tem como objetivo assegurar a coleta, a guarda e a difusão da produção intelectual brasileira, visando à preservação e formação da Coleção Memória Nacional. Nele estão inclusas obras de natureza bibliográfica e musical. A primeira instituição e regulamentação do depósito legal biblioteconômico brasileiro foi o decreto imperial de nº 1825, sancionado em 20 de dezembro de 1907, que determinava os administradores de oficinas de topografia, litotipografia, fotografia ou gravura, situadas no Distrito Federal e nos Estados, ficavam obrigados a remeter a Biblioteca Nacional um exemplar de cada obra que produzissem. Na época não existia a figura do editor de livros e a tarefa do depósito legal era de responsabilidade dos proprietários das oficinas gráficas. Monteiro Lobato talvez tenha sido o primeiro editor brasileiro que Imprimiu por conta própria, nas oficinas do jornal “O Estado de S. Paulo”, seu livro Urupês. (1918). Talvez tenha sido também o primeiro distribuidor de livros ao usar o serviço dos agentes postais do Brasil para distribuir seu livro em bancas de jornais, papelarias, armazéns e farmácias, além das 30 livrarias existentes na época.

21.04.2019

Das pedras
Das pedras. Das que estão no caminho. Das que fazem parte do desafio. Das pedras do céu. Das pedras do chão. Grandes, pequenas: grãos. Seriam cometas de luz? Pedras do ventre. Pedras do peito. Pedras do pão. Carregá-las no dorso do corcel, jogá-las na vitrina do sal, afundá-las no rio da morte ou ignorá-las na dor das bocas? Das palavras. Tudo tem hora: até do cuspe. Tudo tem gozo: até do vento. E o que nos assola agora? A poeira nos olhos.
Das Percepções Individuais
Das percepções individuais. Do juízo de valor: culturais, sentimentais, ideológicos e pré-conceituais. Não há controle - felizmente - sobre o que os outros pensam sobre nós. Isso nos liberta: dos parasitas, dos alheiros e dos pobres de espírito. Não há “gorduras” por carregar além das nossas.  Das percepções gravitacionais: fazer o melhor. No livre-arbítrio o não julgar e a subjetividade do gosto. É o que somos de nós e não o dos outros.
Das tormentas do espírito grande
Das tormentas do espírito grande. Das tempestades. Das pressões nas moendas dos ossos. Das juntas. Das tripas trituradas, igual presa no papel. Tão iguais e tão do absoluto. Não se conheciam - ainda! Encontro que sofre e sangra. Lâmina que corre veloz no perfil do rosto. Mortal. Foi um riscado, apenas um traço de rubor fatal. Desenhos sombrios? Ato de fluir feito rio: até o encontro de gotas e lagos. Imensidão. Espelho das águas que se afogam e se acomodam no delta de luz. Movimento de dobras. Eu barquinho de papel. Eu naufrago e sobrevivente. Eu titãs.
Década da Morte!
Outro dia um amigo escritor com mais de 80 anos me disse: entrei na década da morte! Os números não mentem: quem não morre antes (aqui o obvio ululante) não escapa dela. Poucos e raros vão além. São os felizardos! O que todos pedem: saúde e lucidez! Estou na década das perdas (país, amigos e pessoas próximas). Não é fácil perdê-los. Dói muito. Parece que todo mundo que é interessante está partindo deste mundo. Dona morte: vasta lista de perdas. Driblamos e logo adiante somos driblados. Que graça tem isso? Hoje no bloquinho do Luiz Felipe Pondé: “suspeito que o clímax da humanidade tenha sido o alto paleolítico”. A Dona Morte sabe das coisas. É carnaval.
Do ódio
Do ódio. Da aversão intensa. Da odiosidade e da natureza humana. Eu as vejo nas diferenças, no útero, nos seios da morte. Perplexidade da razão e dos covardes do medo. Sinto os extremos na vertical. Eu que acreditava serem horizontes. Distâncias de buscas e desejos do céu. Não há misericórdia na ignorância. Não há sabedoria na tragédia do sangue. Sinto-me pobre de fome. Sinto-me rico de fracassos e decepções. Não sei lidar com o magma do ódio, com o ferro do julgar e nem com o corte das perdas. Teria Eu escrito uma resposta digna? O afrontamento parece inevitável. Das explicações que não encontro no corpo que é a vida. Parece que estamos no alto da roda com lama ou no poço seco das águas da dor. É o sofrimento dos anjos caídos que não sabem e não querem voar.
Do Outro não é a mesma coisa que do Bom
José Mindlin gostava de uma boa “cachaça”. Socialmente bebia uísque. Foi o que me disse em uma viagem de carro que fizemos juntos até Ribeirão Preto, para uma feira literária. Isso ficou gravado na cabeça. Em 1989 - pelo seu amor aos livros - foi escolhido intelectual do ano e merecedor do Prêmio Juca Pato, da UBE. Fabio Lucas, presidente da entidade na época, puxou a fila assinando a lista de 30 nomes para a sua indicação. Fui o segundo. Mindlin foi candidato único e levou a estatueta, merecidamente. No dia da entrega do prêmio, na sede da entidade (Rua 24 de Maio 250, São Paulo/SP) a ideia era servir uísque. Compramos para os convidados uma caixa de Old Eight (doze garrafas) e para o homenageado uma garrafa de Ballantines, oito anos. A guarda da “preciosidade” ficou aos cuidados do Franco, dono do bar que ficava dentro da sede da entidade. O esquema era simples. Na hora H Fábio Lucas chamaria o Franco e diria: Franco, por favor, traga um uísque - do bom - para o Dr. Mindlin. Quando o homenageado chegou - quase em cima da hora - a festa já estava rolando e o Old Eight também. Fábio Lucas então chamou o Franco e pediu: Franco, por favor, traga um uísque - do outro - para o Dr. Mindlin. “Do outro” não é a mesma coisa que “do bom”. A troca deixou o saudoso Franco (que fazia o melhor pastel do pedaço) confuso. Mindlin, educadamente, molhou o bico e fez cara de limão azedo. Baixou o copo e colocou-o de volta na bandeja para espanto de todos: “Melhor não beber agora antes da cerimônia”, disse. Mais tarde, depois do término da solenidade, ficamos sabendo da troca das garrafas. Na verdade Mindlin bicou a opção três de uísque que até então não sabíamos existir no bar do Franco. Era uísque batizado, servido em garrafa de Ballantines, daquelas que nunca acabam. Pobre Mindlin. Logo com ele que tinha em vida o lema de fazer tudo com alegria.  
Dos olhos Seletivos
Dos olhos. Do que neles são seletivos, memórias, escolhas e opções. O escuro cativa e muito. O som de tudo esta além da conta. Parece que o mundo grita. Surdez das orelhas? Assusta pensar que é assim. No ensaio sobre a cegueira (Saramago) escutei pássaros e música. Das memórias: o eu menino, no cerol, danado de tudo. Das escolhas: tudo igual e novo. A vida continua inresistível. Das opções: certeza que a felicidade está dentro das palavras e o poema-sem-fim vive o seu melhor verso. Das travessias: onde estarão tudo e todos? No lugar das escolhas e nas prioridades que mudam sempre.
Editorial da Revista PAN
Estados Unidos do Brasil 26 de dezembro de 1935
PAN - Semanário De Leitura Mundial
Ano I – Número 1 – Propriedade de Cabral & Scortecci Ltda.
Direto e Responsável: José Scortecci
São Paulo - Rua Vitória, 754 e Rio de Janeiro - Av. Rio Branco, 91 - 2º andar – Sala 2
Impressão: Oficinas Editorial Novidades - Tiragem 60.000 exemplares.

Nós (editorial)

Pan surge como um imperativo da hora presente em que todos teem sede de saber e mal podem levar ao espírito os rudimentos de uma cultura que é rara para os não bafejados pela fortuna. O mundo inteiro pensa e age em vários idiomas e atitudes as mais diversas. Recolher tudo quanto o universo reflete em todos os campos de atividade inteligente é a primordial finalidade de PAN... A finalidade mais social que PAN (Deus dos rebanhos, personificando a natureza. Em grego significa TUDO) apresenta é o ser uma revista nitidamente popular na qual a preocupação máxima será a do melhor conteúdo, a da melhor essência, despida de atavios e posta ao alcance de todos... Sem partidarismo, portanto, seremos o porta-voz animado de tudo quanto se produzir em nosso redor, longe ou perto, sem comentários, sem restrições....Anima-nos o desejo de vencer...

José Scortecci (Avô Materno).
Em busca de mais Cerol

Fortaleza é luz. Iracema - a filha de Araquém - dorme suas águas aos olhos do mar. Martin e Caubi partiram cedo com a jangada dos peixes, nos primeiros ventos da manhã. Eu, filho dos Tabajaras, espero pelo cardápio do tataravô Alencar. Quero saber dos peixes, das lagostas, dos camarões, da água de coco e principalmente das tapiocas de mel. Estou mais uma vez voltando. Até quando? Não sei.

17.11.2012

Escriptorio da Mathematica
ESCRIPTORIO - Não escondo de “ninguém” que sou um apaixonado pelas palavras. Gosto de saber da origem e da evolução de cada uma delas. Estou lendo a coleção de Revistas PAN, que durante 10 anos (1935-1945) foi um dos maiores semanários do Brasil, com tiragem de 60 mil exemplares. Meu avô materno José Scortecci era o proprietário e editor. PAN que publicou “Triunfo” obra de estreia de Clarice Lispector (número 227 de 25 de maio de 1940) abrir espaço não só para escritores consagrados (Menotti Del Picchia, Benjamim Costallat e outros) mais também para escritores iniciantes e ilustradores de talento. Acima uma palavra de tirar o fôlego “escriptorio” (usado em Portugal até setembro de 1911 e morreu no Brasil durante a década de 1920) que é o mesmo que “escritório”. Post de publicidade da Casa Pratt, com endereço na Praça da Sé, 16/18. O texto é brilhante: “Não desperdice suas energias fazendo cálculos mentalmente ou a lápis, incorrendo, além disso, no risco de errar. Realize a tríplice economia proporcionada pela posse de uma machina de calcular DALTON, que lhe permite descanso cerebral, rapidez e exactidão mathematica. Qualquer que seja o cálculo, será exacto e infallivel. Para o seu escriptorio é um cérebro de sábio creado em aço, que jamais erra ou cansa”.
Esmolas para Belarmino
Pedir esmolas no Brasil já foi crime. Isso eu não sabia. Fazia parte das contravenções penais e pena de 15 dias a três meses de detenção. Deixou de ser crime em 2009. Esmola significa dádiva caridosa feita aos pobres. Conforme a religião tem lá sua “justificativa” para a prática de atos óbolos. Por ser voluntário - dá quem quer e pode - vale o que manda o coração. O tal dízimo (décima parte de algo, paga voluntariamente) enquadra-se no óbolo em questão. Até ai nada contra. Pago lanches, café com pão, pasteis e até almoço para quem me pede. Hoje lendo sobre Galileu Galilei dei de cara com um tal de São Belarmino, jesuíta italiano e cardeal católico, canonizado em 1930. Belarmino era fã das esmolas (recebidas, claro) e pregava cinco vantagens para quem praticasse óbolos: satisfação por pecados cometidos, méritos para a vida eterna, perdão dos pecados, confiança em Deus e inspiração dos pobres a rezarem por seus benfeitores. Inquisidor cara de pau. Foi Belarmino que, no ano de 1616, por ordem de Paulo V, notificou Galileu sobre um vindouro decreto condenando a doutrina de Nicolau Copérnico de que a terra se movia e que o sol era imóvel. Ou seria a terra um cubo copernicamente plano?
Esperança

Calor da Galiléia, calor na casa de Lebeus. Água na boca, no corpo, nos olhos. O veleiro do santuário de São Judas Tadeu ferve reza, orações, lágrimas e dor. Esperança na praça, solidão incomum e mundos. Fé nas medalhinhas: maçã, machadinha e livro no cordão da fé.

29.10.2011

Esse tal de Parmênides
Esse tal de Parmênides é “deveras” interessante. Ele ordena as qualidades (limitado e o ilimitado) dividindo - tudo e sempre - em dois elementos: luz e trevas, positivo e negativo, vida e morte, etc. Parmênides via as mudanças físicas que ocorrem no mundo como uma mistura onde participam o ser e o não ser. Contraste entre a verdade e a aparência. Premonição sobre o hoje? Olha que legal: Pensar sobre nada é não pensar da mesma forma que dizer nada é não dizer. E mais: O ser é e não pode não ser. Fico agora duvidando se de fato existimos no tempo-espaço do cosmo. Cadê o meu René? Deve estar na outra estante ou teria ele sido um “Descartes” de sebo? Ego cogito ergo sum. Volto para as dualidades. Entrei na casa do leitor. E agora? Difícil largar. Uma coisa puxa outra e mais outra. Tudo alfinim. Quem lembrar "dele" um dia foi criança. Será que Parmênides um dia comeu do doce. Não pode não ser!
Eu e as descobertas do Brasil
Eu e as descobertas. Quem descobriu o Brasil? Bra, bre, bri, bro, bru! Foi assim. Época de infância, lugar de risadas e de inocência casual. Não foi Cabral! Não foi Pedro! Não foi Álvares, Foi Vicente Pinzón! Pisa aqui, pisa acolá, pisa! Brincadeiras: quem lembra? Dizem que o moço Pinzón atingiu o Cabo de Santo Agostinho no litoral de Pernambuco, no dia 26 de janeiro de 1500. Antes do carnaval? Impossível. Aqui “no latifúndio dos papagaios” nada acontece de fato antes da folia. Calor, preguiça e Urupês. Penso no Jeca Tatu. Bonzinho, abandonado e doente. Bra, bre, bri, bro, bru! Isso explica a deixa do congresso, com anuência do supremo ego, terem mudado a data do descobrimento do Brasil para 22 de abril. Sobrou para o Cabral. Pinzón (isso quase ninguém sabe) foi codescobridor, junto com Colombo, da América de Donald. Era capitão da caravela La Niña, uma das três embarcações da expedição de Colombo. Sorte “nossa” que no ano de 2020 a folia vai cair no mês de fevereiro. Adoro carnaval de máscaras. Ainda não escolhi a da vez. Tô aqui e acolá entre Pinzón, Toffoli ou Weintraub?
Eu e meus Botões de Osso
Eu aqui com os meus botões de palavras. O que terá acontecido no reino das abotoadeiras que eram rosas? Outra voz veio e fez parceria de canto. As casinhas da blusa se fecharam em nós e os prontos para o baile perderam a derradeira dança do amor.  

Eu e os Livros

Os livros estão no dorso da minha cabeça desde os anos 70. Os números impressionam e o tempo também. Em agosto completaremos 37 anos e a incrível marca de 10 mil títulos em primeira edição. Aqui cabe a piadinha do letrado em sua biblioteca e a pergunta inevitável: você já leu tudo isso? - Não é Sim. Foi até agora a melhor resposta que escutei de um amigo dono de uma imensa casa com livros. Ando cuidando do meu acervo e o trabalho de ter pelo menos um exemplar de cada na estante. Os livros não me assustam. São meus iguais e inquietos como Eu. Leio uma capa e logo o rosto do autor me chega do nada. Quando dou conta do imaginário vejo uma sala de muitos. Foi Sabino que um dia me ensinou: Scortecci eu gosto de quem gosta de mim. E assim tem sido sempre. Eu e os livros.

Eu não sabia Jamais!

Dor de cabeça que não passa agora tem nome: Rosemary. Lula disse através de sua assessoria que não faria comentários sobre assuntos particulares. Particulares? Um homem público no posto de presidente da república deve e se obriga a explicar à nação o que a moça andava fazendo em suas viagens mundo afora. Baton na cueca é pior do que dizer que - mais uma vez - não sabia de nada. No mínimo devolver aos cofres públicos o dinheiro das mil e uma noites. Cara de pau!

01.12.2012

Eu, Isaac Asimov
Tornei-me fã de Isaac Asimov em 1972 quando iniciei uma longa e quase completa viagem lendo e relendo sua imensa obra de ficção científica. Eu, robô (1950) foi o primeiro de todos. Um clássico. Nove Amanhãs (1959) o meu preferido. Na verdade todos são maravilhosos e eternos. Asimov é também o responsável pelas leis diretivas da robótica: 1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2) Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. 3) Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis. Mais tarde Asimov acrescentou a “Lei Zero”, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal. Há quem ache tudo isso uma babaquice ou uma infantilidade de Isaac. Um engano. Ninguém melhor do que ele foi capaz de enxergar o futuro. Quem poderia imaginar que Asimov escreveria as próprias leis de sobrevivência da humanidade. 
Eugênio Gudin
Antes da hora não vale! Início dos anos 80 Eugênio Gudin (economista liberal brasileiro) era, até então, nome do diretório acadêmico da faculdade de economia Mackenzie. Gudin viveu 100 anos e três meses. Em 1983 noticiaram sua morte. Fiquei muito triste e iniciei a leitura de sua obra de nome “A controvérsia do planejamento na economia brasileira”. Dias depois - a rádio que havia dado a falsa notícia – pediu desculpas. Professor Gudin viveu mais três anos e alguns meses. Chico Anísio, Renato Aragão, Silvio Santos, José Carlos Garbuglio e outros, também passaram pelo constrangimento de morrerem antes da hora. Desagradável. Comigo aconteceu uma única vez e a experiência foi traumática. No dia 22 de março de 2013 atendi varias ligações na editora quando da morte do escritor e jornalista João de Scantimburgo. Estou vivo! Foi o outro João! Repeti quase uma centena de vezes o mantra da salvação. Mesmo em tempos de internet desmentir dá muito trabalho e leva tempo e corre-se o risco de escutar alguém dizer: Já vai tarde!
Fazer diferente!
Fazer diferente! É o que dizem as cabeças. Escuto a ideia quase que diariamente. Um sinal de que o otimismo está voltando? É possível. Gosto da sensação que a ideia provoca frente às inquietações da vida. Fazer diferente enquadra-se no espelho do “mudar” com inteligência e sabedoria. Há um ar de serenidade, de calma, no conceito “fazer diferente”. Sim ou não? Gosto de tudo que vem do coração - do entusiasmo selvagem - e amadurece na cabeça do tempo. Experiência? A energia do “fazer diferente” tem princípios, atitudes, jeito de agir e até de plenitude de voo. Nele você não precisa chutar o pau da barraca, ser radical, insensato e nem rasgar as páginas do guia do seu norte. Pode ser atitude, um não à inércia - que consome o corpo – ou até o ativar de botões. De teclas! Fazer diferente é criativo, equilibrado e antenado com a razão das coisas. Fazer diferente é do bem. Por fim e não mais do que isso, o “fazer diferente” deve agradar os gregos lúcidos e os troianos enlouquecidos. Ou seria o verso da moeda? Deve agradar - sistematicamente - direita e esquerda. Pede ser o bom senso espiritualizado, o inicio de qualquer coisa de novo e melhor.
Fernando Sabino em "Gosto de quem gosta de mim"
Conheci Fernando Sabino nos anos 90 (na época do livro “Zélia, uma Paixão”) em um evento literário em São Paulo. Trocamos “gentilezas” e o tempo passou. Na oportunidade não pude lhe dizer da importância do livro O Encontro Marcado (escrito em 1956, ano do meu nascimento) na minha vida. Nosso verdadeiro encontro aconteceu na BAND, no programa da jornalista Silvia Poppovic. Além de Sabino estavam Lucélia Santos (Atriz) e um músico, que não me recordo do seu nome. O papo foi sobre “cultura” e o que cada um andava fazendo de bom. No final do programa Poppovic abriu espaço para perguntas entre os convidados. Lucélia Santos me perguntou sobre o assunto do meu livro: A Morte e o Corpo, o músico perguntou para Lucélia Santos sobre sua interpretação no filme Escrava Isaura (1977), e Eu - sorte minha - ao Fernando Sabino: - O que é uma boa história? A pergunta não o surpreendeu e a resposta veio de pronta: - Uma boa história é aquela que pode ser contada! Nunca me esqueci disso. O melhor veio depois, já no pátio da emissora, no bairro do Morumbi. Ficamos esperando a chegada da Van, que o levaria direto ao aeroporto. Pude então abrir o coração e lhe contar sobre a importância do seu livro na minha vida e que o admirava muito. Sabino se emocionou “juro que vi lágrimas nos seus olhos” e então me disse: “Scortecci, gosto de quem gosta de mim”. Encontramos-nos ainda mais algumas vezes em bienais do livro do Rio e de São Paulo. Sabino morreu em 2004, aos 80 anos de idade. 
Fogo de Palavras
Nosso amado Museu da Língua Portuguesa: nós povo, amantes da língua, nós leitores, escritores, poetas, músicos, artistas, gráficos, professores, editores, livreiros, nós alunos, grafiteiros, jornalistas, nós crianças, acadêmicos, museólogos, teólogos, nós filósofos, linguistas, nós gente, vamos reedificá-lo, refazê-lo, reerguê-lo, reorganizá-lo, reestruturá-lo que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!
Foi de arrepiar!

Quem são os “poucos” e os “vândalos” que assolam o que é justo e de direito? Hora de identificá-los e prendê-los na forma da lei. O povo quer o que lhes foi prometido: educação, saúde, moradia, transporte e segurança. Não podemos macular o que é puro, belo e valioso na ideologia do coração. O povo brasileiro “acelerou-se” e cantou com amor o seu belíssimo hino. Futebol também têm dessas surpresas. Foi de arrepiar. Nada - ainda - está perdido na Terra dos Canarinhos.

23.06.2013

Goebbels mexeu com os vivos!
Hoje o dia foi “pesado”. Esse tal de Goebbels mexeu com os vivos. Na Wikipédia: “político alemão e Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista entre 1933 e 1945. Um associado e devoto apoiante de Adolf Hitler, ficou conhecido pelas suas capacidade oratórias em público e pelo seu profundo e fanático anti-semitismo”. Figurinha ruim. Nem com “goma” gruda. Ainda na sua biografia “Goebbels ambicionava ser escritor”. Aqui como os meus ossos: vai que esse imbecil escreve “aloegos” e os publica em livro. Provérbio português: O papel aceita tudo! Juro que até perdi a cesta do alto. Eu e os mastros das caravelas da história. Quem olha vigia! Olha o grito: é do caralho! No horizonte sinais de terra. Vai-te Alvim. Vai-te covarde. No dia seguinte Goebbels e a sua mulher suicidaram-se, depois de terem matado os seus seis filhos com cianeto.
Gostei de Saber da Sorte
Sempre gostei de saber da sorte. Minha, dos outros, de alguém que um dia ganhou alguma coisa. Sou um comprador de bilhetes dos “bichos” leão e borboleta, e um disciplinado jogador da MEGA. Adoro rifas, bingos e roletas. Tenho até um número da sorte: o preto 17. Hoje continuo lendo na mídia sobre “as fraudes” na CEF. Nada contra Itapipoca, Serra da Saudade, Borá, Araguainha, Chapada de Areia e Parari. Cidades sortudas! São Paulo, que representa mais da metade das apostas nas loterias, no jogo das bolinhas e das probabilidades, continua de azar dos infernos.  “De graça até injeção na testa” parece ser o slogan dos aloprados da sorte grande!
Herzog, Konder e Audálio: todos mortos!
Parque D. Pedro II, em São Paulo. Na época (com 20 anos) fui inscrito na CCS – Pelotão de Transporte e por ser motorista categoria B, assumi a condição de motorista de campo do Ten. Cel. Pedro Luiz da Silva Osório. Lembro-me que saímos em missão apenas duas ou três vezes. A mais importante (creio eu) foi no desfile Militar de 7 de setembro, na Avenida Tiradentes. Com dois meses de quartel e cinco da morte do jornalista Vlado (Vladimir Herzog) fui escalado para o P1 (posto de serviço) no QG do II Exercito, no Parque do Ibirapuera. O P1 era estratégico. Um veículo militar, Eu de motorista (com uma submetralhadora beretta M-12) e um segurança, com FAL (fuzil automático leve), de prontidão, a serviço do General Dilermano Gomes Monteiro. Homem frágil, inteligente e apaixonado por literatura. O meu livro de nome A Morte e o Corpo foi escrito no plantão do P1. Os assuntos Herzog e Konder eram proibidos. Na verdade não existiam. Depois da abertura política conheci o Rodolfo Konder na sede da União Brasileira de Escritores. Fomos amigos. Tive a honra de publicar um livro seu de nome Palavras Aladas. Herzog veio depois, através do amigo Audálio Dantas e o seu livro de nome As duas guerras de Vlado Herzog. Dilermano, Konder, Audálio e Vlado estão mortos. O ano de 1976 ficou.
História em Discursos
Em “História em Discursos” de Marco Antonio Villa (Editora Planeta), resposta de um antigo sábio Asteca três anos após a conquista do Império Asteca pelos espanhóis: “Somos gente simples, somos perecíveis, somos mortais, deixai-nos, pois, morrer, deixai-nos perecer, pois nossos deuses já estão mortos. Nós sabemos aquém se deve a vida, a quem se deve o nascer, a quem de deve o gerar, a quem se deve o crescer, como se deve invocar, como se deve rogar.”
História pra boi dormir sobre o LIVRO
O povo sumério que adorava brincar com argila inventaram o livro, isso por volta do ano de 3.200 A.C. na Mesopotâmia, atual Iraque. Publicavam “poesia” e vez por outra, leis, assuntos administrativos e religiosos. Isso explica a grande quantidade de poetas mundo afora. É sabido que poeta é voador, nômade de versos e um inquieto. Foi pensando na portabilidade e na convergência das coisas por um produto essencialmente “portátil” que inventaram o papiro (obtido a partir de uma planta egípcia) e o pergaminho (do couro de animais). O papel chegou à Europa, trazido da China, por mercadores árabes no século 12. Os livros até então eram manuscritos, copiados por monges analfabetos. Um exemplar levar até mais de um ano para ficar pronto. Foi quando alguns poetas se revoltaram e se tornaram gráficos, editores e livreiros. Gutemberg foi o primeiro, isso no ano da graça de 1450. Não satisfeito com o tempo gasto para produzir suas edições inventou a prensa e os tipos móveis. A primeira obra impressa por ele foi a Bíblia que, em pouco tempo, o levou a falência.
Ideário das Bibliotecas
O que seria um “ideário” na visão do mundo? Um cenário de coletâneas. Fiquei pensando no assunto comigo mesmo. Ideário como cenário de livros. Uma biblioteca! Uma reunião de descobertas, invenções e propósitos do conhecimento. Uma seleta. Na concepção da razão literária uma obra da inteligência. Assim é a criação: oportuna e voraz. Na exposição do mundo - das agitações das palavras - ideário é o mesmo que feixe de ideias. Um conjunto. Um agrupamento de forças. Isso me levou até o menino chinês quebrando palitinhos de bambu na beira do rio Yang-Tsé-kiang. Filho - disse o Pai -  junte-os e tente quebrá-los ao mesmo tempo. O menino do Rio Azul até que tentou. Fez força e não conseguiu quebrar o ideário. Pai - não dá - respondeu. O que faço? Nada, respondeu o Pai. Palitinhos de bambu são letras. Apenas isso. São frágeis e não escrevem nada sobre a visão do mundo. Tente o feixe, tente palavras e logo você terá uma coletânea de ideias. Um ideário. E possivelmente uma biblioteca.
Imprimir no Espírito
Pergunta: você é capaz de imprimir no espírito? Essa é nova e eu descobri hoje. Lembrei-me de uma questão “igual e muito diferente” dos anos 70: qual a cor do amor? E nós - jovens de tudo - respondíamos pelo deus: amor não tem cor! Levávamos o cálice, as hóstias e o silêncio até o altar. E pronto. O amor não tem cor! Era a resposta de pronto da época e tudo ficava assim e por isso mesmo. E a loucura da flor de plutônio? Veio depois. Novamente a pergunta: você é capaz ou não de imprimir no espírito? Eu sei transferir - vida e morte - para o papel, sei untar tintas, esfregar grafite nos olhos, riscar traços na pedra e até imprimir passos na areia do mar. Optar pela resposta do sim seria de fato saber imprimir no espírito? Optar pelo não – o de não saber - seria deixar o vento bater seco na vela do desamor? Exijo uma resposta: você sabe ou não imprimir no espírito? No passado foi simplório acreditar que o amor não tinha cor. E agora? Imprimir é verbo transitivo da terceira conjugação e o “ir” é imperativo. Saudade do clichê, do carimbo, da tatuagem do chiclete, do soldadinho de chumbo, das figurinhas carimbadas, da coleção de tampinhas, das balas de menta, do jogo de gude, das arraias no céu e das linhas no cerol. Então respondi: imprimir no espírito é pintar o branco do papel com a cor do amor. 
Jabota Filomena
Já criei uma jabota. O quintal lá de casa no Ceará era de meio quarteirão somando as três casas da família Paula, da Vila Santa Terezinha, santa de reza e promessas da minha avó paterna Sarah. A jabota aparecia com o círculo das águas e sumia no verão. Foi assim durante anos. Mudei-me para São Paulo em 1972 e a moça da carapaça ficou por lá em algum lugar do passado. Hoje o espaço é um grande estacionamento e pertence ao Banco Central. Filomena (seu nome) era uma legítima “piranga”, heroína silvestre do folclore indígena. Diz à lenda que no dorso da sua carapaça inviolável moram os segredos e os sonhos místicos da floresta. Iara, senhora das águas, dorme na carapaça de uma jabota protegida da mula sem cabeça, do anão curupira e do lobisomem das luas. Saci Pererê, menino alegre e peralta, quando a mata arde e queima, deita-se na relva para escutar os conselhos sábios do um velho Jabuti. Juntos choram a dor da vida. É o que dizem. Boitatá cobra de fogo que protege a floresta da desgraça humana é irmã do bem. É ela quem primeiro alerta a bicharada do perigo em tempos de fogaréu. Filho de boto existe? Existe sim. Moço bonito, sedutor, poeta e namorador de causos. A lenda diz que boto não consegue fazer a metamorfose completa de animal para homem e, por isso, usa um chapéu feito do couro de jabota. Até a Cuca, bruxa má, que sequestra e come crianças que desobedecem a seus pais respeita os jabutis. É o que dizem. Isso tudo para lembrar - do nada - do anjinho de gesso que a professora Rosa me deu de presente de aniversário quando criança. Disse ela: coloque o anjinho na cabeceira da sua cama, do lado da sua jabota. Foi o que fiz e faço: sempre que penso nas sazonalidades de Filomena. 
João Carlos Marinho no Abafo
Mais uma perda no mundo das letrinhas: João Carlos Marinho, autor da obra "O Gênio do Crime" que completou 50 anos em 2019 com mais de um milhão de exemplares vendidos. Devo minha paixão por álbuns de “figurinhas” ao Rei Pelé e ao detetive Bolacha. João e Pelé são figurinhas carimbadas e valem tudo no jogo do abafo. 
Jorge Miguel Marinho
O escritor Jorge Miguel Marinho - que nos deixou essa semana - era reservado, quieto e um observador como poucos. Conhecemos-nos em 82, na Galeria Pinheiros (Teodoro Sampaio, 1704), em São Paulo. Estava reformando a loja de número 13, para ali implantar uma pequena livraria e o início do que viria a ser no futuro a Scortecci Editora. Jorge Marinho parou diante da loja e ficou observando o trabalho de pintura, vitrina e iluminação. Usava uma boina na cabeça e óculos de aros redondos. - O que vai ser aqui, perguntou. - Uma livraria e editora. Uma editora? Surpreendeu-se. - Sim, respondi. Estamos começando e a ideia é publicar livros de novos autores. Jorge Marinho sorriu e disse: que bacana. Eu sou escritor. Moro aqui no prédio em cima da galeria, explicou. Foi o inicio de uma longa e boa amizade. Sempre que podia dava o ar das graças na loja 13 e nos eventos literários promovidos pela Scortecci. Jorge Marinho era carioca, mas de coração paulistano. Vencedor de um Jabuti (Te dou a lua amanhã). Acompanhei de perto o crescimento de sua carreira literária e sucesso. Em uma entrevista em 2013 declarou: “se eu não escrever, não vivo bem”. Eu digo o mesmo. Isso explica a minha admiração pelo simpático amigo escritor da Rua Teodoro Sampaio.
Lagarta do pé de Vento
Lagarta do pé de vento virou borboleta azul do céu. Eu vi, eu estava lá, eu desejei voar igual: Foi assim que a vida me levou além do último horizonte. Existe o tempo de todos. É assim que a natureza se manifesta. Fui menino, depois jovem, adulto, maduro e agora idoso. Aconteceu! Estou pronto? Ninguém está. Voar ainda me desafia. Até quando? Eu e minhas – manias – de borboletas. Adiante o mirador da metamorfose. Silêncio de encontrar e partir – novamente. Despedida? Não. Desapego. Lagarta é assim. Simplesmente voa.
Leite é vida

Leite materno não mata! O moço disse diante da tragédia: “Minha mãe não estudou, não sabe ler e enxerga muito pouco. Mesmo assim sabe dar um remédio, aplicar uma injeção e ainda cuidar dos filhos.” Não dá para aceitar uma enfermeira injetar leite materno em um recém-nascido e dizer que se enganou. Improbidade humana.

10.11.2011

Lendo 1942 do João Barone

Um dia eu tive 21 anos. Alguns duvidam disso. A vida é assim mesmo: “Desleal e desumana”.  Palavras do meu saudoso pai Luiz Gonzaga. Ele costumava dizer: “Não adianta comprar um canivete. O inimigo carrega um facão”. Estou lendo o livro “1942” do João Barone, rebelde baterista dos incríveis “Paralamas do Sucesso”. Doce saber do seu pai “João Silva”, pracinha brasileiro que lutou na II Guerra Mundial. Meu pai Luiz foi do Pelotão Sampaio. Chegou até a embarcar em um navio americano, mas o cascudo não zarpou. A guerra havia acabado! Minha avó Sarah - da promessa feita pela vida do seu filho Luiz - foi então resgatar na paróquia o anel com brilhante entregue ao padre. Voltou de mãos vazias. Hoje, “quase aos 60” compreendo o real significa da máxima “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Morrendo e aprendendo! 

12.01.2014

Linda Palma e Marcos Rey
Conheci Marcos Rey (Edmundo Donato) nos anos 80. Ficamos amigos e sempre que possível, nos encontrávamos nas noites literárias da pauliceia desvairada. Sabíamos da sua doença (hanseníase), mas o assunto era intocável. Foi paralisia infantil? Alguém um dia lhe perguntou. Ele balançou a cabeça – de sim e de não: e sorriu. Era de um bom humor invejável. Estava sempre sorrindo. Por um bom tempo frequentamos a UBE e trabalhamos juntos na indicação de nomes para o Prêmio Juca Pato (Intelectual do Ano). Marcos Rey morreu e 99 e até hoje seus livros são sucessos de venda. 
Hoje fiquei sabendo pela FOLHA do falecimento da Palma (Linda Palma Bevilacqua Donato) viúva do Marcos Rey, aos 90 anos. Palma era o anjo da guarda de Marcos. Estavam sempre juntos. Inteligente e de um coração maravilhoso. Gostava de livros e era uma leitora voraz. Nos anos 2000, depois da morte do Marcos, me ligou perguntando sobre publicação de livro. Estava escrevendo suas memórias. Eu lhe disse: traga que eu publico! “Não está pronto. Estou ainda colocando a vida no papel”, respondeu. Depois fiquei sabendo que teve um grave AVC e o tempo passou. Não sei se concluiu ou não o livro. Vou procurar saber!
Luiz Caldas Tibiriçá
Foi o professor Ézio Grassi Peludo que me apresentou Luiz Caldas Tibiriçá (1913-2006), geólogo, arqueólogo e lexicógrafo, considerado um dos maiores especialistas em línguas indígenas da América do Sul. Tibiriçá e Ézio frequentaram a editora durante anos. Ficamos amigos e o que hoje sei de tupi-guarani devo a ele. Em dado momento da vida Tibiriça pirou da cabeça. Abandonou tudo e foi morar em uma vila de pescadores na cidade de Cananéia, litoral paulista. Ficou lá um par de anos. Foi se “curar da civilização”, disse ele. Pude conhecê-lo no período da sua volta ainda mais sábio e encantador. Uma vez o levei comigo para um evento literário na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Na estrada ele me pediu para comprar uma penca de pacovas. Uma penca? Sim, disse ele. Foi o que fiz. Tibitiça comeu durante a viagem 32 pacovas. Acangaíba!
Luiz Vieira o Menino Passarinho
Ele é “menino passarinho”. Nasceu em Caruaru, Pernambuco, em 1928. Em outubro, no dia 12, completa 91 anos. Eu e muitos, o julgavam “morto”. Surpresa maravilhosa saber que não e que ainda voa neste mundo em algum lugar do Rio e no coração da música brasileira. Luiz Vieira (Luiz Rattes Vieira Filho) cantor, radialista e mais do que tudo: compositor. O conheci no final dos anos 70 e me apaixonei pelas suas composições e pela letra da música menino passarinho: Você é isso / Uma beleza imensa / Toda recompensa de um amor sem fim / Você é isso / Uma nuvem calma / no céu de minha alma / e ternura em mim / você é isso” Versos belos, simples e eternos. Luiz Vieira você é isso e tudo. É beleza imensa e recompensa de uma vida sem fim. Você é nuvem calma no céu da minha alma. É ternura. Você é menino passarinho.
Mãe Nilce das seis da tarde

Querida Mãe Nilce: algo toca e nos abraça sempre que a vida marca mais um tempo das seis da tarde. Foi assim, quase sempre, nos nossos últimos anos de separação. Não há mais os sinos e nem as orações pela graça de Maria. A vida é veloz. Tudo ficou no passado antigo, no corpo ausente e no silêncio da perda. Naquela hora do entardecer, ainda me pergunto do carinho, ao escutar a sua inconfundível voz: “João, aqui é a Mamãe” como se eu não soubesse que era ela - eterno amor de mãe -, e ela - que era a voz presente do seu filho caçula.

12.05.2012

Mãe o que é Golden Shower?
Mãe o que é golden shower? Não sei filha. Onde você viu isso? No twiter do Bolsonaro. Pergunta para o teu Pai ou vê no Google! Pai o que quer dizer golden shower? Não sei filha. Vê no Google. Mãe quer dizer chuveiro dourado. Chuveiro dourado? E o que significa? Aqui tá dizendo que é quando um parceiro no ato sexual urina na cara do outro. Deve ser engano filha. É não. Tá bombando! Filha deixa de firula e pergunta logo para o presidente. Não foi no twiter dele que você viu isso? Foi. Mãe o Bolsonaro também não sabe. Tá devolvendo a pergunta. O que falo pra ele? Fala qualquer coisa. Diz que é o mesmo que mijar na cara do povo.
Mario Capelo
Hoje às 7h45 perdemos o queridíssimo Mario Capelo. Eu o amava. Foi o tio “maluco” mais lúcido da minha vida. Admirava suas ideias, invenções, maluquices, acrobacias e aventuras. Foi em vida o melhor amigo do meu Pai Luiz Gonzaga. Juntos eram imbatíveis! Para quem não o conheceu em vida diria que era uma mistura perigosa de Christopher Lloyd, Indiana Jones e o professor Pardal. Quem me conhece com o coração (Caetano Veloso: De perto, ninguém é normal) sabe do respeito e carinho que tenho pelos criativos, os doidos de pedra, os malucos do céu, os agitados do mar, hiperativos e tripolares do universo. Deus sabe que o mundo é deles! Mestre Capelo agora nas acrobacias de Fernão Capelo Gaivota. 
Marolas

Malefactus! Malefactus! O Brasil agora é a 6ª economia do mundo. Marola para inglês do B ver. “Aquilo que não é feito com perfeição” atende pelo nome de SUS. Alô Gaia: agora somos 7 bilhões. O domingo de catapultas promete. Vou almoçar uma “roubada” na Tia Dilma. Vou de Varig.

30.10.2011

Memória Alfenim
Uma coisa puxa outra e mais outra. Assim é a memória Alfenim (doce muito popular no nordeste brasileiro feito de calda de açúcar concentrado). Hoje na FOLHA (Mercado, A-15) tomei ciência do anúncio feito pelo Facebook da criação da criptomoeda de nome Libra. O G7 (grupo dos 7 países mais poderosos do mundo) anda perdendo o sono e não sabe como lidar com o assunto. A croptomoeda entregaria grande parte do controle da política monetária de bancos centrais para empresas e organizações sem fronteiras. A questão – resumidamente – passa pelo poder do gigante da web e suas infinitas possibilidades no uso da Libra, rodando “livre e solto” no corpo do seu poderoso banco de dados. No buscador Google (ou indicador?) cheguei ao livro “Os Protocolos dos Sábios de Sião” (leitura imbecil dos anos 80) e no Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu (ainda não lido, felizmente). De Alfenim a Alfenim – nas proposições do indicador - cheguei ao mapa deste post sobre a fundação da República Florentina (1115-1532) e a história dos golpes e contragolpes da Família Médici. Mark Zuckerberg pensa “guardar” sua criptomoeda em Genebra, na Suíça. Eu não faria isso. Fica a dica: que tal Firenze? 
Menotti Del Picchia
Conheci Menotti Del Picchia (poeta, jornalista, tabelião, advogado, político, romancista, pintor e ensaísta) no ano no final dos anos 70. Em 1982, quando abri a Livraria Scorteci Editora (Teodoro Sampaio, 1704 - loja 13, Galeria Pinheiros) tive a honra de receber a visita de Menotti e Lygia Fagundes Telles, quando chegaram na loja - de surpresa - de braços dados. Frequentei sua casa na Av. Brasil (São Paulo) varias vezes. Fiquei amigo também de Helena, sua enteada, filha de Charles Miller (homem que trouxe o futebol para o Brasil). Menotti, durante anos, colaborou com o meu avô José Scortecci na Revista PAN (1934-1945). O Príncipe dos Poetas (1982) era “fã” de Juscelino Kubitschek. Tinha uma foto do Presidente JK na parede da entrada de sua casa. Vez por outra conversávamos sobre a Semana de Arte Moderna (1922) e o personagem principal era sempre o “esfomeado” Oswald de Andrade. Segundo o Príncipe Menotti o vate antropófago era possuído por uma intensa, profunda e constante fome. Reuniam-se – costumeiramente – aos sábados, em sua casa. Chegando abria geladeira, armários, saco de pão velho, tudo. A baixa era grande. Helena, que sempre participava dos papos - balançava a cabeça concordando. Para fugir dos ataques, por sugestão de alguém, criaram um “sopão” com todas as sobras da semana. Menotti que era pintor e retratista (tenho dele algumas gravuras que ganhei de presente) chegou a pintar um quadro com Oswald de Andrade, de babador, antropofagando o “sopão”. O quadro (de fazer inveja a Tarsila do Amaral) ficava na parede da cozinha da casa, como prova do crime modernista. 
Menotti Del Picchia e a Revista PAN
Revista PAN – Semanário de Leitura Mundial
Ano II – número 4 – 16 de janeiro de 1936 – página 15

Menotti Del Picchia era colaborador assíduo de PAN. Assinava a coluna de nome O Imperativo da Hora - Modernizar-se ou Perecer. Nesta data escreveu sobre A Batalha pelo Livro – O maior inimigo do livro brasileiro é o próprio governo federal. A ele se deve a falta de difusão do único elemento de progresso e de cultura: o livro. Talvez o governo federal não seja um culpado consciente. Talvez não passe de um sono que dormiu e foi embrulhado pelos espertalhões negocistas que superabundam no país. A razão de justificarmos o governo reside no fato de não podermos compreender que o poder público de uma nação possa contribuir para embaraçar a expansão do livro. Seria julgá-lo criminoso demais ou inepto demais. O fato é que, merece da legislação federal criando o truste do papel brasileiro, milhões de crianças nossas são prejudicadas em benefício da ganância de um grupinho de negociantes sem entranhas. O papel nacional - o pior papel do mundo – é relativamente ao nosso padrão de vida – o mais caro do mundo. Tivesse o governo derrubado a barreira alfandegária que torna impossível a importação de papel estrangeiro e então o problema da cultura nacional estaria automaticamente resolvido... Menotti Del Picchia.
Método Fônico de Alfabetização
Fui alfabetizado pelo método fônico de alfabetização. Lembro-me da minha cartilha de ABC e da admiração que tinha pela letra Z, que mostrava uma zebra. Nele aprende-se primeiro o som de cada letra e depois a mistura deles até alcançar a pronuncia completa da palavra. Hoje estava lendo sobre outros métodos de alfabetização conhecidos como “construtivistas”. Os métodos construtivistas partem das frases que se examinam e se comparam para, no processo de dedução, o alfabetizando encontrar palavras idênticas, sílabas parecidas e discriminar os signos gráficos do sistema alfabético. Sorte que eu “nasci analfabeto” e adorava brincar com aquele joguinho de encontrar o par certo. Foi assim que descobri que “zebra” não é “jumento” e “macaco” não é “leão”. Ops! Lembrei. Hora de terminar e entregar minha declaração de imposto de renda.
Meu Pedal dói
Meu pedal dói. Faz parte. Aproveito o desafio para navegar outras trilhas. Algumas estão novas e são desafiadoras. Outras não. São antigas e foram bastante pisadas por mim e por outros. Caminhar na mesma vontade não significa repetir ventos. O dia é outro. Adiante subo na bike e refaço o aro das outras distâncias. Quem me ama ensina sempre. E eu, desavisado de tudo, continuo no destino de mim mesmo. Quando falo com o coração a opção é escutar o eco das vontades. No momento estou encolhido de liberdades. Em algum lugar estou veloz e isso me basta de calmaria. Eu acredito sempre! 
Na velocidade de um velocípede

Em 1982 tornei-me editor para publicar livros. Era jovem e acreditava que com isso resolveria de vez todos os imbróglios do vasto e maravilhoso mundo “das letrinhas”. Enganei-me. Em 1986 abri uma gráfica, hoje digital. Imprimir passou a ser - por um bom tempo - o negócio. Enganei-me. Abri uma livraria e em seguida uma “logística” para vender e comercializar mais livros. Enganei-me. Em 2003, abri a Escola do Escritor. Queria trabalhar com a formação de autores e em especial profissionais do mercado de livros. Enganei-me. Criei os selos Fábrica de Livros (pequenas tiragens) e Pingo de Letra (infantil) e agora, para o início de 2014, o Espaço Scortecci, endereço para cursos, palestras, oficinas literárias e lançamento de livros. Com certeza mais um engano. O ano de 2014 ainda nem começou e eu já estou pensando no que vou “me enganar” para 2015.

08.12.2013

Niver do Casimiro José Marques de Abreu
Ontem, dia 4, fui comer “bolinho” na festa de aniversário de 181 anos do queridíssimo Casimiro José Marques de Abreu. Meu saudoso amigo morreu jovem e sua única ocupação foi ser “poeta”. Dele guardo no coração de “Primaveras” alguns versos mais lindos do mundo: “Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!” A festinha foi animadíssima. Poucos dos vivos deste mundo estavam lá. Maioria era de desencarnados. O tempo estava chuvoso e isso dificultou muito o contato e o acesso ao virtuoso mundo do Era uma vez... Antes do “bolinho” teve recital poético, leitura de textos e contação de “causos” engraçados de infância. Abreu contou de sua infância na Fazenda da Prata, onde viveu até os 12 anos de idade. Contou um pouco de sua amizade com Machado de Assis e também sobre sua doença (tuberculose) que o levou a morte no ano da graça de 1860, aos 21 anos de idade. Ficou a promessa (é assim entre amigos) de nos encontrarmos - sempre - ano que vem, na véspera do dia de reis. 
O "mau" gosto da Globo

A casa caiu: será? Até quando a Globo vai “bancar” o mau gosto do BBB. Pior que o “evento” são as chamadas onde telespectadores fofoqueiros opinam sobre quem deve ficar ou sair do prostíbulo global. Quem vai para o paredão? Isso eu não sei. Há quem diga que a audiência do plim plim anda em queda livre. Na asa delta dos reality show o poeta Bial declama o seu último dos seus poemas: o corvo!

22.01.2012

O Cara está de Brincadeira
Marshall Goldsmith (guru de liderança e autor de vários livros relacionados ao gerenciamento do conhecimento) e “profeta” do futuro (é assim que se apresenta) gosta de impressionar – ou assustar? - com o prego: “O que te trouxe aqui não te levará até lá”. O cara está de brincadeira. É o mesmo que jogar fora a mula, a cacunda, a canga, o berço, a bengala, o chapéu e a tipoia. Diria tratar-se de uma estúpida verdade ou de uma ignorante mentira. Prefiro outro prego: “Uma boa aventura começa com tesão, coragem e experiência! “Navigare necesse, vivere non est necesse” (General Pompeu) e mais tarde Fernando Pessoa com o “quero para mim o espírito dessa frase”. Eu também. Eu e os meus heterônimos. 
O dia certo é só amanhã!

A vida não existe sem chocolate! É a manchete da matéria sobre "ovos de páscoa". Diz que diminui o estresse, acalma os nervos, funciona como antiinflamatório, melhora o humor, aumenta o nosso tempo de vida, previne derrames, turbina os músculos e um monte de outras coisas. Não duvido da "bondade" e nem das "propriedades" do chocolate. Pergunta: o que faço com o ovo gigante de chocolate que me olha do alto da estante da sala? Odeio véspera de tudo. Não serve nem pra morrer!

06.04.2012

O Discurso da Ascensão de Mussolini
Revista PAN – Semanário de Leitura Mundial
Ano II – número 6 – 30 de janeiro de 1936 – página 18

Mussolini no dia 26 de maio de 1927 pronunciou um dos seus discursos mais famosos depois de ficar sabendo que a população da Itália estava diminuindo. Ficou conhecido como “Discurso da Ascensão”. Dizia ele: a nação aproxima-se a passos rápidos de um terrível precipício: o decréscimo da população. De 1881 a 1885 tivemos a nossa maior média de nascimentos. Média de 38 crianças para cada 1000 habitantes. Hoje baixamos a 27. Se a nossa população decresce não poderemos fundar um império, e seremos sim, rebaixados a condições de colônia. É tempo de proclamar isso e destruir convicções erradas que nos poderão levar a um terrível despertar. Ao concluir seu discurso Mussolini dava a seguinte ordem às mulheres italianas: a fim de alcançar um lugar importante no mundo, à Itália deve começar a segunda metade do presente século com uma população de sessenta milhões de habitantes. Durante a guerra publicou no Giornale D’ Itália (Roma) os dez mandamentos das noivas italianas: 1) Seja fiel na separação. 2) Permaneça meiga e serena para venceres o desespero da separação. 3) Continue a tarefa que seu noivo interrompeu ao partir. 4) Dê espontaneamente seus braços e cérebro para preencher os claros no campo da indústria. 5) Pratique estritamente a auto disciplina econômica. 6) Leve uma vida austera e simples. 7) Preste assistência voluntária aos doentes, aos fracos e fatigados. 8) Seja orgulhosa da sua maternidade, a despeito da separação. 9) Coserve a fé na nossa vitória. 10) Ponha de parte todas as duvidas. O ideal para o fascista é agora a mulher volumosa. Assim, instituiu-se a propaganda e usou-se de pressão moral... Visto que são estéreis (em relação as mulheres magras) e que a esterilidade é uma traição a pátria e muito natural que essa traição seja castigada com a morte.
O educador educa
“O educador educa” e a ele cabe ensinar o aluno a questionar, ter raciocino lógico, senso critico, educação e respeito e mais: ensinar a importância do contraditório e das diferenças que compõem direitos e deveres de um indivíduo. Tenho acompanhado de perto (ossos do ofício) toda essa confusão que tomou conta do Ministério da Educação. É notória a falta de experiência pública do ministro e o quanto interferências externas estão prejudicando sua gestão. Deve cair em breve, se é que já não caiu, faltando “apenas” a escolha de um novo nome para a pasta que agrade “deus e o mundo”. Hoje lendo entrevista do Mozart Neves Ramos, FOLHA, ele tocou em dois pontos cruciais e importantes: autonomia e continuidade (reconhecimento às boas políticas). O Brasil não é muito bom nisso e sempre que muda um governo costuma praticar o “apaga tudo que nada presta”. Perde-se tempo e energia para mais tarde - meses depois - ver o mesmo projeto “renascer” mudando apenas de nome ou sigla (redução de um intitulativo complexo). Essa história de trocar a aliança de mão ou colocá-la de vez na gaveta me faz lembrar o “golpe das tampinhas” aquela brincadeira-crime de movimentar as peças e esconder a bolinha da vez.
O Gamão de Dom. Hélder Câmara
Dom. Hélder Câmara (Hélder Pessoa Câmara) era amigo da “Família Paula” (avós paternos João Batista de Paula e Sarah do Carmo Paula) em Fortaleza, Ceará, onde nasceu em 1909. Ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza em 1923, o Seminário da Prainha, que ficava a cinco quarteirões de casa, na Av. D. Manoel I. Bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Uma vida dedicada aos pobres. Ganhou o título de “o mensageiro da esperança”. Dom. Helder é padrinho do meu Pai Luiz Gonzaga do Carmo Paula e adorava jogar gamão (jogo de tabuleiro) com meus avós. Foi minha avó Sarah que me contou essa história quando eu era ainda uma criança: Dom. Hélder roubava no jogo de gamão que perdia sempre. Era ruim nos dados e vez por outra derrubava o gamão no chão e gritava: merda, merda! Nunca esqueci disso. Não o conheci pessoalmente. Uma pena. Faleceu em 1999. Sua canonização, como patrono dos direitos humanos, avança no Vaticano. Um homem de bem.
O livro nos chama

O livro nos chama - alguns até pelo nome - sussurram “feitiço” e nos carregam pra longe. Não nos devolvem iguais. Ler nos transforma em viajantes do tempo. Algumas letrinhas dizem muito e outras dizem tudo. As que não dizem nada - é o momento - são infinitos que ainda não brotaram e aguardam seus dias de sol. Lá adiante terão sentido. Serão razões em nossas vidas. Não há silêncio no grito do papel deflorado no ato da leitura: abra-me em abracadabras, doe-me em dobraduras! Encantamento. Amuleto muito além do jardim. 

21.07.2013

O Ovo ou a Galinha
Se o nada absoluto tivesse existido não haveria nada além dele. Se o nada absoluto nunca existiu, ainda existiria. Se o nada absoluto nunca existiu, isso significa que sempre houve um tempo em que pelo menos alguma coisa sempre existiu. Qual seria essa “coisa” que teria sempre existido? Seria mais do que só alguma coisa ou apenas uma? Com que se pareceria essa tal coisa? Alguma coisa no começo de tudo sempre será soberana em relação à outra coisa que ela produzir. A alguma coisa existe por si só. A outra coisa, porém, precisa de alguma coisa para existir. É, portanto, inferior a alguma coisa, e sempre será assim, porque a alguma coisa eterna não precisa de nada. A alguma coisa é capaz de produzir outra coisa que seja semelhante a ela em alguns aspectos, mas – não importa o quê – outra coisa será sempre diferente dela em outros aspectos. A alguma coisa eterna sempre será soberana considerando o tempo e o poder. Desta forma, alguma coisa eterna não pode produzir um exemplar igual a ela mesma. Ela sozinha, sempre existiu. E sozinha pode existir independente de outras coisas. 
O papel branco da mentira

Diante de uma folha de jornal em branco a Folha de S. Paulo escreve a sua manchete de hoje: 1º de Abril, Dia da Mentira! No rodapé o slogan: "Folha. Nada além da verdade." A lembrança da imensidão no branco do poema de Quintana ocupou-se de mim. Desavisado de tudo escrevi uma frase da cabeça do mestre de Alegrete: A poesia não se entrega a quem a define! O branco não mente jamais!

01.04.2012

O Poeta Morreu
Fiquei sabendo que o “poeta” desconhecido morreu. Era jovem e triste. Não tinha ainda completado o gozo de quarenta primaveras. Adorava cheiros. Todos! Fui seu primeiro leitor crítico. Ele era o moço do verso: “até tudo é nada”. Seu corpo magro foi cremado e suas cinzas – provavelmente - depositadas na vala do pote único. Estou agora procurando em algum lugar do disco rígido os seus últimos versos. Eu os guardei! Onde? Busco outonos ou invernos? Será que nos perdemos - infinitamente - um do outro? Até tudo é nada.

O Vento, Temporais
O vento, temporais, destinos: tudo se expande. Travessias, por navegar! Movimento veloz, pontual, mágico. Nossas renitências são sopros, colhem almas, entregam segredos, amam destinos. É o espetáculo da vida, do universo, do verbo pela palavra de postar no coração o poema-sem-fim.
O Voo das Palavras
O voo das palavras. Algumas saem da boca - flechas incertas – e não atingem o alvo. Gritos surdos! Erro de direção? Possibilidades. Outro aviãozinho - palavras ilhadas - e outro silêncio adiante. O absoluto do reino. Cansa lancear desafios. Cansa esticar linha de cerol. Cansa esperar respostas. A pipa voa do vento que é. Sustenta-se no ar feito algodão no céu. Das tentativas. Quantas infâncias? Apenas as necessárias: além da conta. Espera mundo! Palavras são assim: quase perdidas ou nenhuma esperança. Quem sabe - ainda - uma sorte. Uma faísca de moeda de caras ou um baú no fim do arco-íris. Anjos caídos. Assim são as palavras inúteis. Não há sentido na direção das asas. O que volta não é o eco do grito e sim bumerangues selvagens. Melhor mudar de boca, usar a língua alheia do corvo, o cuspe do sangue ou a dobra mágica de outro verbo irregular. Das dobraduras além do bilhete. Mesmo que vazio voa! 
Olivetti Lettera 32
No último dia 12 de março de 2019 a web completou 30 anos. Timothy John Berners-Lee (físico britânico, cientista da computação e professor do MIT, hoje com 63 anos) abriu mão da patente de sua invenção. Foi também o criador do primeiro site com apenas alguns parágrafos sobre o seu projeto: “Dar acesso universal a um grande universo de documentos”. Ainda está lá igual no seu formato original: http://info.cern.ch. Isso me fez lembrar o dia que compramos o nosso primeiro computador para a Scortecci. Ele durou exatos cinco dias. Eu “brutalmente” o joguei pela janela de um sobrado que tínhamos na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Junto com a máquina e um manual em inglês, veio os serviços de uma moça nerd. Eficiente, em pouco tempo formatou e salvou em um disque bolacha o modelo de contrato da editora para publicação de livros. O grande desafio seria usá-lo no dia seguinte, para então fecharmos o nosso primeiro contrato da nova era. O autor “escolhido” para o grande dia (José de Carvalho, português, já falecido) acabou se atrasando. A reunião estava marcada para as 16h30 e o vate deu o ar da graça somente às 17h45. Naquela época não existia fax, whatsapp e nem celular. E vivíamos bem! O telefone fixo da editora era um LP, linha particular puxada de um vizinho. Foi o José de Carvalho entrar na editora que a moça desligou o computador. Eu gritei: Não! Calma. Temos um contrato para assinar, lembra? Ela sorriu e me disse: está na minha hora. Tenho que ir. E o contrato? Você não pode fazer isso agora comigo me abandonando assim... Posso e vou, respondeu. E disse mais: vocês empresários agora precisam de nós pra tudo. Os tempos são outros! Pegou a bolsa e saiu. Eu gritei e disse: você está enganada. Você está muito enganada! Vou lhe mostrar que não preciso de você. Abri a janela do sobrado e joguei do alto no meio da rua o computador e a impressora. Você é louco! Você é louco! Saiu escada abaixo gritando: Você é louco! Olhei pela janela e vi lá embaixo o estrago e o povo todo olhando pra cima. José de Carvalho, que havia presenciado tudo em profundo silêncio me olhou, sorriu e disse: Pois, pois. Vamos lá meu jovem? Saquei do armário minha Olivetti Lettera 32 (antes lhe pedi perdão!) e fechei o contrato de edição do livro. Eu não era até então um louco. Hoje tenho certeza que sim.

Pacote do Veneno
Acordo cedo. Quem me conhece sabe. Hoje na CBN tive ciência da “problemática” do uso de agrotóxicos no Brasil e no Mundo através da reportagem de nome “Pacote do Veneno” que tramita no congresso brasileiro. A flexibilização das regras de uso dos agrotóxicos deve impactar campo e cidade e agravar um cenário já alarmante de intoxicação da população. No período de 2007 a 2014 cerca de 25 mil brasileiros foram intoxicados por exposição aos agrotóxicos no país. “Se o PL 6299 for aprovado vamos abrir a brecha para o caos” palavras da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP). Larissa (não a conheço) foi brilhante e ao mesmo tempo assustadora. É autora (foi o que entendi) de um mapa geográfico do uso de agrotóxicos no Brasil e na União Europeia. O que eu disse em mensagem para a CBN: “os problemas do país são tantos que não sabemos qual luta primeiro travar”. No livro Guerrilhas (tipo de guerra não convencional na maior parte das vezes rural no qual o principal estratagema é a ocultação e extrema mobilidade dos combatentes) existe um capitulo interessante que diz: Qual a melhor hora: Agora ou nunca mais? Nunca esqueci disso. Estratagema significa: plano prático para atingir determinado objetivo. 
Papuda é melhor que cachaça ruim

“Papuda” em algum lugar do popular significa pessoa do sexo feminino que conta muito “papo” furado, vantagens, conversa pra boi dormir. No pai dos burros, significa cachaça artesanal, de má qualidade, geralmente feita com água e álcool. No GPS da casa da mãe joana, aponta para o Complexo Penitenciário da Papuda, na região de São Sebastião, no Distrito Federal, às margens da estrada que liga a capital federal, Brasília, ao município mineiro de Unaí. Isso prova o quanto a nossa língua é oportuna e cativa. Dizem que lá na "Papuda" as visitas são brevidades e não duram mais do que o efeito de uma cachaça ruim. Gente papuda! Tudo de conversa fiada pra boi dormir.

24.11.201

Pratos exóticos, impróprios, explosivos!

Antônio Houaiss morreu em 99. Um “crânio” brilhante. Gostava de contar “causos gastronômicos” e quando o fazia usava toda a maestria de um filólogo gourmet. Nos anos 80 - Eu, Houaiss e Enio Squeff - combinamos de comer uma “pasta” no Restaurante Gigetto. O Mestre Houaiss adorava pratos exóticos, impróprios, explosivos, quase mortais. Perguntei: - Qual de todos os pratos lhe foi mais difícil comer? Houaiss nos surpreendeu respondendo de pronto: - cérebro de macaquinho vivo! Depois, sem pressa, fatiou-nos com sabedoria e inteligência sua cerebral aventura. Confesso: Houaiss falando me abriu o apetite. Tarde da noite, o restaurante esvaziou-se e, teve que fechar. Já era hora de partir. Lá fora acontecia apenas uma prévia alvorada. Mestre Houaiss nunca mais se repetiu na minha vida. Foi quase uma despedida.

10.03.2013

Quando um amigo de infância nos esquece

Vez por outra - basta uma faísca de olho, cheiro, gosto e prazer - lembramo-nos de alguém. Onde será que anda fulano: vivo ou morto? Hoje brincar de busca até que é fácil e bem divertido. Outro dia encontrei um “galego do mau” garoto estúpido da minha cruel e doce infância no Ceará. Gostava dele. Fiz contato e ele me passou o número do seu celular. Liguei no ato da emoção. Que azedo foi saber que ali nada mais existia de nós. Em segundos percebi que nunca deveria ter voltado no nosso tempo. O limão agora era um corvo inerte, sem asas. Lembrei, lembrei e muito falei até resfolegar o silêncio. Nada o fez voar. Nem do chão saiu. Ele havia se esquecido de tudo: até dos melhores pecados da nossa infância pervertida! Desliguei-me de todas as lembranças. Perdi o rastilho de pólvora. O pirralho era até então o melhor dos meus exemplos de traquinagens, safadices e afins. Em algum lugar do passado ele deixou de ser um “gauche na vida”.

25.08.2013

Química das Empatias
Química das empatias. Da situação. Do nosso agora por todos juntos: iguais na dor. Da capacidade de saber o que sentiria - ela e por ela - caso estivesse na mesma situação de suas vivências. Ela das dores, das feridas, das chagas e do vazio do abandono. Qual vento nos ensina isso? Das empatias. Do altruísmo e da misericórdia. Das decisões pelo trem, pelos trilhos, pelo último vagão. No embarque do pulo o chão de sua chegada. De sua parada no ponto. Da mortalha que cobre o pano e o sangue da tragédia. Da empatia das químicas do mel. Do mel que voa suas abelhas pela dor compartilhada. Pude ainda ver a locomotiva subir na linha e virar a curva do longe e sumir. Do corpo que parou adiante. Despetalado. Inerte. Abatido. Resposta intelectual? Certeza que não. Talvez cansaço de razão, de indiferença, de vida que segue veloz.
Relendo papel antigo

Relendo anotações de rabisco encontrei versos de rodapé. Na época beiravam páginas e final de capítulo. Um livro assim não se vai. Não se despede nunca da vida. Na verdade fica de amor e suas lembranças pontuando histórias. Algumas letras foram borradas de dor e outras molhadas de água e sal. Alguns “aloegos” são do tempo passado de antigamente e outros oportunos: presentes inteiros dentro do hoje. Minhas parábolas são curvas de rodapé, beiradas de papel, palavras escritas em um pequeno corpo poético.

14.08.2013

Resiliência
A palavra da moda agora é resiliência. Palavras entram e saem de moda. A lista é grande: relativo, evidentemente, óbvio, com certeza... Gosto deste movimento elástico na fala, na escrita e na comunicação. Em física resiliência é a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Encontrei mais adiante o significado de “resiliência” em psicologia: é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. Ser ou não ser além da física? Optei pela química das combinações, das misturas, das ebulições, do éter, dos cheiros, da poesia, das fragilidades e fraquezas da vida.
Rolhas são rolhas
Rolhas são rolhas. Boiam em águas de sonhos e mar. Rolhas colecionadas, guardadas, lembradas de momentos especiais. Rolhas boias, rolhas navios, rolhas navegantes...Depois desta foto terei por elas – no corpo – o ato do inesquecível. Elas serão doravante embebidas no copo dos meus encontros.
Esquecê-las? Jamais. Agora tudo ficou diferente ou não? 

Ruga
“Ruga” é caminho. Direito de ir e vir. Bom pra gente, pra cachorro e até pra brincar de poste e ficar olhando o mundo dos outros. Rua é sorvete de limão, corrida de rua, beijo na boca, esbarrões, olhares, desejo, sorte de tudo que é vida, que passa indo e vindo. Rua é passarinho: voa destino, voa passos, voa lembranças. Nela tudo acontece: dia e noite. Rua é janela aberta, jardineira de margaridas, luz que se apaga, porta que bate com o vento, criança que chora, sacolas pra lá e pra cá, travessia. Hoje foi assim, diferente de tudo: esbarrei com um encontrão. Então, acordei. Não havia percebido que estava “rugando” rua acima, rua abaixo, perdidamente dentro de mim. 
São Paulo Sitiada ?
Não sou engenheiro e nem arquiteto urbanista. Quem me conhece sabe que fujo de obras, consertos e reformas. Conheci Niemeyer por acaso e desde criança tinha apenas uma certeza quanto a minha profissão: não seria um engenheiro! A cidade de São Paulo é conhecida pelo seu grande número de viadutos, pontes e túneis. Em 2012 (data da última vistoria) foram identificados 571 deles com problemas. Até hoje nada ou quase nada foi feito. A situação é de risco e colapso. Olhando o mapa da cidade, hoje com 22 milhões de habitantes, temos a FEPASA com suas quatro grandes ramificações, os rios Tietê e Pinheiros e as represas Billings, Guarapiranga e Riacho Grande. Para entrar, sair e circular na Cidade depende-se de viadutos, pontes e túneis. Dois deles (Ponte de acesso à Dutra e o “sem nome” da Marginal do Rio Pinheiros) foram interditados. Até para acessar o Rodoanel Mário Covas e dar um rolê pela metrópole, depende-se dos viadutos, pontes e túneis. São Paulo sitiada? É o que parece.
São Silvestre

Hoje fiz a minha inscrição na Corrida Internacional de São Silvestre, que chega a sua 90ª edição. Estou realizando um sonho antigo, de 40 anos. Cheguei em São Paulo em fevereiro de 1972 e minha paixão pela prova de rua foi “avassaladora”. No coração valente as palavras do jornalista Cásper Líbero, idealizador da prova: “Felizes são os homens que conseguem ver o mundo de uma forma diferente”. Façamos assim!

12.11.2014

Silogismo
Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Portanto, Sócrates é mortal. Foi assim que me apaixonei por Lógica Menor. Ganhei um livro sobre raciocínios por indução no final dos anos 90. Não me recordo do nome do autor (isso é grave) e nem sei onde foi parar o meu exemplar (mais grave ainda). Lógica Menor é a arte que dirige o próprio ato da razão. Sobre a proposição: as duas primeiras se dá o nome de premissas, à última, conclusão. Ao conjunto das três, dá-se o nome de silogismo. Neste silogismo notamos três elementos: homem, mortal e Sócrates. Se eliminarmos 'homem' das duas premissas, ficamos apenas com dois elementos: 'Sócrates' e 'mortal', elementos estes que aparecem na conclusão. Na construção da conclusão há, assim, um processo de eliminação: Sócrates é mortal. Um silogismo (vale conhecer as suas oito regras básicas) tem duas qualidades: forma e conteúdo. Pela sua forma, ele pode ser correto ou incorreto; pelo seu conteúdo, a conclusão pode ser verdadeira ou falsa. Tô aqui me matando para montar um silogismo sobre “fake news” quanto a forma (correto ou incorreto) e o conteúdo (verdadeira ou falsa). Isso seria um ato de cultura criativa?
Sobre a morte do poeta Manoel de Barros

Wenceslau - aquele do livro sobre nada - morreu. Não o conhecia pessoalmente. Mais um descuido literário, de tantos. Resta-me oportunamente: relê-lo. Os bons poetas são espertos: gostam de nos provocar até com suas palavras de morte! Isso explica parte do meu amor pelos livros. Morrem e não vão embora: ficam ali disponíveis na estante, nos chamando, nos escolhendo, nos marcando com os olhos, nos azarando com suas asas de anjo. Quando Drummond morreu reli sua obra de pronto. Fiz o mesmo com Vinícius e João Cabral. Agora morto, Wenceslau virou mais um passarinho no céu das letrinhas de luz. Na terra do seu deus adotou o nome de manoel-de-barro. Um forneiro de versos sobre tudo que é belo nesta vida.

15.11.2014

Stevie Wonder no Brasil

Stevie Wonder é do céu. Um deus incomum. Catou a sua gaita e foi tocar em frente a uma confeitaria, Asa Sul de Brasília, com um saxofonista de rua de nome João Filho. Foi emocionante! Por alguns segundos fiquei morrendo de inveja do anjo. Tocaram “Garota de Ipanema”. Provavelmente a pedido do Mestre Jobim, guiados pelo deus cometa: responsável pelo universo solidário de um momento único.

15.12.2013

Tempos Trágicos!
Tempos trágicos! Acordei pensando na vida e nas dualidades da insustentável leveza do ser (Milan Kundera, 1984). Das dualidades fui para os versos de Parmênides. Interessante o caminho imaginário que o levou até a morada da deusa da justiça e ao coração da verdade. E o que a razão nos diz? Volto e releio sobre metafísica dedutiva. Abro o jornal e leio sobre cultura criativa e futebol. Tempos difíceis! Volto para Parmênides e realinho os pensamentos: ou algo existe ou algo não existe. Se é possível pensar em algo, esse algo pode existir. Nada não pode existir. Doxa! Doxa! Das dualidades chego até caminho da opinião: sobre a qual não podemos ter nenhuma certeza. A dualidade continua. Ou seria algo mais simples como dúvida ou até mesmo uma ressaca? Nego-me ir até Platão, Aristóteles e outros. Encontro algo que me conforta: a filosofia de Parmênides se apresenta como um contraste entre a verdade e a aparência. Ficamos assim e assim está bom.
Tipologia
Nos anos 80 um respeitadíssimo professor de português de nome Ézio Grassi Peluso me corrigiu o uso da palavra “tipologia” para o estudo sistematizado dos caracteres tipográficos no que se refere ao desenho das fontes e família de tipos. Disse ele: tipologia tem inúmeros conceitos, mais não se aplica ao mundo tipográfico. Tipologia é o estudo dos caracteres morfológicos do homem. Consultei o dicionário (ele tinha razão) e guardei a lição na cabeça. Hoje, quase 40 anos depois, repeti a pesquisa e foi surpresa encontrar inúmeras referências de tipologia como o estudo dos caracteres tipográficos. Língua viva! Foi o que descobri ontem assistindo ao filme “O Gênio e o Louco” sobre o brilhante trabalho de James Murray (interpretado por Mel Gibson) na compilação de palavras para a primeira edição do dicionário de Inglês de Oxford, em meados do século 19. Sean Penn (ator e diretor) faz o papel do maravilhoso e inesquecível Louco, morfologicamente falando.
Topo do monte Olimpo
Não conheço - ainda - o topo do monte Olimpo. Quem sabe! Morte é morte. Segue cartinha do escriba panteão para o jornalista “desavisado” que ontem postou no Facebook nota sobre o deus Apolo, aquele moço da mitologia greco-romana. Segue malvadas (índole perversa) linhas: Apolo NÃO é raiz de apologia (defesa, justificação). Anote, por favor, gama de sinônimos: abonação, panegírico, elogio, enaltecimento, encômio, engrandecimento, exaltação, gabação, glorificação, louvação, louvamento, reverência, valorização. Pobre Apolo. Agora sei dos seus pecados! De peste em peste a doença nos mata! Apologizar que significa “falar em defesa de alguém” virou febre na mídia. Nada contra. Até gosto desgostando. Moço jornalista estava de “tocaia” esperando o seu “obrigado”. Erramos sempre (Crasso, 59 a. C.) Acontece. Hoje, no exato da hora, nos desencontramos da condição de amigos. O post foi apagado (prudente) e eu, bloqueado justamente. O texto eletrônico tem disso: apaga-se! Prefiro a credibilidade do impresso. É assim que o “besteirol” nos habita. A queridíssima escritora Lygia Fagundes Telles nos ensina sobre a arte de escrever: “Rasgar, rasgar, rasgar. Eu rasguei muito”. Agora apologizando o post: Deletar, deletar. Eu deletei muito.
Toque Fatal
Toque. Contato rápido. Efeito de tocar. Deus insuflando vida com o indicador na direção do que é mágico. Linguagem de gestos, incidente de peles, arrepios na capela. Sopro. Primeiro foi o queixo na mão. Depois o olhar através da janela de ferro. Aproximação de labirintos? Presença de curvas e dedos. Dos úmidos silenciosos. Toques e retoques e outros mundos. Seria um retrato de águas? Novo toque – agora – no espalho do verso. Encontro de olhares e palavras silenciosas. Adiante – muito além – o avesso do imaginário. Um franzir de testa, um sorrir de brevidades e abraço profundo de chão. A terra gira e o sol olha. Expressão de capelas. Toque fatal.
Travessia
Eu me vou em travessias! Memórias. Nelas sou viajante do tempo astral e das verdades do corpo de almas. Meu espírito carrega sopro de estrelas de luz,
linhagens de vidas. Em algum lugar do amanhã: os destinos! O único. O momento passado do agora que não tarda no ano que se finda. É sempre assim que tudo acontece. Meus finitos! Meus segredos de noite de ano novo.
Um achado de Clarice

Um achado! Hoje comprei de um colecionador do interior de São Paulo a coleção completa e encadernada, desde o número 1, da Revista PAN (Semanário de Cultura Mundial, no formato 24 x 32 cm, que circulou no Brasil de 1935 até 1940, totalizando 241 edições) do editor José Scortecci, meu avô materno. Foi na edição de 25 de maio de 1940 que Clarice Lispector publicou o conto “Triunfo”, considerado por especialistas o seu texto de estreia na literatura brasileira. Mistérios fazem da Revista PAN um achado do jornalismo brasileiro.

28.06.2013

Vez por outra um gauche na vida
Vez por outra - basta uma faísca de olho, cheiro, gosto e prazer - lembramo-nos de alguém. Onde será que anda fulano: vivo ou morto? Hoje brincar de busca até que é fácil e bem divertido. Outro dia encontrei um “galego do mau” garoto estúpido da minha cruel e doce infância no Ceará. Gostava dele. Fiz contato e ele me passou o número do seu celular. Liguei no ato da emoção. Que azedo foi saber que ali nada mais existia de nós. Em segundos percebi que nunca deveria ter voltado no nosso tempo. O limão agora era um corvo inerte, sem asas. Lembrei, lembrei e muito falei até resfolegar o silêncio. Nada o fez voar. Nem do chão saiu. Ele havia se esquecido de tudo: até dos melhores pecados da nossa infância pervertida! Desliguei-me de todas as lembranças. Perdi o rastilho de pólvora. O pirralho era até então o melhor dos meus exemplos de traquinagens, safadezas e afins. Em algum lugar do passado ele deixou de ser um “gauche na vida”.
Vi e não vi
Vi e não vi a ponta dos dedos. Sei que do nada lá estava tudo. Pés! O que esperava e também o que não aguardava. Não foi surpresa acreditar no mar. Nem podia ser isso ou algo assim das ondas. Talvez sal ou estrela de pontas. De repente tudo existe! Mesmo que não tivesse visto qualquer coisa ou até mesmo vazio eu compreenderia acreditar. Era existência. O tudo esperado do algo. O imenso segredo do breve. Veloz e absoluto. Imperceptível tempo e o seu riscado no chão do ar. Vento angular. Círculo fátuo de velas. Não foi um lugar, um porto indefinido ou um espírito de Iemanjá. Foi um nada possível. Nada justo. Foi assim fagulha. Foi assim fogaréu de luas. Um resfolegar de gozo? E depois: deltas. Águas de banho, de cheiro e espelho de flores: quem nos olha somos nós!  Quem nos vê enxerga o sonho. E o que vejo: pés na areia do mar. Seriam trilhas? Ou o incerto do navegar é preciso. Eu e os meus heterônimos.
Volta do Exílio de Milton Nascimento
Minha ligação com a FAU/USP, no início dos anos 70, deve-se ao irmão José Henrique (cinco anos mais velho do que eu) então aluno de arquitetura. Foi na revista POETAÇÃO, editada por alunos da casa, que fiz minha estreia literária com a publicação da poesia Mulher de Rua, em 1973. Foi lá que conheci o escritor Milton Hatoum, um dos editores da revista de arte literária e resistência. Hatoum era membro atuante do DCE e foi perseguido pelo DOPS e algumas vezes convidado a xilindrar, para averiguação. É dessa época “Milagre dos Peixes” e a volta do exílio - depois de 13 anos - do cantor e compositor carioca, o mais mineiro de todos, Milton Nascimento. Nascimento em 1964 foi preso pelo regime militar e classificado como subversivo. Na prisão teve um inicio de derrame. É o que dizem. Foi levado ao hospital e depois solto. Cumpriu seis meses de prisão domiciliar. Sem condições de trabalhar no Brasil exilou-se em Paris. Passou pelo Canadá, Estados Unidos e por fim Venezuela. Voltou em 1973, certo que agora a “travessia” seria diferente. Engano. Suas canções censuradas eram apenas entoadas, apenas a melodia, sem letra. Sem poder trabalhar passou a fazer shows promovidos por DCEs de faculdades. Em 1973, no Campus da FAU/USP, aconteceu o histórico e lendário show a céu aberto promovido pelo DCE. O público ocupou literalmente o “morro” área que fica de frente à faculdade. Eram milhares de estudantes. Eu estava lá. Eu, meu irmão José Henrique Scortecci de Paula, Ruth Cassab Brolio, Roberto Brolio (irmão de Ruth) e Eliana Scortecci Petrilli (minha prima por parte de mãe). Depois do mega evento Milton Nascimento tornou-se “um procurado” pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo Cel. Erasmo Dias, figura de dar arrepios até em pinguins. Em a vida é bela, anos depois da invasão da PUC/SP e do grito do Coronel Dias: “É proibido falar. Só quem fala aqui sou eu”, o recebo doce e simpático na Scortecci Editora para então publicar sua obra de nome “Segurança dos Cidadãos”.  Assim é a memória da vida, agora mais do que bela. 
Yara Regina Franco / A Casa é o Reflexo
Poemas Diversos era o título “provisório” do novo livro de poesias da escritora Yara Regina Franco. Inicialmente pensei tratar-se de uma seleção de versos, sem ligação ou qualquer elo entre eles. Um engano. Li e reli em busca do fio condutor - sempre existe um - aquele que ocupava o coração do poeta no exato da hora, na difícil escolha de selecionar trabalhos para um novo livro. Tarefa árdua, principalmente quando não se trata do primeiro livro de um escritor. Yara é uma escritora experiente, com vários livros publicados e muitos ainda no prelo, para sorte de seus leitores e admiradores.Voltando ao propósito de - tentar - encontrar o elo poético de Poemas Diversos observei algo até então nunca visto nas outras obras da escritora: reflexão! Yara ao selecionar trabalhos para esse novo livro acolheu-se, olhou-se para dentro, mergulhou no seu Eu, posicionou-se à reflexão. O momento de Yara é de reflexão e acolhimento! Foi em A Casa é o Reflexo, poema que abre o livro, que encontrei o fio condutor, quase o mote - a chave – o caminho à compreensão do momento mágico da poética de Yara. Um portal poético? É possível. Depois, na sequência, encontramos: Alma, Casa da Vovó, Elos, Lágrimas, Paz...Foi nesta hora, depois de ler o poema PAZ, que serenei de vez e, mergulhei confiante porta adentro. A Casa é o Reflexo é um convite à reflexão ao mundo de Yara. Bom saber que ela está em paz!